Mostrar mensagens com a etiqueta Léon-Paul Fargue. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Léon-Paul Fargue. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 3 de maio de 2022

Um poema de Léon-Paul Fargue

 


Greta Knutson



QUIOSQUES

 

O mar em vão faz a viagem

do fundo do horizonte para beijar os teus pés sábios.

Tu sempre a tempo os desvias.

 

Em silêncio ficas e eu também nada digo.

Nisso talvez não mais pensamos,

mas os vaga-lumes passo a passo

pegaram na sua lanterna de bolso

de propósito para fazer brilhar

nos teus olhos calmos esta lágrima

que um dia fui obrigado a beber.

 

E o mar é salgado a valer.

 

Depois, uma medusa loira e azul

que aprender quer enquanto se entristece

atravessa os fundos atulhados do mar,

limpa e clara como um ascensor.

 

E desgrenha a lâmpada à flor da água

para te ver fingir na areia

com tua sombrinha em mão, chorando,

 

os três casos da igualdade dos triângulos.

 

(Trad. ns)


quinta-feira, 5 de novembro de 2020

Dois poemas de Léon-Paul Fargue

 



O poeta sensível e místico cuja silhueta maciça de Nero bonacheirão, como lhe chamou Brassai, por vezes assombrava Paris.

  Aquele a quem Picasso disse, aquando do ataque de hemiplegia por ele sofrido quando almoçavam juntos no restaurante Catalan: “Que se passa? Tens a cara fora do desenho!”. O Fargue que sobre si mesmo referiu : “J’ai joué ma vie sur la poésie” e “Je suis un fantôme occidental actif » o de “Ludions”, de “Le piéton de Paris” e de “Pour la musique”, mas também o de « Haute solitude » e da revista « Minotaure » nos tempos do Faubourg Saint-Martin…

 

FASES

 

O garoto arrisca-se a morrer

Pois muito se cansa a correr

Por entre os objectos amados

 

Nessa demanda sentimos

Ir o pobre em correria

No grande silêncio do dia

 

E o barulho do dia freme.

E como que em oração rara

A hora passa lenta e clara

Sobre o largo sonolento

Sob o céu do Inverno que treme

 

E a vida é como um lamento.

Ah como ela faz sofrer!

Sem censura, voz calada

 

Por um prazer, por um nada…

 

                                                       in “Tancrède”

 

 

ACHADO ENTRE OS PAPÉIS DE FAMÍLIA

 

Sonhei tanto, tanto que já nem sequer aqui estou.

Não me façam mais perguntas, não me atormentem mais.

Não me acompanhem neste meu calvário.

 

Não me é dado explicar quais as ordens que tenho.

Nem mesmo me assiste o direito de pensar nisso,

Há muito tempo já que me levanto e parto.

 

Há uma permissão da morte, e ei-la que chega.

Na curva da rua que vai dar à noite é que a espero.

O mar vai estar de novo nos últimos terraços.

Um candeeiro de novo aceso sente o desejo das trevas.

Um passo no empedrado. A sombra dele precede-o

E deita-se sobre mim, a cabeça no meu coração.

Ali está ele.

 

Sempre de chapéu redondo, sempre de saco na mão

Tal como era no dia em que regressou de Itália.

Já lhe não vejo os olhos. Já me não fala.

 

Eis que rolo até ele como uma obscura pedra.

Não consigo atravessar a sua sombra.

Portaste-te como devias? E desde então que fizeste?

E porque não subiste?

Todos os dias ia ver se chegavas e não chegaste nunca!

 

Ele nada diz sobre tudo isto.

Mas tudo nele me diz: lembra-te!

 

Sobre ele a noite tornou a fechar-se.

 

                                     

                                                                 in “Sob a luz da lâmpada”

 

(Tradução ns)

Aos confrades, amigos, adeptos e simpatizantes

     Devido a um problema informático de última hora, não nos será possível fazer a postagem desta semana.    Esperando resolvê-lo em breve,...