Mostrar mensagens com a etiqueta José Pascoal. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta José Pascoal. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 11 de outubro de 2021

Três poemas de José Pascoal

 


Javier Pagola



DOIS RAPAZES

Dois rapazes discutem Parménides
Em plena livraria.
Pura perda de tempo.
Descobrirão mais tarde.

Ao mesmo tempo, manifestam o desejo
De ler Santo Agostinho
No original.
Não lhes faz mal.

Também já fui de bicicleta
Aos Alpes do pensamento.

 

A PEDRA NO SAPATO

Se tens a pedra no sapato,
Não chores o leite derramado,
Olha bem o dente a cavalo dado,
Não te percas no mato.

Isto, em sentido lato,
Com música de fado,
Letra de encapuzado
E paciência de gato.

Se não tens, deita-te a correr
Estrada fora,
Feito pedra rolante.

Pois, chegarás a ver,
Perto da aurora,
Os pés de barro dum gigante.


O TERAPEUTA BELGA

 

Preparai as vias respiratórias.

Vamos cantar.

 

Um velho sentou-se na curva da estrada

E cumprimentou o mundo.

Pode passar.

As virgens, por exemplo, passam apressadas

E brancas,

Comprimindo o vento nos lábios.

Mas eu (ele, o outro) disse que íamos cantar.

A canção da mãe e dos seus dois filhos.

Da cabra e das suas duas crias.

Do vigário e dos seus dois meninos de coro.

Do vento e das suas duas velocidades.

Moderado, forte com rajadas.

Ora, abri a boca enquanto vos enfiam o dedo

E estareis prontos para cantar

Ai solidão

Ai solidão

 

O velho cumprimentou o mundo a seu modo.

 

Ao sul, levanta-se a poeira do deserto

E o homem da gaiola corre atrás

Do pássaro português.

Aonde? Perguntam, boquiabertos,

E espantam a ave

E espevitam o homem.

O velho, sentado e sentido, chora,

Ultrapassado por um carro funerário

(Ocasião para esclarecer que os caracóis

Não vão ao enterro deste homem).

E a canção? Perguntam, desapontados.

Que querem? Eu não sou o homem do saco

E secaram-se-me os ossos,

Que não são flautas

(Longe de mim tal alegria),

E a canção fica enterrada no peito,

Tal como a gaiola no homem

E o pássaro na gaiola.

 

E, depois, vou-me embora,

E, triste, deixo para trás

A cidade e o campo,

A terra, o mar e o céu,

E, de joelhos,

Toco no pássaro morto na erva

E não penso mais.


quinta-feira, 10 de junho de 2021

Três poemas de José Pascoal

 



UCRATE

 

Em Ucrate,

A sombra duma oliveira

Ilumina as nossas sombras

Vindas de longe,

Da selva dos crustáceos

E dos bois de trabalho,

E um sino chama para a missa

Os mais incautos

Dos mais desesperados,

E uma alvéola brinca

Num pátio de terra batida

Pelo calor do céu,

E duas cabras dão uma corrida

A ver quem ganha a erva,

E os canitos de pedra ladram

Contra a secura que os atormenta,

E eu recordo-me de um mar

Maior do que uma ermida,

E tudo me parece vago e vivo

Como o rosto duma virgem de calcário.

 

À MARGEM DE VERBO ESCURO          

 

Desde que me conheço

Nenhuma graça me acontece:

O silêncio é o meu ruído,

O passado, futuro que anoitece.

 

 

A PAZ E O SOSSEGO

 

Não me tirem

A cafeína dos versos

Nem a alegria

Das primeiras impressões.

 

Houve um tempo

Quente e frio,

A nortada dos desejos,

Revoada de estorninhos.

 

Houve um espaço

Aberto à luz

Da cal

E da palha face à bruma.

 

Não me tirem

O sono leve

Das noites férteis

Em sonhos meridianos.


quinta-feira, 6 de maio de 2021

PÓRTICO

 

UMA TRISTE NOTÍCIA

   Recebi, na terça-feira que assim ficou marcada com uma bola preta, o mail seguinte:

Sou a mulher do José Pascoal e trago-lhe a triste notícia da morte do Zé no dia 30 de Abril após 2 meses de luta inglória contra a doença. 

 

Obrigada pelo contacto.

 

Paula Chaves

 

   Talvez se recordem que dias atrás eu dera a notícia de que a Gazeta de Poesia, sustentada há vários anos por este confrade e poeta de merecimento, tinha sido encerrada, o que a meu ver tornava o quotidiano mais pobre. E mais pobre ficou agora com a partida do autor de "Excertos Incertos".

Como homenagem mínima e póstumo abraço proverbial, transcrevo um dos poemas que dele tinha para publicar no “Casa do Atalaião”, onde se poderão ler outros textos do autor que sempre foi para mim, no contacto epistolar que mantivemos, muito cordial e participativo.

ns

                                                            *

 

A INVENÇÃO DA PRIMAVERA

 

A Primavera é feita de costumes

Brandos e bravos,

Vento que purifica os corpos,

Luas perfeitas como lâmpadas,

Livros sagrados por abrir,

Mãos que se abrem a sorrir.

 

É uma Primavera inventada

A partir dessa estranha calma

Que me invade nas noites sem dormir,

Sem saber quem serei

Quando o sono me levar

Para o último mar.

 

Depois de consagrada,

Não me falta mais nada.

 

José Pascoal


IN MEMORIAM: Dois poemas de José Pascoal

 




AUTOBIOGRAFIA ECOLÓGICA

 

Há quem diga que moro no desalento,

No desencanto permanente;

Não será bem assim,

Sinto apenas o esqueleto dormente.

 

Nas ruas desastradas por que passo,

Vejo os vestígios violentos da discórdia,

Gente que acena para os carros fúnebres,

Roupa estendida numa corda.

 

E, se voltar a casa,

Arrumarei cadernos numa gaveta,

Sem fundo, sem bolor e sem caruncho:

Alguém há-de levá-los para o ecoponto.

 

 

 

OS PARENTES AFASTADOS

 

Somos todos parentes afastados

E consumimos água, luz e gás.

 

Temos sono pesado na balança

Nivelada, neurótica, noctâmbula.

 

Pomos todos a mão no parapeito

Antes do salto eterno sem retorno.

 

Vemos todos a cova no cemitério

Dos prazeres fáceis prometidos.

 

Ficamos com o ar triste de bovinos

Deitados num palheiro humedecido.

 

* Nota –Estes poemas que aqui deixamos, bem como o Pórtico a abrir a postagem de hoje, são o sinal da nossa amargura pelo infausto acontecimento ali descrito e o nosso proverbial abraço a este confrade sempre cordial e poeta de qualidade que agora partiu.


segunda-feira, 8 de março de 2021

Dois poemas de José Pascoal

 

O MUNDO FECHADO

 

Não sei o que faço aqui,

Neste bocado de chão

Comido pelas formigas,

Nesta hora cinzenta

Como o asfalto gasto da estrada,

Nesta página atravessada

Por soluços e relâmpagos.

Não me interessam

As notícias do desengano

E do desempenho,

Não me interessam as vozes

Que clamam por doses bem servidas

De raiva,

Não me interessam os interesses.

Mas ainda não sei o que faço aqui,

A fazer de eu mesmo,

Porque sou eu mesmo

E o meu medo

De não ser reconhecido por ti

Na rua dos teus passos.

 

 

APARELHO AUDITIVO

 

Falamos muito do silêncio

E não nos damos conta do ruído

Das cidades em chamas.

 

Cantamos de cabeça descoberta

Canções antigas como a terra

Do fogo e do diabo.

 

Só ouvimos a música dos poços

E dos pântanos secos na memória,

Depósito de sombra.

 

Até que a Ceifeira nos seque a palavra.


quinta-feira, 12 de novembro de 2020

Quatro poemas de José Pascoal

 




EVOCAÇÃO DE SHELLEY

 

Debaixo deste alpendre,
Recebo o vento do norte,
Albergo a sombra fugitiva
Duma senhora de romance.

Queimo cigarros e poemas,
Queimo cabelos de problemas
Que não sei resolver
Sem a tua presença.

Nesta silente quietude,
Thoughts come and go in solitude.

 

 

CENÁRIO VIRTUAL

 

A túnica branca
Mal cobre os joelhos
Da bela mulher
Fatal do olvido.

Comemos o pão
Negro das paisagens
Pintadas por náufragos
Dos descobrimentos.

Bebemos o vinho
Das vinhas antigas
E o leite magro
Das Virgens do Leite.

Estamos no céu
Profano da terra.

 

SÍMBOLO CANSADO

 

As rosas servem de símbolo
Vezes demais.

É preciso libertá-las do lírico
Míldio.

Deixá-las ser o que são: rosas.
Nada mais.

 

OS AMIGOS PLATÓNICOS

Os amigos não servem para as ocasiões.
Os amigos não servem.
Os amigos mandam.

Mandam flores.
Mandam recados.
Mandam com mão leve.
Educados.

Grande coisa, a amizade
E a liberdade
De (não) ter amigos
De verdade.


segunda-feira, 29 de junho de 2020

Dois poemas de José Pascoal


Nicolau Saião, Sem título


dia de trabalho na capital


Em ruas de Lisboa
De que não sei o nome
Passam-se coisas muito estranhas.
Voam jornais velhos, facas e alguidares.
Passam, mesmo, camelos
Pelo buraco da agulha.
E vem gente de muito lugar
E muito cedo
Nos comboios do Rossio e de Santa Apolónia.
Voam jornais velhos, facas e alguidares.
Passam, mesmo, aves
Como no soneto de Sá de Miranda.
Que estranhas coisas se passam em Lisboa.

embora as folhas caiam
Embora as folhas caiam,
Os pássaros do Outono voam
Em círculos que anunciam
A chegada do Inverno.
Ao longo do caminho,
Espalho as minhas pedras,
Escolho os meus motivos,
Espero por melhores dias.
A cada passo, encontro
Uma flor esquecida
Pela voragem do Verão.
A cada passo, invoco
Da tua face escondida
O nome em vão.
                                                          José Pascoal

segunda-feira, 25 de maio de 2020

Dois poemas de José Pascoal


Nicolau Saião, Sem título



TÉCNICA DA TRISTEZA

Paradas,
As cadeiras esperam o convite
Para que nos sentemos nelas.

As cadeiras não têm coração.
São máquinas dispostas a tudo.

Sento-me numa e lembro-me
Como quem não respira.

Não tenho nenhuma palavra a deixar
Aos meus.

A INVENÇÃO DA PRIMAVERA
A Primavera é feita de costumes
Brandos e bravos,
Vento que purifica os corpos,
Luas perfeitas como lâmpadas,
Livros sagrados por abrir,
Mãos que se abrem a sorrir.

É uma Primavera inventada
A partir dessa estranha calma
Que me invade nas noites sem dormir,
Sem saber quem serei
Quando o sono me levar
Para o último mar.

Depois de consagrada,
Não me falta mais nada.
                           
(Poeta e internauta, criou a página digital Gazeta de Poesia Inédita)                    

Aos confrades, amigos, adeptos e simpatizantes

     Devido a um problema informático de última hora, não nos será possível fazer a postagem desta semana.    Esperando resolvê-lo em breve,...