quinta-feira, 11 de novembro de 2021

Uma crónica de José do Carmo Francisco

 



Dissertação breve para o valor do número sete


Como de quase todas as coisas na Vida do número sete pode dizer-se e escrever-se tudo ou quase tudo, desde o Sagrado ao Profano: sete são os dons do Espírito Santo, sete os pecados capitais, sete as obras de Misericórdia (sete espirituais e sete corporais) mas ao mesmo tempo também os nomes dos jogos de cartas (sete-e-meio, sete-em-porta e sete-e-oito) sem esquecer o sete-estrelo do firmamento e a couve de sete semanas das hortas ou as sete saias das mulheres praia da Nazaré. Há várias plantas com nome feito a partir da palavra sete: sete-marias, sete-em-rama, sete-espigo, sete-coiros ou sete-cascos. No Algarve sete-espigas é o nome de uma casta de uva branca.

Na vida de todos e de cada um de nós o número sete marca várias etapas (infância, adolescência, maioridade, idade adulta, maturidade e por aí fora) sempre de sete em sete anos. O Povo na sua especial sabedoria chama setentão a quem tem setenta anos de idade mas não conheço o nome dado a quem celebra os seus quarenta e nove anos – que significa sete vezes sete e o mesmo será dizer sete vezes menina.

Do curioso baralho da Editora Apenas Livros com data de 2020 e design de Susana Resende («Cartas na mão Diabo no coração») escolhemos estas quatro cartas com «setes» para ilustrar o texto seguindo uma das mais antigas regras do jornalismo: encontrar sempre uma boa ilustração para o texto que se procura de facto aprimorar. E a melhor maneira de o qualificar é escolher uma ilustração talvez melhor que o texto – claro que tudo isso é discutível e, em último caso, cabe ao leitor dizer de sua justiça.      


Vangelis, 1492 - Conquest of Paradise

 



quinta-feira, 4 de novembro de 2021

PÓRTICO

 

Morreu o pintor e ceramista surrealista Carlos Martins


   Na quinta-feira da semana passada, dia 28 de Outubro, pelas cinco e um quarto da tarde, faleceu Carlos Martins - pintor, ceramista, colagista, galerista e membro do Movimento Surrealista Internacional.



   Participante activo daquela entidade, amigo de muitos anos e colaborador em diversas realizações artísticas vivenciais, foi membro do Bureau Surrealista Alentejano e, a seguir, do Bureau Surrealista de Lisboa, tendo levado a efeito, com Mário Cesariny, a Exposição Internacional de Surrealismo e Arte Fantástica – com o apoio do Movimento PHASES (França) e de diversos autores das secções internacionais daquele Movimento. A mostra esteve patente, de início, nas instalações do Teatro Ibérico, sendo depois transposta para a Sociedade Nacional de Belas Artes.



   Comigo e com Hugo Guerreiro, tendo a colaboração de sua mulher, a também ceramista e pintora Ana Santos, organizou a Mostra Internacional de Estremoz, dedicada a Mário Cesariny logo após o falecimento do Poeta.



   Participou em sessões culturais e exposições de pintura e Arte Postal (mail art), com colagens e poemas-colagens em Portalegre, Cascais, Lisboa, Sacavém, Paris, Chile, México, Bélgica, Canadá, etc , estando representado em colecções particulares de pintura e cerâmica na Alemanha, Estados Unidos, França, Portugal, etc.

   Mantinha com Ana Santos a galeria & loja de artesanato criativo Via Áurea, sediada em Setúbal.



  Escreveu em conjunto comigo o livro “Os labirintos do Real – sobre a Literatura Policial”. Em Bissau, aquando da comissão militar por imposição ali cumprida, experimentou trabalhos em cerâmica e tapeçaria com artistas nativos.



  Democrata e personalidade interventiva, fez parte de diversas tomadas de posição e comunicados do surrealismo internacional, em vista do seu relacionamento com membros do universo surreal.



Ana Santos


Para um minuto de meditação - 139

 

Mulher de João Rendeiro detida


PJ faz buscas a antigo motorista do banqueiro e ao seu pai, presidente da ANTRAL. Em causa estão suspeitas de terem comprado imóveis com dinheiro de João Rendeiro. Mulher de banqueiro foi detida.

Maria de Jesus Rendeiro, mulher do banqueiro João Rendeiro, foi detida esta quarta-feira. A notícia foi avançada por RTP, SIC e TVI e entretanto confirmada pelo DCIAP e pela Polícia Judiciária (PJ) em comunicado.

As autoridades confirmam que emitiram “mandados de detenção” e citam como motivo o facto de considerarem “existir um forte perigo de fuga”. Segundo a TVI, Maria de Jesus Rendeiro vai ser presente a juiz esta quinta-feira, para lhe ser aplicada uma medida de coação e deverá passar esta noite na prisão de Tires. A mesma televisão diz que o Ministério Público vai pedir que lhe seja apreendido o passaporte — ao contrário do que aconteceu com o seu marido, que se encontra atualmente fugido à Justiça.

(Dos jornais)


   A mulher do Salgado e o seu marido demente, livres, o Dias Loureiro, idem, fora os que roubaram na CGD, negócios ruinosos, em quem ninguém tocou. Se lhes tocarem, a tômbola sorteia rosas, e tudo amaina. Precisávamos de um Garcia Marquez para escrever estes romances. 

Maria Cordes


Maria Estela Guedes, Graffiti em bifes de peru

 

                                                                            Para a Maria Azenha

Ela sonhou que eu escrevia poemas
Em bifes de peru…
Porquê, Federico?
Ora, porque leu aqueles em que uso cálamo,
Giz, bic esfera fina
                            Rotring, lápis, tablet
Saltando, de resto, sobre a saudosa Tippa
- era a marca da minha máquina de escrever –
E saltando também sobre computadores
                     De modelos do Jurássico
Até chegar ao Amstrad e outros que tais…
Hoje tenho um laptop muito bom
                      Pequeno
Leve e veloz como um galgo
                               Sofisticado
                                     É nele que escrevo agora.

Deixei o bife a marinar na expectativa
De agulhas que não sejam agressivas
Apontem só para a tatuagem…
                 Não escreviam os antigos
Em curtido
E porventura fedorento pergaminho?
Gosto dos materiais de escrita
Gosto de manuscrever
                             Saudades que sinto
De grafitar postais ilustrados
                          E papel vegetal com marcador
                                 Dourado e tinta-da-china!        

Foi isso, Federico,
                  O que a levou aos bifes de peru
Isso e alguma carnuda obesidade.
Tendes toda a razão.
Acho que já escrevi numa dúzia de suportes
E com ferramentas várias
                    Falta só escrever sobre um corpo
        Moreno, cheiroso a vinho novo
Todo com dedos de agulha grafitado.


Do livro Conversas com Federico García Lorca (inédito)


Lino Mendes, Crónica


          Ao sabor dos tempos

 

Não sou nenhuma versão masculina de Madre Teresa de Calcutá, mas choca-me profundamente a falta de humanismo com que este país é governado, onde os mais poderosos vão recebendo o que não lhes faz falta, ao contrário dos que nada têm para pôr na mesa. Não sou contra o rico ou mesmo o muito rico, desde que as suas fortunas tenham origem legal e estejam a contribuir para o desenvolvimento do país, embora defenda a existência de tectos salariais.

Se verificar, não há quem no âmbito do governo e do parlamento, não receba um vencimento que permita qualidade de vida. Por outro lado, quem trabalha/va no campo e ajudava a encher celeiros para todos pudessem comer, tinham dias de festa quando um bocado de pão branco servia de conduto ao pão de milho.

Ou porque o destino sempre marca a hora, ou a educação que me deram foi de excelência, há duas palavras que não constam do meu dicionário de vida; a “inveja” e a “vingança”, e quando entrei na primária já sabia que não iria estudar. Filho de pedreiro serás pedreiro, filho de sapateiro serás sapateiro, e no meu caso serás padeiro - e confesso que gostava da profissão. E com base naquele aforismo “quem ganha três e gasta quatro, não precisa de taleigo nem de saco” ia preparado para só pedir aquilo que era possível satisfazer.

E alguns mitos se começaram a desfazer, como o facto de ser pobre não me impedir de querer aprender e ser melhor aluno que os ricos. Quando, e infelizmente isso acontece, aprender é o que muitos académicos não fazem.

Não fui estudar e hoje dou graças a Deus por assim ter sido, pois de outro modo não teria a família que tive, e por muito mais dinheiro que ganhasse, Doutorado que fosse, não teria as alegrias que tive percorrendo o país e parte de alguns outros, representando culturalmente a nossa terra. Claro que fui muito maltratado por gente que não presta, mas desses tenhamos pena, embora não os possamos esquecer.

Mas vamos à grande desigualdade que se verifica no país, e nada tem a ver com a economia do mesmo. Ora se do “trabalhador do campo” ao “doutor “todos são imprescindíveis, qual a razão de tanta diferença no vencimento? E todos eles “são seres humanos “pelo que base de qualquer vencimento deveria ter isso em consideração. Porque não tenha dúvidas,” se o homem do campo não planta o da cidade não janta”.

Enfim, no nosso país anda tudo à deriva. Há uma saúde para ricos e outra para pobres, e o mesmo se passa com a educação. E o que dizer da justiça?

Mas vamos ao essencial, se é certo que os remendos de nada servem e é para ontem a “estruturação” de todos os sectores, o fundamental é “acabar com a pobreza”. Mas é uma tristeza o comportamento dos partidos que o poderiam fazer.

Claro que tudo tema ver com a falta de educação e cultura, e não há governo que mexa um dedo para que isso se altere. Mas podem crer que a luta que especialmente há meio século venho travando em prol do desenvolvimento cultural, é para que tenhamos eleitores que saibam dizer BASTA aos disparates que se fazem a nível governamental e ponham na linha os Salgados deste País.

Giuseppe Verdi, Aïda - Marcha Triunfal

 



quinta-feira, 28 de outubro de 2021

PÓRTICO

 


ns, O Palhaço



  O recreio acabou, o melhor é mesmo ir às eleições


  A geringonça foi uma mentira que durou 6 anos e que só serviu António Costa. O país regressou ao pântano mas em pior estado: nenhum problema se resolveu, só se atirou dinheiro para cima dos problemas.

 *

  Hospitais sem médicos que têm que encerrar valências, chefias que se demitem em bloco, o crime violento a aumentar, as dificuldades económicas dos cidadãos a crescerem, os combustíveis com 38 subidas no que levamos de ano, o nepotismo sistémico do regime, a tentativa de desautorização das Forças Armadas e demais forças militarizadas, tudo coroado com a gestão manhosa dum primeiro-ministro afinal pouco sábio e o confusionismo entertainer dum presidente da República cada vez mais às aranhas que agora mostra a sua verdadeira face.

  Eis o País de hoje, o lugar pouco recomendável em que querem emparedar-nos e nos procuram tornar habitual.

(Dos jornais)


Para um minuto de meditação - 138

 

Padre e professor filmado a ver pornografia

durante teste, em Braga

 

Caso no colégio católico D. Diogo de Sousa. Docente demite-se após mostrar fotos de mulheres nuas.

   Um padre da arquidiocese de Braga, professor de História no reputado colégio católico D. Diogo de Sousa, em Braga, foi filmado por alunos a ver imagens de duas mulheres nuas, enquanto vigiava o teste de Português de uma turma do 9º ano.

   Segundo alguns estudantes que gravaram a situação insólita, o docente com cerca de 60 anos terá alegadamente comentado uma das fotografias de cariz erótico, escrevendo: “Arrebento-te toda”.

(Dos jornais)

 

   O padre é com certeza um apreciador das obras de Miguel Ângelo, que pintava as personagens sem roupa…Se calhar pensava que estava na Capela Sixtina a ver as vistas maravilhosas do Vaticano.

António Marcelino

 

“Arrebento-te toda”? Mas isso não tem mal nenhum, é linguagem de sacristia. E se dissesse em latim ainda era mais bonito e mais tradicionalista. Catolicismo moderno ao gosto dos estudos de agora.

Manuel Cebola


Dois poemas de Floriano Martins

 




TRATADOS DA SOMBRA

 

3. O que discute sempre o poema é a ideia

da personalidade. Somos gloriosos na paródia

de nossos próprios atos. Será este o progresso

da consciência? Há uma grave teia de anomalias

que se fia na expressão dos dias. Whitman

dilacerado por sua humanidade, Bataille deslocado

por seu riso solto. Quais os antecedentes

conjurados da dor, as sombras pronunciadas

por suas visões? À luz particular de cada

cena as ideias são sempre distintas. O poema

não repercute senão o material de sua memória.

Desconfia do homem quando se recusa a criar.

Ressurgem as formas da dor de sua metafísica:

– "muda-me a cada toque o tolo que sou em ti".

 

 

4. O poeta cai de suas metáforas. Ensaiamos

o enigma comum de situação e lugar, porém

não suportamos o peso das coisas que em nós

se preparam. Sempre ignoramos o espetáculo

de nossas ruínas, distinto cenário onde atua

o homem como o verme da própria espécie.

Ainda que se renove o poeta com suas perdas,

resta um raminho ausente, uma corda, uma visão

da beleza, uma ilusão do ser, algo que torna

incessante a queda e o poema um código de falhas.

Na cena que se retrata, o mesmo súbito relâmpago:

– "O que fiz de ti?" – Livro decomposto

em repetições. Hamlet encharcado de ilusões.

Haverá sempre algo ali, impossível de se seguir.


Buena Vista Social Club

 



quinta-feira, 21 de outubro de 2021

Para um minuto de meditação - 137

 

Russo Alexei Navalny vence o Prémio Sakharov,

atribuído pelo Parlamento Europeu


Crítico de Vladimir Putin, que está detido, recebeu o prémio de defesa dos direitos humanos que é entregue pelo Parlamento Europeu.

   Alexei Navalny recebeu o prémio de defesa dos direitos humanos que é entregue anualmente pelo Parlamento Europeu. O crítico de Vladimir Putin, que foi envenenado e está neste momento detido, foi distinguido pela sua luta contra o Kremlin.

   David Sassoli, presidente do Parlamento Europeu, escreveu no Twitter que Navalny “lutou incansavelmente contra a corrupção do regime de Vladimir Putin”. Essa luta “custou-lhe a sua liberdade e esteve perto de lhe custar a sua vida”, notou Sassoli, acrescentando que “o prémio reconhece a sua imensa bravura e reiteramos o nosso pedido para que seja imediatamente libertado”.

 (Dos jornais)

 

   Parabéns a Alexei Navalny. Uma Bofetada de Luva Branca nas fuças do Ditador V. Putin.

João Eduardo da Costa Gata


   Não pode estranhar-se a repressão de Putin. Afinal, ele foi nos últimos tempos da defunta URSS o Comandante-Chefe da KGB, polícia política do regime ditatorial “comunista”.

Adérito Cortez


Dois poemas de José do Carmo Francisco

 




Poema periférico para Álvaro Pato

 

O poema passa quatro vezes por dia

À porta do lagar de azeite do teu avô

Entre o Bom Retiro e a Escola Técnica.

Tal como tu o poema não pode ouvir

As crianças a chorar na sala ao lado

Com as torturas das mães a confessar.

As cartilagens do ouvido estão quebradas

Golpes de tesoura repetidos e certeiros

Por um pide mau que sabia do seu ofício.

Eu não sou ninguém, fui delegado sindical

Vinte e quatro anos seguidos desde 1972

Por isso tenho hoje uma reforma pequena.

Mas dava um ano de reforma e vida a quem

Me dissesse onde os sapatos de Carlos Pato

Na arca guardados junto à cama da avó.

Nós continuamos a ser da mesma turma

Ninguém nos tira dessa fotografia anual 

A preto e branco como é afinal a nossa vida.

 


Poema periférico para António Bárcia

 

Já não se morre como no passado

Hoje todo o morto tem um funeral

Com urna e fato pago pela Santa Casa.

Muitas vezes vai apenas um funcionário

No acompanhamento trinta dias depois

Do corpo chegar à Morgue de Santa Maria.

Porque a lei mudou a vala comum acabou

Mas seu nome ficou nas fichas dos livros

E no coração de quem não o vai esquecer.

Morrer não é apenas deixar de ser visto

Nem as estradas têm curvas como antes

Morrer é sempre um mistério, outra coisa.

Talvez calhe e seja o Pedro a acompanhar

A sua urna se ninguém se chegar à frente

Para tratar de todas essas formalidades.

Tenho um livro onde as suas palavras

Aparecem num tão discreto anonimato

Mas a posteridade essa vai continuar.


Nicolau Saião, Cavalaria - uma carta a Soares Feitosa

 


ns



Caríssimo confrade

 

 Para já, o abraço firme que se endossa aos amigos, aos da cavalgada perene no tempo que nos foi dado viver.

 É isso, o tempo. Que como minha mãe costumava dizer, "é um cavalo". Que salta e revoluteia, que corre infrene como um ginete na Andaluzia, um corcel nos campos rasos do Nebraska, um garrano nos pastos de Alter do Chão deste meu Alentejo.

 Os cavalos... Quando vi eu pela primeira vez um cavalo? Não guardo de isso memória exacta, mas teria sido na vila de Monforte onde nasci, provavelmente uma montada da Guarda Republicana quando da visita de algum oficial ao posto que o meu pai comandava, ou então de algum lavrador das imediações com estábulo porventura dentro da vila. No entanto, pensando bem, creio que o primeiro cavalo que vi (ou seria égua, para o caso tanto faz...) estava atrelado a um charabã  - que só mais tarde soube ser o parisiense "char-à-bancs" das/dos elegantes dos Champs-Elisées de outrora. Conduzido por uma senhora, por um cavalheiro? Parece-me que o passeante seria, se a lembrança me não falha, um médico que usava esse meio de transporte quer para visitar seus pacientes quer para efectuar suas voltas e voltinhas nos momentos de lazer.

Já se percebe que nessa altura era eu bem pequeno.

Mais tarde, vi cavalos nos prados e campinas de muitos lugares: nos plainos de Espanha, nos vergéis da "Grand Prairie" francesa, nas ruas de Lisboa e de Portalegre quando era dia de festa nacional, transportando agentes militarizados, nas quintas do Ontário ao longo da estrada que vai de Toronto a Otawa, na "rota índia" americana. Tive mesmo ensejo de cavalgar algumas vezes em campos abertos - essa emoção absoluta de descendente de antigos cavaleiros aldeões - e, quando calha, na herdade de um amigo dado às cavalgadas e falcoarias (o visconde José António Valdez, que é o fidalgo de antiga nobreza lusitana mais plebeu e saudavelmente terra-a-terra que existe - faço a minha perninha como razoável "calção" como tradicionalmente se usa apelidar.

E que dizer dos cavalos vistos na arte: na pintura, na escultura, no cinema, nos livros de quadradinhos da minha infância e adolescência de leitor encartado? As cavalgadas, no papel, de índios e de cóbois, desde os apaches de Gerónimo aos oglalas de Sitting-Bull e de Nuvem Vermelha até ao, noutro registo, cavalgar em estilo "feio, forte e formal" do John Wayne? E o ar hierático de Gary Cooper ou do James Stewart ? (Que, aqui entre nós, sempre me pareceu ter um rosto um pouco cavalar...). 

 Todas estas coisas me foram suscitadas pelo texto (Cavalaria) do Poeta.

 Será necessário dizer que Feitosa, como bom ginete, ultrapassa as barreiras como um galhardo cavaleiro e nos faz cavalgar através do texto como um alazão de crinas ao vento?

Um abraço, meu Poeta - e que galope a preceito assim pela vida durante muito tempo e nos enleve soberanamente com o seu estro tão veloz como apropriado e fecundo.

Um abraço firme, à guisa de cavaleiro de antanho, do seu

ns


Ivan Rebroff, Kalinka

 



segunda-feira, 18 de outubro de 2021

UMA FRASE LAPIDAR

 

   “Agora que chegaram as primeiras dificuldades reais a este PS de opereta é que se vê a verdadeira face política do nepotista, manhoso, irritável e cínico que durante demasiado tempo tem ocupado o cadeirão do poder que lhe foi concedido pela maioria relativa dum povo subsídio-dependente, crédulo e anestesiado”.

Martinho de Albuquerque


PÓRTICO

 

Abusos na Igreja, uma crise com dois mil anos

 

   A religião (entenda-se, todas as religiões) é, em si mesma, a mera institucionalização do abuso. Não apenas do abuso sexual, não apenas do abuso de crianças, mas sim do abuso em termos latos, a todos aqueles que professam ou não a dita cuja.

 

   Abuso ao nível do amesquinhamento intelectual, abuso ao nível da menorização de categorias sociais (internas ou externas), abuso ao nível da humilhação do ser humano enquanto indivíduo ou enquanto ser social, abuso enquanto forma de dominação e de controlo social, garantindo a desigual distribuição da riqueza e do poder, fazendo dos seus adeptos vítimas da síndrome de Estocolmo.

 

   Nada como a religião para reduzir o ser humano a uma amostra microscópica do que este pode ser em termos intelectuais, morais, sociais e humanos. A religião é um abuso enquanto puro charlatanismo. A religião é sinónimo de abuso.

 

   As crianças, essas, foram "apenas" mais uma das vítimas dos abusos que a religião sempre promoveu, defendeu e praticou.

 

   Tudo, sob o beneplácito e enternecido olhar da mais repugnante criatura inventada pela imaginação humana!

 

Paulo Alexandre


Para um minuto de meditação - 136

 

Assassínio de deputado britânico considerado "incidente terrorista",

diz a polícia britânica


O deputado conservador David Amess morreu na sexta-feira na sequência de um ataque com uma faca em Leigh-on-Sea, durante um encontro com eleitores.

O assassínio de David Amess foi considerado "um incidente terrorista", com uma "potencial motivação ligada ao extremismo islâmico", informou a Polícia Metropolitana de Londres.

(Dos jornais)

 

  É o multiculturalismo a chegar às classes dirigentes...

Paulo F.

 

  Os ingleses já se vão habituando aos esfaqueamentos diários em Londres, aos gangs pedófilos paquistaneses que condenam e não conseguem deportar, às manifestações ameaçadoras dos islamitas à porta das escolas que ensinam os valores ocidentais/ liberdade de pensamento e de opinião. 

Gigi Tavares

 

  Mais uma benção da imigração sem regras e sem critérios rigorosos.

Paul C. Rosado

 

  Talvez agora os políticos, que se especializaram em enterrar a cabeça na areia dos desertos islâmicos, acordem e limpem sem complexos a Europa destes assassinos.

Ercílio Miguéns


Dois poemas de José Carlos Costa Marques

 




Roda

 

                    Pois pertence ao destino que todas as coisas corram

                    para a sua perda e regressem, cada vez mais apagadas.

                                                                            Geórgicas, Vergílio

 

Avança entre flores a roda do destino,

entre destroços. As flores que carrega e se esmagam

de encontro ao ferro, vivem ainda um átimo

e um perfume evanescente ainda nos ilumina.

Mas logo queimam, murcham, se degradam.

E de novo nascerão, após as chuvas abundantes

encerrando o longo círculo da secura,

o ciclo sem tréguas da terra extrema.

Com vigor redobrado se erguem, nada mais que ervas,

desdobrando seu esplendor gratuito, surgido ao sol

livres de qualquer utilidade. E nós, sob o jugo

sempre sujeitos, que o estômago e cuidados renovam

num giro sem fim, nós aspiramos o perfume novo

que o rodar da roda já espreita e esse instante sorvemos

já quase fenecido. Antes que se vão, por trás da montanha,

os fulgores últimos, ainda as vemos, correndo para a perda

como nós corremos, e regressando, um momento breve,

já desvanecido, e cada vez mais declinantes.

E assim entraremos, perdidos entre flores,

no momento expectante desde o berço, e a roda rodando

nos lançará, quando ela quiser, pela porta sempre aberta,

negror total talvez, cegos talvez do clarão

e deslumbrados.

 

1995

 

 

Escalada

 

O deus é isso que diante de teus olhos tens

- porém invisível.

Em abril a árvore com seus ramos pesando

de rosa branco carregados,

flores de múltiplas pétalas, massas algodoando,

recôndita formosura que espargem em caprichos de forma,

casuais e de recorte afinal sutilíssimo.

A árvore as oferece e tu sabes que ela

o não soube, impassível perante o esplendor que porta,

portadora ela também do que ignorante derrama,

como a mulher jovem sua desnuda beleza

de um ventre florindo.

Mas ao rosa arborescente não responde o teu sangue

ou sequer memória.

Por isso acima, e mais acima te eleva,

mais alto e mais puro,

o deus de braços rosa, de espessas pétalas finíssimas.

 

1995

 

in “Flor dum dia”


Nicolau Saião – Entrevista dada à revista mexicana BLANCO MOVIL



João Garção



 01 | ¿Ante de las noticias de prensa te sientes más cerca o lejos del mundo que allí te informan?

 

Resposta NS – Depende do jornal…e do jornalista. Umas deixam-me mais próximo, outras afastam-me, porque infiro que me estão a mostrar um mundo apenas virtual e enganoso, por razões que tenho por falaciosas ou mesmo retintamente falsas.

 

02 | ¿Alguna vez llegaste a una conclusión satisfactoria sobre el motivo que te lleva a escribir o este acaso es un tema que jamás te preocupó?

 

R – Claro que me preocupou, digamos, ou melhor: me intrigou. No meu caso pessoal concluí que escrevo para não morrer, como afirmei recentemente numa entrevista dada a um poeta brasileiro. Neste não morrer fica tudo incluído: a solidariedade com os seres e as coisas, o trabalho específico da demanda na escrita, o perfume de viver (título dum trabalho meu), a amargura de ter que deixar o mundo, tudo o que nos faz ser homens no universo.

 

03 | Reflexionando sobre la tradición literaria de tu país, ¿Cuáles libros crees que nunca deberían haber sido escritos y por qué motivo?

 

R – Sem personalizar - também porque um rol cabal seria extenso e atravancaria uma resposta salubre e sucinta: aqueles livros que alguns escrevem para estabelecer o domínio de opressões sociais, religiosas ou políticas. Ou seja, todos os livros desses “escritores” que fazem das suas obras nefandas armas de extermínio moral, que geralmente tenta preceder outros extermínios.

   E, também, aqueles livros medíocres que as capelinhas infames dum meio societário infame tentam epigrafar como valorosos, criando o ambiente lamentável da mentira e da burla intelectual.

 

04 | ¿El método de trabajo es fundamental y indispensable a la creación artística?

 

R – É, pelo menos, muito útil para que a criação artística chegue a bom porto. Picasso referia que uma obra de arte é um terço de inspiração e dois terços de transpiração e eu estou em crer que assistia muita razão a esta aparente “boutade” do grande pintor malaguenho.

 

05 | Cuando estás en algún lugar público en que tocan el himno de tu país, ¿cómo reaccionas y por cuál razón?

 

R – Sinto simultaneamente gosto e vergonha: gosto porque esse hino existe na sequência da instauração de uma sociedade que se buscou mais justa (republicana) e porque sintetiza ideais de liberdade e democracia. Vergonha porque esse hino é também usado por gente desacreditada, mesmo nefasta, que se serve dele para lançar poeira nos olhos dos cidadãos sobre os quais tripudia cinicamente.

 

06 | ¿Cuál acontecimiento en tu país, en los últimos 25 años, te provocó indignación?

 

R – Vou generalizar: a contínua e perversa mancebia, o repugnante conúbio, em que têm vivido certos sectores políticos arrivistas e o totalmente desacreditado, dum ponto de vista ético, sistema judicial em que se espojam governantes, causídicos, magistrados e forças obscuras de irmandades. É isso que constitui o cancro que está a destroçar o meu país.

  Sem generalização: as tentativas imperiosas surgidas ultimamente de instaurar de novo a censura e o controle do pensamento, por parte de magistrados altamente colocados e de áulicos políticos sempre dispostos a tudo e prontos para tudo.

 

07 | Arte, ciencia, religión – ¿Cuáles de esas tres corrientes, a lo largo de la historia de la humanidad, causó más daño al hombre?

 

R – A religião, sem qualquer dúvida. E que continua a causar. Pese às declarações piedosas dos chefes de todas as religiões, estas não são mais que instrumentos de domínio mental, espiritual, físico e social. O que individualmente ou sectorialmente possam ter feito de positivo certos indivíduos ou instituições não oblitera ou apaga os crimes e sufocações que fizeram e continuam a fazer as chamadas “religiões reveladas”. Elas partiram, na verdade e continuam a apoiar-se, na simulação e na impostura. Nos casos mais marcados, na violência nua e crua e no crime, conceptual ou expresso pela repressão.

 

08 | ¿Crees que la vida de una persona puede ser regida, de manera separada, por la lógica o por la suerte?

 

R – Creio que por ambas. Tem alguma lógica, por exemplo, que Evariste Galois, um dos maiores matemáticos de todos os tempos (o criador do “grupo de operações”), tenha morrido aos 22 anos na sequência de um duelo para defender a honra duma senhora que mal conhecia e tenha levado a noite que o precedeu a escrever as trinta e tal páginas que imortalizariam o seu nome?

   Talvez tenha, mas é uma lógica que me escapa…

 

09 | ¿El mito aun existe o no pasa de un efecto publicitario aplicado a la industria, a la moda, al consumo?

 

R – Acho que existe ainda. Mais: que certos artistas o têm purificado e até incrementado. No entanto, sem dúvida que os donos dessas áreas que referes, sempre ávidos e frequentemente oportunistas, o tentam poluir, deformar, capturar para servir os seus duvidosos interesses. Compete-nos a nós, criadores e homens de bem, à guisa de bravos guardiões da Távola ou do Segredo, preservá-lo e mesmo vivificá-lo.

 

10 | ¿Cuáles son los actos más importantes sucedidos en la cultura en general, y en la literatura en particular, en los últimos 25 años en tu país?

 

R – O aprofundamento da liberdade de expressão, por um lado. A possibilitação, nomeadamente mediante os meios interactivos, da difusão de obras de qualidade que os sectores egoístas ou cínicos, que dominam certos meios editoriais, doutra forma teriam impedido ainda mais fortemente de aparecerem à luz dos dias…e das montras.

 

CODA | ¿Cómo convives con los seres que están en tu vida?

 

R – Há, feliz e infelizmente, vários tipos de seres que quer queiramos quer não estão na nossa vida: os que amamos/estimamos e nos amam/estimam; os que detestamos ou nos detestam; os que vivem noutro plano (animais e vegetais) e, finalmente, os que sem estarem já connosco no entanto vivem na nossa memória. Com os primeiros convivo bem, sulcados ambos pelos ritmos do tempo. Com os segundos não convivo, ou convivo sob a égide do desprezo salutar que lhes voto. Com os terceiros relaciono-me através do apreço e do carinho de ser vivente. E com os quartos mediante a saudade e a nostalgia mais pura.

Aos confrades, amigos, adeptos e simpatizantes

     Devido a um problema informático de última hora, não nos será possível fazer a postagem desta semana.    Esperando resolvê-lo em breve,...