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segunda-feira, 14 de novembro de 2022

Três poemas de Rui Magalhães

 


ns, O viajante



Do bosque que acolhe a solidão dos pássaros

não há relatos deste lado do mundo.

Apenas a suspeita trazida pelo viajante

que uma noite falou de pássaros sem sombra

de pássaros que cantam e não se ouvem cantar.

E do sábio que habita no bosque.

                            *

Deixou os apetrechos junto ao fogo

e subiu a colina até ver além da noite.

Não lhe faltaram armas nem crenças

nem o corpo lhe falou de qualquer desejo.

Ficou ali até o fogo se apagar

e só então regressou à vida.

                           *

Para trás ficaram campos intermináveis

e cidades ardilosas.

À sua frente há só o silêncio da viagem

e as memórias entrevistas no início da noite.

Embora o viajante seja despojado de crenças

tem uma particular estima por essa verdade.

 

In “O viajante exposto à verdade das coisas”


terça-feira, 12 de julho de 2022

Quatro poemas de Rui Magalhães

 

Ele segue a corrente até antes da fonte

e aí observa as nuvens

reflectidas na terra pura.

É esse o seu modo de tornar-se cego

e de esquecer a bondade que lhe tenta o coração.

 

*

 

Pela madrugada

quando o sol nasce e a noite se apaga

o viajante compreende que o prodígio da luz

traz com ele o esquecimento das memórias mais sagradas.

Deixa por isso que o fogo esmoreça

e parte em busca da verdadeira noite.

 

*

 

O viajante é também um peregrino do silêncio.

Nessa condição observa os pássaros

e espanta-se com a filosofia que eles esbanjam

num rumor de alegria.

Os pássaros fazem-lhe lembrar o que ficou para trás

a condenação que o fez viajante

e a viagem que o fez homem.

 

*

 

À medida que se aproxima da presa

aumenta-lhe a tensão na alma

e nas pernas sente o coração acelerado.

Ao contrário

a presa completamente pacificada com a sua sorte

ignora sabiamente a ansiedade do caçador.

É assim que presa e caçador são acolhidos

pelo bosque magnânimo que a ambos condena.


in O viajante exposto à verdade das coisas


quinta-feira, 29 de julho de 2021

Três poemas de Rui Magalhães

 


ns



Bem cedo pela manhã

partiu à procura da obra

acreditando que àquela hora da manhã

ela lhe escutaria os passos

e lhe diria pelo menos o nome.

Era o seu último movimento

a última inocência antes do apagar de todas as estrelas

que ao longo das eras o haviam iluminado.

Não se interrogou acerca da natureza do que buscava.

Confiava no tempo que tinha sido preciso

para lhe avistar a sombra.

Confiar era a sua forma de ser íntegro

de purificar as memórias de todos aqueles anos

antes de o rio escolher aquele caminho

e de uma ave sem nome entoar para ele uma absorvente litania.

O dia chegou igual a todos os outros

antes de todos os outros

antes mesmo de ele se aperceber do apagamento do tempo.

Bem cedo pela manhã confiou-se aos segredos

da mais pura inocência.


                                 *


Ele não sabe que só muito para além do fim

as flores se tornam verdadeiramente belas

como jovens que nunca serão adultas.

Para além do fim

a única ciência

é a da absoluta ausência de promessa.

Assim se dedica à colheita do fruto

metodicamente

e com orgulho

apesar de o peso ser

às vezes

excessivo.


                                  *

 

Pressentir é algo que exige tempo

mas ele só conhece o tempo definido pela sua própria sombra.

Quando a olha vê só o que já foi

num rasto às vezes amável

outras vezes doloroso.

Mas o que sente é sempre o mesmo

dividido multiplicado

expresso em formas incalculáveis

em desejos que não chegaram a ser.

Pressentir exige tempo

exactamente como o não sentir.

 

in “O viajante exposto à verdade das coisas”




Aos confrades, amigos, adeptos e simpatizantes

     Devido a um problema informático de última hora, não nos será possível fazer a postagem desta semana.    Esperando resolvê-lo em breve,...