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segunda-feira, 14 de novembro de 2022

Nicolau Saião, O prazer de citar

 


Fernando Aguiar



  Tenho um gosto pronunciado pelos provérbios e as citações.

  Os provérbios porque, independentemente da sua justeza, por vezes são pérolas de fantasia verbal; as citações porque correspondem a momentos excepcionais no espírito dos autores das frases, quando a mente, em fase ascendente e profundidade fecunda, traça girândolas que jamais se apagam.

  Além disso, ambos são úteis. Os primeiros servem muito bem para nos acautelar o dia-a-dia, tornando-nos mais atentos às eventuais ciladas; os segundos, além de serem uma homenagem reconhecida a quem as pronunciou ou escreveu, dão sempre sinal sonoro que ilumina tudo em torno.

  Assim, por exemplo, quando um político astuto e cheio de ronha vem prometer mundos e fundos, tirando o pigarro uma pessoa pode responder-lhe parafraseando Churchill: " Pois... Como se eu não soubesse que a política é a arte de ajudar o público a não tratar dos assuntos que lhe interessam...". E, se um malacueco qualquer até nós vem com falinhas mansas para nos interessar num negócio chorudo e de mão-beijada, podemos raciocinar: "Tá bem, deixa...Como se eu não soubesse que não dá o frade do que bem lhe sabe!". Se alguém se queixa de que, num estabelecimento, comprou um produto bom e barato, desses que a preclara televisão nos mete pelos lúzios adentro e que a breve trecho pifou, pode pensar com equilíbrio: "Fui um saloio... Então não sabia eu que as pechinchas dão em requinchas?". E, ao saber que num determinado serviço público certos funcionários andaram a lesar o contribuinte mediante actos de pequena ou grande corrupção, abafados pelos superiores factuais, pode comentar com filosofia: "Os javardos, na lama, são donos como el-Rei no Paço...". E a alguém que se admire de que num areópago os representantes populares passem o tempo a bulhar por dez réis de mel coado, esquecendo os interesses da nação, pode responder-se com sensatez: "Deixe lá... Se se pusessem de acordo é que se calhar era mau. Pois não sabe o meu amigo que quando os barões se abraçam quem leva as pauladas é o servo?". Espanta-se uma pessoa porque os inquéritos sobre os casos das contas de… e das luvas de... demoram a deslindar-se? É referir-se-lhe, com bonomia: "Tenha lá tento! Então nunca ouviu dizer que a roupa suja deve ser lavada em família?". E ao fabiano que comente o ar patibular de certas figuras públicas, pode esclarecer-se sensatamente, a exemplo de Oscar Wilde: "Note, meu caro, que cada sujeito tem a cara que merece. Aliás, a partir dos trinta anos cada um é responsável pela cara que tem...". Vem um tipinho, muito moralista, metido na sua indumentária a dar conselhos à gente, pela televisão e pela rádio, alertando-nos para a nossa falta de contenção na fala e para o nosso amor ao mundo, ao dianho e à carne? É repontar-se-lhe de pronto: "Sim, sim...Bem prega frei Tomás". Ou, como escreveu um dia Benjamin Péret, "Quando eu tinha 20 anos, os espertalhaços avisavam-me: vais ver quando tiveres 40 anos! Tenho 40 anos - não vi nada...".

  Pela minha parte, digo que embora os ditames e as citações sejam inúteis para ultrapassar certas situações de facto (vejam, por exemplo, se é possível acabar com o abuso de poder de certos donos dos grandes dinheiros com um provérbio jogado à cabeça do argentário) o que não admira pois lá reza o ditado sobre o trinta-e-um de boca, e sabe-se que cantar é bonito mas não enche barriga, serei sempre apreciador de tão concisos conceitos.

  Bom, mas calo-me já para não correr o risco de algum leitor mais afoito me dizer fique-se com a sua sabença que eu fico-me com a minha mantença ou, pior ainda, vozes de jerico não chegam ao firmamento.

   E não me assistiria, está de ver, o direito de responder com uma parelha de coices, como fazem certas coléricas personagens que, por nosso azar, transitoriamente nos tratam do quotidiano...


terça-feira, 5 de julho de 2022

PÓRTICO

 


Fernando Aguiar




  Notícias da cultura


   Saíu recentemente, com prefácio de Elísio Gala e posfácio de Renato Epifânio, o volume “Pensamento e Movimento – Prolegómenos a uma ascese filosófica” da autoria de Pinharanda Gomes. “Numa época em que, de facto, Portugal está a ser filosoficamente colonizado, é premente partilhar obras como Pensamento e Movimento” alerta-nos Renato Epifânio ao suscitar-nos para a leitura deste livro aparecido no âmbito do MIL (Movimento Internacional Lusófono) e em que retomamos contacto com o filósofo recentemente falecido.


*

 

  Recebêmos, de Mário André, o seu livro em jeito de banda desenhada “Quaresma decifrador - O caso do quarto fechado”, baseado numa personagem de Fernando Pessoa e seguindo o texto que ele efectivou. Sugestivo, bem articulado, o livro mereceu a nossa melhor atenção – a que o seu A. faz jus. Em breve se seguirá outra obra, “Crime”, na mesma linha da agora saída sob a égide de Kustom Rats.

  Enfermeiro desportivo aposentado, Mário André dedica-se à banda desenhada desde 2015.


*


    Acaba de entrar em circulação, numa edição das Edições Sempre-em-Pé, o livro A GARÇA IMPASSÍVEL, com traduções de poesia de Francisco José Craveiro de Carvalho, tradutor de poesia e igualmente poeta e catedrático de matemática (aposentado). E ainda, colaborador da DiVersos - Poesia e Tradução, como poeta e como tradutor.

    O acervo constituinte debruça-se sobre 13 poetas de língua inglesa e quatro de língua castelhana.

 Quem desejar adquiri-lo, deverá enviar nome e morada do destinatário e comprovativo de transferência de €10,00 (PVP) por exemplar, para o IBAN PT50 003300004532083023905,contacto@sempreempe.pt      


 *

 

   Sairão ainda em Julho, sob a égide da ULMEIRO, o livro “Julião e outros textos” de José Ribeiro e o álbum “50 anos…50 fotografias” de Armando Cardoso.

     Na altura da sua vinda a lume voltaremos a equacioná-los, com indicações precisas de como os interessados poderão adquiri-los.

 

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terça-feira, 8 de março de 2022

Para um minuto de meditação - 153

 


Fernando Aguiar



LEMBRAM-SE?

 

    Durante o chamado Estado Novo, havia um "saco azul", uma verba destinada a pagar a "jornalistas" venais e "fazedores de opinião" fora de portas para dizerem bem do regime. Tal como havia uma outra, caseira, para contemplar as boas obras dos tristemente célebres "bufos", honoráveis cavalheiros e cavalheiras da mais diversa extracção que tinham como missão espiolhar o que o cidadão fazia e dizia. Tudo a bem da nação...

 

    A prática sempre foi, aliás, proverbial. Instituída pela primeira vez, com foros de operacionalidade oficial, durante os tempos de Bismarck, que foi o criador do chamado "Fundo dos répteis", foi depois adoptada pela generalidade dos Estados e dos regimes, o que se tornou muito marcado durante o tempo hitleriano. A leste, sob as ordens de Trotsky e Stalin, o caso não foi tão marcado em relação aos "bufos", porquanto foram estabelecidas as chamadas "milícias populares", que tinham secções de informação específicas, o que dispensava a delação particular, chamemos-lhe assim. Só mantiveram o sector que exercia, no estrangeiro, as denominadas "plantações", através das quais compravam a boa-vontade de discretos ou não tão discretos "propagandistas" publicistas, espiões e formações partidárias, robustamente abastecidas de dinheiro fresco para levarem a cabo ora a infiltração, ora a acção política apropriada para eficazmente servirem os intuitos de quem lhes pagava.

 

    Actualmente, tais  manejos ganharam novo e diversificado impulso, quer seja mediante actos "legais", como o renomado sistema de "vistos Gold", em que as cliques de argentários ligados e sustentados pelo regime autoritário a que pertencem, se instala e vai roendo por dentro a sociedade-alvo, aproveitando a labilidade de governos ou de instituições. Ou ilegais, como o "discreto" financiamento de espaços específicos - na Internet, por exemplo - em que o que é esperado dos seus mantenedores é que estejam sempre sintonizados com a nação financiadora.

 

    No caso vertente, o mais marcado país que assim procede é a China, baseando-se em que é um regime bem sucedido, próspero e pacífico, um comunismo de sucesso que será exemplo para toda a humanidade. E os seus estipendiados buscam fazer esquecer a realidade de que o país ao qual estão ao serviço possui partido único, veios sociais controlados ferreamente, imprensa absolutamente censurada, ausência de liberdade de expressão e regime prisional e jurídico governamentalizados.

 

   Nos últimos tempos, uma vez que vieram a lume comprometimentos por ambição ou laxismo de altas individualidades ocidentais, seja nos campos económico-financeiro, desportivo ou mesmo político e até governamental, foram accionadas mais eficazmente as agências próprias que têm a missão de proteger a sociedade democrática desses manejos.

 

    Também em Portugal, embora de forma incipiente, se vai começando a agir (é um imperativo evidente!) no sentido de que os inimigos da liberdade e do bem-comum não possam continuar nas suas jogadas traiçoeiras e criminosas de verdadeiros lobos com pele de cordeiro como diz o apólogo bem conhecido. 


quinta-feira, 11 de novembro de 2021

Nicolau Saião, Dois poemas de "Flauta de Pan"

 


Fernando Aguiar



SEM TÍTULO

 

Todos os livros do Mundo me pertencem

- disponho de boas mãos  e de olhos

rápidos a perseguir no escuro

as palavras ocultas -

porque é meu o subtil pé-ante-pé

de números e de nomes, cores diferentes

onde os livros sua morada encontram

e de onde nascem.

 

Nem cínico nem inocente - apenas deslizante

entre madeira, pedra, luzes, rastos

que de fora se chegam  (caspité!).

 

É necessário possuir o mais extremo cuidado

e um fato singular ou então de Inverno

- que o homem calvo à espreita sempre está

a fim de caçar ora um endereço

ora uma expressão, ora um botão

- que teima! - desapertado.

 

(De súbito, a imagem dum frasco vazio

em que um bálsamo contra o acne se verteu

- são lá coisas dos médicos -

fornece novas argutas estratégias

e de terras distantes faz falar

com seus costumes inviolados

Lugares, é bem de ver, dos quais o perigo

também fez sua casa

e onde os frutos aguardam nas gavetas

que alguém os retalhe e desfigure)

 

O homem calvo ou a moça das doenças

das confusões, das rendas e dos flirts

aliás de bom tom e boa fé.

 

Não é pequena, entanto, a maldição:

aos outros ainda é dado contar

dos ventos, dos desânimos, dos doutores, das fechaduras

A mim somente me é lícito

dar por história a sombra de uma busca

rapinanço mais que tudo legítimo

(sacra juventude, tão alerta afinal!)

e o aperto de mão que tudo salva

como um brasão de inteireza

de quem está entre comas.

 

É então que o Medo às vezes vai connosco

na nossa caminhada para  o lar

nestoutro continente simulado.

 

Todos os livros do Mundo me pertencem

- bons sustos me têm custado! -

que o sistema é só ter a relação

entre dedos e recordações de nebulosos

 pedaços de matérias negras

vindas lá do começo de tardes domingueiras

ou então de nada reconhecível

a não ser de alguns minutos ao fim da vida.

 

Todos meus são

como por um acaso

- que todavia transborda

da rapidez de gestos e palavras.

 

Quem não entender que os compre

- ou que analfabeto fique...

 

 

CESÁRIO REVISITADO

 

Um armário, quando se abre  faz sair

de qualquer prateleira    sonetos ou memórias.

E então é assim:  deverá dizer-se   infância?

Ou burguesa dengosa?  Ou repolhos franceses?

Ou manjericão, que alinda as estrofes várias?

A palavra é,  como se sabe,  inútil

se pelo meio perdemos anos ou dedos impacientes

pondo-se em tudo: sentimentos nutridos

de coisas que encontramos ou buscamos achar

em seios parisienses ou vamos lá lisboetas

connosco em férias numa esplanada de manhã

ou seja    em Carcavelos    fumando o velho cigarro

ligeiramente a Sul da loja onde guardava

a memória dum Pai, a côdea manducada

no verdadeiro  “Sentimento dum Ocidental”.  Sim

moçoilas, saudáveis e prestantes

como nos louváveis alexandrinos

de bastante coleguia p’ra depois

do desmaio amoroso    ou antes    manuscrito

na Quinta se calhar de Linda-a-Pastora

que é recanto onde laranjas bem se encontram

como versos roubados e que logo

após se recomendam aos fregueses

do poema próprio ou alheio.  Indiferente substância

desta e doutras

comerciais casas. O vate

 

procura em diversos estancos sua matéria

de viver ou morrer com chapéu na cabeça

e exegetas ao lado, perna fina

de escrita ou surrobeca nacionais. Peixe podre

afinal    e rimas inglesas bem ferradas

com algum leve foco de infecção

bem para dentro dos versos e das cores:  azul

ou verde   ou vice-versa    (como na anedota)

onde deviam estar violeta

ou branco nocturno. E é bom dizer-se

- para quem saiba destas coisas singulares -

que o Mestre    o querido Mestre     o tal do corpo

setentrional e sapiente  (um pouco

digamos    ao jeito do António Nobre, que por pirraça

habitava   caspité!    outro Parnaso)

nos seus melhores momentos dorme agora

entre braçados de camélias

ou erros tipográficos

- espinafres,  beldroegas,  pimentões

que é esse o melhor prato da Poesia. E isso tem

uma tal melancolia, podeis crer

que a mostrar-se em Lisboa     explodiria

e rimas que aparecessem lhes chamaria     um figo.


segunda-feira, 12 de julho de 2021

Um texto muito adequado

 

   Com vénia ao seu autor, por nos parecer lúcido e bem estruturado damos a lume este artigo colhido, com agradecimento, no "Jornal de Negócios".



Fernando Aguiar



OS PILANTRAS DORMEM NA PRISÃO

Portugal parece há muito emaranhado num teatro do absurdo, com protagonistas ridículos e elites medíocres e incultas que atolaram o país num pântano de falta de vergonha. Não podemos permitir que a impunidade se instale.

    Conta-se que o escritor Philip Roth pediu ao autor da sua biografia, Blake Bailey: “não quero que me reabilite. Apenas que me faça interessante”. Se uma série de acusados e suspeitos da Justiça portuguesa fizessem uma biografia, teriam de contratar mais do que um escriba (pois muitos mal falar e escrever sabem) um verdadeiro especialista em limpezas. As de imagem, naturalmente.

   Sabemos que apesar de muitos alegarem viver nos limiares da pobreza, sem rendimentos, sem empresas, praticamente na penúria, depois arranjam com certeza amigos muito caridosos, à maneira de Carlos Santos Silva, que financiam a contratação de advogados de topo para, por um lado, construírem infindáveis “matrioskas” jurídicas que os levavam a escapar-se ao pagamento à banca das centenas de milhões de euros de dívidas contraídas e, por outro, ardis e artimanhas para que os julgamentos sejam adiados sucessivamente até à prescrição e todos os maus continuarem a dormir em paz

   Mas parece que os agentes da Justiça querem finalmente acabar com a impunidade destes vultos que se continuavam a pavonear por aí sem respeitar os portugueses. Aliás, é muito sugestiva e quase inédita a detenção de André Luiz Gomes, advogado de José Berardo, um sinal de que se vai passar a olhar para quem está conivente e mancomunado com os prevaricadores na fuga aos impostos e obrigações com a comunidade.

   No meio disto, que é o verdadeiramente importante e urgente de combater pela sociedade pela perversão evidenciada, o episódio vivido pelo ministro Eduardo Cabrita durante duas semanas, para lá da tragédia de uma vida humana ter sido ceifada, parece risível. Porque o grave politicamente foi o membro do Governo nada ter dito durante duas semanas, não ter tido um gesto de humanidade com a família enlutada, o que fez crescer a indignação e pedir-se uma remodelação ministerial para a qual António Costa não estava inclinado.

   Ver que o BMW que transportava o ministro pertencia a um traficante de droga, que a sua sogra paga 500 euros por mês de prestação pela viatura e que o dito traficante quer o carro de volta e uma indemnização é apenas um sinal dos dias de caricatura que vivemos.

   Portugal parece há muito tempo emaranhado num teatro do absurdo, com protagonistas ridículos, situações grotescas inesperadas e umas elites medíocres e incultas que atolaram o país num pântano de falta de vergonha. Lembro-me sempre da peça do dramaturgo Eugène Ionesco, expoente máximo desse “teatro do absurdo”, O Rinoceronte.

   Em França, numa vila pacata e esquecida, surge um rinoceronte que tal como surgiu desaparece do nada. A seguir volta de novo e desaparece e os habitantes ficam a discutir se o paquiderme tinha um corno ou dois. Depois os rinocerontes multiplicam-se e é a população que é vítima de uma metamorfose e se transforma em rinocerontes.

   Ora, em Portugal, não podemos transformar-nos em rinocerontes, ir na onda dos prevaricadores, dos vigaristas. Não podemos permitir que a impunidade se instale e que se perca a vergonha. Berardo, Vieira, mas também tantos outros a quem falta um banho de cadeia e continuam a andar por aí, são a prova de que, passe a presunção de inocência, os pilantras só podem dormir na prisão.

Rui Calafate, Consultor de Comunicação 


segunda-feira, 7 de junho de 2021

Lino Mendes, Crónicas na vertical

 


Fernando Aguiar


Folclore e outros Patrimónios


   Por contingências da vida, só agora tive conhecimento de que o Governo anda a planificar um projecto de apoio ao “Património Cultural Imaterial”, tendo em conta, entre outras razões, que o mesmo “representa a identidade e diversidade de todo o território nacional”. Ora, não é verdade que o PCI - Convenção de 2003 da UNESCO, seja IDENTITÁRIO. E esta confusão que continua a verificar-se, não tem qualquer razão de ser, sendo-me penoso a afirmação da senhora Secretária de Estado da Cultura. Que não compreendo. É de facto tradição, mas não é tradicional.

   Aliás, é a Dr.ª Clara Bertrand Cabral responsável pela cultura na Comissão Nacional da UNESCO, que num artigo esclarecedor, nos diz que o PCI não assenta no autêntico, no tradicional e no identitário, mas sim no constantemente transformado e no criativo. E é a mesma senhora que mais recentemente me esclareceu, que para a UNESCO, enquanto o folclore é “tradição do passado,” o PCI é a “tradição do contemporâneo”.

   Quanto à estratégia em curso, não posso estar contra tudo o que seja destinado a garantir tradições, mesmo que não tradicionais, muito embora e segundo Paulo Lima, autor da candidatura do Cante, estas candidaturas servem acima de tudo para a criação de um destino turístico, ou para aumentar as vendas: como se vai ganhar dinheiro, associar produtos, etc., havendo sempre um intuito comercial ou capitalista, se quisermos.

   É de ter em atenção!

  Projecto diferente, mas que me parece de grande envergadura, está a nascer no Baixo Alentejo e ao que nos dizem visa a revitalização do Cante. Não tenho infelizmente mais informações sobre o projecto.         

   Agora, o meu desencanto, situa-se em dois pontos. Ainda hoje não se compreender, mesmo a nível superior, o que é identitário, e ter sido ignorado o que para mim era prioritário, isto é, o estudo correcto e respectiva sustentabilidade do nosso folclore, da nossa cultura tradicional, garantindo o seu futuro com a inclusão na Escola (formando públicos e sensibilizando crianças) a preparação de formadores, e o apoio a espaços, abertos ao futuro do passado.     

   Ainda quanto ao “não ser identitário” basta resultar de uma convenção - neste caso a de 2003 da própria UNESCO - ser convencionada, combinada.

 

   O “identitário” não nasce de decretos ou do parlamento, é o resultado de uma leitura correcta dos caminhos da cultura, até ao momento em que as vivências das gentes de antigamente sofram influência estranhas à sua maneira de ser e de estar.                                                                                                                             

   Cada dia que passa sem um aprofundamento dos saberes tradicionais locais, é um passo que se recua na manutenção da nossa identidade.

   E quem tem interesse que isso aconteça?                                                                                                                                                      

quinta-feira, 6 de maio de 2021

Nicolau Saião, Em louvor de Lewis Carroll



Fernando Aguiar


  Nascido na pitoresca vila de Daresbury em 1832, o autor de "Alice no País das Maravilhas" congeminou esta obra famosa em 1862 durante um passeio de barco através dos bosques cursados pelo Tamisa. 

  Cento e dez anos depois, "Alice do Outro lado do Espelho" era divulgado em Portugal pela editora "Estampa" na sua conceituada colecção de capa negra "Livro B".

   Em 1985, por sugestão de Mário Cesariny dei a lume, sob a égide do "Bureau Surrealista Alentejano", uma folha-volante com o texto que a seguir se apresenta, numa edição/distribuição de 50 exemplares ilustrados e assinados pelo signatário:

 

 

LEWIS CARROLL NUM POSITIVO FOTOGRÁFICO

 

 

    Pelas ruas de Daresbury, de Guilford e de Oxford e pelas sombras do campo inglês um homem passa. O rosto entre o pensativo e o taciturno a que se sobrepõe por momentos uma inconcreta expressão de fina alegria, de interrogação difusa, é familiar aos transeuntes.

    Em todo o homem há uma parte negra ou mal iluminada que, provavelmente, é a sua parte mais luminosa. Acham estranho, acham contraditório? Pode lá ser… Ruas escusas, parques gradeados com ruins frequências, casas isoladas onde soam gemidos, choros, risos inqualificáveis – e onde por vezes se percebem, vindas lá de que estranhos reinos, algumas luzes inquietantes que não têm razão de ser? Sim, tudo isso.

    O poeta concentra em si todas as beberagens e os maus odores. É muitas vezes um filho maldito do seu tempo, ama por excesso o que não deve, fotografa o passado e o futuro em animais e em crianças, tem um desejo de absoluto que, suspeita, nunca lhe será concedido. As matemáticas do mundo encarnam numa inocente inclinação que o fazem contrair o rosto numa expressão de ternura cordial, de fantasia entre o medo e a esperança. E os jogos malabares da imaginação permitem-lhe seguir viagem.

   O que frequentemente o preocupa é que há silêncios que gritam, a sua busca tropeçou noutros dramas, noutros pontos limite. Humpty-Dumpty desvela-se de súbito num muro de uma das ruas do universo. Porque as ruas modificam-se, como se modificam os rostos da Duquesa ou da Rainha. Também elas têm a sua geografia própria, o seu semblante nostálgico ou alegre. As ruas estão para além do lugar-comum, consoante os momentos, a disposição de quem por elas transita, consoante até as mudanças cifradas no passar dos anos. E no fim de algumas, ao entrar no bosque, abrem-se túneis de esquisito recorte na ramaria por onde passam as imagens virtuais de coelhos, de chapeleiros e de quartos e salas que ora crescem ora diminuem como se alguém as concebesse num sono peculiar.


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  E assim o poeta, nas suas horas, recria o mundo quotidiano e confere-lhe outra dimensão. Admirável e necessária operação: levado por uma onda palpitante que tanto pode vir do mar dos sonhos como da realidade mais elementar, dá-nos a transfiguração dos dias e das noites com tudo o que nelas vive: bichos que são gente, os ritmos secretos das horas e das Estações, lugares que amou ou o impressionaram, a face tangível de pessoas, coisas e memórias transfiguradas onde habita para sempre o seu ser profundo, o da criança primordial.

    E se o mundo dos minutos penosos, insustentáveis ou cruéis tenta cercear o melhor da sua demanda, há que abrir a porta – ainda que pequena – com a chave inventada pelo Desejo e para além da qual residem as maravilhas, esse território semeado de sinais reveladores onde, finalmente, se acham, mediante a capacidade de sentir e de criar, o conhecimento conquistado e a possível sabedoria.

 

                                                                                      Nicolau Saião

                                                                                                 Junho de 85


quinta-feira, 15 de abril de 2021

É assim que se faz a Estória

 


Fernando Aguiar



“Hors d’oeuvre” número 1:

 

    Quando a dupla Pierre & Schuster deu por encerrada as atividades surrealistas não fez senão confirmar os t(r)emores de Breton, de que o Surrealismo viesse a ser interpretado unicamente como uma escola datada. Os dois deram cabo da crença de Breton de que o Surrealismo estava mais além.

   No entanto, embora parte daqueles que condenaram a dupla, o fizeram de modo a negar a mesma ideia de Breton, ao recusarem o desdobramento evolutivo irrefreável do movimento. Ou seja, aceitavam (aceitam ainda) que o Surrealismo permanecia vivo, desde que não passasse de um reflexo de Breton.

   São duas fórmulas grotescas de engessamento. Como sabes, o pior inimigo do Surrealismo foram alguns surrealistas...

                                                                                          Floriano Martins

“Hors d’oeuvre número 2:

CARTA A ANTÓNIO CÃNDIDO FRANCO

Caríssimo António

 

    Tal como o Amigo & Confrade, ando há anos nesta coisa da escrita e da actuação pública por extenso com um sentido de adesão à seriedade e à claridade, pois esta coisa de darmos presença na vida que nos coube viver é algo que tenho por fundacional. Por outras palavras, é isso que nos credita e certifica como seres humanos e não meros tipinhos que visam sim a notoriedade, o lucro, qualquer lucro, e o poder (de preferência discricionário) sobre os outros (que para alguns a escrita é ou tenta ser).

 

   Tenho-o pago por vezes duramente, mas como não tive o azar de ser um fraquitolas, isso não me magoou a não ser de raspão. Continuo pois a achar que vale a pena - além de se ter a espinha direita - considerar, sem fanatismos ou neuroses, que é fundamental existir-se sem truques. (E, como não sou totalmente parvo, tenho a suficiente dose de malícia para agir de forma a não ficar, ante a Estória que me couber, com figura negativa...).

 

   Nem seria necessário dizer isto assim pronunciadamente, pois o António, inteligente como é, precisaria apenas de uma ou duas palavras explicativas.

 

    Daí que se pode e se calhar deve, conclui-se que estas linhas nem são verdadeiramente para si, mas para eventuais futuros leitores que numa tarde futura achem esta folha de papel no alto de um poeirento armário herdado de um tio amantíssimo e que quinou uns dias antes...

 

    Ora bem: como o António sabe, (e das duas uma: ou a actividade de se escrever é coisa séria ou não é), disse o nosso amigo saudoso, o Mário, que "Falta por aqui uma grande razão", e repeti-o eu ontem, no mail de envio aos confrades e eventuais leitores do "Casa do Atalaião". 

 

    Ou seja: no que diz parte a algo que tem constituído território em que acredito (sem fazer esforço, as coisas viraram-se assim), ou seja, a acção surrealista, a vivência surrealista, que ao contrário do que certos "testemunhas falsas" tentam fazer crer (porque, como burlões que são - e como não têm, por falta de engenho, lugar noutras mesas - julgam a cousa estar a jeito) não é parque para estabelecerem as suas quitandas. 

 

    Dentro em breve, pelo nosso amigo e confrade brasuca, vai ser elaborado um amplo volume abrangendo o Japão, américas, a velha Europa...Irá caber uma extensa troca de ideias, na qual procurarei colocar o certo ponto de como é e porque é ora uma realidade, ora um equívoco, ora uma velhacaria, o olhar e a actuação de certos sujeitos sobre o Surrealismo nesta pátria que continua a ser madrasta.

 

   E isto porque acredito que a acção de se escrever não é uma brincadeira de galifões ou uma fórmula de certa gente se coroar de malmequeres (e não digo rosas porque rosas era de mais para esses celenterados).

 

    Sei bem, digo a finalizar, o esforço que noto tem feito para que a realidade da Poesia e da Escrita não seja apenas um jogo de salão ou uma arlequinada de actores medíocres. E por isso o saúdo com o "velho" abraço e, verdade seja, lhe mando esta carta.

     Fica com estima o seu, n. 

 

“Hors d’oeuvre número 3”

 

    Por ser de mediana ética ou de mínima razão, faço questão de deixar aqui referido que os “surrealistas” que se têm enroupado com as vestes propugnadas por lenines e trotskys são tão de repudiar como os asseclas de Stalin e do ergástulo soviético e derivados.   

    Ainda que disfarçados com um pretenso olhar mais aberto, são gentinha da mesma espécie cínica, “idiota útil” ou confusionista e finalmente criminal, de facto do lado dos novos totalitarismos fingidamente progressistas. Breton sentiu-o na pele e acabou por pagar cara interiormente a sua adesão (ingénua? romântica?) a desideratos do “carniceiro de Kronstadt, mais tarde posta de lado.  ns

 

                                                                 *

 

ENTREVISTA a Nicolau Saião, por Rui Sousa

 

01-   Em seu entender, o que constitui um autor maldito?

 

Nicolau Saião – O desnível existente - da sociedade ou de parte dela para o autor ou deste para aquela - entre os respectivos planos da vida quotidiana ou qualitativa.   

  Concretizando: dum lado a incapacidade de quem rege a sociedade para estar - por incúria ou por disfunção (egoísmo interesseiro, primarismo, prepotência…) - à altura da aventura interior do sujeito, encarado como mero objecto; do outro a impossibilidade deste se conciliar com essa sociedade, tornada relapsa ou criminal quando não despejadamente criminosa. Mas sempre vazada numa cegueira filha do desleixo ético e da menoridade conceptual.

  Em suma, a impossibilidade de os dois coincidirem num plano harmonioso e criativo e, nesta medida, gerador de mais elevadas mútuas formulações vitais.

  

02 - De que forma a marginalidade e a transgressão são traços necessários para uma definição moderna do sujeito artístico?

 

NS – Numa sociedade capturada pela pequena ou grande infâmia a que os seus próceres de topo recorrem para perpetuar o domínio sobre o homem comum ou, melhor dizendo, sobre os cidadãos que muitas vezes se tornam peças infelizes dessa protérvia habilmente mantida ou descaradamente efectuada, o sujeito artístico – se for minimamente consciente ou normalmente honrado – inevitavelmente terá de estar nesse campo que aqueles aliás tentam minar.

   Diria que é uma inevitabilidade. Doutra forma correrá o risco de fazer parte da chamada “légion canaille” que é a que serve (através de ersatz “artísticos”, idos ou não a Versalhes…) os que visam fazer do mundo uma quintarola para os seus caprichos ou festejos galantes.

 

03 - Concorda com a ideia de que o Surrealismo é um prolongamento da tradição romântica?

 

NS – De forma alguma.

    Vejamos: a inflexão surrealista existiu sempre, dos primórdios da vida até aos nossos dias conforme a História nos mostra. Desde o tempo das cavernas até aos dias de hoje (e continuará pelo futuro adiante).

    O que o romantismo fez foi levar até um dado ponto, dando-lhe foros de cidadania, esse sentir pulsante duma parte do inconsciente pessoal ou colectivo que até então estava ausente do imaginário artístico e mesmo existencial quotidiano. Mas ainda se prendia a uma obrigatoriedade de estilo ou de pensamento, posto que pelas melhores razões (mau grado os tropeços nefelibatas). Afastava-se, devido a condições próprias e no intuito de quebrar o pseudo-classicismo e o academismo, do realismo, nomeadamente daquele que legitimamente podia aprofundar uma visão mais adequada do mundo e da sociedade.

  O surrealismo, pelo contrário, exerce-se na totalidade da vida e da concepção real ou metafórica do espírito, efectivando pois uma incursão destemida nesses continentes.  

  Nessa medida, ultrapassa as fórmulas que certa gente ignorante ou maldosa lhe tenta colar, normalmente visando esvaziá-lo do poder transfigurador que lhe é próprio.

   E se o surrealismo reconhece nesse irmão mais velho ou primo próximo o gesto de ter habitado os castelos da imaginação, viaja por seu turno mais além nos mundos muito palpáveis que vão das florestas do conhecimento aos caminhos entre os universos estelares que o romantismo compreensivelmente desconhecia.  

 

 04 - Como definiria as características fundamentais de uma poética de vanguarda?

 

NS – Em primeiro lugar, ela reconhece-se pela capacidade de negar o habitual, o convencional exarado e mantido pelos que vêem na arte uma espécie de luxo para terratenientes mentais e não uma incursão no mistério e no sagrado não fideísta que a Vida é.

   Depois, pela ultrapassagem das fórmulas confortáveis – por pretensamente modernas que elas se considerem.

  Tem sempre uma atitude crítica, mas não pedante nem cínica. Age de boa-fé nessa tentativa de saber fazer. Visa vogar em pleno mistério, não para se encandear por essa luz e deixar de ter um olhar claro mas sim para conquistar um continente mais para o conhecimento, antecâmara eventual da possível sabedoria.

 

 05-   Quais são, a seu ver, os mais relevantes precursores do Surrealismo, em termos internacionais?

 

NS – Creio que é pacífico dar relevo a certos nomes consensuais. Eu não os infirmaria: Gustave Moreau, o Vítor Hugo da “boca de sombra”, Holderlin, Blake, Nerval, Rimbaud, Petrus Borel, Aloysius Bertrand, Achim von Arnim, Lewis Maturin, Carroll, Young, Novalis, Jensen, o douanier Rousseau, Lautréamont…

     Ou seja, todos aqueles em que a presença do fantástico, do humor negro, do maravilhoso e do real transfigurado pela suscitação da aventura de viver permitiu observar para além dos olhos os factos essenciais da escrita e da pintura sem fronteiras.

 

06-   Que nomes salienta como fundamentais para o Surrealismo em Portugal?

 

NS – Refere-se a nomes que em Portugal representem o mais lídimo da prática surrealista escrita e pintada? Se assim é e sem preocupações de ordem: Cesariny, Pedro Oom, António Maria Lisboa, Cruzeiro Seixas, João Rodrigues, Manuel de Castro, Lud, Mário Henrique Leiria, Paula Rego, António Areal, Henrique Risques Pereira, Carlos Eurico da Costa, Isabel Meyreles, António Dacosta, Eurico Gonçalves, Mário Botas, António Quadros…

   E por aqui me fico, sem ir mais longe.

 

07-   A seu ver, qual a importância da tradição literária portuguesa para uma especificidade nacional do Surrealismo?

 

NS – Não quero ser corrosivo, mas com o devido respeito eu falaria de importância negativa…

   A meu ver, essa tradição possui um certo pendor para o lirismo exacerbado, a recusa ou pelo menos uma certa cegueira ante o mundo da Ciência, o repisar de ideias feitas, o provincianismo de escola, a ligação ou o domínio consentido duma mentalidade de sacristia… E, sem acinte o digo, quando se fala em tradição literária portuguesa geralmente o que desta expressão se solta é a tipicidade que pode existir num povo que parece ter ficado exausto após os Descobrimentos… E essa característica de nunca ter sido um povo realmente livre reflectiu-se necessariamente nas letras e nas artes, capturadas por uma certa amargura, um certo ressentimento que com frequência demasiada buscava amparo ora na “religiosidade”, ora no desespero funesto, ora na sobranceria insensata.

 

08-   Quais os autores portugueses que, a seu ver, mais influenciaram os nossos autores surrealistas?

 

 NS – No meu caso pessoal, fui muito pouco tocado por autores portugueses precursores. Só os li mais tarde, geralmente bastante tempo depois de por volta dos 14 anos, numa revista brasileira que achei por acaso, ter dado de chofre com autores estrangeiros nos quais reconheci a inflexão que me suscitava sem saber que tal tinha nome. E que passei a seguir com atenção, estendendo depois a minha leitura a autores contemporâneos.

    Se bem interpreto a sua pergunta e no que respeita a nomes que podem ter dado antecedentes ao surrealismo em Portugal, tenho para mim que, lá de fora, seriam todos aqueles que citei na anterior resposta.

   Quanto aos lusos, não sou capaz de salientar outros que não sejam algum Gomes Leal, Teixeira de Pascoaes e Raul Brandão, Camilo Pessanha, algum Sá-Carneiro, algum Garrett, certo Antero de Quental, algum Eugénio de Castro…(Pessoa, esse, está do outro lado do espelho).

 

09-   A seu ver, quais as raízes da presença surrealista em Portugal?

 

NS – Como já referi, a inflexão do surrealismo existiu sempre. No que se refere à sua concatenação (para assim me exprimir) ou exposição pública em grupos organizados, após o seu surgimento em 1924 na França difundiu-se pelo mundo (quando não surgia noutros lugares paralelamente…) respondendo a uma necessidade vital de autores e de pessoas por extenso. Em Portugal, devido ao reaccionarismo, atraso e concomitante repressão existencial e mesmo política – o país era forçado a viver isolado do mundo geográfico e espiritual – revelou-se tarde e sempre entravado pelas razões ali atrás ditas.

  A presença surrealista, em grupo ou individualmente, continuará sempre a existir, mau-grado as tentativas de ocultação ou extinção que sobre ela façam pender e que começam sempre pela tirada cínica de que “o surrealismo existiu em tal data e até dada altura e depois acabou”.

   O que visam os que assim falam é verem-se livres duma presença incómoda que lhes relembra, ou mostra mesmo, a sua falta de caracter, a sua desonestidade intelectual e com terrível frequência a sua mediocridade artística. É, portanto, um gesto político de cariz autoritário/totalitário o que essa gente encena e encarna. Tal tem-se visto à saciedade!

 

10-   A seu ver, quando podemos falar da presença do Surrealismo em Portugal, enquanto acção colectiva?

 

 NS – Nos anos consabidos, na época, que a História consagra - quando Cesariny, Oom, A.M.Lisboa e todos os outros que com estes estavam altiva e nobremente, ergueram a luz surreal nos seus escritos e nas suas obras plásticas. Recusando empáfias de cultores empenachados ou equívocos. O tempo que deixou lastro e que segue counting and counting

 

11-   O que pensa dos nomes associados ao Grupo Surrealista de Lisboa, como António Pedro, Alexandre O’Neill e Fernando Lemos?

 

NS – António Pedro foi uma espécie de equívoco, ora dele ora dos outros, no que diz parte ao surrealismo. (Mas Breton não se equivocou: indo AP, em Paris, assinar um manifesto do grupo surrealista, Breton cortou com um firme traço a sua assinatura na folha constante).

  Para ele o surrealismo devia ser uma espécie protegida, tal como todas as outras correntes artísticas o deveriam ser num mundo em que vigorasse uma respeitabilidade que ele julgava dever vestir as artes e os artistas, que a seu tempo e portando-se bem seriam então provavelmente academizados. Nunca percebeu que o surrealismo é uma aventura interior que não se mede por boas-maneiras ou por falta delas, por respeitabilidades sociais/artísticas ou por destrambelhamentos, mas que está fora e para além desses figurinos sociais de pessoas de bem ou de mal - uma vez que o seu cerne é sim a liberdade de criar sem obrigatoriedade de apresentar cartões, diplomas ou quaisquer certificados.

   Fernando Lemos, por seu turno, foi um artista que por natural sensibilidade deu por si durante algum tempo a efectuar coisas com pendor surrealista. No entanto, como é referido por uma ensaísta que sobre ele se debruçou, “desenvolveu na década de 60 e posteriormente, na sua produção pictórica, princípios de composição plástica que conduzem à afirmação de um abstracionismo concreto, definido pela presença e sobreposição de formas negras [...], que muito se distinguiu das referências visuais e das atmosferas surrealizantes que pautaram as suas primeiras obras".

  Quanto a O’Neil, praticou o surrealismo de forma empenhada e realizada durante o tempo em que problemas pessoais e de ordem societária não o feriram, levando-o a orientar-se nos meandros da publicidade e da escrita mais controlada e cerzida por companheirismos pessoais e literários ou necessidades de sobrevivência.

  (Um exemplo mais, que ilustra outra vertente do vector surrealizado desses tempos: Vespeira, que produziu primeiramente obras dentro do chamado neo-realismo (nome que em Portugal recebeu o movimento que exprimia as concepções literárias/plásticas do comunismo soviético), atravessando depois um período em que se vazou no surrealismo pictórico. Mas que tempos depois abandonou, devido à sua formação ideológica tê-lo transportado para outras paragens mais consentâneas com ela).

 

12-   Com que autores surrealistas conviveu, ao longo dos anos?

 

NS – Intensamente com Mário Cesariny, Ludgero Viegas Pinto (Lud), Carlos Martins e João Garção. Frequentemente com Pedro Oom, Ernesto Sampaio e, nos últimos tempos, José Carlos Breia e Joaquim Simões. Algumas vezes só, ainda que com cordialidade marcada, Cruzeiro Seixas, Eurico Gonçalves, António Barahona da Fonseca e outros do surrealismo abrangente pós grupo do Gelo como Mário Botas ou Luiza Neto Jorge. Também frequentemente, embora com flutuações, com autores do surreal-abjeccionismo ou perto dele como Virgílio Martinho, Ricarte-Dácio, Pacheco menos vezes por decisão pessoal minha; também, com figuras próximas como Herberto Helder ou Hermínio Monteiro.

   Actualmente, do Brasil, com dois autores fundamentais deste tempo, Floriano Martins e C.Ronald. Do estrangeiro, variada e intermitentemente, como Emílio Adolpho Westphalen, Gérard Calandre, ultimamente e de forma epistolar Jules Morot e Alfonso Peña…

 

13-   Qual a importância de Pedro Oom no desenvolvimento do movimento surrealista em Portugal?

 

NS – Foi importante não só pela sua obra, não só pelos contactos suscitadores que teve e que estabeleceu com António Maria Lisboa e outros - os primeiros e alguns que lhes sucederam - mas também pela sua postura: exigente mas aberta, corajosa nos embates com os zoilos e fraternal com os companheiros, cumprindo assim a frase muito lúcida dum confrade que disse “Chama-se UM HOMEM àquele que sabe o que está fazendo”. Foi, para tudo dizer, não só o autor actuante de “Um Ontem Cão” ou “O homem bisado” mas também o que soube referir que, numa dada perspectiva de verticalidade, “Pode-se não escrever” e, ainda, o que soube entender que em relação a um agregado societário infame filho duma sociedade desqualificada e torpe é mais importante um olhar de comiseração e até de fino desprezo do que a feitura de coisas picturais e escritas alevantadas…

 

 14-   Em sua opinião, a que se deveu a intrínseca tendência para a dissidência entre os surrealistas portugueses?

 

NS – A informação que do estrangeiro chegava aos primeiros (e se calhar até aos segundos…) surrealistas era muito parcelar e frequentemente confusa devido à situação de ausência de liberdade política em que o país vivia. Acresce que no terreno europeu e local se digladiavam por essa época pelo menos duas tendências de sinal contrário mas ambas – como hoje já não cabe duvidar – igualmente nefastas: o conservadorismo, colorido de catolicismo reaccionário e o fascismo vermelho de cariz estalinista, autoritário mas cobrindo-se com a falsa capa de progressista de esquerda. Os surrealistas tiveram de sofrer as acções imperativas, muito impetuosas e claramente prepotentes, dessas duas formulações ideológicas. E, por razões que hoje bem se conhecem, muitos dos que agiam dentro do reduto surreal foram seduzidos ou sitiados algumas vezes por essas feitiçarias sociais, o que dava azo a que os menos permeáveis tivessem de se afastar ou afastar os que os queriam jungir a obrigatoriedades que eles achavam espúrias.

   Mas o mesmo sucedeu em França, por exemplo, onde o sentir soviético foi bem acolhido por Aragon, Unik, Éluard e outros com os resultados tristes que se sabem. Não devemos esquecer que para os próceres de Leste (e os seus avatares) o que contava e conta é não a liberdade interior com todo o seu acervo fulgurante de criatividade solar ou mesmo lunar – digamos assim com a suficiente dose de ironia – mas o que um determinado hacer pode dar à potência política do partidão.

   Daí a necessidade de, contra essas gentes, dissidir, romper amarras, de não estar na quadra.

 

15-   O que entende por Abjeccionismo?

 

NS - A atitude galharda, deliberada e na verdade muito adequada de responder ponto por ponto e sem delicadezas mais próprias “de damas putas” (sic) à protérvia social, repelente e abjecta ela sim, que tentava enroupar-se de lirismos delicodoces e nos palavrórios burlões filhos da pedantice e da hipocrisia de certos barões assinalados das artes, das letras e, por extensão, da praça que punha e dispunha nos jogos malabares da desgraçada nação.

  Ela tinha consciência do seu pouco poder, mas mesmo assim não desistiu de falar alto e claro tanto quanto podia, despertando embora as mais diversas cóleras e até perfídias.

 

16-   Considera que nomes como Antonin Artaud, Georges Bataille, Henry Miller, Dubuffet, Henri Michaux ou Jean Genet foram importantes para a definição do Abjeccionismo?

 

NS – Que são autores de qualidade, de grandeza específica, não cabe dúvida. E que inquestionavelmente têm neles a inflexão abjeccionista expressa em obras e em vivências é facto assente.

   Agora: não sei é a influência que terão tido no caso português. Não a consigo, confesso, definir com exactidão.

   No que me diz respeito não a tiveram especialmente, li-os, apreciando-os, como li outros autores: Leiris, Camus, Jean Ray, Hans Carossa, Bruno Schulz, Samuel Beckett, Ionesco, Oscar Panizza…

 

17-   Como poderia descrever a acção do grupo ligado ao Café Gelo?

 

NS – Tanto quanto sei e é dos livros, mas também do que aqui e ali pude saber pessoalmente, foi um grupo que, vindo do antigo Café Hermínius a que se juntaram outros confrades, tentou levar a efeito uma actividade surrealista e abjeccionista que, na verdade, não podia existir com foros de eficácia no país cimentado pelo salazarismo e onde havia duas espécies de censuras: a oficial e a do partidão que tentava herdar-lhe, a seu tempo, as quintas e os bragais...

 

18-   Que figuras salienta de entre aquelas que se costumam associar a esse contexto?

 

NS – Além de Cesariny e Pacheco - Manuel de Lima, José Escada, Herberto Helder, José Sebag, Manuel de Castro, António José Forte, Mário-Henrique Leiria, Ernesto Sampaio. Outros ainda, como António Barahona da Fonseca, Gonçalo Duarte, René Bertholo…

 

19-   Existia uma dimensão performativa na actuação de grupo, intrinsecamente marginal, dos abjeccionistas?

 

NS – É de crer que sim, mas sempre entravada pelas circunstâncias que se conhecem historicamente e a que já aludi. Em campos onde existe a obrigatoriedade de agir conforme o Estado determina, ou sujeita a controle, as acções têm muito pequenas possibilidades de se promoverem e de permanecerem no terreno das realidades efectivas.

 

20-   Luiz Pacheco é uma personagem singular no quadro do Surrealismo-Abjeccionismo em Portugal. Qual a sua opinião acerca das diferentes vertentes da sua acção?

 

NS – Singular, sim. Tanto pelo que fez de muito positivo – editando obras de grande qualidade; definindo como burlescas ou simplesmente irrisórias muitas figuras armadas em arco da patusca ou aflautada circunstância nacional e, ainda, escrevendo textos excelentes entre a crónica e a ficção – como pelas encenações em que se verteu, de forma quase clownesca; dando, aos inimigos da liberdade inteira, excelentes armas de arremesso que eles utilizavam com veloz contentamento…  

 

21-   Considera que existem ligações entre o Surrealismo e movimentos marginais contemporâneos como a Geração Beat norte-americana ou os Angry Young Man ingleses?

 

NS – Eu não diria tanto ligações como pontos de contacto. Pontos de contacto, principalmente, de concepção. Não esquecendo que houve actores do movimento beat que se reconheceram como surrealistas, na escrita e na actuação por extenso.

   Os segundos tocariam o mundo surreal pela sua recusa de um conformismo muito british, pela sua negação dum mundo literário que se enquadrara pelo uso de fórmulas que já estavam velhas e relhas ou, pelo menos, desajustadas das realidades sociais que importava certificar.  

 

 22-   Que outros herdeiros o Surrealismo deixou em Portugal, colectiva e individualmente?

 

NS – Assumidamente ou não, todos os grupos de poetas e pintores que souberam efectuar neles e no grupo a que se devotaram, com originalidade, o gesto surreal de recusa do já percorrido ou visto; indidualmente, a independência de espírito e a procura incessante de um universo onde não tenha lugar a prepotência de sectores ou a submissão à retórica de falsos amigos do Homem.

 

23-   Qual a importância do Surrealismo no contexto português?

 

NS – Como já afirmei algures, nas últimas três décadas, pelo menos, os que fazem a chuva e o bom tempo nos lugares expressos da nação intelectual têm-se esforçado por afastar e exterminar a inflexão surrealista. À partida, querendo fazer crer que já não é tempo dela, como se fosse uma fruta ou um legume de específico mercado…

  Por ela ser a prova provada do seu deles falhanço enquanto manajeiros da sociedade nacional? Por o surrealismo conter nele algo que lhes é muito hostil, que eles sentem como muito hostil por ser o contrário luminoso e iluminante das suas pessoínhas abancadas à manjedoura do Poder ou da notoriedade?

  Penso que sim.

  Mas também pelo seu primarismo cultural disfarçado, pela sua clara incultura – encarando-se cultura viva como aquela força que permite que se perceba, simbolicamente falando, que o ser humano está muitos passos além do símio – pelo seu cinismo que encara a arte e a liberdade inteligente como meros resíduos que não concorrem para o bem-estar que eles apenas e incessantemente procuram haver, mesmo que para isso tenham que exterminar a elementar decência.

   Nesta medida, se por um lado o surrealismo lateja claramente no imaginário social (basta falar-se com as pessoas do povo orientadamente para se perceber isso) devido à defenestração que sobre ele tem caído conta muito pouco, muitíssimo pouco porque quase não pode exprimir-se de forma digna ou pelo menos aceitável. Ainda recentemente houve uma acção referente ao surrealismo e, note-se, levada a efeito por gente universitária de bom quilate. Pois a denominada “comunicação social”, tanto quanto soube, irrelevou o mais que pôde tal acontecimento, ela que dá normal relevo a patacoadas ou actividades roçando o pornográfico e/ou a imbecilidade satisfeita.

   E creio que não é preciso dizer mais, nomeadamente o facto de que acções, no país e no estrangeiro, protagonizadas por surrealistas daqui ou vizinhos deles são normalmente abafadas, desprezadas ou postas do lado da sombra.

   Ou seja, dantes eram atacados publicamente. Agora, muito pior, tenta-se fazer crer que nem existem. É, claro, o cripto-fascismo de fachada democrática no seu melhor…!


Aos confrades, amigos, adeptos e simpatizantes

     Devido a um problema informático de última hora, não nos será possível fazer a postagem desta semana.    Esperando resolvê-lo em breve,...