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segunda-feira, 8 de maio de 2023

Um poema de José Carlos Breia

 





DOS REIS

 

Dos quatro reis que eram três,

porque um deles se perdeu

e seu nome se apagou,

um viria dos caldeus,

da velha terra de Ur,

era dos três o mais velho,

já na casa dos setenta,

chamava-se Belchior,

trazia ouro consigo.

Outro da Arábia Feliz.

O terceiro destes reis,

que se chamava Gaspar

e só tinha vinte anos,

viria de terra farta

banhada pelo Mar Cáspio.

Trazia mirra na bolsa.

 

Deixei Baltazar para o fim,

o que era feliz da Arábia,

que tinha quarenta anos

era mouro e muito alto.

Com ele trazia incenso,

uma língua mui prudente

com que baralhou Antipas

sobre os motivos que tinham.

 

Mas como é que se encontraram

Estes reis e para quê?

 

Diz a lenda que uma estrela

( era um ovni com certeza )

a cada um encontrou

e os levou de caminho

para verem um menino

que uma luz por cima tinha.

 

Dos ouros, incensos, mirras

nunca mais se ouviu falar.

Dos três reis nunca se soube

se voltaram donde vinham

ou se o ovni os levou

como fizera ao profeta.

 

Se viram deus não se sabe.

Mas que viram um menino,

chorando por entre as palhas,

diz a lenda que é verdade.

 

Ao quarto rei que perdido

perdeu o nome também

que terá acontecido?

Que trazia nos alforges?

Quem sabe donde viria?

Talvez do Reino Amarelo

e chá consigo trazia.

 

O aroma da infusão,

o delicado sabor,

talvez o levasse ao sonho,

talvez à meditação.

 

Assim, ao perder a estrela,

ficou ausente da história.

Mas pode tê-la sonhado

 

Agora, ao beber meu chá,

penso muito nesse rei

que nunca tendo chegado

nunca ao menino deu nada.

 

Dos ouros, incensos, mirras

nunca mais se ouviu falar.

Mas o chá que o rei foi dando

pelo caminho que achou,

rescende na minha taça

e faz-me sonhar também

o sonho que, acaso teve,

o rei que nunca chegou.

 

Do livro “OUTRO LADO”


segunda-feira, 20 de setembro de 2021

Dois poemas de José Carlos Breia

 


Nikos Ghika



O NOVO ALADINO

 

Se tivesse uma lâmpada

como tinha Aladino

que iria eu fazer para Pasárgada?

 

Ser amigo de rei

tem desvantagens.

 

Não precisava de um rei

para escolher a cama desejada

e nela a mulher

com quem bulisse.

 

Primeiro,

queria uma casa com relvado,

entre campo e praia,

sem vizinhos amáveis

que são uma chatice.

 

Amigos

isso sim

quantos quisessem vir.

Mas nunca mais de dois

de cada vez.

 

Queria

uma cama de água

com comando,

para sentir a calma das lagunas

a lua das marés

e dos riachos

o sussurro fresco.

 

A mulher é que era o drama:

 

olhos que falassem fundo,

esguia e louca

feita malagueta,

frescura de água de coco

e o doce da carambola.

 

Mas nada de escravatura.

 

Nua ou velada,

só viesse

quando o ritmo lhe pedisse

ou a isso fosse levada.

 

E pouco mais queria.

 

Escrever por acaso.

A melodia

do meu galgo solto.

E, na iridiscência

do meu copo

o reflexo inquieto

da memória.

 

 

A  CASA

 

No caminho

olho as janelas

donde já ninguém espreita

e as portas

a que só o vento bate.

 

O homem

levantou as paredes,

pôs as telhas,

e por baixo do fumeiro

a pedra do fogo

e a panela de ferro.

No canto mais escuro

escondeu a cama

onde dormia

e fazia os filhos.

Arroteou a terra,

fez a horta

e mais tarde a cerca

onde o porco

chafurdava os restos.

Dos filhos, muitos,

só ficaram dois:

um áspero e rude

a quem o pai deixou as cabras

e outro que cedo morreu.

Os restantes perderam-se

por oficinas, fábricas,

áfricas, que a imaginação debulhava

em frutos, terras úberes

e o bronze das mulheres.

O último deixou a casa

a que nada o prendia.

 

No silencio que só os ratos roem

pairam fiapos do riso

que a madeira range,

das lágrimas

que ressumam das paredes.

Apodrece o esqueleto.

Vai ruindo           

a velha casa. 

 

Já ninguém se lembra

de quem lá vivia.

 

Do livro “Outro Lado”


quinta-feira, 9 de julho de 2020

Cinco poemas de José Carlos Breia






                     O MOCHO


                     A placidez informe das coisas.

Um rufo de asas
entreabre
o silêncio.

Teus olhos estelares
regressam.

Medito
no início dos astros,
na imensa noite
que antecedeu
o tempo.

E pergunto-me:
(sábio na fábula,
mau agoiro no grito)
de que avatar descendes?

Ou és transmutação?


                     EURÍDICE

                     Entrei por fim na casa abandonada.

Quanto tempo terá ela levado
a tricotar as teias pelos cantos,
a nublar vidros
velando espelhos, rostos e retratos?

Dados dois passos,
sob o ranger das tábuas e das portas,
vi
o que ficara de um vestido
no rasto da fuligem,
o rasgado verde resto da coberta
a resvalar da mesa,
as cadeiras partidas.

E, ao rodar a mão por um desenho
que o mofo recamara,
abri no espesso as linhas de uma face,
tirei do pó
uns olhos apagados.

Abertos, lentamente,
em mim pousaram
com tão funda ironia,
que, sem olhar pra trás,
abandonei-a.

E tudo se ocultou
em sucessivas dobras:
tempo, casa, razão,
cuidados meus.


DICIONÁRIO

Este é o livro
onde as palavras
cristalizam.

Do livro agora aberto
-   do preciso rigor das suas linhas,
retiro algumas dessas formas frias.

Rodeio, lento, a sua geometria.
Paciente, procuro, ponto-a-ponto
a cruz axial em que se animam.

Os pequenos cristais
revelam ângulos, planos
que a sua dura forma escurecia.

Secreto,
fecho depois o livro em que o poema,
recomeçado sempre,
ausente fica.


RETRATOS

Olho os retratos
que nesta velha sala me rodeiam.

Entre quadros e livros muito lidos
eles cercam-me
e pedem-me cuidados:
que lhes tire o pó dos vidros
e a mancha das molduras.

Brilham agora, limpos,
mas ainda inseguros.

Eles querem também que os reconheça:
querem, da minha vida,
a vida que me resta.

(Mesmo o meu gato preto,
por quem chorei talvez
mais do que por ninguém,
me lança a fina fresta dos seus olhos
pedindo-me que o deixe ronronar).

Mas são, contudo, os vivos
-   os que ainda se arrastam lá por fora
que mais me preocupam.

Eram belos e plenos
seus corpos.
Pareciam eternos.

Mas há muito morreram
nos retratos
que nesta velha sala me rodeiam. 


DAS PEDRAS 1

A pedra na mão.
Na minha mão

Disse-o Décio, o romano,
que com ela matou.
Disse-o o nómada Ben Zir
quando ao meditar
a rolou.
Devraux, o arqueólogo,
disse que se tratava de…
Von Zeint, o geólogo,
contestou

Se enobreceu túmulos
ou palácios
não sabemos.
Mas,
talhada por mãos hábeis,
foi arte,
é vida.

Passou por muitas mãos
e de todas, um pouco, ficou.

A pedra na mão.
Na minha mão.
Milhares de histórias
entre os dedos.

*
                                                     
José Carlos Breia nasceu em 3 de Maio de 1930.
Leu muito e muita música ouviu. As artes plásticas fascinam-no tal como a arquitectura.
Viajou pela Europa e pela América do Sul.Trabalhou, naturalmente, pois sem dinheiro não se vive.Reformou-se cedo.
É na altura em que se reencontra com António Luís  Moita que este lhe propõe, para ocupar o tempo livre, que junte todos os poemas que tinha feito e os publique. Surge assim LUGAR NENHUM no ano de 2000, dado a lume na Assírio e Alvim.Continua a escrever  e tem neste momento mais três livros não publicados: “Outro lado”, “Das pequenas coisas” e “Poemas do chão”.

Aos confrades, amigos, adeptos e simpatizantes

     Devido a um problema informático de última hora, não nos será possível fazer a postagem desta semana.    Esperando resolvê-lo em breve,...