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terça-feira, 22 de março de 2022

Comunicado do Grupo Surrealista de Paris

 


ns



Dentro de alguns meses, o surrealismo terá cem anos. Como precisou André Breton nas suas Entrevistas [Entretiens], foi no final de 1922 que o movimento de emancipação do espírito humano mais enraizado na vida sensível que é possível conceber desde sempre tomou a sua forma – isto dois anos antes do seu nascimento selado pelo primeiro Manifesto. Entendamo-nos bem: não apelamos à celebração de um centenário, mas à manutenção e ao reforço de uma exigência.

Hoje, quando a palavra surrealismo, corrompida e muitas vezes associada ao absurdo, remete, no campo da cultura dominante, para uma inofensiva imagética fantástica, não é de todo inútil lembrar quais são e permanecem os fins e os desafios do surrealismo: superar as antinomias fictícias e mortíferas entre o real e o imaginário, o sonho e o estado de vigília, a consciência e o inconsciente; mas também restituir todos os privilégios às paixões felizes, estender e aprofundar os poderes do espírito, libertar a razão das suas cadeias positivistas e da sua instrumentalização mercantil, acabar de vez com as alienações ideológicas e religiosas; e, condição suprema, pôr a Poesia acima de tudo. Tudo isto, claro, tem por consequência a recusa de qualquer compromisso com o mundo tal como ele se está a suicidar, com a sua linguagem, os seus serviçais e as suas técnicas.

Ora o mundo de há cem anos e cuja queda revestia então carácter de urgência – urgência nunca desmentida desde então – perdurou e intensificou mesmo os seus estragos ao ponto de obscurecer hoje o horizonte histórico com a massa fuliginosa dos seus excrementos. Ele transformou-se em sentido diametralmente oposto a todas as esperanças que haviam alimentado a tradição revolucionária: o reino da liberdade, da igualdade, e da justiça, a abolição da exploração e da dominação, o fim da maldição do trabalho, o acesso de todos ao luxo e à abundância emancipada da prática mercantil. Quanto à vida, temos de reconhecer que ela mudou, mas num sentido ainda mais calamitoso: perdeu toda a consistência, toda a coerência, todo o valor; colonizada nos seus interstícios mínimos pela ditadura dos écrans, ela resolve-se em imagens cada vez mais pobres, cuja sórdida pobreza esteriliza em fogo brando o imaginário.

Eis porque o apelo à deserção que o surrealismo lançou desde o seu nascimento é mais do que nunca actual: deserção prática e intelectual, física e social, individual e colectiva. Daqui se tira que nenhuma concessão deve ser feita ao gosto estragado da nossa época, às suas inclinações suspeitas, às suas reflexões estruturantes. E diga-se aqui de uma vez por todas que as diversas criações surrealistas, apresentem-se elas sobre a forma de poemas, de narrativas de sonhos, de desenhos, de pinturas, de collages, de montagens, de esculturas, de fotografias ou de filmes não têm senão a aparência da obra de arte: elas são antes e depois de tudo a cristalização duma subversão permanente da sensibilidade, os testemunhos sensíveis dum novo modo de usar o mundo.

O perigo que ameaça um movimento que mantém vivas as suas exigências durante um tão longo período é menos o esquecimento para onde o querem relegar as várias modas, artísticas e literárias, de uma época decadente que o reconhecimento tardio da sua consistência e da sua perseverança. Mais enfraquecedor ainda que a apropriação dos seus processos próprios pelos funcionários da arte contemporânea, é a existência aqui e ali de uma tendência que leva à fabricação dum surrealismo sem consistência, em que muitos artistas, por força duma imagética vagamente onírica, se proclamam unanimemente surrealistas sem medirem o que esta denominação implica, e como se apenas pertencessem a uma vulgar escola estética.

Muitos destes surrealistas de aviário não hesitam em entregar-se à tecnologia informática. Se é aceitável que a priori qualquer meio técnico pode ser desviado e posto ao serviço da imaginação, no caso do digital somos obrigados a constatar que na esmagadora maioria dos casos o técnico se sobrepõe ao criador. Resulta que as obrinhas produzidas por computador são insípidas, aborrecedoras e parecem-se todas, delas se destacando uma suspeita consanguinidade, inoculada pela desesperante entropia que os algoritmos emanam.

Ao invés, a obra surrealista autêntica, apelando sempre à surpresa e ao encantamento, é portadora de utopia, grávida de uma promessa emancipadora que a legitima e a supera. Esta promessa, nenhuma máquina e nenhuma informática a podem garantir, já que não têm nem corpo nem nervos para sentir, percepcionar, emocionar-se ou experimentar desejo. Não é com certeza com a inteligência artificial que construiremos uma utopia à escala humana. Com a bênção das redes sociais, mais um passo e caímos na armadilha do entretenimento. Deste ponto de vista, e para esclarecer qualquer equívoco, lembre-se que o surrealismo nunca se poderá perder no campo minado da animação pedagógica nem se afundar na confusão das oficinas de escrita criativa e de collage, e outros idênticos concursos de poesia. Tais sessões de criação supostamente livres estão à partida viciadas pela instituição que os enquadra e não são senão miseráveis sucedâneos da transformação das florestas selvagens do maravilhoso em pobres jardins municipais.

Se o surrealismo nunca foi uma escola onde se pudesse entrar, uma academia para a qual se pudesse ser eleito, e um espectáculo onde se pudesse desfilar, também não é um clube internacional disposto a fornecer emoções e debates, cujos membros se recrutassem no Facebook ou promovessem as suas produções sobre Instragram. Conscientes de que não há meios neutros, os surrealistas desprezam com altivez as “redes sociais”, ou usam-nas com prudência extrema, preferindo-lhes a poesia imediata das redes “antisociais”, aquelas que ligam espontaneamente na rua, na viragem de um bosque, no favorecimento de uma greve que escapa a qualquer controle burocrático, no balcão de um café, numa tempestade de neve. Sabemos bem que os encontros decisivos se fazem por caminhos que atravessam a verdadeira vida, caminhos abertos às maravilhas do acaso objectivo e que não podem nunca ser premeditados por uma informatização na qual a noção mesmo de “amigo” aparece esvaziada do seu sentido.

Se hoje como nas suas origens, o surrealismo é uma comunidade subversiva permanentemente hostil ao Estado, ao capital e a todas as religiões, ele acrescenta agora à lista dos seus inimigos o mundo digitalizado dos écrans, que introduz cada vez mais distância física entre os seres humanos, desrealizando a vida sensível. Modo de sentir, de ver e de sonhar que se torna forma de ser, o surrealismo é uma procura teimosa e carnal de conhecimento, de liberdade e de amor. Uma vez que se passou por ele, ou uma vez que o surrealismo passou por nós, não podemos mais conceber nem perceber o mundo a não ser segundo as linhas de fuga que ele oferece às nossas errâncias e segundo os hieróglifos de encantamento que ele coloca na fronte das coisas ao mesmo tempo que nos propõe uma chave de interpretação. É nesta experiência do dia a dia, e não em qualquer reconhecimento mediático falacioso, que ele, o surrealismo, encontra a sua marca própria e continua, um século depois do seu nascimento, a aferir a validade da sua acção.

 

Grupo Surrealista de Paris,

16 de Janeiro de 2022

 

Élise Aru, Michèle Bachelet, Anny Bonnin-Zimbacca, Massimo Borghese, Claude-Lucien Cauët, Sylwia Chrostowska, Hervé Delabarre, Alfredo Fernandes, Joël Gayraud, Régis Gayraud, Guy Girard, Michael Löwy, Pierre-André Sauvageot, Bertrand Schmitt, Sylvain Tanquerel, Virginia Tentindo.


(Tradução de António Cândido Franco)

quinta-feira, 20 de janeiro de 2022

Acção Surrealista e Movimento Libertário

 

ENTREVISTA A NICOLAU SAIÃO por António Cândido Franco





1 As raízes do “Bureau Surrealista” remontam ao período do teu serviço militar na Guiné, entre 1968 e 1970. Que aconteceu nesse período?

 

Resposta NS – Creio que fará sentido ir a uns breves meses antes, para se ter uma noção clara de tudo: uma certa noite, na caserna do quartel de Leiria onde então estacionava na primeira especialidade, conheci Carlos Martins em circunstâncias especiosas: estando já deitado, um grupo de outros militares entrara para se recolher ao leito e um deles, ao subir para o beliche, caiu dele para baixo…Os outros desataram a rir. Eu, algo preocupado e num impulso, dirigi-me ao tombado, perguntei-lhe se se magoara e ajudei-o a levantar. (Teria procedido a libações?...) Repare-se que isto se passou na penumbra…No dia seguinte, pela altura do almoço, alguém se me dirigiu e identificou-se como o caído, agradeceu-me o gesto e referiu-me que já reparara em mim por eu andar geralmente com um livro na mão…

  Ficámos amigos desde então, frequentámos a seguir, na Trafaria, a mesma especialidade (serviços cripto, material e segurança) e, depois de mobilizados, fomos com dois meses e picos de intervalo, ele antes de mim, para o quartel-general em Bissau.

  O nosso contacto e identificação com a surrealidade em particular e as artes & letras em geral, intensificou-se. Todos os bocados livres que tínhamos usávamo-los para ler e dar grandes passeatas por Bissau, estabelecermos convívio com outros militares interessados e gente da população, em suma: visando preenchermos da melhor forma aquele tempo de exílio...E foi um tempo de descobertas, encantamentos e, simultaneamente, de preocupações (o nosso trabalho militar a isso levava).

  Comprámos materiais simples (canetas de feltro, guaches, etc) pintávamos e fazíamos colagens (ele principalmente, na colagem era um mestre) e, arriscando o couro se assim me exprimo, compusemos mesmo um livrito na tipografia da Secção da “secreta” a que estávamos adstritos. Eu dei-lhe como qualificação, com a sua aquiescência, “Edição do bureau surrealista Alentejo/Lisboa”. (Não sei se ele terá conservado algum exemplar, eu tenho apenas fragmentos dessa poemaria).

  Ao vir passar as férias intercalares que proverbialmente estavam concedidas aos expedicionários a meio da comissão de serviço, quando regressou levou-me como oferta o livro de Cesariny “A Intervenção Surrealista”. Congeminámos então que quando voltássemos entraríamos em contacto com os surrealistas que conseguíssemos achar (não tínhamos bem a noção de quem eram exactamente nem onde se encontravam).

 

2 O teu regresso a Portugal deu-se em 1970, aos vinte e quatro anos, e logo procuraste, com Carlos Martins, contactar em Lisboa com o grupo dos surrealistas, que acabara de publicar a importante colectânea Grifo. Qual o papel de António José Forte, que estivera em Portalegre na primeira metade da década de 60 e com o qual mantinhas um mínimo de proximidade, nesse primeiro contacto?

 

NS – O Forte deixara na cidade confrades com quem se continuava a corresponder: principalmente um João Silva, militante comunista com quem eu me passei a dar em largas conversas nas nossas horas nocturnas, entretidas no estabelecimento de electrodomésticos dum seu irmão e onde ele ajudava na contabilidade; e o seu ex-colega funcionário das carrinhas Gulbenkian Donato Faria, pessoa de cordialíssimo trato e firmes interesses culturais que me emprestava todos os livros disponíveis do acervo em armazém e, dessarte, me permitiu cimentar certos ritmos interiores. Por intermédio deste escrevemos ao Forte, que levou a carta aos outros confrades e, em resposta, marcaram-nos encontro para num determinado dia, a contento, nos encontrarmos todos no Café Monte Carlo, onde então tinham estabelecido uma tertúlia, digamos, ou pelo menos onde costumavam juntar-se habitualmente.

  Lá fomos no dia aprazado e encontrámos à nossa espera o Virgilio Martinho, o Ricarte-Dácio, o Ernesto Sampaio, o Forte. Recordo-me que o Pedro Oom chegou mais tarde bem como o Herberto Helder e, se bem me lembro, a Fernanda Alves, o Miguel Erlich e a mulher…

  Tínhamos-lhes enviado poemas meus e colagens do Carlos, à guisa de “cartão de apresentação” e tanto quanto me lembro eles ficaram logo a contar connosco para a “Grifo” número 2…que jamais saíu por impedimento da Pide ou da Censura.

 

3 Qual foi a tua impressão do grupo que se reunia no café Monte Carlo e como individualizas nele Pedro Oom, que viria a morrer pouco depois, em Abril de 1974, e que tinha mais vinte anos do que tu e vinha do primeiro período, que seria possível classificar de heróico, da afirmação surrealista em Portugal?

 

NS – A primeira impressão - e por mim falo - foi de que tínhamos encontrado pessoas com quem nos podíamos fazer entender…que nos entendiam.  Sentímos neles, de imediato, uma forte corrente de inteligência e de imaginação se assim me é dado exprimir. Ficámos logo à vontade…

  Pedro Oom era um poeta que pertencia um pouco à nossa iconologia pessoal e foi com certa emoção que nos vímos a conversar com ele de forma interessada e amena, pois ele apesar de agudo e brilhante era cordial e cordato. Não detectei em qualquer deles, aliás, sinais de pedantice ou a mínima sobranceria, antes um interesse afável pelos “moços” que de repente lhes chegavam trazendo algumas coisitas, o que no dizer lhano de Ricarte-Dácio não lhes costumava suceder vulgarmente.

  Os outros tinham pelo Pedro uma visível aceitação, as conversas de uns para os outros iam e vinham nas mais variadas direcções, esfuziavam por vezes com senso de humor ou com críticas e análises certeiras – o que se nos comprazia a valer não nos surpreendeu excessivamente: era isso que já esperávamos encontrar…ou sonháramos encontrar. Novos como éramos, apaixonados pela poesia e a arte, saímos dali rejubilando tanto mais que nos tinham aberto a porta para futuros encontros com extrema franqueza, sem marcações prévias…(Digo sem acinte, mas com frontalidade: na Paris de 1999 ao encontrar-me, aliás com cordialidade fornecida por Michel Lowy e outra conviva, com o Grupo surrealista que se reunia num café da Rua do Rivoli quase em frente da Tour Saint Jacques de iniciática memória e presença – fiquei admirado ao saber que, em determinados dias, as reuniões eram só para quem fosse mesmo membro do grupo. Formalismo muito gaulês? Talvez…).

 

 

4 Com o teu regresso a Portalegre dá-se a criação do “Bureau Surrealista do Alentejo”. Quais foram as acções e os membros deste grupo?

 

NS – “Bureau Surrealista Alentejano” mais simples e humildemente, se me permites a leve correcção…Para marcarmos que não nos atrevíamos a dizer que era de toda a província transtagana, faço-me entender? De 70 e pelos anos posteriores, o núcleo duro, ao qual por vezes se chegavam confrades curiosos ou artistas nas proximidades (lembro por exemplo o António Ventura - que com o pseudónimo de André Gameiro dedicou dois belos poemas a Manuel de Castro num periódico local - depois ido para os meios da docência universitária e da historiografia regionalista) era informalmente formado por mim, pelo Carlos Martins (que algum tempo depois se mudou de Lisboa para Santa Marta-Alcoutim, abrindo aí uma pequena galeria/atelier de cerâmica com sua mulher Ana dos Santos) pelo A.J.Silverberg, pelo Palácios da Silva, pelo Margarido Neves (falecido muito novo, a quem dediquei o meu poema “Defunto” de “Os objectos inquietantes” e que também alinhava comigo, como libertário, nos tratos políticos de Abril), como “alentejano itinerante” como ele dizia com humor o Lud (Ludgero Viegas Pinto) e, mais tarde, o João Garção.

  As acções levadas a efeito, conforme se podia ou nos era facultado, foram constituídas por exposições em locais diversos (Galeria Municipal portalegrense, Clube de Futebol do Alentejo, Biblioteca de Portalegre…), emissão de textos deste ou daquele talhe, pinturas e poemas inseridos aqui e acolá (“Distrito de Portalegre”, “A Rabeca”, “Diário de Lisboa”, “República”…), presenças em emissoras de rádio locais (Rádio Portalegre, Rádio S.Mamede…), participações em momentos de poesia e em publicações várias…edições reduzidas de livros copiografados…

 

 

5 Com a tua aproximação ao Mário Cesariny, que estava à margem do grupo que se reunia no Monte Carlo, o “Bureau Surrealista do Alentejo” transforma-se em “Bureau Surrealista Lisboa/Portalegre”. Como e quando conheceste Mário Cesariny e quais as principais acções do novo “Bureau” e até quando duraram?

 

NS – Conforme já o evoquei em texto dado a lume até nesta revista, conheci-o em Lisboa nos princípios de 79. Combinámos de imediato levar a efeito acções em conjunto. Através dos tempos, de início com maior frequência depois mais intermitentemente, emitímos textos, participámos em mostras por vezes estimuladas por nós (na Biblioteca de Portalegre, no Teatro Ibérico e na SNBA…) demos a lume poemas e prosas em publicações diversas, estivemos presentes em sessões (no cineclube de Portalegre que eu então assessorava, num salão de bombeiros em Alcântara através do grupo de teatro Mandrágora…), mantivemos relações com confrades estrangeiros, etc.

 

6 Assumindo-te como libertário, estabeleceste relações com o movimento libertário em Portugal depois do 25 de Abril de 1974 e chegaste a encarar uma colaboração estreita do “Bureau” com o jornal fundado por Francisco Quintal, Voz Anarquista. Conta-nos o que foi este projecto.

 

NS – Em certo dia, depois de colaborar com alguns textos diversos nesse periódico e também no “A Batalha”, como eu colaborava com poemas e prosas no “A Rabeca” (de que fora chefe-de-redacção em anterior gerência até ser “saneado à esquerda”, como então se dizia) e no “O Distrito de Portalegre”, sugeri a Francisco Quintal a publicação dum suplemento, numa folha e sobres, em que eu e o Mário daríamos a lume coisas de índole surrealista com incursões de outros autores que achássemos valiosos, numa prática abrangente.

  Ele concordou em levar a outros membros do jornal a nossa proposta, que em princípio aceitou. E nós juntámos material…No entanto, algum tempo mais tarde comunicou-me que o projecto talvez não se pudesse levar a cabo, pois o jornal era pequeno e o espaço fazia falta para artigos difundindo as ideias anarquistas por extenso. Claro que compreendêmos a sua deles opção e…não insistímos.

 

7 Outra colaboração que o “Bureau” chegou a encarar no após 25 de Abril com a imprensa libertária foi com o jornal A Batalha. Como conheceste Emídio Santana e que tipo de colaboração se estabeleceu entre vocês?

 

NS – Conheci Emídio Santana no decorrer, no final, duma sessão que já não recordo bem qual foi. Sei que o Margarido Neves, um jovem dinâmico e portalegrense como eu, me acompanhava, pois também vogava nas concepções libertárias e surreais. Ficámos a dormir em casa do Santana, que me pareceu ser um homem bom e cordial e cuja figura, ainda por cima, me surpreendeu por ser fisicamente muito parecido com o Breton…

  Publiquei em consequência no seu jornal alguns textos, mas nunca houve ensejo de lhe propormos a cedência de uma ou duas páginas para um suplemento. A anterior sugestão aos da “Voz” não surtira efeito…talvez por isso nada dissemos ao Santana. Ainda que o Mário, que encarava os confrades tanto da Voz como da Batalha como um todo, digamos – eram os confrades anarquistas e ele tinha globalmente apreço por eles, sem distinguir excessivamente que uns eram dum periódico e outros doutro – tenha arrolado material e pensado em juntar mais, doutros autores, para o darmos ali a lume por meu envio, como se fizera com outros textos.

 

8 Colaboraste ainda na revista A Ideia em 1981 com um texto que foi o primeiro que se publicou na revista sobre o movimento surrealista. Como se deu a tua aproximação à revista?

 

NS – Já não tenho bem presente que tipo de contactos, especificamente, foram efectivados…Só me lembro que num belo dia, recolhido algum material, enviei à revista esse acervo de coisas a que o Mário deu o seu aval com todo o gosto.

 

 

9 Houve colaborações entre o “Bureau” e outra imprensa libertária, que não estas três (Voz Anarquista, A Batalha e A Ideia)?

 

NS – Tanto quanto sei só eu publiquei, dentro de portas, num curioso mas efémero jornalzinho artístico libertário, “O Pasquim”, um par de textos e poemitas…Fora de portas, o Carlos Martins teve algumas ligações com periódicos espanhóis e do universo anglo-saxão, mas só pela rama as conheci. Quanto ao Mário, entretinha relacionamento com órgãos estrangeiros, mas não sei bem se, sendo surrealistas, tinham também uma orientação libertária ou mesmo francamente anarquista.

 

10 Como via Mário Cesariny as relações do surrealismo com a imprensa libertária?

 

NS – Do que me apercebi, com naturalidade cordial e interessada. Posso recordar-me que, quando lhe sugeri levarmos a proposta a Quintal - e o mesmo se passou com “A Ideia”- a sua reacção foi no estilo “com os anarcas, tudo”. Creio que é significativo e na verdade detectei nele o sentimento de que os anarquistas seriam os que veriam (pelo menos esperava-se ver neles confrades certos) os surrealistas como companheiros de jornada ainda que noutra dimensão, digamos.

 

11 André Breton publicou em 11 de Janeiro de 1952 no jornal Le Libertaire, no quadro da colaboração do grupo surrealista de Paris com a Federação Anarquista, um texto poético em prosa, “La Claire Tour”, mais tarde integrado no livro La Clé des Champs (1952), em que afirma que o surrealismo se viu pela primeira vez, de forma consciente, no espelho negro do anarquismo. Como vês a cooperação entre os dois movimentos?

 

NS – Vejo-a como criadora de imensas virtualidades. Os libertários, a meu ver, são os irmãos colaços dos surrealistas, em última análise os libertários/anarquistas e os surrealistas SÃO O ROSTO LUMINOSO DO FUTURO. No passado os surrealistas pensaram que os marxianos (pois uma intensa e hábil propaganda, a agit-prop dos partidões, forjava esse cenário) eram seus co-irmãos, companheiros de jornada com os quais poderiam ajudar a descoisificar o mundo. Falaz ingenuidade! Os tempos e a História mostraram que os “amanhãs que cantavam” eram não mais, afinal, que o ulular que subia do fundo dos cárceres para assombrar as gentes e aterrorizar as consciências livres.

   Hoje, que já se sabe tudo e o fascismo vermelho não mais pode erguer, senão com as fauces destapadas, o seu vulto equívoco e sinistro, compreende-se que nenhum autoritarismo, seja laico ou fideísta, pode agregar o surrealismo sequer como mero contrapeso, quanto mais como acompanhante…

  Breton concluiu-o, diria com estima, à sua custa. Nós, que tivemos a sorte de existir num mundo se não mais feliz e adequado pelo menos mais esclarecido, pois as décadas transcorreram, decerto não perderemos de vista essa lição!


quinta-feira, 9 de setembro de 2021

António Cândido Franco, Surrealismo e teatro em João Garção

 


Zuca Sardan



   O surrealismo em Portugal está ainda hoje largamente por estudar. O único grande estudo que hoje sobre ele existe data de há quase trinta anos. Refiro-me ao trabalho de Maria de Fátima Marinho, O Surrealismo em Portugal (1987), que, se tem o mérito de ter procedido a uma vastíssima recolha de elementos que doutro modo mais longínquos ficariam, não conseguiu ser o trabalho que Mário Cesariny aguardava com exaltação desde pelo menos 1971, altura em que estava para se fechar um quarto de século sobre o primeiro voo surrealista em Portugal. Nesse ano, a propósito da edição portuguesa d’O Amor Louco de André Breton, em tradução de Luiza Neto Jorge, pronunciou-se ele assim sobre o estado em que o luso surrealismo se encontrava ante a crítica: Temos pois de concluir que não interessamos. Também é certo que não estávamos interessados. De qualquer modo, não parece normal que em 24 anos de existência o surto surrealista não tenha levado as consciências a nenhuma espécie de ensaísmo, crítico, interpretativo, histórico ou lírico, quando vemos pletóricos de tais mimos nomes ou movimentos que entretanto se sucederam.

Mágoa? Decepção? Surpresa? Talvez – mas outrossim constatação de que estariam para chegar, como normal se lhe afigurava então, os estudos da lusa ensaística sobre o grande surto surrealista do final da década de 40 e primeira metade da seguinte. O trabalho que acabou por aparecer, e mesmo assim mais duma década e meia depois, foi o já citado de Maria de Fátima Marinho. Recentemente foi dada a conhecer uma carta datada de 1989, em que Mário Cesariny se pronunciou de forma muito dura sobre a investigação de Fátima Marinho. Cito (carta de Mário Cesariny a Ana Maria Pereirinha, 14-12-1989, in Delphica, 2, Braga, 2014, pp. 146-151): O trabalho da Maria de Fátima Marinho é de uma nulidade aflitiva. O único caso de informação-interpretação pessoal, tipo achega de inquiridor, que ela apresenta, é erro total.

Aceite-se ou não este juízo, e no nosso caso não aceitamos, pois prezamos no volume de 1987 um caudal informativo que não pode ser deixado de lado, chega ele para se perceber, quando se pensa que depois do trabalho de Fátima Marinho pouco se adiantou, o estado lastimável em que se acham os estudos do surrealismo em Portugal. E não obstante o silêncio e o vazio, não obstante o desinteresse e o abandono, o surrealismo entre nós foi um movimento riquíssimo, que revolucionou por dentro a criação poética e plástica, juntando em torno de si duas ou três gerações, todas marcadas por altos espíritos criadores, e acabando reconhecido pelos pares internacionais como uma das manifestações surrealistas mais significativas de sempre. Veja-se neste sentido a boa atenção que o Portugal surrealista mereceu ao trabalho de Adam Biro, de René Passeron e dos seus muitos colaboradores, em especial Édouard Jaguer, no Dictionnaire Général du Surréalisme et de ses Environs (PUF, 1984, pp. 464). 

Essas primeiras gerações surrealistas portuguesas, que actuaram no final da década de 40 e nas duas seguintes, deixaram em herança um vastíssimo legado, muito mais vivo hoje do que qualquer outro do seu tempo, mau grado a marginalidade em que viveram junto dos grupos que lhe foram coevos na sociedade portuguesa – os neo-realistas, os existencialistas, os católicos, os sartrianos, os marxistas, todos eles muito mais presentes que o pequeno grupo marginal (e quase invisível em termos de atenção mediática ou académica) dos surrealistas. Logo em 1952, no prefácio que escreveu para a estreia poética de Carlos Eurico da Costa, “A Volta do Filho Prólogo”, num momento em que estava pronto para edição o manifesto colectivo Afixação Proibida e António Maria Lisboa havia dado a conhecer parte do seu trabalho, já Cesariny estava consciente da nada ordinária novidade que o surrealismo trazia à poesia em português.

Eis porque o estudo de João Garção nos interessa. Seria porém injustíssimo pensar que este trabalho ganha o seu lugar junto do leitor apenas por se posicionar num terreno em que, apesar de riquíssimo, tão pouco há. Ainda que muito houvesse, este estudo não perdia interesse nem lugar. Dividido em três partes, ele apresenta, nas duas iniciais, que funcionam como espaço de introdução, uma excelente síntese sobre as principais linhas de força, tanto fora de portas como dentro, dum movimento em geral lido de forma muito pobre e reducionista como momento estético de entre as duas guerras do século XX. Todas as questões fundamentais do surrealismo (do sentido do automatismo às posições políticas) e todos os problemas da sua aculturação em Portugal (da ditadura aos antecedentes – posto que sem Teixeira de Pascoaes) nos aparecem aí discutidos com propriedade e feliz clareza. Em nenhum momento é desprezível o que se diz.

O coração deste estudo de João Garção, O Teatro Surrealista em Portugal, está porém na sua terceira parte, dedicado ao teatro surrealista português. Se o surrealismo é mal conhecido entre nós, o teatro surrealista em Portugal faz figura de intruso irreconhecível. Ninguém dá por ele; a bem dizer, não existe. Foi preciso esperar pelo estudo de João Garção, apresentado inicialmente como trabalho curricular na cadeira de História do Teatro (regida por José Oliveira Barata) do curso de História de Arte da Faculdade de Letras de Coimbra, no ano lectivo de 1989/1990, para se perceber a pertinência do tema e a sua extensão em nada menos do que seis autores.

Não se julgue pois que a questão do teatro seja de somenos no surrealismo. Manuel Granjeio Crespo, no texto que abre O Gigante Verde (1965), entrevista anterior ao Jornal de Letras e Artes (11-9-1963), diz assim (p. XI): Pena Capital do Cesariny, que eu considero um dos raros textos portugueses de grandes possibilidades teatrais. O mesmo se pode dizer para muitos textos poéticos de André Breton. No texto de 1971 atrás citado, Cesariny dava por sua vez a entender que Portugal, ao ler Breton, se estava a livrar do seu lirismo professo. Ao invés do que apressadamente se pensa, o surrealismo tem uma vocação dramática muito mais significativa do que lírica, que retoma ou remonta às origens da poesia como canto do bode.

Festeje-se pois o pioneirismo de João Garção e saúde-se a publicação em livro do seu trabalho – que reputamos importante para o desenvolvimento do estudo do surrealismo em Portugal, tanto mais que depois dele parece que nada mais se adiantou no domínio do teatro surrealista.

 

(Prefácio ao livro de JG “O teatro surrealista em Portugal”)

Colecção “Cadernos surrealistas sempre”, dirigida por Maria Estela Guedes

Editora “Apenas Livros”


quinta-feira, 3 de junho de 2021

Dois poemas de António Cândido Franco

 




A ILHA DOS AMORES

 

É nas torres solitárias que se guardam

os segredos

as chaves que permitem aceder

aos céus mais raros

 

A noite é uma misteriosa fiandeira

de brumas e de mantos

Os seus dedos têm ágeis rocas e

A sua carne não verte sangue. Redes

 

Prisões, sepulcros, penedos ocupam sempre

as arcas

que o sol procura além-degredo.

 

in “Arte Régia”

 



Leonora Carrington



A MÃO CINÉTICA DO AZAR

[Texto Automático]

 

Lacem o vão da sineta

E que a telha sonhe dar

Pevide na hora da vide

Mastodôntico oracular

 

Já nu vai o dormido

Chá no dedo com que murchar

Chupar solha de malha

Paredão de lã a masturbar

 

Macedónia de Adão doura

Zenão por um tubo tocar

Andaram archotes à sova

A vara hélice o via nadar

 

Louco feito a guiar azeite

O cabeção sexagenário

Ralha a puxar o malho

A cada Maio o seu ralo

 

Chaves coxas despenham

As velhas do Pragal

Na enxerga hóstias de banho

Anilhas de purga sal

 

Fecho pedrês em aço de seio

Os ossos põem a mandar

Breu que gira a subir

Insonsa língua de leão

 

Êxtase em saldos de sangue

Orifícios de progressão

Sapo salta navio alto

Tojeiro de mafarrico

 

Despi-me em mudo aviso

Ó neves para cá do salto

Calças pranto nos peitos

Jaz a eito o dom no bidé

 

Aos portões do tijolal

Hei visto o deus das minas

Tomei um lar em jornal

Eças e penas nas eiras

 

Estucha triste até voar

Homem parede a fugir

André por perto a coçar

Ameixa no vinho de Celas

 

Pura goela de Ksar

Anão careca vasos fala

Que lhos puxaram a gritar

De arte hei bombo e bala

 

Perna guelra sem esfolar

Na cana o céu que abala

Da mão rota de agarrar

Arde bem a ratoeira

 

Na nuca o espaço curar

Correm vozes na eira

Num Agosto de cortar

Nove têm onde é cheio

 

Mar de rei ressaca em asas

Pelo ar o malte a secar

Nevou a cobiça em Malta

Aquela mole a segurar

 

As migas à rés têm claras

Dentífrico demito de aldear

Alcácer cego temeu canteiro

Calvícies te deram o ar

 

Aluguer do Anão perneta

Panela de heras ao mar

Caxemira peixe e vinho

Nauta poço anda a caiar

 

Mete a manhã nos cordões

Derreado na vila do ar

Assobio ao mestre leal

Ícaro à mão em quarta meta

 

Dispara através do ar

A mão cinética do azar

Cai em cheio com desenho

Quatro varas a nevar

 

Meterás o laço pelo meio

Pinhão de bem vedar

Mauro capão esmeraldo

Sumaúma encanada

 

Vozeirão de Deus a fritar

Jejum de bingo doido na asa

Águia calma a jeito de arrombar

Calcei o urubu em catinga

 

Vernáculo chupa a podar

Sabe esperá-lo o mestre Elo

Haver bichas a dar dália

Arreios mete em Penélope


[Obtido por tradução fonética]


segunda-feira, 21 de setembro de 2020

Dois poemas de António Cândido Franco

 




GONÇALO DUARTE (1935-1986)

PROCURA-SE


Gonçalo Duarte

papagaio cinzento

com cauda bem vermelha

calção branco

pescoço sujo

mas acetinado

fugiu no sábado dia quatro

de maio

 

é sociável

tem olhar descansado

mas não dá a mão a ninguém

usa a destra para pintar

e a esquerda para agarrar

 

deve andar entre a Mouraria

o alto da igreja de São Mamede

e a frontaria

de Belas Artes

 

nos dias de Sol

gosta de se alcandorar nas partes altas

e nas noites de névoa e cinza

nas ravinas que dão para o rio

 

canta de madrugada

mas passa os dias no mesmo sítio

com a mãozinha levantada

pincel firme

a pintar o naufrágio de  Alcácer Quibir

 

agradece-se a quem souber do seu paradeiro

que contacte o restaurante Beira Gare

na esquina da estação do Rossio

 

 

António Cândido Franco

11 Abril de 2015

 

 

CAIXA DE VESTIR PARA DRAGÃO

DE CRUZEIRO SEIXAS

 

 

 

E tardou de mais ao nardo

na exigente nave fora e fartou-se

 

Tudo deu até margaça do Norte

foi sina possante nas Astúrias

 

Domara ao longo da sala um único verso

baliu raposa num revólver por púlpito na praça

 

Faro, faroleiro, o que está lá onde o mapa salga

 

De laço na aorta ia adiante

poço de ar com que fui ao Bei

 

Adonai dei e desandei

ardem-me tarte e boi-touro em meia hora

 

Tâmara de Ninive ó lãs ardentes

 

Ele dá-se ao desquite do idílio que se abana

na erva que passa

 

Cal será e não destapará para já o cabeção


António Cândido Franco

 

10/4/2016


quinta-feira, 14 de maio de 2020

Um poema de António Cândido Franco





Teixeira de Pascoaes


Passei a vida a falar de ti
e nada sei de ti.
Nunca falei contigo
e nunca te vi.

Passei a vida a falar dos teus livros
e nada sei deles.
Nunca te li.
Passei a vida a falar do teu verbo
e nunca te ouvi.

Passei a vida a falar da tua terra
e da tua casa
e nunca lá vivi.
Passei a vida a falar do pico da tua serra
e nunca lá fui.

Olho os teus olhos numa fotografia
a asa negra do cabelo
a testa fria
a finura dos lábios de papel
a brancura do rosto.
Contemplo a tua casa num postal
e fico abismado.
És para mim o absoluto desconhecido.

Quem és tu afinal?
Que livros são os teus?
Em que lugar moraste?
Que fundo poço há em ti?
Que escuridão é a tua?
Que corpo foi o teu?
Qual a terra que pisaste?
Que sentido tem o que escreveste?
Em que serra tu andaste?
E que vida tu viveste?
Que Lua contemplaste?
Que mistério tão escuro e tão grande foi o teu?

Outros e outros até ao fim
virão depois de mim
e sem melhor sorte
passarão os sóis a falar de ti

da tua casa e dos teus versos
a procurar a origem do teu rosto
e o pico da tua serra

no fim quando a noite chegar
e o osso da lua
os acompanhar no mar da morte
dirão assombrados como eu
que nada sabem de ti.

Tudo passa
e tudo esquece
a carne e o sangue
desaparecem na voragem das eras
as pedras e as cidades
desfazem-se em pó
tudo se perde
e tudo se vai
mas tu vences o tempo
atravessas as camadas do esquecimento
sobrevives às idades
levantas a mão
acenas um sinal e permaneces

vives para sempre
ignoto, oculto, imortal.

                                                        (2011)

                          (Poeta, ensaísta, novelista e investigador)

Aos confrades, amigos, adeptos e simpatizantes

     Devido a um problema informático de última hora, não nos será possível fazer a postagem desta semana.    Esperando resolvê-lo em breve,...