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terça-feira, 7 de junho de 2022

José Carlos Costa Marques, Poema setenta e seis

 


Greta Knutson



Fantasma de mim mesmo nestas ruas de outrora

Onde está aquele que hoje por elas caminha?

O que foi só miragem mas o que nela presente

E pressente a dimensão da luz?  O que nunca emigrou?

O que retorna sobre seus passos e rasto nenhum encontra

Da realidade ou irrealidade

Ou mortiça penumbra esquálida a um canto da memória

Rio dividido em duas águas o teu tempo

Duas metades hiantes de uma ferida que não cola

O teu olhar esse é inocente do fosso que atravesso

Fantasma no tempo mas carne da tua carne

Mas na carne do teu presente onde vivo agora

Em ti a vida vive que me levará da carne

Até ao sossego maior

Levado pela tua mão ao mais belo abandono.

 

in “Por outras palavras”


terça-feira, 3 de maio de 2022

Um poema de Léon-Paul Fargue

 


Greta Knutson



QUIOSQUES

 

O mar em vão faz a viagem

do fundo do horizonte para beijar os teus pés sábios.

Tu sempre a tempo os desvias.

 

Em silêncio ficas e eu também nada digo.

Nisso talvez não mais pensamos,

mas os vaga-lumes passo a passo

pegaram na sua lanterna de bolso

de propósito para fazer brilhar

nos teus olhos calmos esta lágrima

que um dia fui obrigado a beber.

 

E o mar é salgado a valer.

 

Depois, uma medusa loira e azul

que aprender quer enquanto se entristece

atravessa os fundos atulhados do mar,

limpa e clara como um ascensor.

 

E desgrenha a lâmpada à flor da água

para te ver fingir na areia

com tua sombrinha em mão, chorando,

 

os três casos da igualdade dos triângulos.

 

(Trad. ns)


terça-feira, 19 de abril de 2022

Dois poemas de H. P. Lovecraft

 


Greta Knutson



A COLINA DE ZAMÁN

 

  A grande colina erguia-se perto da velha cidade,

  Um penhasco contra o fundo da rua mais povoada;

  Verdejante e cheia de bosques, cá de baixo parecia escura

  E dominava com a sua altura

  O campanário junto à curva da estrada.

 

  Há duzentos anos que se ouviam rumores

  Sobre o que ocorria nessa ladeira que o homem devia evitar ...

  Histórias de veados e de pássaros estranhamente mutilados

  Ou de garotos perdidos cujos pais tinham cessado de esperar.

 

  Certo dia o carteiro não achou o povoado no seu lugar

  E ninguém voltou a ver os habitantes ou as casas;

  As pessoas vinham de Aylesbury e ficavam-se a olhar...

 

  No entanto, todos diziam ao carteiro que era um ingénuo

  Ou estava louco   por dizer que conseguira descortinar

  Os olhos carnívoros das altas colinas e as bocarras

  Abertas de par em par.

 

 

O PORTO

 

  A dez milhas de Arkham descobrira um carreiro

  Ao longo da falésia alcantilada de Boyton Beach

  E aguardava o momento em que o ocaso coroa

  A crista que assoma por sobre o vale de Innsmouth.

 

  Ao longe, no mar alto, uma vela vogava

  Branqueada por árduos anos de velhos ventos,

  Carregada com o mal de algum facto inexplicável.

  E não ergui, assim, mão ou voz para saudá-la.

 

  Veleiros de Innsmouth! Ecos de idas memórias

  De tempos já longínquos; a noite ia caindo,

  Bem cerrada, quando cheguei ao topo

  De onde era meu hábito olhar a povoação.

 

  Além estão os campanários e os telhados... Mas, olhai!

  As trevas

  Propagam-se nas ruas, tenebrosas como tumbas!


(Tradução de Nicolau Saião)

Aos confrades, amigos, adeptos e simpatizantes

     Devido a um problema informático de última hora, não nos será possível fazer a postagem desta semana.    Esperando resolvê-lo em breve,...