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segunda-feira, 28 de junho de 2021

Dois poemas de Alfredo Pérez Alencart

 




GUERREIRO

 

Tu pareces

um leão ferido para a vida

numa região

de pássaros zangados:

 

sangue na infância

e agora punhais

de inveja.

 

Entendo.

Tu e eu

não é que sejamos parecidos;

é que somos iguais,

 

crentes esperançosos

em que não ressuscite

a traição.

 

Por aquela luta

esperamos pelo sonho.

 

IMIGRAÇÃO

 

Não importa

que tu venhas ou vás:

 

sempre te seguirá

um pedaço de chão

 

ou um olhar arisco

declarando-te

estranho.

 

Serão dias cinzentos

que não serás capaz de tirar

de cima de ti.

 

E irás declarar-te

devedor,

embora diariamente

 

ganhes

a partida.


quinta-feira, 11 de março de 2021

Um poema de Luís Borja

 


Luís Borja, foto de Jacqueline Alencart




Tudo começa com o amor à manhã,

ao canto dos galos que buscam um nome à lua.

Tudo começa com a ternura das flores e suas pétalas de sangue.

Tudo, absolutamente tudo, começa com amor à saliva,

porquê somos feitos de saliva e barro.    

Somos a taça e o destino da terra.

Tudo, absolutamente tudo, começa com o calor do dia,

com o sorriso quente dos astros: o nascimento

do pai e do fogo.

Eu

que sou saliva e barro, planta e ternura,

compreendo que estamos embevecidos pela luz da manhã,

mas também, meu irmão, somos da noite,

da escuridão e da lua: a mãe.

Tudo começa no sorriso da taça e da raiz,

na oração do sangue que cantamos.

Tudo começa na terra e no suor,

na semente que nasce na palma da mão.

Tudo começa no sorriso noturno do delírio

e não

calamos a loucura nem a morte,

nem o tiro que quebrou os ossos da terra,

dos ossos que nasceram como pedras.

Então, tudo começa com a ternura entre as mãos

e com o ódio entre os dentes.

Tudo começa no sonho

dos pássaros e de seu grito que sangra.

 

Tradução de Álvaro Alves de Faria

 

*


    “Criar em Salamanca” lamenta o falecimento, acontecido há dias com o Covid 19, deste jovem poeta que sempre estará ligado à nossa cidade. Nascido em Ahuachapán (El Salvador, 1985-2021) ganhou a VI edição do prestigioso Prémio Internacional de Poesía Pilar Fernández Labrador - pelo seu livro ‘UMIT’, um dos 905 trabalhos procedentes de todos os países ibero-americanos - além de outros fazendo jus ao seu enorme talento.

   O poema que aqui se deixa foi traduzido em diversas línguas europeias e em outros idiomas fora da Europa.

Alfredo Pérez Alencart


quinta-feira, 25 de fevereiro de 2021

Um poema de Alfredo Pérez Alencart

 

TE AGITAS PELO LOBO E O CORDEIRO

 

 Te estremeces pelo lobo e pelo cordeiro.

Amas de forma ultra-humana, sem limites, como a música

do universo. Oh profunda sinfonia forjando

o sagrado do começo ao fim, alto pretexto onde domina

a esperança. Oh sucessão eterna que desencadeias

assonâncias, instintos laborando rumo ao magma

do transcendente, da cadência absoluta

concebida com o compartilhamento das águas profundas

e das saborosas delícias de um contravoo angelical

acomodadas para suportar o Vento mais copioso.

Estarás como a sempre-viva, qual presença transumante.

Ficarás na luz que não mata o pôr do sol.

Estando sem estar, tu és evidência,

cérebro verbal destacando faíscas de pureza,

pulsações sem cativeiro, correta chamada de translação

além de anseios e de desvelados sonhos.

Pertencias ao terreno do Despretensioso,

ao seu ritmo oculto, à sua chama lenta, felizmente

extemporânea, qual aliança indecifrável.

Pertencias ao portal das testemunhas,

para profecia de outro Reino, ao refinado alento,

cuja plenitude reside onde floresce o sublime.

Integravas o verbo de uma estrela.

Pertencias ao corpo ferido de ternura sofredora.

Pertencendo à asa que desaparece pelos ares.

Pertencias à linhagem que coleta inocências de sete em sete.

Te perpetuas na antecipação da alegria

e ascendes, porque tua Unidade conhece a fórmula

das diásporas e dos deslumbramentos.

Clamas por tua orfandade. Clamas contra chicotes agressivos,

confraternizando com os perseguidos, abraçando-os,

compartilhando com eles a realidade dos milagres.

Nada te rebaixa,

criatura de nome formosamente pronunciado,

pele aliciante, contorno para penetrar

em frondes de renascimento quente.

Tu manténs o dom de ser o antes e o depois,

lâmpada iluminando os breves voos do pássaro, sua sombra

na alta noite do abismo.

Conduzes os fervores rumo ao amanhecer adolescente,

pulsas com tua estatura de Árvore da vida, regas violetas

com o leito de tuas transpirações.

Exemplo horizontal o das mãos estendidas,

o do pulso que sustenta! Beleza da forma na paisagem!

Oh Deus, que desejo nu é este Amor

avançando eterno, dando-se, assim, tão pródigo!

 

Que seivas estás doando? Que outros vaga-lumes te rodeiam?

 

                                                             Tradução de Cláudio Aguiar


Aos confrades, amigos, adeptos e simpatizantes

     Devido a um problema informático de última hora, não nos será possível fazer a postagem desta semana.    Esperando resolvê-lo em breve,...