quinta-feira, 21 de outubro de 2021

Para um minuto de meditação - 137

 

Russo Alexei Navalny vence o Prémio Sakharov,

atribuído pelo Parlamento Europeu


Crítico de Vladimir Putin, que está detido, recebeu o prémio de defesa dos direitos humanos que é entregue pelo Parlamento Europeu.

   Alexei Navalny recebeu o prémio de defesa dos direitos humanos que é entregue anualmente pelo Parlamento Europeu. O crítico de Vladimir Putin, que foi envenenado e está neste momento detido, foi distinguido pela sua luta contra o Kremlin.

   David Sassoli, presidente do Parlamento Europeu, escreveu no Twitter que Navalny “lutou incansavelmente contra a corrupção do regime de Vladimir Putin”. Essa luta “custou-lhe a sua liberdade e esteve perto de lhe custar a sua vida”, notou Sassoli, acrescentando que “o prémio reconhece a sua imensa bravura e reiteramos o nosso pedido para que seja imediatamente libertado”.

 (Dos jornais)

 

   Parabéns a Alexei Navalny. Uma Bofetada de Luva Branca nas fuças do Ditador V. Putin.

João Eduardo da Costa Gata


   Não pode estranhar-se a repressão de Putin. Afinal, ele foi nos últimos tempos da defunta URSS o Comandante-Chefe da KGB, polícia política do regime ditatorial “comunista”.

Adérito Cortez


Dois poemas de José do Carmo Francisco

 




Poema periférico para Álvaro Pato

 

O poema passa quatro vezes por dia

À porta do lagar de azeite do teu avô

Entre o Bom Retiro e a Escola Técnica.

Tal como tu o poema não pode ouvir

As crianças a chorar na sala ao lado

Com as torturas das mães a confessar.

As cartilagens do ouvido estão quebradas

Golpes de tesoura repetidos e certeiros

Por um pide mau que sabia do seu ofício.

Eu não sou ninguém, fui delegado sindical

Vinte e quatro anos seguidos desde 1972

Por isso tenho hoje uma reforma pequena.

Mas dava um ano de reforma e vida a quem

Me dissesse onde os sapatos de Carlos Pato

Na arca guardados junto à cama da avó.

Nós continuamos a ser da mesma turma

Ninguém nos tira dessa fotografia anual 

A preto e branco como é afinal a nossa vida.

 


Poema periférico para António Bárcia

 

Já não se morre como no passado

Hoje todo o morto tem um funeral

Com urna e fato pago pela Santa Casa.

Muitas vezes vai apenas um funcionário

No acompanhamento trinta dias depois

Do corpo chegar à Morgue de Santa Maria.

Porque a lei mudou a vala comum acabou

Mas seu nome ficou nas fichas dos livros

E no coração de quem não o vai esquecer.

Morrer não é apenas deixar de ser visto

Nem as estradas têm curvas como antes

Morrer é sempre um mistério, outra coisa.

Talvez calhe e seja o Pedro a acompanhar

A sua urna se ninguém se chegar à frente

Para tratar de todas essas formalidades.

Tenho um livro onde as suas palavras

Aparecem num tão discreto anonimato

Mas a posteridade essa vai continuar.


Nicolau Saião, Cavalaria - uma carta a Soares Feitosa

 


ns



Caríssimo confrade

 

 Para já, o abraço firme que se endossa aos amigos, aos da cavalgada perene no tempo que nos foi dado viver.

 É isso, o tempo. Que como minha mãe costumava dizer, "é um cavalo". Que salta e revoluteia, que corre infrene como um ginete na Andaluzia, um corcel nos campos rasos do Nebraska, um garrano nos pastos de Alter do Chão deste meu Alentejo.

 Os cavalos... Quando vi eu pela primeira vez um cavalo? Não guardo de isso memória exacta, mas teria sido na vila de Monforte onde nasci, provavelmente uma montada da Guarda Republicana quando da visita de algum oficial ao posto que o meu pai comandava, ou então de algum lavrador das imediações com estábulo porventura dentro da vila. No entanto, pensando bem, creio que o primeiro cavalo que vi (ou seria égua, para o caso tanto faz...) estava atrelado a um charabã  - que só mais tarde soube ser o parisiense "char-à-bancs" das/dos elegantes dos Champs-Elisées de outrora. Conduzido por uma senhora, por um cavalheiro? Parece-me que o passeante seria, se a lembrança me não falha, um médico que usava esse meio de transporte quer para visitar seus pacientes quer para efectuar suas voltas e voltinhas nos momentos de lazer.

Já se percebe que nessa altura era eu bem pequeno.

Mais tarde, vi cavalos nos prados e campinas de muitos lugares: nos plainos de Espanha, nos vergéis da "Grand Prairie" francesa, nas ruas de Lisboa e de Portalegre quando era dia de festa nacional, transportando agentes militarizados, nas quintas do Ontário ao longo da estrada que vai de Toronto a Otawa, na "rota índia" americana. Tive mesmo ensejo de cavalgar algumas vezes em campos abertos - essa emoção absoluta de descendente de antigos cavaleiros aldeões - e, quando calha, na herdade de um amigo dado às cavalgadas e falcoarias (o visconde José António Valdez, que é o fidalgo de antiga nobreza lusitana mais plebeu e saudavelmente terra-a-terra que existe - faço a minha perninha como razoável "calção" como tradicionalmente se usa apelidar.

E que dizer dos cavalos vistos na arte: na pintura, na escultura, no cinema, nos livros de quadradinhos da minha infância e adolescência de leitor encartado? As cavalgadas, no papel, de índios e de cóbois, desde os apaches de Gerónimo aos oglalas de Sitting-Bull e de Nuvem Vermelha até ao, noutro registo, cavalgar em estilo "feio, forte e formal" do John Wayne? E o ar hierático de Gary Cooper ou do James Stewart ? (Que, aqui entre nós, sempre me pareceu ter um rosto um pouco cavalar...). 

 Todas estas coisas me foram suscitadas pelo texto (Cavalaria) do Poeta.

 Será necessário dizer que Feitosa, como bom ginete, ultrapassa as barreiras como um galhardo cavaleiro e nos faz cavalgar através do texto como um alazão de crinas ao vento?

Um abraço, meu Poeta - e que galope a preceito assim pela vida durante muito tempo e nos enleve soberanamente com o seu estro tão veloz como apropriado e fecundo.

Um abraço firme, à guisa de cavaleiro de antanho, do seu

ns


Ivan Rebroff, Kalinka

 



segunda-feira, 18 de outubro de 2021

UMA FRASE LAPIDAR

 

   “Agora que chegaram as primeiras dificuldades reais a este PS de opereta é que se vê a verdadeira face política do nepotista, manhoso, irritável e cínico que durante demasiado tempo tem ocupado o cadeirão do poder que lhe foi concedido pela maioria relativa dum povo subsídio-dependente, crédulo e anestesiado”.

Martinho de Albuquerque


PÓRTICO

 

Abusos na Igreja, uma crise com dois mil anos

 

   A religião (entenda-se, todas as religiões) é, em si mesma, a mera institucionalização do abuso. Não apenas do abuso sexual, não apenas do abuso de crianças, mas sim do abuso em termos latos, a todos aqueles que professam ou não a dita cuja.

 

   Abuso ao nível do amesquinhamento intelectual, abuso ao nível da menorização de categorias sociais (internas ou externas), abuso ao nível da humilhação do ser humano enquanto indivíduo ou enquanto ser social, abuso enquanto forma de dominação e de controlo social, garantindo a desigual distribuição da riqueza e do poder, fazendo dos seus adeptos vítimas da síndrome de Estocolmo.

 

   Nada como a religião para reduzir o ser humano a uma amostra microscópica do que este pode ser em termos intelectuais, morais, sociais e humanos. A religião é um abuso enquanto puro charlatanismo. A religião é sinónimo de abuso.

 

   As crianças, essas, foram "apenas" mais uma das vítimas dos abusos que a religião sempre promoveu, defendeu e praticou.

 

   Tudo, sob o beneplácito e enternecido olhar da mais repugnante criatura inventada pela imaginação humana!

 

Paulo Alexandre


Para um minuto de meditação - 136

 

Assassínio de deputado britânico considerado "incidente terrorista",

diz a polícia britânica


O deputado conservador David Amess morreu na sexta-feira na sequência de um ataque com uma faca em Leigh-on-Sea, durante um encontro com eleitores.

O assassínio de David Amess foi considerado "um incidente terrorista", com uma "potencial motivação ligada ao extremismo islâmico", informou a Polícia Metropolitana de Londres.

(Dos jornais)

 

  É o multiculturalismo a chegar às classes dirigentes...

Paulo F.

 

  Os ingleses já se vão habituando aos esfaqueamentos diários em Londres, aos gangs pedófilos paquistaneses que condenam e não conseguem deportar, às manifestações ameaçadoras dos islamitas à porta das escolas que ensinam os valores ocidentais/ liberdade de pensamento e de opinião. 

Gigi Tavares

 

  Mais uma benção da imigração sem regras e sem critérios rigorosos.

Paul C. Rosado

 

  Talvez agora os políticos, que se especializaram em enterrar a cabeça na areia dos desertos islâmicos, acordem e limpem sem complexos a Europa destes assassinos.

Ercílio Miguéns


Dois poemas de José Carlos Costa Marques

 




Roda

 

                    Pois pertence ao destino que todas as coisas corram

                    para a sua perda e regressem, cada vez mais apagadas.

                                                                            Geórgicas, Vergílio

 

Avança entre flores a roda do destino,

entre destroços. As flores que carrega e se esmagam

de encontro ao ferro, vivem ainda um átimo

e um perfume evanescente ainda nos ilumina.

Mas logo queimam, murcham, se degradam.

E de novo nascerão, após as chuvas abundantes

encerrando o longo círculo da secura,

o ciclo sem tréguas da terra extrema.

Com vigor redobrado se erguem, nada mais que ervas,

desdobrando seu esplendor gratuito, surgido ao sol

livres de qualquer utilidade. E nós, sob o jugo

sempre sujeitos, que o estômago e cuidados renovam

num giro sem fim, nós aspiramos o perfume novo

que o rodar da roda já espreita e esse instante sorvemos

já quase fenecido. Antes que se vão, por trás da montanha,

os fulgores últimos, ainda as vemos, correndo para a perda

como nós corremos, e regressando, um momento breve,

já desvanecido, e cada vez mais declinantes.

E assim entraremos, perdidos entre flores,

no momento expectante desde o berço, e a roda rodando

nos lançará, quando ela quiser, pela porta sempre aberta,

negror total talvez, cegos talvez do clarão

e deslumbrados.

 

1995

 

 

Escalada

 

O deus é isso que diante de teus olhos tens

- porém invisível.

Em abril a árvore com seus ramos pesando

de rosa branco carregados,

flores de múltiplas pétalas, massas algodoando,

recôndita formosura que espargem em caprichos de forma,

casuais e de recorte afinal sutilíssimo.

A árvore as oferece e tu sabes que ela

o não soube, impassível perante o esplendor que porta,

portadora ela também do que ignorante derrama,

como a mulher jovem sua desnuda beleza

de um ventre florindo.

Mas ao rosa arborescente não responde o teu sangue

ou sequer memória.

Por isso acima, e mais acima te eleva,

mais alto e mais puro,

o deus de braços rosa, de espessas pétalas finíssimas.

 

1995

 

in “Flor dum dia”


Nicolau Saião – Entrevista dada à revista mexicana BLANCO MOVIL



João Garção



 01 | ¿Ante de las noticias de prensa te sientes más cerca o lejos del mundo que allí te informan?

 

Resposta NS – Depende do jornal…e do jornalista. Umas deixam-me mais próximo, outras afastam-me, porque infiro que me estão a mostrar um mundo apenas virtual e enganoso, por razões que tenho por falaciosas ou mesmo retintamente falsas.

 

02 | ¿Alguna vez llegaste a una conclusión satisfactoria sobre el motivo que te lleva a escribir o este acaso es un tema que jamás te preocupó?

 

R – Claro que me preocupou, digamos, ou melhor: me intrigou. No meu caso pessoal concluí que escrevo para não morrer, como afirmei recentemente numa entrevista dada a um poeta brasileiro. Neste não morrer fica tudo incluído: a solidariedade com os seres e as coisas, o trabalho específico da demanda na escrita, o perfume de viver (título dum trabalho meu), a amargura de ter que deixar o mundo, tudo o que nos faz ser homens no universo.

 

03 | Reflexionando sobre la tradición literaria de tu país, ¿Cuáles libros crees que nunca deberían haber sido escritos y por qué motivo?

 

R – Sem personalizar - também porque um rol cabal seria extenso e atravancaria uma resposta salubre e sucinta: aqueles livros que alguns escrevem para estabelecer o domínio de opressões sociais, religiosas ou políticas. Ou seja, todos os livros desses “escritores” que fazem das suas obras nefandas armas de extermínio moral, que geralmente tenta preceder outros extermínios.

   E, também, aqueles livros medíocres que as capelinhas infames dum meio societário infame tentam epigrafar como valorosos, criando o ambiente lamentável da mentira e da burla intelectual.

 

04 | ¿El método de trabajo es fundamental y indispensable a la creación artística?

 

R – É, pelo menos, muito útil para que a criação artística chegue a bom porto. Picasso referia que uma obra de arte é um terço de inspiração e dois terços de transpiração e eu estou em crer que assistia muita razão a esta aparente “boutade” do grande pintor malaguenho.

 

05 | Cuando estás en algún lugar público en que tocan el himno de tu país, ¿cómo reaccionas y por cuál razón?

 

R – Sinto simultaneamente gosto e vergonha: gosto porque esse hino existe na sequência da instauração de uma sociedade que se buscou mais justa (republicana) e porque sintetiza ideais de liberdade e democracia. Vergonha porque esse hino é também usado por gente desacreditada, mesmo nefasta, que se serve dele para lançar poeira nos olhos dos cidadãos sobre os quais tripudia cinicamente.

 

06 | ¿Cuál acontecimiento en tu país, en los últimos 25 años, te provocó indignación?

 

R – Vou generalizar: a contínua e perversa mancebia, o repugnante conúbio, em que têm vivido certos sectores políticos arrivistas e o totalmente desacreditado, dum ponto de vista ético, sistema judicial em que se espojam governantes, causídicos, magistrados e forças obscuras de irmandades. É isso que constitui o cancro que está a destroçar o meu país.

  Sem generalização: as tentativas imperiosas surgidas ultimamente de instaurar de novo a censura e o controle do pensamento, por parte de magistrados altamente colocados e de áulicos políticos sempre dispostos a tudo e prontos para tudo.

 

07 | Arte, ciencia, religión – ¿Cuáles de esas tres corrientes, a lo largo de la historia de la humanidad, causó más daño al hombre?

 

R – A religião, sem qualquer dúvida. E que continua a causar. Pese às declarações piedosas dos chefes de todas as religiões, estas não são mais que instrumentos de domínio mental, espiritual, físico e social. O que individualmente ou sectorialmente possam ter feito de positivo certos indivíduos ou instituições não oblitera ou apaga os crimes e sufocações que fizeram e continuam a fazer as chamadas “religiões reveladas”. Elas partiram, na verdade e continuam a apoiar-se, na simulação e na impostura. Nos casos mais marcados, na violência nua e crua e no crime, conceptual ou expresso pela repressão.

 

08 | ¿Crees que la vida de una persona puede ser regida, de manera separada, por la lógica o por la suerte?

 

R – Creio que por ambas. Tem alguma lógica, por exemplo, que Evariste Galois, um dos maiores matemáticos de todos os tempos (o criador do “grupo de operações”), tenha morrido aos 22 anos na sequência de um duelo para defender a honra duma senhora que mal conhecia e tenha levado a noite que o precedeu a escrever as trinta e tal páginas que imortalizariam o seu nome?

   Talvez tenha, mas é uma lógica que me escapa…

 

09 | ¿El mito aun existe o no pasa de un efecto publicitario aplicado a la industria, a la moda, al consumo?

 

R – Acho que existe ainda. Mais: que certos artistas o têm purificado e até incrementado. No entanto, sem dúvida que os donos dessas áreas que referes, sempre ávidos e frequentemente oportunistas, o tentam poluir, deformar, capturar para servir os seus duvidosos interesses. Compete-nos a nós, criadores e homens de bem, à guisa de bravos guardiões da Távola ou do Segredo, preservá-lo e mesmo vivificá-lo.

 

10 | ¿Cuáles son los actos más importantes sucedidos en la cultura en general, y en la literatura en particular, en los últimos 25 años en tu país?

 

R – O aprofundamento da liberdade de expressão, por um lado. A possibilitação, nomeadamente mediante os meios interactivos, da difusão de obras de qualidade que os sectores egoístas ou cínicos, que dominam certos meios editoriais, doutra forma teriam impedido ainda mais fortemente de aparecerem à luz dos dias…e das montras.

 

CODA | ¿Cómo convives con los seres que están en tu vida?

 

R – Há, feliz e infelizmente, vários tipos de seres que quer queiramos quer não estão na nossa vida: os que amamos/estimamos e nos amam/estimam; os que detestamos ou nos detestam; os que vivem noutro plano (animais e vegetais) e, finalmente, os que sem estarem já connosco no entanto vivem na nossa memória. Com os primeiros convivo bem, sulcados ambos pelos ritmos do tempo. Com os segundos não convivo, ou convivo sob a égide do desprezo salutar que lhes voto. Com os terceiros relaciono-me através do apreço e do carinho de ser vivente. E com os quartos mediante a saudade e a nostalgia mais pura.

G. F. Haendel, Sarabande

 



quinta-feira, 14 de outubro de 2021

Para um minuto de meditação - 135

 

A abolição da família

 

A escolaridade obrigatória a partir dos 3 anos vai no sentido de procurar a fabricação de cidadãos uniformizados, eliminando a diferença, a diversidade, o pluralismo e a iniciativa familiar e pessoal.

(Dos jornais)


   Estamos a voltar à Esparta de há 2500 anos e isto não é progresso, é retrocesso: as crianças pertencem ao Estado, não às famílias, são criadas para servir o Estado e retiradas às famílias, tão cedo que dos pais terão uma vaga memória.

   Há uns tempos perguntei a uma inspectora do Ministério da Educação "A quem pertencem as crianças: aos pais ou ao Estado?" Não sei se por ironia respondeu prontamente: "ao Estado."

   Com efeito, para lá nos querem encaminhar!

Fernando Soares Loja

 

   É tempo de acabar com esta cambada de bandidos que gostam de fazer lavagens forçadas às cabeças dos filhos dos outros. É ver os guiões que este governo tem enviado para o pré-escolar e ensino básico à escondida de todos, cheios de teorias retrógradas e manhosas como as ideologias de género e outras que tais. Deixem os pais educar os seus filhos, foram eles que os geraram e portanto são responsáveis por eles. À escola, transmitir conhecimentos. Aos pais, educar. Os pais pagam a escola com os seus impostos, e portanto nada deve ser feito à sua revelia.

João Mourinho


Um poema de Juan Ramón Jiménez

 


(Moguer, 1881 – Porto Rico, 1958) 



   O excelso autor de “Platero e Eu”, galardoado com o Nobel de 1956, pela sua oposição ao regime franquista foi obrigado a exilar-se nos EUA no ano de 1936. Republicano e democrata íntegro, a sua acção cívica e cultural tem sido celebrada anualmente, com uma notável Sessão referindo as sua diversas facetas, na terra que o viu nascer.

 


A DERRADEIRA VIAGEM

 

…E partirei. E ficarão os pássaros

cantando;

e ficará o meu quintal, com a sua árvore verde

mais o seu poço branco.

 

O céu, todas as tardes, estará azul e calmo;

e tocarão, como esta tarde estão tocando

os sinos do campanário.

 

Irão morrendo aqueles que me amaram;

e a cada ano se fará novo o meu povoado;

e no tal recanto do meu quintal florido e calado

o meu espírito vagueará, nostálgico…

 

Eu partirei; e ficarei só, sem lar, sem a árvore

verde, sem o poço branco

sem o céu azul e calmo…

 

E ficarão os pássaros, cantando.

 

(Tradução ns)


Do meu diário - ns

 


ns


  Tenho vindo, pelos tempos, a receber de Floriano Martins e ao que creio em primeira ou quase primeira mão, vários envios com poemas seus ou feitos em colaboração/co-autoria com poetisas que ele frequenta como confrades ou correspondentes.

  E se é facto que um poema a quatro mãos é sempre compósito, também é verdade que nestes poemas a que aludo se sente o jeito, a suscitação, diria mesmo a excitação do autor de “Alma em Chamas” e de outros (nomeadamente um volume de entrevistas, entrevistas sim, com escritores sul-americanos) que não vou agora citar.

  Durante um certo tempo, claramente devido a um enfoque daqueles que todos os poetas atravessam pelo tempo, na sua caminhada sem norte e sem estrela/ através das tempestades (para citar Péret) Floriano deu a lume textos de clara vocação imagética, onde o simbolismo quase barroco (ou o surrealismo na linha de Arcimboldo) se verificava e se plasmava duma forma evidente, roçando o fantástico na intenção ou, diria melhor, no resultado.

   A seguir, concerteza por ter dominado esses daimóns, sem deixar ela de ser fortemente imaginativa, conciliou-se – digamo-lo desta forma – com um real, ou trans-real (evidentemente surreal, et pour cause) que apela para o quotidiano, mas um quotidiano renovado em que as coisas, os momentos, as lembranças, os seres e os acontecimentos passam a viver intensamente e, nesta medida, a fazer parte daquilo que considero o seu melhor e mais adequado timbre.

  Aventurando-se naqueles lugares onde outro autor menos seguro e precavido partiria o pescoço, tem a faculdade de mesclar o sonho com a realidade, ou diria mesmo (e as suas fotografias a ilustrar os poemas é para aí claramente que apontam) o retrato do sonho com o teatro da existência comparticipativa.

   Em suma, uma poesia - apesar de carregada de imagens e de conceitos - cheia de frescura, de invenção e no entanto de justeza.

   Uma última palavra, sabendo-se ou intuindo-se, como parece ser infelizmente hábito na república (ou monarquiazinha?) das letras, que como ele mesmo afirma em momento de desabafo amargo, as cousas andam escuras (“Sim, o mundo das letras é um mau tablado, uma gente frequentemente da pior espécie, e note que não há muita grana ou prestígio circulantes. Fosse assim se matavam entre si a sol aberto”): é muito agradável e gratificante, desde logo para os intervenientes, este hacer a quatro manos. Significa, a meu ver, que ainda é possível a aventura de viver…e de criar sem que os egos se choquem ou as notoriedades se encarquilhem…


Juan Legido, El Gitano Señorón - Los Churumbeles de España

 



segunda-feira, 11 de outubro de 2021

Para um minuto de meditação - 134

 

"Poesia não tem de ter mensagem", diz Ana Amaral


Em entrevista no dia de lançamento do seu novo livro "Mundo", Ana Luísa Amaral defende que a "poesia não tem de ter mensagem nenhuma", e que um tradutor deve "ter uma imensa paixão pela sua língua."

“Chocou-me bastante, uma vez, uma pessoa que me disse que as palavras não lhe interessavam para nada, o que lhe interessava era o que elas convocavam. Mas então, onde está a poesia? A poesia é feita de palavras”, afirma a poeta.

(Dos jornais)


   Esta autora tem razão. A velha conversa dos erradamente chamados neo-realistas, que já está mais que desmascarada, volta de novo ao ataque nestes tempos de politicamente correto e de “cultura woke”, que é a nova indumentária dos totalitários e dos que querem servir-se de tudo para impor as suas notas de agenda vígara.

  Toda a poesia, qualquer que ela seja, tem uma mensagem que é a sua estrutura própria.

  Assim, quando esses tipos falam em mensagem obrigatória o que querem significar de fato é que a poesia como qualquer outra coisa deve é veicular a propaganda ou ideologia dos partidos estalinistas e neo-comunistas gramscianos e mais nada. “Mensagem” orwelliana é o que pretendem.

   Esta gente é a mesma que recentemente impediu que brancos traduzissem autores negros, numa ação estúpida, racista e reacionária. Ou têm queimado livros, como os carolas medievais ou os nazis faziam.

Rodrigo de Matos


Três poemas de José Pascoal

 


Javier Pagola



DOIS RAPAZES

Dois rapazes discutem Parménides
Em plena livraria.
Pura perda de tempo.
Descobrirão mais tarde.

Ao mesmo tempo, manifestam o desejo
De ler Santo Agostinho
No original.
Não lhes faz mal.

Também já fui de bicicleta
Aos Alpes do pensamento.

 

A PEDRA NO SAPATO

Se tens a pedra no sapato,
Não chores o leite derramado,
Olha bem o dente a cavalo dado,
Não te percas no mato.

Isto, em sentido lato,
Com música de fado,
Letra de encapuzado
E paciência de gato.

Se não tens, deita-te a correr
Estrada fora,
Feito pedra rolante.

Pois, chegarás a ver,
Perto da aurora,
Os pés de barro dum gigante.


O TERAPEUTA BELGA

 

Preparai as vias respiratórias.

Vamos cantar.

 

Um velho sentou-se na curva da estrada

E cumprimentou o mundo.

Pode passar.

As virgens, por exemplo, passam apressadas

E brancas,

Comprimindo o vento nos lábios.

Mas eu (ele, o outro) disse que íamos cantar.

A canção da mãe e dos seus dois filhos.

Da cabra e das suas duas crias.

Do vigário e dos seus dois meninos de coro.

Do vento e das suas duas velocidades.

Moderado, forte com rajadas.

Ora, abri a boca enquanto vos enfiam o dedo

E estareis prontos para cantar

Ai solidão

Ai solidão

 

O velho cumprimentou o mundo a seu modo.

 

Ao sul, levanta-se a poeira do deserto

E o homem da gaiola corre atrás

Do pássaro português.

Aonde? Perguntam, boquiabertos,

E espantam a ave

E espevitam o homem.

O velho, sentado e sentido, chora,

Ultrapassado por um carro funerário

(Ocasião para esclarecer que os caracóis

Não vão ao enterro deste homem).

E a canção? Perguntam, desapontados.

Que querem? Eu não sou o homem do saco

E secaram-se-me os ossos,

Que não são flautas

(Longe de mim tal alegria),

E a canção fica enterrada no peito,

Tal como a gaiola no homem

E o pássaro na gaiola.

 

E, depois, vou-me embora,

E, triste, deixo para trás

A cidade e o campo,

A terra, o mar e o céu,

E, de joelhos,

Toco no pássaro morto na erva

E não penso mais.


José do Carmo Francisco, Breve dissertação para uma rua de Lisboa

 


    Não por acaso (e nada acontece por acaso) há quem chame às ruas de uma cidade «artérias» e poderia também chamar-lhe «veias» pois a cidade, qualquer cidade, não deixa de ser um corpo e o sangue ora venoso ora arterial corre no coração dos seus habitantes sejam eles naturais ou adoptados. No meu caso pessoal posso dizer que sou «lisboeta» desde 1966 e esta Rua (Academia das Ciências) sempre fez parte dos meus roteiros. Por aqui passei a caminho do Hospital de Jesus, do Cinema São Jorge e do Instituto Britânico. No primeiro caso para ser operado duas vezes a um quisto dermóide gigante, no segundo caso era sempre ao Domingo de manhã que o Cineclube Católico dava as suas sessões no Cinema São Jorge, no terceiro caso para estudar inglês que muito útil foi no meu trabalho no Departamento Operacional de Estrangeiro do Banco Português do Atlântico (1966-1996) e mais tarde (2005) quando a minha filha mais velha casou com um súbdito britânico nascido na cidade de York. Tanto quanto sei esta Rua da Academia das Ciências começou por se chamar Rua do Arco a Jesus sendo este Jesus, nada mais e nada menos, o Convento quase ao lado da Rua, do Hospital e da Igreja do mesmo nome que era ao tempo (1935) paroquial das Mercês (e julgo que ainda se mantém) e é curioso porque no ano do livro «Ruas de Lisboa» não tinha dístico municipal nem número de polícia. Há fotógrafos que dizem que a vida é a preto e branco e não a cores; continuo a pensar que eles têm toda a razão. Esta rua por onde tenho passado desde 1966 até hoje 2021 nada tem das cores artificiais; continua a preto e branco como as minhas lágrimas e o meu sangue pisado.  


Para um minuto de meditação - 137

  Russo Alexei Navalny vence o Prémio Sakharov, atribuído pelo Parlamento Europeu Crítico de Vladimir Putin, que está detido, recebeu o pr...