quinta-feira, 29 de outubro de 2020

Para um minuto de meditação - 39

 

“A lei dos três estádios: todo o islamita é potencialmente um fanático, todo o fanático é potencialmente um extremista, todo o extremista é potencialmente um assassino”.

                                                                                   Maurice l’Herbier


Um poema de Derek Soames

 

ns


    Geógrafo e poeta, nasceu em Ashbury (1968). Autor de “Paths of wrath and life”. Vive em Belle Island, South Africa. Em Portugal foi publicado pela DiVersos.

 

CONSELHOS A UM JOVEM POETA

 

No Outono, como és um bom rapaz

e a estação incita às boas maneiras

antes do entardecer, à hora do jantar

ouves tal qual na Rádio os amados Mestres

dizendo com meiguice  com majestosa serenidade:

 

Fala do que sabes, do que vês

Olha além o Oceano  Principe das fábulas

Uma resma de angústias de espantos de alegrias.

Faz isto assim e assim e depois deita-lhe molho.

Fala com voz franzida como os companheiros de bulício.

Prepara-te para resistir aos séculos.

 

Mas eu digo-te moço: atenção aos sinais

Põe-te um bocadinho na retranca

Cria fôlego, desatrela os joelhos

Prepara-te para correr.

 

Como és um bom e amável companheiro

de mão aberta no ar

como pequena planta ou flor primaveril

em dias de alegre sol os teus ouvidos amplificam-se

e começam a chegar-te maviosas vozes do éter:

A nossa voz é bela como o recado duma amante

Estamos deste lado  onde florescem as roseiras

Maridião Setentrião  Temos os segredos das auroras

Etc. e tal

 

Mas eu digo-te e desculpa lá o mau jeito

- raspa-te, pula, sê mesmo uma lebre dos matos

dá às de vila diogo e não olhes para trás.

 

A rapariga formosa com um espelhinho na dextra

e um pente de marfim na sinistra

não lhe achas mesmo um ar esquisito?

Bom, é lá contigo

 

Mas eu digo-te e desculpa lá se te estorvo:

- dá o fora, desarranca-te, põe-te n’alheta

Em suma, desaparece a sete pés

Sê mesmo como corça dos velhos bosques

Pula corre todo o cuidado é pouco.

 

És um belo parceiro, atento arguto

quiçá um poucochinho um poucochinho palonço

- uma coisa como sabes às vezes inclui a outra –

calmo lendo devotamente os anjos e os arcanjos

da santa época literária

 

Mas eu digo-te e perdoa lá se te atravanco:

- salta já, arrebimba, dá sebo nas canelas

safa-te antes que seja tarde.

 

Não tens notado umas figuras evanescentes

nas ruas que, julgas tu, tão bem conheces?

Não notas que a dama do lado ou o senhor vagaroso

parecem ter na face umas sombras mais que suspeitas?

Quando transpões a porta quando olhas em redor

não sentes os minutos assim a modos que encolhidos?

 

Sim, és um bom sujeito. Repleto de conceitos

tão fiáveis e perfeitos como os de Séneca ou Pascal.

Mas não tens notado algures presenças algo difusas

c’um ar um pouco estranho como no cinema os monstros?

 

(Trad. ns)


José do Carmo Francisco, Crónicas do Tejo

 

Fernando Assis Pacheco (foto de Inácio Ludgero)


Fernando Assis Pacheco nasceu em Coimbra, entre livros, bibliotecas e Universidades no dia 1-2-1937 e morreu em Lisboa à porta da Livraria Buchholz em 30-11-1995. Tornámo-nos amigos em Janeiro de 1981 quando ele me telefonou para o BPA da Fontes Pereira de Melo e fez uma notícia para O JORNAL sobre o Prémio Revelação de Poesia da Associação Portuguesa de Escritores. Ele afirmou-se como campeão de futebol de botão em Coimbra e eu respondi ter sido director do jornal de parede em Vila Franca de Xira na Escola Técnica. Num tempo sem cartões multibanco, eu ia muitas vezes à Alexandre Herculano levantar dinheiro e encontrava-o a sair do autocarro 9. Antes de ir para O JORNAL ele entrava na Buchholz para saber novidades. Tinha estado em Heidelbreg a preparar uma tese de licenciatura sobre a obra de Sthephen Spender por sugestão de Paulo Quintela. Um dia respondeu numa entrevista: «Sou Aquário mas não ligo peva. Sou todos os adjectivos da pergunta ou seja deprimido, introvertido, extrovertido, calmo, fogoso, mas também inteligente, esquizóide, reinadio, arrebatado, ponderado e extravagante mas à vez, para não chatear o indígena.» Sobre a sua oficina poética afirmou: «O amor. A morte. A solidão. As máscaras. O tempo. A violência. A paz. A alegria. Deita-se na Moulinex e tira-se um caldo. Sou eu.» O facto de não ter tomado muito a sério a sua poesia fazendo apenas edições policopiadas no senhor Magalhães no Chiado fez com que «Musa Irregular» tivesse uma ampla divulgação. Ser conhecido não é o mesmo que ser importante. Outro aspecto tem a ver com o jornalismo cultural que transmite uma certeza: só o tempo revela a posteridade, o pó é para todos, a posteridade só para alguns. Uma nota final: para ele o jornalista era o historiador do quotidiano: «Para um jornalista o conhecimento dos outros homens se não for paixão não é coisas nenhuma.»


Juliette Gréco, Sous le ciel de Paris ( 1951 )

 



segunda-feira, 26 de outubro de 2020

Para um minuto de meditação - 38

 


“O erotismo é uma das bases do conhecimento de nós próprios, tão indispensável como a poesia.”
                                     

                                                                     Anaïs Nin


3 poemas de José Carlos Costa Marques


A certa

 

Assim lhe chama Sapienza a Goliarda

a essa que nos habita sem sabermos

Sabedoria alegre e jocosa

alegria essa arte inescapável e sempre fugitiva

essa que um dia investigámos

e mais nos encontra que nós a encontramos

Certa sim como cada cabelo que nos tomba

e nos está contado

guardado nos livros de um deve e

haver implacáveis

Certa? Mais certa que a vida mais certa que o pulsar

erétil e a vibração desses olhos

juvenis ridentes frente a nós?

Sim certa Incertos apenas a hora e o dia

E a vida igualmente certa ou ilusão apenas?

Se vivos hoje e agora    se partimos um dia   

se alguns já partiram

esses que amámos

e se constantemente partem esses dos jornais

das notícias

nos furacões crematórios bombas sismos suicídios

aos milhares ou um a um

no silêncio

que há mais que o nevoeiro que nos cerca

que há de mais certo que o de um dia tudo

o que vivemos ter passado?

Mas não   nem a morte é certa a não ser como morte

do que viveu e do não saber mais nada

Fulgor de um olhar e de uma pele

ilusão névoa voo indeciso fugaz vislumbre

estamos aqui onde já não estaremos

no dia em que a Certa vier

e até agora dentro em pouco um momento breve

não estaremos já neste pátio de pedra onde escrevemos,

vivos ainda e desaparecidos

Que reencontraremos?

 

O país que tu amaste

 

        Romantic Ireland's dead and gone 

        It's with O'Leary in the grave.

        «September 1913» in Responsibilities 1914

                                                                  W. B. Yeats

 

                                                                   para a Margarida

 

O país que tu amaste foi-se e jaz morto

e com Camões e Antero partilha o túmulo.

Porém, quatro décadas apenas, cúmulo

da vida tua, te roubam tua praia e horto.

 

Que país foi esse que mal absorto

no passado contemplas, que presente no cume

ele tem que já não é ele, que fio ou gume

perdeu, terra tua teu perdido porto?

 

No presente contigo a partilham tantos!

Tu declinas, outros ascendem e não vêem

a tua que não perderam, a mesma deles que perdem.

 

Porque da terra vivem cortados e a que herdem

pouco cuidam, cuja beleza não têm

já de amor, e nada valem teus prantos.

 

 

Soneto Ferroviário

 

Reside no real ou explode a poesia.

E se a dizes, lutas por exprimi-la

e pouco o consegues. O real a desvia

de seguida e foge, inacessível ilha.

 

Sorris. Arranca o comboio e a menina palra.

No cais, a rija avó imita, partindo,

o comboio. Alegria de criança, galra,

surpresa viva, o real poesia sorrindo.

 

Abstrata? Concreta? Pouco importa.

Ideia como sangue, «ideia sangrando».

Calor e riso, língua que falando

 

oculta e cala e mais o que revela.

Escrevemos sim. Mas a beleza é dela,

nossa não.

               Aponta ela somente a grande porta.

 

 

 

José Carlos Costa Marques (sob o nome Aurélio Porto, in Safra do Regresso, Águas Santas, 2011)

Arte e erotismo


UM POUCO DE PARAÍSO

 

   A seguir ao golpe do 25 de Abril, que tendencialmente procurava abrir o País à “modernidade”, multiplicaram-se as publicações - escritas, plásticas, cinematográficas e radiofónicas – sobre o corpo encarado dum ponto de vista sexuado. Frequentemente de forma ora exagerada ora confusa, mau grado os exemplos consistentes e adequados que também tem havido.

 

   Creio que fará sentido, como achega ou sublinhado, dar a lume o texto que constituiu a minha intervenção aquando da mostra de Sevilha “De puta madre – arte erótica”, no qual se perpetram as dissemelhanças (que alguns querem abafar, solapar, maquilhar) entre estes dois factos absolutamente opostos (erotismo versus pornografia) da condição humana/social aonde alguns, ou até um razoável número, querem ver a foto “a saque e a sangue”, do imaginário individual ou colectivo ocidental.

 

ARTE E EROTISMO


ns

   No descontínuo da existência humana o erotismo assegura a continuidade do som envolvente. “Este corpo fala”, dizia Lacan. Suspenso entre dois silêncios, o da vida e o da morte, o erotismo é mais que mero sinal na campina onde os fantasmas primordiais do espírito vagueiam sem destino.

  Se ao princípio foi o Verbo, logo a seguir o Homem teve de confrontar-se com um surpreso e confuso balbuciar. “Coisas de deuses”, dir-me-eis familiarmente. “Coisas universais, onde se reproduzem realidades misteriosas”, responder-vos-ei. Afirmando a desordem sonora (que é uma bem ordenada configuração) contra o tímido império de uma perturbada realidade muda, o erotismo participa na instauração duma realidade outra, transfigura as experiências e o próprio sentido da Natureza circundante. Não é arbitrariamente, pois, que Marianne Roland-Michel nos diz que “A humanidade só existe graças à infinidade milenar dos acasalamentos, aos sucessivos nascimentos, num encantamento e encadeamento inumeráveis como a areia dos desertos. Homens e mulheres enlaçam-se na noite dos tempos e procriam, por muito que se recue no passado. Daí nós aqui estarmos hoje, gerados e geradores.

  A arte é, antes de tudo, linguagem dos sentidos em movimento. À arte não se chega pela Razão: a poesia, como dizia Lautréamont, “é um rio majestoso e fértil”; a pintura erótica, por seu turno - na minha concepção metafórica -  é uma região silvestre onde vagueiam Dionísio e as ninfas, acompanhados por todas as estrelas e cometas que constituem o seu séquito. E, como se sabe, os deuses pagãos enquanto símbolos existem no nosso tempo, se os soubermos ver, que o mesmo é dizer: se soubermos reconhecer-nos no sagrado que é a vida.

  Em 1908 declarou Alfred Loos que “toda a arte é erótica”. Esta frase tem de entender-se no contexto em que foi pronunciada. É uma verdade que a arte pertence ao mundo de Eros, ao mundo que se opõe a Thanatos, que mais que o território da morte é o lugar da não-existência, das frias pulsões destrutivas. No entanto, a arte erótica tem características que a definem: ela epigrafa o corpo amoroso e a pessoa sexuada, apresenta-a simultaneamente como objecto e sujeito de desejo, coloca os dados da questão na capacidade humana de fruir o espaço da sexualidade e de transfigurar essa experiência em poesia e libertação da nossa triste condição de seres mortais.

  Já o mesmo não se dá com a pornografia: esta, pelo contrário, recenseando falsas premissas (é um mundo de frieza e de supressão da lógica dos relacionamentos e mesmo da sua exemplaridade) é uma espécie de caricatura existencial – terreno onde apenas se jogam esquemas pré-determinados, naturalmente controlados por razões simplesmente argentárias e de comércio deliberado.

  A arte erótica tende pois a sublinhar uma evidência fundamental rodeada de sombras suspeitas, a trazê-la ao quotidiano salubre. Na infinita madrugada dos corpos que se amam, as classificações só contam se evocam e provocam um rito mais perfeito e gerador de novas e exaltantes comunhões interiores: a experiência banal eleva-se até ao ponto supremo, ao vértice da comunicação. Tal como, na religião, a cerimónia de ordenação sacerdotal comporta uma unção, uma transfiguração – mesmo que ilusória, porquanto é dirigida a uma entidade fora do mundo, um deus – no acto erótico passa-se a outro plano, aquele que une dois corpos, duas mentes, duas experiências, dois percursos. Amar não é dois tornarem-se um, mas um tornar-se dois – é, por extensão, o ser humano tornar-se universo. O amor é uma infinita repetição. Para o enamorado a sua amada é todas as mulheres - e vice versa. O Homem, definitivamente re-ligado, existe então em plenitude. Daí que o acto amoroso seja uma simulação da morte (ultrapassando-a soberanamente) e não uma pequena morte como queriam os aristocratas libertinos e derivados menores ou uma grande morte como propunham os sádicos, míopes sexuais que necessitam de óculos/faca, ou os autoritários no plano social, membros em geral de crenças reveladas com o seu ódio ao amor humano, que esplendidamente se ergue contra o egoísmo teocentrista.

  A voz sibilina que até nós chega do fundo das eras traz com ela a certeza de que a realeza absoluta pode ser compartilhada por todos os homens e mulheres que se livraram da pequena escala hipócrita e redutora que os próceres societários armadilharam tendo-os como alvo (expressa, por exemplo, através do negócio da moda e da cosmética, do aperfeiçoamento corporal como um absoluto, da pacóvia alegria de blocos para solteiros, jornadas para a terceira idade, etc.). Assim se explica que as religiões reveladas, que subjazem a deuses autoritários, persigam aberta ou dissimuladamente o erotismo, o corpo e a sua dimensão amorosa enquanto discretamente incentivam pela sua acção castradora e estupefaciente a pornografia e os recalcamentos societários. É esta a explicação, também, para a atitude do mundo argentário, que descaradamente explora as forças eróticas - que primeiro sufoca - nos bordéis e nas lojas de sexo. Ou a do mundo da política totalitária, que procura incluir a feição sexual, controlando-a, numa razão de Estado ou de partido.

  Uma face, na arte, não é apenas uma face: milhares de momentos de outras faces nela se representam e consubstanciam. O nu da imagem corresponde à nudez assumida do homem e da mulher em comunhão, pois o erotismo é o sinal da sacralização do mundo concretizado em seres que se amam e possuem. Viaja-se através de um corpo como se viaja em busca dum planeta a milhares de anos-luz. A arte erótica, seja pelo traço e a cor de Cézanne, Watteau, Bazille, Clóvis Trouille, etc., ajuda-nos a encalhar a nossa barca nas margens onde cresce o mirto e a rosa, onde os fulgores do dia se transmutam incessantemente na penumbra de que os amantes necessitam para os mistérios do seu coração.

  Suspensa entre o brilho duma imagem ausente e a saudade daquilo que a imaginação nos concede, a arte erótica fala com vital soberania: e é desta maneira que se assume como signo da humanidade liberta, eternamente colocada além das aparências passageiras e compreensivelmente sujeitas ao desaparecimento final. 

 

                             ns

                                in “De puta madre “ – exposição de arte erótica” (Sevilha)


Charles Aznavour, She

 



quinta-feira, 22 de outubro de 2020

Para um minuto de meditação - 37

 

ns


“Pode haver momentos em que somos impotentes para evitar a injustiça, mas nunca deve haver um momento em que deixemos de protestar.”

 

                                                                         Elie Wiesel


Joaquim Simões, O gato

 

Carlos Martins, Gato



O gato

 

               Ao ns e á Flora, grandes amigos dos bichanos

 

Salta a bola

Pula o gato

Para cima

Do sapato

Para a cama

P’r’ó tapete

Para a mesa

Cai o prato

 

E derrapa

Na corrida

Destravada

Sapatada

Pirueta

Cabeçada

Na cadeira

Na ombreira

 

Da carpete

Desatina

P’r’à cortina

Para a estante

Pára um pouco

Ofegante

Lá no alto

Triunfante

 

Lava, apressado, as orelhas,

Os bigodes e a pata

Olha p’r’à cauda, desata

A girar, à caça dela!

Voam vinte folhas velhas,

Metade pela janela!

Aquieta-se, ronrona

Mas eis que chega a esfregona!


Gato corre

Para aqui

Gato volta

Para lá

Gato corre

Para cá

Gato volta

Para ali

 

Gato vai

Gato vem

Gato voa

Pela escada

Escorrega

Cambalhota

Trambolhão

Está no chão

 

Com um salto

Bimortal

Foge a mosca

Foge a aranha

E o pardal

Espavorido

Do estendal

P’r’ó quintal

 

Chega de lá da cozinha,

O tilintar de um talher.

Vai depressa, depressinha,

Por ali há comidinha!

Ora mia, mia, mia,

Ora dá uma marradinha.

E sacode, mata a presa

Seja biscoito ou sardinha!

 

Agora, está saciado!

Espreguiça-se, satisfeito,

Lava a barriga e o peito

A cauda, o nariz… Boceja.

Depois, sem que ninguém veja,

Esgueira-se para o vão

Da escada e, todo enroscado,

Adormece, aninhado

Dentro do meu coração.

 

                                                      Joaquim Simões

Um texto de João Garção

 

ns



DA LUMINOSA ARQUITECTURA

Num mundo que se assemelha quer a um estaleiro quer a um campo em ruínas, trata-se de erguer uma casa em que os homens, vindos de todos os quadrantes, possam viver em conjunto. E é tempo de partir à busca dos materiais.” - Gilbert Cesbron

   

                                                                                   

     Não sei se a famosa frase proferida por Goethe no leito de morte, em que o escritor pediu ‘mais luz, sempre mais luz’, deve ser encarada como tendo sido feita no sentido literal ou no figurado. Desejo crer que foi neste último, devido ao que de essencial ela expressa, na sua aparente simplicidade.

    Com efeito, se, como salientou Pascal, o Homem oscila constantemente entre o Anjo e a Besta, é fundamental (e simultaneamente reconfortante e encorajador) que os espíritos nobres de todas as épocas reafirmem sistematicamente que devem ser criadas condições para que as opções dos seres humanos se dirijam para a ‘claridade’, em detrimento das ‘trevas’ – portanto, que se caminhe ‘de claridade em claridade’, para utilizar as sábias palavras de S. Paulo.

    Esta opção é frequentemente dificultada por um quotidiano societário que muitas vezes privilegia as ‘trevas’, disfarçando-as ardilosamente. Os mecanismos de que se serve, aparentemente doces na sua imediata mas espúria atracção, são a mentira sistemática camuflada por uma inevitabilidade tida como óbvia (visto que o duvidar – aspecto estruturante da própria Liberdade – acaba por ser rodeado de constrangimentos diversos), o falso ‘bom senso’ e um epicurismo distorcido que confunde ‘alegria de viver’ com simples ‘contentamento’ e que se caracteriza pela pseudo-assunção de um ‘realismo’ que, na prática, mais não produz que frutos mortos. E o Tempo, esse excelso crítico, bem o tem evidenciado...

    Em conformidade, a quem não se revê neste panorama em que tem assentado uma boa parte das decisões humanas e das próprias relações sociais, resta privilegiar a busca da Verdade que qualifica (saliento, ‘que qualifica’ e não ‘que quantifica’) a Felicidade das pessoas, enfatizando-a em todos os procedimentos. Os seus fundamentos poderão ser encontrados num quadro ético que objectiva tanto a melhoria do Indivíduo quanto da própria Humanidade, ou seja, numa Ética assente em princípios de criação que dignifiquem o Homem e valorizem as suas produções, sempre que estas originem ou desenvolvam consciências críticas – portanto, que não constranjam, mas que libertem. Daí que, por exemplo, obras como A Montanha Mágica (incursão e interrogação no Mundo e no Tempo exteriores) ou Em Busca do Tempo Perdido (procura e interrogação do Mundo e do Tempo interiores), mesmo contando, por hipótese, com apenas dois mil leitores, serão sempre melhores para a espécie humana do que determinados programas televisivos com dois milhões de espectadores.

    Vários autores têm evidenciado de forma exemplarmente simples, ao longo dos tempos, os fundamentos desta Ética. Por exemplo, n’ O Mercador de Veneza, Shakespeare fez o judeu Shylock proferir as seguintes elementares palavras: ‘Se nos picais, não sangramos? Se nos fazeis cócegas, não nos rimos? Se nos envenenais, não morremos?’. Mais recentemente, num interessante texto dirigido ao Cardeal Carlo Maria Martini, Umberto Eco referiu-se à existência dos chamados ‘universais semânticos’, salientando que o respeito pela ‘corporalidade dos outros, entre os quais também se contam o direito de falar e de pensar’, se impõe como elemento basilar desta estrutura procedimental.

    Contudo, este princípio fundamental do reconhecimento da dignidade do ‘Outro’ deverá ser matizado, visto que tem sido levado a certos extremos, a ponto de, hoje em dia, concepções que se reivindicam como estando estribadas no chamado Multiculturalismo servirem como justificação para desmandos diversos que oprimem em vez de libertarem. Com efeito, certos aspectos tidos por culturais e que aparentemente decorrem desta perspectiva ‘multicultural’ não passam de expressões de autoritarismo dos sectores que as promovem (frequentemente, de forma brutal contra ‘outros’) a fim de estabelecerem identidades que ajudem a perpetuar o seu poder. A título de mero exemplo, permito-me indicar as nefastas práticas da excisão ou da lapidação, ainda promovidas por certos grupos sociais em determinados países.

    Desta forma, o diálogo entre culturas, com frequência apresentado como imprescindível, não pode passar pela efectivação de cedências em relação a aspectos fundamentais, sendo o mais importante o da defesa da dignidade humana (na qual se encara o Indivíduo como uma entidade e não como um número), onde deverá inscrever-se, obrigatoriamente, a por vezes enfatizada mas muitas vezes deturpada trilogia Liberdade, Igualdade, Fraternidade – deturpada porque utilizada para sustentar sistemas de Cleptocracia que substituem, de maneira mais ou menos subtil, a verdadeira Democracia. De outra forma, esse diálogo será apenas um monólogo a dois que somente servirá, no máximo, para que um dos lados continue impunemente a afirmar a recusa dos valores essenciais da referida dignidade humana. Será, em suma, uma ‘solidariedade de crápulas’ que, a pretexto da prática da tolerância, deturpa esta legítima perspectiva de confronto de ideias que almeja o mais qualificado valor operativo, para acabar por ser uma condenável e cobarde condescendência perante o Mal – não mais sendo do que uma imitação do tristemente famoso estilo de Neville Chamberlain (que ajudou o mundo a mergulhar na Segunda Guerra Mundial) ou das perorações ‘doutrinárias’ de ‘pacifistas de 5.ª coluna’ que, há um par de décadas, no Ocidente, diziam de forma descaradamente alvar ‘Better red then dead! ’(Antes vermelhos que mortos!). A este propósito – e nem sequer é preciso ser-se crente para o referir – impõe-se que recordemos o apólogo bíblico que reza ‘não devemos dialogar com os demónios – pois eles enredar-nos-ão numa conversa sem fim’. Na verdade, que tipo de diálogo será possível encetar ou manter, por exemplo, com representantes convictos do terrorismo internacional ou praticantes neonazis? E não se diga que estes não são mais do que o produto de uma sociedade a arruinar-se. Tal constituiria uma boa ‘desculpa’, apenas, para a ausência de responsabilidade individual nas respostas perante os desafios e as crises que a todos assoberbam. E já se sabe que a eles, infelizmente, nem todos respondem da mesma maneira – e são essas respostas que verdadeiramente constituem a medida da capacidade e da qualidade intelectiva do ser humano social.

    Ora, este combate contra o ‘Mal’ (o absurdo expresso na destruição da liberdade, da dignidade e da qualidade humanas) não poderá ser um mero formalismo que se encena quotidianamente, o que o tornaria estéril, mas antes um imperativo decorrente da adesão a princípios éticos, a qual deverá sempre conduzir a uma certa mundividência e traduzir-se numa praxis bem precisa. Por outras palavras, esse combate deverá ser afirmado como um dever individual consequente com o apego do sujeito a concepções éticas de defesa da dignidade da pessoa humana (concepções estas que, saliente-se novamente, não embarcam em falsas analogias nem são complacentes com práticas pseudoculturais que se afirmam para melhor constranger o Indivíduo, fingindo libertá-lo).

    Ao longo desta pequena intervenção, tenho referido várias vezes a palavra ‘Ética’. Chegado a este ponto, afigura-se-me conveniente esclarecer os seus contornos – embora me pareça que no contexto da temática abordada se poderá inferir o que por ela entendo. Para mim, ‘Ética’ é o conjunto de reflexões e procedimentos que afixam um ‘ir existindo’ civilizado, compreendendo por este último termo o somatório de vivências criativas que estabelece, simultaneamente, a dignidade, a felicidade e a abertura aos salutares ritmos do mundo – passados, presentes ou futuros.

    Em função daquilo que atrás afirmo depreende-se, com justeza, que desconfio bastante daqueles que apresentam como recomendável e politicamente correcto o respeito reverencial por alguma diversidade de quadros ‘éticos’ existentes, significativamente dispares entre si nos seus fundamentos e, por isso, a vários títulos antagónicos nas orientações que acabam por expressar – e, portanto, também alguns deles dinamizadores de comportamentos que são frequentemente deploráveis. É minha convicção que qualquer estrutura ética não poderá reclamar-se como tal se não se fundar no respeito essencial pelos direitos humanos (evidentemente, utilizo esta expressão na perspectiva de direitos ‘conquistados’ e não de direitos ‘naturais’, mas entendo que, ainda assim, são direitos ‘positivos’, na acepção filosófica do termo). De outra forma, não passará de um sistema moral, como tal meramente conjuntural. Mais: entendo que os distintos ‘diálogos’ a desenvolver pelas diversas instituições que compõem o chamado ‘Mundo Ocidental’ (quer consigo mesmo, internamente, quer com elementos que lhe são exteriores) deverão fundamentar-se na inegociável adesão a este quadro de referências essenciais pois, como oportunamente salientou Tocqueville, o respeito pelas diferenças reclama uma igualdade prévia. De outra forma, o debate que possa vir a efectuar-se estará inquinado ab ovo por inadmissíveis cedências e, como tal, poderá ser mais nefasto do que proveitoso.

    A concluir, entendo deixar ainda uma última achega: quando se diz que estes tempos actuais estão ‘despidos de valores’, há que salientar a incorrecta formulação desta asserção pois, quando muito, eles estarão despidos de valores éticos suficientemente praticados e, sobretudo, capazmente divulgados (o que é diferente). É claro que a difusão daquela perspectiva pode não ser totalmente inocente, enquanto reflexo de ideias de certos sectores sociais interessados em que seja afixado o panorama da volatilização dos tradicionais valores intrínsecos à prática da cidadania e na sua recomposição sob moldes bem diferentes. Por outro lado, ela é fruto, igualmente, da resignação fundada no desespero em que por vezes as pessoas mergulham, sentindo-se pouco acompanhadas nesta obra de defesa de uma ética desejavelmente universal, a qual é, verdadeiramente, uma obra sinérgica. A estes nossos semelhantes importa reafirmar-lhes, sistematicamente, que não estão sós nessa caminhada.  

    Em concomitância, interessa continuar a alargar o trabalho de libertação das consciências, pois se ‘o espírito sopra onde quer e como quer’, como referiu São João, é igualmente fundamental que existam seres humanos disponíveis para o orientar, sempre que tal se imponha.

Para que sejamos, cada vez mais, ‘Filhos da Luz’.


Para um minuto de meditação - 39

  “A lei dos três estádios: todo o islamita é potencialmente um fanático, todo o fanático é potencialmente um extremista, todo o extremista ...