quinta-feira, 21 de janeiro de 2021

Para um minuto de meditação - 59

 

A vida não é um problema a ser resolvido, mas uma realidade a ser experimentada.

                                                                                          Soren Kierkegaard


Um poema de Philippe Denis

 

A JACQUES DUPIN

 

 

      1.   Sobre a vidraça coberta de névoa, quantas vezes

é preciso escrever a ausência?

 

Página sulcada de mãos.

 

Andorinha – de salto em salto – contigo

regresso   até à nascente.

 

Debaixo do arco convexo da ramaria

na planura, o riso dum camponês

antecipa a rudeza da subida.

 

Com eles me cruzo, na volta dos caminhos.

 

Minúsculos contactos que me dão

a sua silhueta.

 

O país mudou de língua, por estas veredas

quando às quintas se chega, um cão ladra

e disso me dou conta.

 

Palpitam as folhas duma planta – a ligeireza

de tudo o que a enquadra.

 

Zumbidos. Toda a noite. Insecto morto, afogado

no algodão da manhã.

 

Caminho que nos leva a esta trémula casa.

 

 

     2.  O vento sopra até junto desta palavra que as minhas

mãos mais não fazem que torcer para que delas saia

a inesperada frescura.

 

Planta abundante nos livros dos ervanários. E tudo

exulta sob o manto das árvores, entre a folhagem

pleno de inocência.

 

Doce piedade transbordante. Piedade

da outra metade do céu.

 

Purpúreo, nos dosséis silenciosos, o diálogo

das flores entre si.

 

            Vibrantes, estes nadas – que tudo tocam.

 

                                                                             in Éclogas (Eclogues)

 

Tradução de ns



 (Paris, 1950. A obra completa deste autor tem a chancela da Mercure de France. Viveu em Portugal e foi professor de língua e literatura francesas na universidade coimbrã).


Recordando...

 

   Fez há um par de dias um ano sobre o falecimento deste nosso confrade - poeta, cronista, viageiro, ensaísta e homem da rádio, além de cidadão interventivo.

  Aqui o recordamos e à sua postura de pessoa sempre cordial e participativa.






Nuno Rebocho – Um convivente goliardo moderno

 

   “Muitos são os benefícios de viajar: a frescura que nos traz ao espírito, ver e ouvir coisas maravilhosas, a delícia de contemplar novos lugares, o encontro com novos amigos e o aprender finas maneiras”

                                                                          Muslih-din-Saadi, poeta persa

 

1.

   Dizia Samuel Clemens (Mark Twain), também ele viajante e cronista devido a decisão própria e, durante algum tempo, viageiro por profissão, que viajar era passear um sonho.

   E acrescentou que a escrita que daí resulta passa a ser o sonho transfigurado, com o seu território de realidades e de quimeras, de minutos que se abriram para novas visões e novos pensamentos e doravante perduram como relatos que nos ensinam e nos maravilham.

   Andar pelo mundo e pela vida e escrever sobre isso – pessoas, coisas, sucessos da mais diversa ordem – não é fácil tarefa, é preciso manter simultaneamente a inocência (temperada por alguma malícia), a perspicácia e um enorme sangue-frio, pois sem aviso as recordações apoderam-se de nós e como que nos obrigam a passar para outra realidade, em geral extremamente sedutora mas que nos enfeitiça com inexactidões involuntárias, filhas do nosso mistério pessoal. Por isso Benjamin Disraeli dizia avisadamente que “vi mais coisas do que as que recordo e recordo mais coisas do que as que vi”. Todavia, a grande solução consiste sempre em entrarmos generosamente na viagem, sem temermos a multiplicação de experiências, até mesmo de acasos, pois sabe-se que no final a escrita e seus interiores meandros – se dispomos da adequada dose de sensatez criadora – acabam por depurar, resolver e transfigurar aquilo que se viu, se sentiu e se viveu, como que por uma brusca mutação que vem não se sabe muito bem donde.

   E depois há a memória que se convoca nos grandes momentos de fecunda solidão, de fulgurante isolamento criativo em que somos simultaneamente objecto e sujeito porque é por nós que passa a organização do que significam realmente as lembranças, do que foram efectivamente os perfis das gentes que nos rodearam, os tempos reencontrados em que revivemos uma conversa, um ritmo vital, um passeio, em que de repente ressuscitam perplexidades e encantamentos, fragmentos de tempo em que a nostalgia nos visitou sem que nos pudéssemos esquivar e que logo a seguir assumimos peremptoriamente como um dos nossos maiores bens.

   A isto, creio, chama-se compreender. Porque por detrás de toda a alegria difusa transportada numa evocação, ou em todo o pequeno tremor que nos assalta ao termos a sensação de que qualquer coisa nos abandonou, há sempre um rosto ou a ideia de que por ali paira algo de humanizado e aonde se chegou através de um olhar mais exacto, mais treinado pelos mundos onde se esteve por destino e pelos universos que as deambulações nos propiciaram.

 

2.

   Já se sabe que a arte da crónica não é nem nunca foi uma arte menor ou muito menos mero preâmbulo para qualquer coisa de maior envergadura. Trata-se, com efeito, de um corpo inteiro que se joga ali mesmo, nesse continente de luzes e sombras onde crescem deuses e demónios inteiramente nascidos da realidade que se forja com os factos arrolados e sua representação palpável. Ou seja, uma poesia muito própria e sem sujeições a outras escritas aparentemente de maior porte no arsenal do autor.

   Cronista e ser convivente, o viajeiro de “Estravagários” – estas crónicas belamente poéticas sobre o Alentejo real que os sonhos perduráveis do autor encenaram – tem parentes perfeitamente reconhecíveis, ainda que seja seu e muito próprio o estilo que arrola entre o alinhavo jornalístico e o desalinhavo livresco. São os amantes dos prazeres do espírito – e dos outros que gostosamente passam pelo corpo e a que alguns, com certa dose de leviandade, apelidam de transitórios ou baixamente materiais. Em todas as evocações de NR se sente perpassar uma clara alegria de viver, ainda que cifrada por alguma melancolia; donde o gosto pela boa mesa, por exemplo, não se ausenta nunca – e repare-se que aquela expressão vai no sentido lato. O espírito do lugar, que é o das pessoas que o habitam, é bem palpável com todo o seu manancial de coisas essenciais que vivem intensamente se tivermos olhos para cheirar, ouvidos para ver e alma para saborear. Nas crónicas de Nuno Rebocho, colega evidente de Goldoni, Hazlitt, Cela ou Saroyan, sente-se que as pessoas que recorda e os acontecimentos a que dá relevo não estão ali como pretextos fantasmais para umas tantas laudas literatas, mas para habitarem o quotidiano deste seduzido sedutor. Caldeados pelo pormenor argutamente observado, pelo trecho recortado com ironia, pela frase incisiva e mediada quantas vezes por uma indisfarçável comoção, cobram vida relatos donde pode extrair-se um perfume de passados finalmente refigurados e limpos da escória que o tempo lhes fez adquirir, de coisas e de momentos que se vão esquecendo e de outros que, embora existindo ainda na hora que passa, irão ser pasto para esquecimentos futuros.

   Com estas crónicas, onde freme um tom pessoal e que possuem aquele sabor coloquial que a profissão do autor certifica e esclarece, mediante a maneira peculiar onde se desenha a sua aposta e o nosso privilégio Nuno Rebocho presta inquestionável serviço à nossa convivencialidade humana e cultural, à nossa memória específica de povo e ao nosso aprumo de pessoas que querem lembrar o melhor e o mais alto.

 

                                                                                                       ns


Georges Brassens, Les copains d'abord

 



segunda-feira, 18 de janeiro de 2021

Para um minuto de meditação - 58

 

   O Antigo Testamento é um compêndio de crimes contra a humanidade. É um resumo de genocídio, extermínio, feminicídio, infanticídio, e tudo com agravante de crueldade gratuita promulgados sob base étnica. A Bíblia não é um livro sagrado e não fala de Deus. Quem afirma tudo isso é Mauro Biglino, estudioso da história das religiões. Trabalhou como tradutor do Antigo Testamento para Edizioni San Paolo (Itália). Seu contrato de trabalho se encerra assim que sua carreira de escritor teve início pois revela descobertas surpreendentes, feitas em 30 anos de análise dos assim ditos Textos Sagrados, que desde sempre são mantidas às escondidas.

                                                                                             Jussara Matana


Cristino Cortes, Três poemas


 VISÃO


Debaixo de chuva és o sol, ele te aquece

Te alegra, e uma luz tu irradias;
Tu transfiguras o cinzento destes dias
E a sua razão, por tão natural, te esquece.

De todo imune às circunstâncias exteriores
Essa luz nasce em ti, alumia, está dentro
Não é reflectida. És tu própria o centro
Do júbilo suplantando todos os favores…

Debaixo de chuva, sim, sem te aperceberes
Tu transportas, inteiro o sol, brilha, só
Aparentemente encoberto. Qual a mó
Que ao moinho não pergunta seus funcionares

Nada, bem o sei, te espanta ou arrefece.
Por entre a chuva espelhas o sol. E aqueces.

 

                                              *

SONETO CAMONIANO

 

Mudam-se os tempos mudam-se as vontades
Permanecem os problemas e as confusões
- Jamais um homem se perdeu nas multidões
O vão propósito jamais ergueu uma cidade!

 

Todos os meses há chatices coisas certas
Para um dinheiro visivelmente minguante;
Desculpem-me o facto comezinho e rastejante
Possa Camões perdoar estas musas e suas ofertas!

 

Mas é este um canto nobre e digno, e até ver
Também aqui a pressão do concreto queima a asa
De quem teve um grande sonho mas ficou em casa

- Não se perdeu, ainda não, o hábito de comer!


Mudam-se os tempos e às vezes as vontades mudam
Só o homem permanece – e as questões que o animam.

 

                                              *

VER CHOVER

 

Como é bom, oh meus amigos, aqui, deste lado de dentro
Simplesmente ver chover! É uma paz na alma, riqueza
Assim regular e certinha, na vertical, beleza
Da água tudo abençoando, do Norte ao Sul e ao Centro!

Também nas Ilhas, diz-se. É pois bem geral este espectáculo
Com a natureza alguém por inteiro se deleitar!
No meu caso é o azado pretexto para me esquivar
A outras obrigações, louvado seja o líquido obstáculo!

E vejo chover, oh meus amigos, simplesmente chover
Pelas persianas abertas, a vidraça enfim lavada;
Vejo chover na mesma alegria com que a neve é recordada
__ Alma de camponês que no fundo jamais deixei de ter…

Chova pois, esta água é vida, não é de mais, vazias
Talvez as albufeiras, cheios e molhados estes dias.

 


Nicolau Saião, Em tempo de coronavírus: Para desmascarar o vírus da beatice

 


ns



  Há, na verdade, muitos vírus que durante demasiado tempo têm prejudicado a humanidade.   

  Um deles é o vírus das burlas que, incrementadas por instituições “religiosas” e seus áulicos, manipulam o ser humano no sentido de o controlarem e se servirem dele como objecto do seu poder discricionário e totalitário, abusando sem ética da sua boa-vontade e da sua inocência ante os conceitos mais profundos que espiritualmente lhe são próprios.

  Em 2010, o especialista em hebraico e grego Doutor Mauro Biglino - depois de durante algumas décadas ter traduzido para as Edições São Paulo diversos textos a partir do original hebraico - deu-se conta de que algo não batia certo: as Bíblias que temos em casa, mediante traduções orientadas e organizadas de forma capciosa pela teologia, muitas vezes através de interpolações falsas e posteriores, estabeleciam um relato ora insensato ora tendencioso visando encenar sobre o chamado Cânone uma historieta tendo como figura central uma personagem alcandorada em deus do qual, a partir daí, surgiria como consequência uma religião – primeiro com o paulinismo e depois com o constantinismo – que se constituiria como o sujeito e o âmago do mundo ocidental e, seguidamente, tentou e ainda tenta dominar o universo, espalhando-se (por vezes mediante violência) pelos outros continentes e civilizações.

   Mauro Biglino, num acto vincadamente demopédico, correndo os riscos de ser caluniado, difamado e até ameaçado na sua existência pelos próceres vaticanistas e derivados, iniciou um trabalho de base que consiste apenas nisto: ler e dar a ler o conjunto de livros, denominados Bíblia, na sua integridade e realidade conceptual, sem as fantasias que os teólogos, a princípio com ingenuidade convenhamos, mas seguidamente com impostura e autoritarismo astucioso, têm cinicamente proposto à Humanidade.

  Claro que, a partir daquela data, o Autor de diversos livros iluminantes (“A Bíblia não é um livro sagrado”, “A Bíblia não fala de Deus”, “O falso Testamento”…), não mais pôde publicar qualquer trabalho na Editora São Paolo. Mais: ainda que atacado ferozmente pelos beatos e outros burlões fideístas - e dado que hoje já não é viável a Inquisição oficial, pois vive-se em democracia e as suas constituições não impõem o imperativo papal, antes defendem a liberdade de expressão e opinião – Mauro Biglino tem efectuado conferências sucessivas em diferentes partes do mundo, nas quais com respeito e tranquilidade – apanágio dos espíritos éticos e superiores – tem dado nota das suas constatações e descobertas. Não defendendo, sublinhemo-lo, nenhuma tese – mas “limitando-se” à leitura sem efabulações fantasistas e mentirosas do que naquela originalmente está posto.

   O que basta, é o suficiente, para desvelar a impostura secular.

   O vídeo que aqui se deixa, com o abraço a todas as sãs consciências dos confrades, conta com a tradução das legendas da publicista brasileira Jussara Matana e tem estado patente no Youtube, bem assim como diversas outras conferências e entrevistas do estudioso italiano, que vos suscitamos a ver.

                                                                                                                 ns


Mauro Biglino, A Bíblia não é um livro sagrado

 



quinta-feira, 14 de janeiro de 2021

Para um minuto de meditação - 57

 

    A História de ontem elucida-nos sobre factos de hoje: Jerónimo é um filho espiritual de Robespierre, Sócrates de Talleyrand assim como Costa o é de Fouché. Com uma pequena diferença apenas: enquanto Robespierre, Talleyrand e Fouché eram “filhos do século”, Jerónimo, Costa e Sócrates são filhos do regime, deste regime luso.

    Mais: nem Jerónimo, Sócrates ou Costa poderiam surgir num outro país ocidental; são produto retintamente lusitano, com a sua sede de totalitarismo, aumento de numerário e desejo infrene de poder. São o sinal claro da ausência de democraticidade, de falência moral, são o símbolo de uma nação onde a perfídia rasteira, o aventureirismo político e a manha ocuparam o quotidiano do activismo e da governação.

                                                                                   José Bernardo da Gama


Um poema de José Carlos Costa Marques

 

Trovoada

 

Baixaram já as águas das primeiras tempestades

de outono, refluíram para o vale e nos deixaram

gravetos, terras desmoronadas, latas e desperdícios

que não conseguimos identificar; o sol dispersa

nuvens de chumbo e enxuga o que resta das chuvas

repentinas; e, entre os destroços, enquanto distraídas

crianças brincam sem que a paz lhe perturbem,

jaz o cadáver de um verde translúcido contra o cimento

de uma pequena rã, seis centímetros longitudinais

há pouco ainda vivos, na perfeita simetria da posição natatória,

pernas flectidas como as nossas se flectem,

inteiro ainda e incorrupto o corpo diminuto e espalmado,

na harmonia de quem pelo charco avança naquele preciso

instante em que o impulso vai, de um salto, levá-la mais à frente.

E o verde translúcido por entre dois ou três matizes desiguais

ali permanece, naquele instante em que a vida já não está

e a podridão não começou, e no entanto se anuncia,

duas ou três formigas afadigadas exploram já as cercanias

e os exércitos numerosos não tardarão a surgir,

em hordas disciplinadas, na sua misericordiosa tarefa de limpeza.

E nós, sobre o cimento, quando as crianças, desatentas,

intensamente se concentram na sua conversa a fingir,

tão verdadeira, nós inclinamo-nos, e uma última

lembrança dedicamos àquele momento vivo de tão verde,

tão igual ao nosso momento breve, e em quem ninguém mais pensou.


Nicolau Saião, Dois retratos

 


ns


A Velhota das Estrelas – Vendia-as, estrelas de farinha e açúcar com ervas de cheiro a condimentar, em loja modesta de frutas e legumes num recanto escuso duma rua improvável. É que se apanhava com o aroma das laranjas, queijos, nabiças, de repente – pois a lojeca ficava numa curva onde não se esperava que estivesse. Para mim, contudo, cheiros compensadores, límpidos para gente que goste de bosques, quintas e hortejos. Hoje a loja desapareceu, engolida pelos quotidianos desesperados. E, para minha maior mágoa e ligeira fúria, nem sequer lhe deram sumiço mediante um bar finório ou uma taberna manhosa - limitaram-se a fechar a grossa porta pintada de castanho. Já entenderam o porquê da fúria: é que me ficou ali como um cadáver requentado, absolutamente cegueta e mudo. E, clarete, nem valeria a pena rebentar a porta à patada para, ao entrar-se, apanhar a adolescência evolada numa das prateleiras vazias.

   Mulher de preto, a cara era como se diz um pergaminho. Não faria êxito num moderno supermercado. Lenço na cabeça, as mãos grosseiras de quem sabe dosear o doce nos caminhos da vida e nos bolos de canela, de arroz e nas leves boleimas ou, como em outros lugares se crismam, enxovalhadas. Muito calada, um ar grave de pessoa que tivera ou passara mundo. Passara, não passara – quem lho iria perguntar?

   Desapareceu andava eu no fim das secundárias, que nas primárias a filava manhã sim manhã sim, com os meus tostões prontos para amendoins e as tais estrelitas, bolo de canela que ainda hoje move a minha gula saudosa. Escrupulosa nos trocos, duvido que alguma vez tivesse enganado algum petiz ou graúdo mesmo com distracções pelo meio. Fiquei-lhe devendo muitos minutos de gozo mastigador. E a não menor delícia daquele ar bondoso de aia exilada. E um resto impalpável, um não-sei-quê de desventura ou íntima tristeza. Cá para mim aquilo não era comércio, era puro destino fixado em dias ora melancólicos ora decididamente alegres oferecidos de graça, nos dias ensolarados, aos passantes fixos e descontínuos. E como deixar em escrita aquele silêncio interior, aquele perfume de realidade real que, agora, sei que gozei nos meridianos da doçaria humilde mediante esses contactos matinais, pensava eu que fortuitos e já perdidos no tempo?

  Hoje já não há por aqui lojas daquelas. A última que naquele estilo conheci foi uma taberna na rua do Mercado, transformada ao presente em quitanda com luzes e balcão moderno. Curiosamente, também gerida nesses outroras por uma velhota parecida no pormenor, de perna arrastada e trajando de escuro.

  Coincidências temporais, quero crer, numa cidade com viúvas para dar e vender. 

 

O Tio Pequenino -  Homem do campo dos seus quarentas/cinquentas, topava a sua figura pequena e escorreita em todas as Feiras (das cebolas, das cerejas) e em tudo o que era festa ou romaria (do Bonfim, do Reguengo, da Sant’Ana, da Ribeira de Nisa, do Senhor dos Aflitos) onde eu me deslocava canonicamente acompanhando os pais e vizinhos com quem se fraternizava. Correctamente vestido, muito direito e asseado, notava-se que tinha nos ombros e nas mãos fortes e calejadas os sóis e os trabalhos da quinta ou da horta, do romper do dia ao cair da noitinha. Era proverbial, a certa altura, na barraca dos comes-e-bebes escorripichando com denodo e aprumo o seu tintol acompanhado de viandas delicadas como o costado, a isca, o peixe frito…

  Nunca com ele troquei palavra ou aceno que fôssem. Nunca soube a sua graça ou a quem pertenceria e em que courelas granjearia o seu pão. Até um dia, mas já lá vamos. Para mim era apenas, com toda a velada simpatia interior, o “tio Pequenino” e bastava-me esta alcunha p’ra meus internos usos. Muito cordial e respeitador, tratava com cortesia, numa voz suave e campesina, os convivas avulsos. E a sua cara escanhoada e seca abria-se às vezes num leve sorriso de singeleza. A partir de certa altura, enquanto eu crescia e passava de infante a adolescente e de adolescente a adulto, como que deixou de fazer anos. Imutável, sentia-o deslocar-se através dos tempos como uma presença pacífica e serena. E que alegria eu senti, depois de ter voltado da loucura da guerra com a inocência feita em fanicos, quando um dia na Festa dos Aventais topei encostado ao balcão de tábua duma barraca bendita o meu “tio Pequenino”, que com grisalha convicção atirava a terra uma sandes de lombo de lindo recorte!

  Se a festa era na cidade, digamos a do Senhor dos Passos, “tio Pequenino” deslocava-se ao Largo da Sé a mercar o seu torrão de Alicante e a sua boa ervilhana na barraquita posta rés-vés ao edifício dos Paços do Conselho. Sempre composto, sempre urbano e solitário nas suas andanças todavia comparticipativas. Também o via às vezes no mercado municipal (um dos meus locais sagrados) falando com este-aquele hortelão seu companheiro de labutas – mirando este figo, relanceando aquela meloa, apreciando esta couve…Eu era visto e achado, principalmente nos sábados, a deambular circulando o edifício da Praça. Coisa que ainda hoje, que já vivo por bandas vitais muito distantes, é um dos meus grandes gostos. E – cabeçorra distraída -  também era meu colega na ida à massa-frita, ao santo brinhol acompanhado pelas canecas de café de cafeteira, fracote mas com um sabor que nunca mais, minha mágoa, terei na vida…

   Ora um dia, passeando de carro (emprestado) com a família, teria eu uns dezanove anos, o meu primo que guiava fez-nos ir ter a um lugar que não conhecíamos bem, em busca de um outro parente de raspão, desses em sétimo grau mas que são indispensáveis. O meu pai desceu do automóvel e abeirou-se de um murozito de pedra em cujo lado de lá um hortelãozito, tapado com um velho chapeirão, mourejava ali à beira e perguntou-lhe sobre a morada do tal parente. O trabucador aprochegou-se, descobriu-se…e era o “tio Pequenino”, que em frases curtas e apropriadas iluminou a informação. Soube então que era dali que ele partia para as suas incursões festivas! E sem me dirigir palavra, num diálogo mudo, percebi nos seus olhos plácidos que também me reconhecera. Foi, durante um segundo, uma espécie de cumplicidade. Senti que ele pensara: “Olha…este é o tal…”. Que eu, para ele, devia ser o que ele era para mim – presença sentida aqui e acolá de seres que passam quase ao mesmo tempo pela Terra irmanados num destino comum de jamais trocarem palavra. Coisas da sociedade e dos acasos, diria eu.

   Mais tarde – já ele começava a transformar-se numa presença esfumada – desapareceu-me do horizonte. Soube depois, ao folhear um periódico com a data já requentada, que morrera. A foto lá estava, era o “tio Pequenino” dos meus tempos de criança transfigurado em eternidade pela necrologia noticiosa. Ficou-me um nó na garganta, que a morte tem destes desembaraços: traz de súbito à nossa comoção uma figura de outrora, como se o olhar se irmanasse com a saudade dos tempos idos. Como, afinal, cumpre a quem vive, mesmo que virtualmente, como retrato perpétuo e inesquecível.

 

ns

in “Retratos de fantasmas nítidos”


Salvatore Adamo, C'est ma vie

 



segunda-feira, 11 de janeiro de 2021

Para um minuto de meditação - 56

 


ns



    Portugal país de Direito…

“ (…)  Aliás, na Justiça o PS manda desde sempre, praticamente desde o tempo em que Almeida Santos e outros (Cunha Rodrigues...) gizaram o sistema que temos na magistratura e afins CEJ e lugares comuns. 
Porque é que o Fripó foi o que foi e o Face Oculta o que tem sido e o Casa Pia antes disso o que era e ainda o Marquês o que é, mais o que se passou na mais grave violação de segredo de justiça de que há memória em Portugal (no Face Oculta), protagonizada por alguém que ficou por identificar e talvez o pudesse ter sido, mas certos magistrados do MºPº preferiram arquivar, não investigando mais fundo do que fizeram? 

   A magistratura portuguesa está desde há décadas minada por estes indivíduos que se associam ao poder do PS para ascender em carreiras hierárquicas ou de concursos "à medida", prebendas avulsas ou carreiras de STJ e outros lugares apetecidos. 

   Basta pegar num qualquer nome que tenha sido escolhido para determinadas funções de Estado (PGR, dirigentes de órgãos Reguladores, SIS, SIRP, Secretarias de Estado, ministérios variados com direcções-gerais, actuais e passadas) e o padrão ajusta-se: nepotismo e corrupção políticas de mãos dadas nas escolhas dos nomes certos e convenientes, mesmo sem tal efeito perverso porque o poder político escolhe quem mais lhe agrada e por isso procura saber se a pessoa escolhida será agradável, além de útil.  A corrupção é essa: escolher em função de interesses políticos. Estão habituados a escolher segundo tais critérios chefes de gabinete ou secretários e aplicam a mesma receita em tais casos por pura perversão e hábito. Apuram o olfacto político para descobrir se o indigitado é dos "nossos" ou dos "deles" e escolhem com a naturalidade de sempre, procurando esconder o gato que por vezes se põe a miar como desalmado.  

   Como se faz isto? Simples: através do sistema de contactos cada vez mais aprimorado. Quem nomeia escolhe por indicação ou preferência própria, baseando-se numa legitimidade formal. Sendo o país pequeno e sendo os nomes disponíveis em número restrito, apenas se torna necessário salvar as aparências solicitando pareceres convenientes a quem de direito escolhido para tal, ou procedimentos formais que apenas se destinam a garantir o sucesso na escolha sem suspeitas de maior. (…)”- José P. Loja                                                                                                         

                                                                                Jorge Gaillard Nogueira


José do Carmo Francisco, Poema autógrafo para Ana Santos Barros

 

Fotografia de Ivone Chinita Santos Barros



Partimos sempre de fotografias

Mesmo que não haja películas

Ou os negativos para revelar.

Às vezes é uma memória feliz

Encontro no balcão dum Banco

Almoço no refeitório das Caixas.

Neste caso seria Jardim da Estrela

Tudo nos quatro a preto e banco

E uma das meninas está de vestido.

Terá sido em 1983 e está tudo igual

No Jardim, nas ruas e nas sombras

Que envolvem as legendas do filme.

Será isso afinal: somos só memória

Porque o nosso passado não passou

E está à porta do Jardim da Estrela.

 

                                   José do Carmo Francisco 


José do Carmo Francisco, Crónica para o louvor do fim da tarde

 




O dia que se despede na linha do horizonte faz lembrar de imediato a memória de um poema de Carlos de Oliveira: «A noite é a nossa dádiva de Sol aos que vivem do outro lado da Terra». Podem chamar-lhe «crepúsculo» mas quem, como eu, nasceu em Santa Catarina que fica a oito quilómetros do Oceano Atlântico, ouviu as ondas em rebentação ao largo de São Martinho do Porto e, em certas tardes de vento, o comboio ou a automotora da Linha do Oeste cujo apito anunciava quase sempre chuva no outro dia, só pode chamar a esta como que oração sem palavras, um «pôr do Sol». (Se levasse hífen era uma refeição mas isso é outra história)

Não se vê mas está presente na foto um perfil de mulher como se fosse uma vírgula feliz no discurso do Tempo, uma pausa na voz da Terra que canta o louvor da abundância e da prosperidade onde antes havia apenas escassez e desolação. Na alegria convocada pela mulher de perfil está uma abundante colheita de ternura a distribuir por igual pelas crianças que ainda acreditam em unicórnios e dinossauros. As crianças, essas crianças, sabem no seu tempo veloz de brincar que tudo tem valor mas nada tem preço no seu mundo de todos os dias – nem os beijos nem as lágrimas. Como se fosse no palco de um teatro, a cortina da noite desce aos poucos por sobre a massa líquida da Lagoa em repouso. Lagoa ou Mar, tanto faz para a organização do texto. O essencial é a sugestão da mulher cujo nome tem o peso da Terra e o mistério da Harmonia. O seu rosto contém a mistura feliz entre o ruído e o silêncio, a ruptura e a placidez, a luz e a sombra, a força e a fragilidade do seu olhar e do meu discurso simples mas ambicioso à procura de juntar de novo vários mundos separados pelo Tempo.  

                                                                                                                      JCF


Canções da guerra civil espanhola, Si mi quieres escribir

 



quinta-feira, 7 de janeiro de 2021

Para um minuto de meditação - 55

 

  Agora que em maioria os “órgãos de comunicação” (jornais, rádio, TV) não são mais que simples e despudorados veículos da propaganda do regime, frequentemente descarada com activistas políticos travestidos de jornalistas, há que manter e mesmo incrementar uma lucidez digna e filha da capacidade de nos negarmos a ser indivíduos sem carácter, inteiramente manipuláveis.

                                                                                Manuel Carreira Viana


Um poema de Léopold S. Senghor

 

PARA UMA JOVEM NEGRA DE CALCANHAR RÓSEO

 

No céu primitivo erguem-se imaculados os cantos dos pássaros

e o fresco cheiro da erva ágil com eles se ergue, Abril.

Ouço o respirar prof 

 undo da madrugada movendo as nuvens

brancas dos cortinados

e escuto a canção do sol nos taipais das janelas

melodiosas.

Sinto como que um hálito ou uma recordação de Naett

na minha nuca apaixonada e nua

E o meu sangue cúmplice, a despeito de mim, chocalha-me

nas veias.

És tu, minha amiga – ô! Escuta os suspiros    escuta

os quentes suspiros neste Abril dum continente novo

Oh escuta, enquanto deslizam, no gelado azul, as asas

das andorinhas migratórias

e não te esqueça ouvir o murmúrio negro e branco das aves

de arribação

horizontais no extremo das suas velas desdobradas.

 

Escuta a mensagem da Primavera duma outra idade, dum outro

mundo

Escuta a mensagem da África longínqua e velha e a canção

do teu sangue

Pois eu estou ouvindo a seiva de Abril que nas tuas veias

 

cantando me desafia.

 

                                                              in “Cântico da Primavera”

João Garção, O rapaz e o cão

 


João Garção, Sem título


Quando o cortejo de jornalistas finalmente abandonou a Sala de Imprensa, saiu por sua vez e dirigiu-se ao seu gabinete. Desejava beber um belo whisky, em jeito de reconforto pelo esforço que fizera para aparecer diante das câmaras de televisão com um ar interessado e confiante. Com o copo na mão e o nó da gravata desfeito, acercou-se da janela. Lá fora, os cacilheiros faziam a ligação com a outra margem e as águas estavam acinzentadas e lúgubres. Uma chuva miudinha perseguia os transeuntes apressados. Assoou-se. Enquanto dobrava o lenço branco, meticulosamente como era seu hábito, espreitou pelo canto do olho para a aglomeração de gente que se tinha formado em redor do velhote que acabara de ser atropelado. Um chiar de pneus e um barulho de motor indicavam que o dono do veículo se tinha posto em fuga. Conseguiu ainda ver o pequeno automóvel vermelho a saltitar pelo meio dos outros carros numa fuga desesperada. Pigarreou, pousou o copo e arranjou-se para ir para casa.

À saída, não deu as boas-noites ao porteiro que, deferente (ou deveria dizer-se antes subserviente?...) lhe abriu a enorme porta envidraçada com o habitual salamaleque ridículo e com o tradicional sorriso forçado na face impecavelmente barbeada.

Cá fora, puxou para cima a gola do sobretudo. Tinha a garganta frágil e sempre que se resfriava a sua voz, na rádio, soava-lhe como a daqueles bêbedos que, das mesas do fundo das tabernas, subitamente acordam e, com os olhos semicerrados e a voz insegura e rouca, pedem outra garrafa.

Mandou embora o motorista e o guarda-costas que nos períodos de maior contestação social habitualmente o acompanhava. Queria ser visto a caminhar sozinho pelas ruas como qualquer outro cidadão pois de manhã, no Hemiciclo, fora acusado pela oposição de fazer as compras de Natal rodeado de dois espadaúdos guarda-costas. Ele, que os seus colegas europeus sempre elogiavam por continuar a ir aos mesmos centros comerciais que já frequentava antes de ocupar aquele importante cargo!... Sabia, obviamente, que acusações daquele tipo eram indispensáveis no jogo político. No entanto, porque o tinham como alvo, ao fim destes anos todos de vida política ainda as achava desagradáveis.

Caminhou sob as arcadas para se resguardar da chuva tanto quanto possível. Entrou no "Martinho" para se mostrar e pediu uma 'Água das Pedras' com uma polidez por ventura excessiva, mas queria agradar. Um cauteleiro aproximou-se e tentou vender-lhe jogo. Tinha uma pala no olho direito e uma prótese abaixo do joelho esquerdo substituía o resto da perna. Parecia o produto duma mistura de Camões com o pirata da "Ilha do Tesouro", pensou. Só lhe faltava o papagaio... O homem começou subitamente a tossir com tal veemência que parecia decidido a expelir os pulmões a qualquer preço. Afastou-se com um salto, horrorizado e receoso de contrair alguma doença. Raio do Homem! Ir tossir para um sítio daqueles! Não podia, muito simplesmente, ser educado e ir libertar os seus micróbios para outro lado?

Engoliu o resto da água à pressa e saiu. Ali perto, numa banca de jornais, uma mulher gorda com varizes do tamanho de minhocas bem alimentadas afastou um cão vadio com um pontapé bem colocado. O animal acabara de defecar mesmo entre as pilhas dos jornais OTradicional e o A Luta. "Eis um bicho indeciso e com convicções políticas pouco profundas...", disse para si. Sorriu da piada que acabara de inventar e lamentou que o seu secretário não estivesse ali com ele para que pudesse coroar a graça com uma gargalhada sonora e bajuladora. Enquanto andava, observou ainda o cão que, mais longe da banca de jornais, começou a raspar no chão, satisfazendo o instinto. Foi reflectindo sobre a atitude do animal: este bicho tinha sobreposto o seu instinto à eficácia do seu gesto. Determinara a sua acção, portanto, mais por influências hereditárias do que por uma questão de utilidade. O gesto inútil de raspar no chão longe dos excrementos sobrepusera-se porque a voz da raça falara mais alto do que a voz da razão! Sentiu uma forte afinidade sentimental para com o cão. Na verdade, também ele, como político, era determinado a tomar certas medidas inúteis e a encetar acções sem qualquer eficácia para a melhoria do corpo social da Nação, as quais, no entanto, não podiam deixar de ser tomadas já que, em política, o mais importante é o que parece e não o que é!

Estes raciocínios foram interrompidos quando sentiu o chão fugir-lhe sob os pés. Deu consigo estatelado no passeio, sem saber como. Virou-se e viu um cego ajoelhado a tactear o empedrado, à procura de algo. Percebeu então que tinha tropeçado na bengala do homem. Raio do cego! Por sua culpa, estava agora todo sujo e molhado. E o seu belo guarda-chuva tinha um par de varetas partidas!

Levantou-se e estugou o passo em direcção às arcadas, esperançado que o cão ainda estivesse no mesmo sítio. Entrou num café e comprou três sanduíches de presunto, para com elas tentar atrair o animal. Um miúdo que vendia pensos olhou com humildade para a comida que o empregado lhe embrulhava.

Saiu apressadamente, com o garoto atrás de si. Rejubilou quando viu o cão deitado sobre pedaços de papelão. Muito lentamente, tentou chegar-se ao pé dele, mas o bicho pressentiu-o e, abrindo os olhos, meteu o rabo entre as pernas e afastou-se, assustado. Desembrulhou rapidamente as sanduíches e deitou uma para perto do cão. Este, receoso, aproximou-se da comida mas não lhe tocou. Deitou uma segunda, mas o resultado foi idêntico. E por fim a terceira, mas o cão continuava assustado, com um olho nele e outro na comida. Aborrecido, aproximou-se do animal, que novamente se afastou. Sem saber o que fazer, olhou em redor e viu o miúdo dos pensos. "Compro-te meia dúzia se me trouxeres aquele cão", disse-lhe, em desespero de causa. O rapaz aproximou-se do cão e começou a falar com ele. Não conseguiu ouvir o que lhe dizia mas o cão aproximou-se do miúdo e deixou-se acariciar ternamente. Por fim, pegou no bicho ao colo e, a muito custo, levou-lho. Ficou radiante! Fez-lhe festas e baptizou-o logo ali: Helmut, pois o cão era grande e gordo. Tirou um euro da carteira para dar ao rapaz, que estava de cócoras a limpar avidamente as sanduíches e a embrulhá-las com as páginas menos molhadas de jornais deitados fora.

Um problema se lhe deparava agora: como faria para levar o cão para casa? Arrependeu-se de ter mandado embora o motorista, pois agora já não lhe apetecia ser visto a passear sozinho pelas ruas. Maldita ideia, esta!

Resolveu chamar um táxi, mas o condutor não o deixou entrar com o cão. Estúpido homem, pensou! Ele saberia, por acaso, com quem estava a falar? Chamou um outro. E depois outro e outro e por fim outro, mas nenhum acedeu a transportá-lo com o cão. Desistiu de ir de táxi e esforçou-se por arranjar um pedaço de cordel que depois atou ao pescoço do animal. Seguiu com este pelas ruas iluminadas da Baixa. Como a noite já tinha caído há muito, tinhas esperanças de poder passar despercebido.

Apesar de assustado, o cão trotava a seu lado. Um carro de polícia fez então soar a sua estridente sirena. Para azar seu, travou mesmo ao pé de si, sobre um dos inumeráveis buracos cheios de água, imobilizando-se mais à frente. Tentou limpar-se rapidamente com o lenço mas era inútil: estava já completamente encharcado. Do carro saíram quatro agentes que entraram num café e que pouco depois saíram com um negro algemado a quem empurravam com violência. Este debatia-se e gritava: "Eu só quis que me servissem! Tenho esse direito!" mas ninguém lhe dava ouvidos. À porta do café, alguns frequentadores invectivavam o negro e mandavam-no para a sua terra. A maioria limitava-se a olhar, despreocupada.

Aquela situação era nova para si. Aproximou-se para ver melhor. "Para onde o levam?", perguntou, cheio de curiosidade, ao homem que se achava ao seu lado. Admirados com aquela pergunta, os polícias estacaram e fitaram-no. "O que é que você disse?", perguntou um, aproximando-se. As pessoas em seu redor afastaram-se lentamente, com as mãos nos bolsos. "Perguntei para onde é que o levam", repetiu com voz firme. O polícia, perplexo, observou-o demoradamente. Estava encharcado e com o cabelo em desalinho. O sobretudo, de excelente qualidade, estava enlameado no peito. A camisa Triple Marfel estava manchada de água suja e as calças de fazenda inglesa tinham um enorme rasgão em ambos os joelhos. Na mão esquerda trazia o guarda-chuva com algumas varetas partidas e na direita segurava a sua bela pasta preta e a ponta do cordel desfiado em cuja outra extremidade estava o cão, completamente imundo. O agente olhou-o nos olhos, hesitante, como se o reconhecesse. Por fim virou-se para os colegas e soltou uma sonora gargalhada: "Olhem-me para este 'pássaro'! O que nos havia agora de sair em rifa!". E mirando-o novamente, após outra breve hesitação, ameaçou: "Desapareça, homem, você não arranje problemas se não quer ter notícias nossas!... Veja lá o que é que diz!...".

Ficou atónito. Nunca ninguém lhe tinha falado naquele tom de voz! Preparava-se para responder quando em seu redor dois homens se aproximaram e lhe pegaram por um braço, dizendo-lhe um deles com um sorriso apaziguador e de forma a que o polícia ouvisse: "Tenha calma, amigo, tenha calma. Os homens estão a fazer o serviço deles, não é? Ouça, venha ali dentro beber um copo e fica tudo em bem, certo?... Está tudo bem, sr. guarda, este amigo vai ali connosco beber um copo...ele está só cansado...". Os polícias meteram-se no carro, olhando-o de soslaio. Quando partiram, o outro homem deu-lhe uma palmada nas costas: "Vá-se lá embora, homem, não me agradeça: isto temos que ser uns para os outros, não é verdade? Haja é saúde, amigo, haja é saúde!...".

Baixou os olhos e afastou-se sem dizer uma palavra. Ia possuído por uma fúria mal contida. Decidiu, primeiro, que no dia seguinte faria os telefonemas necessários para tramar o polícia. Depois, mais calmo, pensou melhor e chegou à conclusão que a culpa tinha sido apenas sua. Na verdade, porque demónios resolvera fazer aquela pergunta? Estava verdadeiramente preocupado pela sorte do negro? Claro que não, pois ele que não fosse parvo e não se metesse em sarilhos! Se fosse um cidadão respeitador e atinado a polícia não o teria levado preso, não é verdade? Não, a culpa fora sua, só sua, tinha que o reconhecer! Além do mais, o seu aspecto estava muito longe de reproduzir a dignidade inerente ao cargo que ocupava. Devia era dar-se por feliz por ninguém o ter reconhecido naquela figura!

Reconfortado com estas reflexões e satisfeito consigo próprio por este humilde acto de contrição, pensou numa forma de chegar rapidamente a casa. Mais do que nunca, estava agora furioso consigo próprio pela ideia absurda de andar sozinho pelas ruas, a pé e sem qualquer protecção. Que estupidez! Só desejava ardentemente não ser visto nem achado. Passar despercebido e chegar depressa a casa, era agora a palavra de ordem.

Decidiu apanhar um autocarro pois com aquelas filas e com a massa de gente a precipitar-se para a porta talvez ninguém reparasse no cão. Como não sabia o número do autocarro que passava ao pé de sua casa, resolveu pôr o seu ar mais generoso e confiante, aquele que sempre punha quando algum jornalista lhe colocava alguma pergunta incómoda, e dirigiu-se a duas velhotas. Colocou-se então no fim da fila e ao fim de três quartos de hora conseguiu finalmente entrar num autocarro. O cão tinha ajudado e não ladrara, pelo que o condutor não dera pela sua presença.

Não tinha passe, nem senhas, mas uma estudante picara um módulo por ele, cheia de pena do seu ar quase andrajoso. Este gesto, em vez de o sensibilizar, teve o condão de o incomodar profundamente. Não gostava de se sentir em dívida com ninguém e o facto de ser uma estudante ainda o aborreceu mais. Não gostava deles, sempre prontos a andarem em algazarras, desafiando as instituições e o normal evoluir da sociedade. Mas viu o acontecimento pelo prisma da utilidade: a alternativa era ir a pé, pelo que teve que considerar que se tratara de um incómodo bem pequeno em relação ao benefício.

Sentou-se junto de um reformado, que lhe ofereceu batatas fritas do pacote que acabara de abrir. Recusou delicadamente mas com firmeza. Não queria familiaridades nem confianças, só queria poder ir descansado para casa e nada mais. À sua frente, no meio da confusão de entradas e saídas de passageiros, um sujeito bem vestido abriu a mala de mão que uma senhora carregada de sacos tinha a tiracolo e surripiou-lhe a carteira com uma destreza que o deixou boquiaberto. Ao colocar a carteira entre um jornal dobrado ao meio, o indivíduo olhou-o, certo de ter sido observado. Mas ele voltou rapidamente a cara para a janela, fingindo-se muito interessado no andamento das obras que tinham lugar por todo o lado.

Quando lá fora reconheceu ruas familiares, resolveu descer. Estava ainda um pouco longe de casa mas não sabia as voltas que o autocarro ainda ia dar e ir a pé era agora mais seguro.

O contentamento do filho ao ver o cão contrabalançou o espanto e a má-cara da mulher, receosa que a vizinhança soubesse que tinham em sua casa um cão sem "pedigree".

E depois do banho e do jantar sentiu uma enorme sonolência. As orações da noite, que desde criança nunca se esquecia de proferir ajoelhado junto da bela cama de cerejeira, souberam-lhe bem melhor pois sentiu que nesse estranho dia tinha cumprido de forma irrepreensível os seus deveres ao subtrair à violência da rua um animal da Criação. Feliz e satisfeito consigo próprio, meteu-se então entre os lençóis com um suspiro prolongado que traduzia o quão aconchegado se sentia no conforto do lar. Antes de adormecer, esticou o braço na direcção do telefone da banca de cabeceira e retirou o auscultador do descanso. Devido ao cargo que ocupava, lidava com pessoas que muitas vezes o incomodavam, telefonando-lhe às horas mais impróprias numa atitude de indiferença para com o merecido descanso dos outros, algo que ele, sempre que podia, não deixava de condenar com a veemência que se impunha.

 

                                                                                         JG

                                                     in “Contos do centro do meio”


Para um minuto de meditação - 59

  A vida não é um problema a ser resolvido, mas uma realidade a ser experimentada.                                                        ...