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segunda-feira, 13 de março de 2023

Um poema de Ana Swir


 LAVO A CAMISA


Lavo, pela última vez, a camisa do meu pai,

que morreu. A camisa cheira a suor. Lembro-me

deste suor desde a minha infância, tantos anos

lhe lavei as camisas e a roupa interior,

secava-as num fogão de ferro no atelier

e ele vestia-as por passar.

De entre todos os corpos no mundo, animais, humanos,

um só exalava este suor.

Inspiro-o pela última vez. Ao lavar

a camisa destruo-o para sempre.

Agora só as pinturas que cheiram a óleos

lhe sobrevivem.

 

Tradução de Francisco Craveiro de Carvalho,

com base em versão inglesa de Czeslaw Milosz & Leonard Nathan


terça-feira, 10 de janeiro de 2023

Um poema de Billy Collins


 Morte dos amigos

 

Morrem simplesmente

ou adoecem e morrem da doença

ou adoecem, recuperam e morrem de outra coisa

ou adoecem, parecem recuperar

e morrem da mesma coisa,

com a doença a voltar

para mais uma dentada em nós

na floresta das nossas últimas horas.

 

E há outras formas

que não serão consideradas aqui.

Ao fim do dia, eu fechava os olhos

à beira da água e fingia

que seria assim

ou não seria,

era para ali que os meus amigos continuavam a ir,

um “lugar” apenas entre aspas

 

onde, em vez de oxigénio, há silêncio

que o latido de uma raposa no inverno ou a queixa

de uma chaleira deixada sozinha não quebra.

De olhos ainda fechados,

corria no escuro para aquele silêncio,

como um homem na plataforma de uma estação de comboios

e, quando os abria para  ver

quem corria na outra direcção

 

de braços abertos,

lá estava o lago de novo com a sua ondulação,

uma brisa a soltar-se da água,

 

um apito fraco de comboio

e eu a tremer

sob as árvores, nuvens a passar

e tudo o mais que se derramava

sobre as comportas poderosas dos sentidos.

 

Tradução de Francisco Craveiro de Carvalho

 

Da antologia “A garça impassível” - dada a lume por José Carlos Costa Marques na sua editora “Sempre em Pé” – integralmente composta por traduções de F.C. de Carvalho.


segunda-feira, 7 de novembro de 2022

Um poema de Anna Swir

 




Por dentro


A caminho de tua casa para uma festa de amor

a uma esquina vi

uma velha pedinte.

 

Peguei-lhe na mão,

beijei-lhe a face delicada,

falámos,

por dentro era como eu,

a mesma natureza,

percebi logo isso

como um cão conhece outro

pelo cheiro.

 

Dei-lhe dinheiro,

não conseguia afastar-me dela.

No fim de contas, precisamos

de alguém que nos seja próximo.

 

E depois não sabia já

por que estava a ir para tua casa.

 

  (Tradução de Francisco Craveiro de Carvalho,

 com base em tradução inglesa de Czeslaw Milosz & Leonard Nathan)


  Anna Swir (Swirszczynska), 1909-1984, nasceu em Varsóvia. Membro da Resistência Polaca, serviu como enfermeira durante a Revolta de Varsóvia tendo, a certa altura, estado a uma hora de ser executada, antes de ser poupada. Autora de seis recolhas de poesia, Swir descreve frequentemente o sofrimento que testemunhou durante a guerra.


terça-feira, 4 de outubro de 2022

Três poemas de Amalia Bautista

 


(Madrid, 1962)



Cantar das espigas

 

Não cantam, isso são histórias

das pessoas que nunca trabalharam no campo.

Mentiras piedosas com verniz lamechas

que os artistas e os pirosos inventam,

se é que são diferentes.

O que as espigas fazem

 são cortes nas mãos,

 mas sobre as feridas que sangram

 nada se ouve.

 

 

 Despertar

 

Desperta-me mais o som da campainha

do que o café que estou a tomar.

 E um homem de entregas, um mensageiro

 que traz numa caixa

 uma pequena porção de alegria.

É a tua prenda de anos. 

Quando ta der, da tua alegria

 retirarei a minha.

 

 

 Ausente

 

 Essa mulher com que sonhas às vezes

 é a mulher que eu fui:

 Desejável e alegre,

 animada, jovem.

 Que lhe terá acontecido?

Quem ou o que a matou?

Há quantos anos choramos a sua ausência?

                     

Tradução de Francisco Craveiro de Carvalho


terça-feira, 19 de julho de 2022

Dois poemas de Neil Curry (trad. de Francisco Craveiro de Carvalho)

 

Outros Quartos  

 

Mais tarde, tudo o que ele conseguia lembrar com clareza

Era o barulho feito pela chuva, salpicando

Os papéis que envolviam as flores

 

Que alguém estivera a dispor em volta da sepultura.

Afastou-se da janela. Quando as pessoas estão

Sempre à janela tendem a ser esquecidas.

 

E mexeu numa almofada, mas sem se sentar.

Ter partido, uma pessoa precisa de ter sido,

Ser alguém a quem aconteceu uma vez alguma coisa.

 

Pensou em fazer talvez um pouco de chá. Quando

não há amor que chegue perto de nós,

Devem ser os mortos a passar sem ele.

 

Um outro quarto, outra fronteira. Haveria

Outras: escadas e portas. Ele conseguia

recordar o conhecimento carinhoso dos seus corpos.

 

Estas eram as luvas dela. Havia alguma coisa parecida,

Pensou ele, com a imortalidade na sua saudade.

Noutro lugar estariam os sapatos, e outras coisas.

 

 

Em Samos: Uma Pergunta 

 

“E tu, meu filho, de que madeira és feito?”

Não era uma pergunta. Podia ver isso.

Era um Beneditino e muito atraído

Pela minha bengala: a sua elegância,

 

Em ébano, o punho macio em cabeça de cão

Virada para trás: olhar triste e um toque

Lúgubre na linha do seu queixo.

Comprara-a no Grand Bazaar

 

Em Istambul, tinha sido atraído

E fora enganado por ela também. Só

Ao chegar a casa  me apercebi

De que, de facto, era apenas bambu lacado.

 

Mas andara mais de trezentas milhas com ela

Em três semanas e o monge estava impressionado.

Não, não era uma pergunta. Sabia isso.

Mesmo assim preferia que ele não tivesse perguntado.


Aos confrades, amigos, adeptos e simpatizantes

     Devido a um problema informático de última hora, não nos será possível fazer a postagem desta semana.    Esperando resolvê-lo em breve,...