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quinta-feira, 2 de setembro de 2021

Sete poemas de Jean-Paul Mestas

 


Ben Wilson



Maria Madalena

 

Parou tal como pararam

ao mesmo tempo todos os relógios.

 

O instante teve esse sopro cortado.

 

Jesus fixou os olhos nos seus

uma marcação que nunca falha.

 

 

Maria

 

                                      

Vinda pela porta do fundo

sentiu hesitar a multidão.

 

Frestas se abriram

entrou um luar

tímido

tudo cobrindo por fim

inevitável.

 


 Em tantos lugares

 

A Hyane Bardiau

 

 

De todas estas manhãs desaparecidas

lembra-te

dos primeiros gritos

dos últimos sonhos

uma indefinível ideia

da água

das pedras

e das pegadas

em tantos lugares

arrancando as máscaras

ou talvez as dores.

 


 Pelo menos

 

A Stella Leonardos

 

A Duse poderia estar lá

enquanto rapidamente reapareceria

a Primavera que já não se esperava

nas janelas enamoradas

onde tantas beldades adormecidas

vão finalmente acordar.

 

O que sabemos verdadeiramente?

Quem serão elas afinal?

 

Pelo menos a paisagem

terá retomado os seus tentilhões

a beleza a sua virtude

 

 

e o horizonte o seu encanto.

 


Com as caravanas…

                                            

 

Os ossos da existência

- oh meu amigo -

deixámo-los perder-se

nas fronteiras de um deserto

de violências e de agonias.

 

As máscaras caíram

daqui para a frente

o passado retomará o seu lugar

tal como as caravanas

avançando pelo meio das dunas…

 


À espera

 

 

Para Simone e Jean-Claude Coiffard

 

Um silêncio faz o seu caminho

por entre os ventos da história;

 

as suas sombras são pacientes

apesar das voltas da sorte

cegando a noite.

 

Parece que qualquer um

em qualquer lugar faz as suas contas

à espera da última palavra.

 

À espera.

 

 

 

Rengaine

 

                                            

Faz os seus cálculos

evitando os parênteses.

 

O velho relógio escoa

enfim as horas vazias

ou outras sem rosto.

 

No seu jardim secreto

algumas ortigas teimam

em acariciar o ponto sensível.

 

À sua volta pessoas

que ele teria preferido não conhecer.


Tradução de Cristino Cortes

quinta-feira, 25 de março de 2021

Quatro poemas de Jean-Paul Mestas

 

Barnabooth

 

Muitos o reconheceram

distraído

olhar de viajante

as mãos prontas para a escrita.

 

Lisboa está no ponto

Londres pensativa

adulada Lutécia…

Ó capitais que as palavras

imperceptivelmente fazem sussurrar!

 

Aqui a cabeça pesada

um lembrado sapateado

inquieto talvez do silêncio

que enigmaticamente o assalta.

 

Enfim um momento lhe permite

a um sonho abrir o seu momento dourado.

 

Cadastro imaginário

 

Aqui ficarão os murmúrios

com um pouco de terra

retirada dos velhos tempos;

 

ao lado ficarão os silêncios

rodeados de discretos suspiros

como os das mulheres

na expectativa do amor;

 

algures, um pouco mais longe

reviverão as estátuas

adormecidas na nossa memória.

 

 

Retorno sobre si mesmo

 

Aos anos que vão passando

não contes jamais

o que foram as tuas impaciências.

 

 

Lembra-te que as estátuas

ficaram como ausentes

no fundo da tua memória.

 

Assim podes imaginar

ter sido

o que semeava palavras na lua.

 

 

Um grito

 

Vias travessas

e desejos nados-mortos

um grito

rompe os silêncios confundidos

pelo seu próprio estrondo

num império onde a memória

tem sobressaltos cruéis

e dolorosos desfaleceres…


Tradução de Cristino Cortes

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2021

Jean-Paul Mestas, Cinco poemas

 

Depois

 

Não voltaremos aqui.

 

As pedras sabem a razão

mesmo nos dias vazios

em que se teriam ouvido

apenas os gritos do silêncio.

 

Onde estavas

se apenas olhaste

as margens do esquecimento?

 

O fluxo do desprezo

tem, talvez, a resposta.

 


Consolação

 

Já recebemos as nossas duas partes:

sem ruído, a dos mortos

depois a dos vivos

espinhos e silêncio.

 

Os meses tiveram a sua oportunidade

para instruir a paz,

como se o recém-nascido

tivesse a sua parte do diabo

ou a da esperança.

 

E depois adquiriu-se o hábito

de esperar o futuro.

 


Zéralda

 

Não, nunca mais

a noite interminável

a manhã incerta

uma queimadela

 

e o barulho seco

dum homem que caía

sem uma palavra na sua sombra

 


Intervalo

 

Nós rimos, disse ele,

como podíamos ter chorado

ou simplesmente morrer.

Hoje, não sei,

o silêncio e o esquecimento

fazem uma careta olhando-nos

já tão velhos,

                        perdidos

para as músicas do dia.

 


Entre nós

 

Não podereis contar-me

entre as vossas recordações:

 

entre nós os barcos

foram muito numerosos,

as estações demasiado frívolas

ou um tanto assassinas.

 

Deixemos assim ficar na água

as apóstrofes

e as vírgulas.


Tradução de Cristino Cortes

quinta-feira, 26 de novembro de 2020

Poemas de Jean-Paul Mestas (tradução de Cristino Cortes)

 

Anne Frank


Agora tudo promete.

Toda a gente fala sem maneiras.

Tu poderás voltar

com uma outra infância

uma boneca

que tenha encontrado a língua.

 

Tu terás de novo as brincadeiras

de que nunca tiveste medo

a magia

como tu a imaginavas

antes do grito da roseira

e do desgosto das rolas.

 

 

Ludwig van Beethoven

 

                                                     «O som profundo da verdadeira alegria… »

                                                                Heiligenstadt, 6 de Outubro de 1802 

 

 

Não o soube conservar

e para o voltar a sentir

socorri-me da mais longa das encruzilhadas

por entre o canto dos pardais;

 

 

entretanto passaram os Invernos,

as manhãs cinzentas destilam

um sol impaciente,

num planeta irreflectido

atravessado por silogismos.

 

 

O som profundo da verdadeira alegria

favorece uma efervescência

e produz por vezes choques

em que a vida parece ofegante

com seus enganos e delicadezas.

 

 

O som profundo da verdadeira alegria

como um fundo de melodia

arrebata o infortúnio

e no obscuro

                     desabrocha.

 

Outonal 

 

                                           

Nos jardins secretos

as flores não escondem

senão o que dizem as folhas

vendo chegar o Outono

nos braços do vento

nos braços

dos amores que desaparecem.

 

 

Poetas

 

Não tiveram de seu

mais que a impressão

de pertencer ao século

e de entrar com ele

num reino onde a inocência

reconhece as suas colinas vagas

tomadas pelas rosas.

Viam-se crescer

   falavam deles

   os seus livros

   eram como vestidos de seda                              

   fazendo sonhar as mulheres.

 

    Terá chegado um rasgão

     a moda

     um verso a mais

     a morte

 

     e a euforia bateu em debandada.

 

Cada manhã conserva um prodígio

escuta

uma palavra sonha o que será

logo que tenha seguido

o homem que lhe abre o caminho

por entre as nuvens.

         

 

François Villon

 

 

Nós já nos cruzámos

não sei mais onde

tu atravessavas a noite

eu ia

de cometa em cometa

não compreendendo de todo

porque tinhas desaparecido

sem me deixar uma palavra

nem a tua última morada.


segunda-feira, 28 de setembro de 2020

Poemas de Jean-Paul Mestas (tradução de Cristino Cortes)

 

Virgílio                                                                                

 

Cruzamo-nos

de dia e de noite.

O nevoeiro invade as ruas

os oráculos caem do alto.

 

Retoma um corpo

diverte-se

a anotar as terras semeadas

onde os trogloditas preguiçam

e as melancolias cabeceiam.

 


Miguel Barbosa                                                                         

                                    Para a Fernanda

 

O mais belo dos percursos

Lisboa

              heroína adulada

cujo fado

              abre sobre um planetário

por mim ornamentado de cores

provindas dos frutos do amor.

 

Eu sei que jamais é demasiado tarde

para a flauta encantada

nos subúrbios nocturnos

onde as ilusões

surpreendem ou libertam.

 

Aqui levanta-se o dia

               no apelo dos clarins.

 

 

Florbela Espanca

 

                                            

Que caminho seguias tu?

 

Uma lágrima talvez o dissesse

ou o reforço das clematites;

 

ora tu preferias viver

em florescentes lassidões;

 

num último pestanejar

a Primavera tomou-te pelo braço

 

 

E a ausência ficou ciumenta.

 

 

Friedrich Holderlin

 

                                            

Sê estóico no presente

encontra a poesia

uma fenda entre os taludes

que a geometria embotou.

 

A paz descende das marchas

espertezas dum ciclo ensimesmado

perseguido por suas manias.

 

A indulgência não mais contende

com pífaros nem realejos,

 

ela já semeou as suas parábolas.


segunda-feira, 15 de junho de 2020

3 poemas de Jean-Paul Mestas traduzidos por Cristino Cortes


1.     Fernando Pessoa                                                     

Pessoa
e máscara de teatro

Um nada
nada perguntando
paradoxal
por pouco melhor traduzido
que o mais terno dos pânicos
encurralado no seu dilema

O inútil tem os seus parapeitos
a poesia a sua tabacaria
à noite um rebanho empoleirou-se
nos ombros de Lisboa
amando o trinado de Filomela.


        2. Henriqueta Lisboa                                                        

Frágil
como um traço de união
numa valsa de quimeras

teve a sua íntima caravela
em cidades deferentes
no abismo de ilhas perdidas

sobre um riacho de infortúnio.


      3. José Afrânio Moreira Duarte                                                
                                                                                     
Sei que estás em qualquer parte
no último recanto
das nossas esperanças comuns;

se existe ainda
um canto para os poetas
e medalhas próprias
para as quimeras tardias.

Mal nascem os dias logo contam
uma história sem pés nem cabeça
ao seu ingénuo público,

tu e eu fiquemos sisudos
quais trovadores perdidos
na sua energia perdurando.

*

Jean-Paul Mestas nasceu em 1925, em Paris. Poeta, ensaísta, tradutor, crítico, antologista e conferencista, autor de mais de 80 obras de poesia e ensaio, como Soleils Noirs, 1967, Chant pour Chris, 1989, Le livre des Visages, 2002, Magiques, 2005, Automnal, 2007, Sob o Friorento Olhar do Tempo, 2008. Tem poemas seus traduzidos em 23 línguas. Faleceu em 2013.

Aos confrades, amigos, adeptos e simpatizantes

     Devido a um problema informático de última hora, não nos será possível fazer a postagem desta semana.    Esperando resolvê-lo em breve,...