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segunda-feira, 22 de maio de 2023

Dois poemas de Jean Hautepierre

 

UM DIA, QUANDO NÓS TIVERMOS VIVIDO

 

Um dia, quando nós tivermos vivido

Virá o tempo de desaparecer;

Dias que nós já não veremos

Se levantarão sobre outros seres.

 

Na longa noite, no gelo,

Tudo desaparecerá como um grande sonho

- No silêncio e na morte

É a eternidade que se alonga.

 

E assim será o último sono

Onde tudo terá desaparecido - o senhor

Ao vivente tão parecido

Como as ondas, o azul, o sol…

 

Não teremos sido mais que espectros?

 

 

2 DE NOVEMBRO

 

Tu regressas, pálido dia dos mortos,

Lençol do céu onde tudo adormece,

Como um deus vencedor pairando

Sobre tudo o que morre, tudo o que desfalece.

 

Contigo regressam os lutos,

Os anos e a sua vaga de caixões

Que o teu sol friorento ilumina

- Sol de morte, sol de ruína.

 

E sempre os gritos sufocados

Dos teus amigos, o aborrecimento, o vento,

Reinam sozinhos sobre a terra cansada;

A vida extingue-se, o tempo tudo apaga.

 

Tradução de Cristino Cortes


segunda-feira, 17 de abril de 2023

Dois poemas de Jean Hautepierre

 

NEVOEIRO, NEVOEIRO, NEVOEIRO SOBRE O CANAL


Canal de Nieuport, 7 de Janeiro de 2017


Nevoeiro, nevoeiro, nevoeiro sobre o canal.

Tudo se dissolve nesta tarde de Outono,

Tudo se dissolve nesta luz cinzenta

As correntes, o céu, o sol e a terra.

 

Tudo parece fugir para longe - e o horizonte,

Último reflexo do sonho nessa bruma,

Parte para longe logo que a noite se ilumina,

E tudo desaparece nessas estações mortas.

 

Nevoeiro, nevoeiro, cidadela das sombras,

O teu surdo véu extingue tudo o que é vivo;

Tudo morre em ti, tudo morre até à noite

- E o horizonte, e os astros sem número.

 


 

TIRÉSIAS


Ele via na noite, ele via através dos sonhos,

Ele via no eco duma sombra que foge,

Mesmo através dos céus por onde o nevoeiro se estende

- E até quando tudo se afogava no fluxo do esquecimento.

 

O mundo era para ele um vento, um sopro, uma onda

Onde tudo se confundia e vibrava; um éter

Percorrendo sem cessar a sua alma vagabunda,

Rainha de todos os tempos e todos os universos.

Tudo lhe falava: o voo duma ave, o fumo

Que subia, serpenteando entre as nuvens…

 

E ele fixava a vida, a luz, e a maneira

Dos seus grandes olhos espantados devorando-lhe o rosto,

Os seus olhos que percebiam os tempos e os espaços,

Os seus olhos, apagados, como sóis que tivessem morrido.

 

Tradução de Cristino Cortes


segunda-feira, 6 de fevereiro de 2023

Dois poemas de Jean Hautepierre

 


ns



É O TEMPO PESADO DAS RECORDAÇÕES

 

É o tempo pesado das recordações;

Voltam na sombra maluca,

Imagens que vemos ressurgir,

Músicas e perfumes, palavras.

 

Com frequência, há uma dor no horizonte

A noite sobe mais alto que as torres;

Está lá essa hora, triste e serena

Como um luto que jamais acaba.

 

E é então, no limiar do mistério

Das coisas sombrias e das pedras

Que elas reaparecem, infinitas,

E que desfilam em multidão

Falando-nos dos dias que já foram,

Falando-nos dos amores que morreram.


 

É A HORA OBSCURA DA NOITE

 

É a hora obscura da noite;

É a hora obscura onde tudo desaparece,

As recordações, as alegrias, os sonhos,

A vida - e tudo o que nela se contém.

 

É a hora em que se ouvem os passos

Soar como soa o gelo,

Num céu vazio e numa alma alheada;

A esta hora, onde sem um adeus,

Tudo se extingue até ao último fogo,

Não há mais devaneios nem palavras.

 

É a hora imensa em que da terra

Sobem as sombras e as pedras,

Fazendo reinar do mineral

A ordem muda, dura, primordial.


Tradução de Cristino Cortes

terça-feira, 25 de outubro de 2022

Dois poemas de Jean Hautepierre

 


ns



OS FOGOS DE OUTONO


Nos arredores

Dos dias tristes

De Novembro,

 

Dias que se foram

Nas paredes cinzentas

Dum quarto,

 

O lado avermelhado

Das árvores em sangue

Como que estala

 

Lança os fogos

Em longos adeuses

A um céu pálido;

 

Depois na noite

Vazia de esperança

E de dor

 

Vêm os bandos

De corvos negros

Da planície

 

Gritando, gritando

E um vento forte

Para longe os leva.


 

DANÇAI, DANÇAI, BELAS GALHOFEIRAS!


Em recordação da festa da música de 1993

(um cavaleiro e quatro cavaleiras)


Dançai, dançai belas galhofeiras!

Dançai, dançai! O dia é belo;

Mas as noites são mais misteriosas,

E a luz do archote

Mais louca e livre que a onda

Pelo dia lançada sobre o mundo.

 

Dançai, dançai! Embriagadas, orgulhosas

Na glória da juventude,

Brilhando as luzes

Sobre os vossos rostos triunfantes!

E magnificamente ligeiras

Saltitando do dia que se vai

Como as chamas passageiras

Que redemoinham na noite!

 

(Tradução de Cristino Cortes)


terça-feira, 26 de julho de 2022

Dois poemas de Jean Hautepierre (trad. de Cristino Cortes)

 

ns


PLUTÃO

 

Eu sou Aquele que reina no meio dos Infernos,

Senhor dos tormentos e das escuras margens

E dos grandes medos que roem os rostos,

E das sombras gritando no retinir dos ferros!

 

Reino sobre um povo acabrunhado pelo sofrimento,

Embriagado pelos cantos duma infelicidade eterna.

Sísifo excitado que se esmaga e recomeça;

O Estige e o Aqueronte correm no seu fluxo vencedor.

 

Eu vejo o infinito, pálido de indiferença,

O meu imenso universo de chamas e de noite

Acompanhado pelo Cerbero - e como ele eu me aborreço

Porque eu já vi muitas coisas, demasiado vi esta sombria batalha

Em que a Dor, a minha mestra, nunca fica satisfeita;

E na longa noite pelas nuvens percorrida,

Pelas chamas, pelas fúrias roendo as carnes feridas,

Dilacerando tudo com o seu infindável e terrível ardor,

O meu escravo, o Tempo, o grande Perseguidor.

 

 

DEMÉTER

 

Os campos inteiros, extensões douradas

Agitavam-se ao vento, orgulhosas vítimas,

E o fogo que dourava as suas extremidades

Jamais teve um tão belo cenário;

 

E na imensidão do azul, qual ilha majestosa,

Uma nuvem branca atravessando os céus

Rolava com lentidão a sua massa volumosa

As suas catedrais de água e sonhos enevoados.

 

De repente, estalando as suas paredes numa dança eterna,

Fazia cair sobre tudo as pesadas chuvas de Verão,

Brilhante, fugida das sombras e da ausência,

Trotava sobre um carro de ouro, no ar imaculado,

A loura Deméter, a rainha dos campos de trigo.


terça-feira, 5 de julho de 2022

Cristino Cortes, Em jeito de in memoriam

 


ns



UM ABRAÇO PARA JOÃO RUI DE SOUSA


   Faz hoje, 24 de Junho de 2022, uma semana que João Rui de Sousa morreu e eu ainda me não conformo com o facto de atempadamente o não ter sabido. Foi só alguns dias depois, navegando no sítio virtual do Nicolau Saião, que tomei conhecimento do infausto acontecimento. Não é que tal desenlace tivesse sido de todo surpreendente, dada a idade do Poeta (94 anos) e os problemas de saúde que sabia o afligiam. Mas a morte, por definitiva e irreversível, é sempre triste, custa muito ver partir um Camarada Querido como era o João Rui de Sousa. E eu gostaria de literalmente lhe ter deposto uma flor no túmulo do Alto de S. João. Por esta forma, gostosamente remedeio um mal que sei ser inultrapassável - embora me não possa ser cobrada a involuntária ausência. E a este testemunho decerto que em qualquer caso eu o faria.

  Quando vim para Lisboa, há mais de meio século, e comecei a ter alguma informação sobre o que se passava no campo das letras logo o nome de João Rui de Sousa se impôs ao meu espírito. Não sei agora dizer em que revistas ou jornais terei lido poemas seus que assim tão positivamente me impressionaram. Em 1983, reuniu, pela primeira vez, a sua obra poética - O Fogo Repartido, uma edição da Litexa, com um livro novo, Respirar Pela Água, além dos que até à data publicara nos últimos vinte anos, já que a sua primeira obra, Circulação, é de 1960, isto admitindo que A hipérbole na cidade, do mesmo ano, lhe é um pouco posterior. Lá estive presente, no auditório da Sociedade Portuguesa de Autores, na Avenida Duque de Loulé. Deverá ter sido também a minha estreia em acontecimentos desse género nos idos de Abril desse ano.

  O conhecimento pessoal do João Rui de Sousa deverá ter ocorrido um pouco antes, certamente no âmbito da Revista Sílex, a que ambos estávamos ligados: ele como patrono e garante de qualidade; eu como modesto aprendiz, procurando, sobretudo, ser publicado.  O exemplar que o Poeta então me autografou tem, aliás, a particularidade de apresentar um caderno, dezasseis páginas, colado ao contrário - isto é, de pernas para o ar no sentido normal da leitura. Jamais o quis trocar, privilegiando o autógrafo que nele figura em alternativa à perfeição técnica e à minha maior, e legítima, comodidade. Não haverá muitos mais como o meu - foi o que então pensei.

  No início desses anos 80 ambos coincidíamos profissionalmente no edifício da Biblioteca Nacional. De vez em quando nos encontrávamos nos corredores, decerto que também no bar - ou a caminho do mesmo. Recordo-me que João Rui de Sousa acamaradava então muito com um galego, ou descendente de galegos, José Carlos González - que muito impressionou os meus ainda puritanos ouvidos com o vernáculo da sua linguagem. Umas coisas levam a outras, naturalmente, e quando eu me inscrevi na Associação Portuguesa de Escritores, em 1986 - após a publicação do primeiro livro no ano anterior, curiosamente com a mesma idade com que também João Rui de Sousa se estreara nessas lides - foi a ele que recorri, para o necessário apadrinhamento. Nessa associação viríamos ambos, aliás, a mais tarde colaborar: ele dirigindo a Assembleia Geral, eu fazendo a acta, não suba o sapateiro acima da sua chinela.

  De qualquer forma o nosso relacionamento não evoluiu para uma amizade, mais ou menos estreita. Dificilmente tal poderia ter acontecido, dados os 25 anos que eu tinha a menos do que ele, pouco menos de metade da sua idade de então - ainda por cima tendo caído de para-quedas na cidade, no reino das letras inteiramente amador e sem quaisquer créditos ou formação específica. Além do mais vivia longe, tinha filhos pequenos, pouco me poderia demorar.

  Com o João Rui de Sousa eu sobretudo aprendia - e se aprendi, Santo Deus! O meu apreço pela sua poesia manteve-se sempre - posso dizer que cada vez mais fundamentado da minha parte. Algumas vezes decerto teremos almoçado juntos - por vezes na companhia de outros camaradas de ofício, quase sempre fora da Biblioteca. Com o Cândido José de Campos - que também o apreciava muito - sei que algumas vezes isso aconteceu. Numa dessas ocasiões, certamente no início de 1992, ofereceu-me o João Rui de Sousa o seu então recente Enquanto a noite, a folhagem que na altura muito me impressionou e continuo a considerar como uma das realizações cimeiras da sua poesia. Andaríamos decerto, o Cândido e eu, interessados em que João Rui de Sousa nos pudesse fazer alguma referência crítica nos sítios onde colaborava, a Colóquio-Letras ocupando a primazia nos nossos desejos. Era humano esse comportamento, sem diminuir o apreço e a amizade que pelo João Rui de Sousa sentíamos. Por mim falo, evidentemente. Na revista da Gulbenkian, aliás, no que me diz respeito tal não viria a acontecer.

  Jamais lhe levei a mal, dentro desse mesmo comprimento de onda, que não tivesse conseguido fazer um prefácio para um livro que publiquei em 1999. A culpa foi, decerto, maioritariamente minha - que não esperei o suficiente, porventura receoso de que o editor me roesse a corda. Aí consta o primeiro poema que tive o gosto de lhe dedicar, em homenagem ao seu Palavra azul e quando. Reeditei esses Poemas de Amor e Melodia dez anos mais tarde e aí foi o João Rui de Sousa que não pôde: os seus problemas de visão já o incomodavam seriamente. Estava assoberbado, além do mais, com a reedição do seu Fernando Pessoa, empregado de escritório.

  Com o passar do tempo, quase sem darmos por isso, as nossas relações foram bem mais próximas - embora talvez não muito mais frequentes. Ofereceu-me uma pequena publicação de 1999, Concisa instrução aos nautas, editada pela Câmara Municipal do Funchal, em função certamente da sua ascendência madeirense, por via paterna. Foi o primeiro livrinho acabado a cordel que entrou na minha biblioteca: 14 páginas, em papel quase de embrulho, o próprio agrafo dispensando. Mas é obra a sério, com marginália crítica e tudo.

  Essa característica comum das nossas vidas, no meu caso por via conjugal, foi pasto para interessantes conversas. Mas ele já nascera em Lisboa - e à Madeira poucas vezes fora - ao passo que eu viera para a capital, lá das alturas da Guarda, fazer os vinte anos. Recordo a dificuldade que tive em encontrar e comprar o que creio ter sido o seu último livro, Ardorosa súmula, inaugurando uma colecção de poesia em Novembro de 2016. Aí confirmei como o tema do erotismo, digamos assim, era em João Rui de Sousa cultivado sobretudo na velhice, contrariamente à maioria dos poetas. Forçosamente, nele é a clave evocativa que predomina.

  Mora comigo a satisfação de ter estado presente nos grandes momentos de consagração do seu percurso literário. Estes começaram tarde pois o João Rui de Sousa, apesar de ser muito respeitado entre os oficiais do mesmo ofício, apenas numa fase bem adiantada da sua vida obteve o reconhecimento público a que tinha inteira justiça. Foi na vizinhança dos seus setenta e cinco anos, em 2002, que ele de novo reuniu a sua obra poética - assim mesmo chamada, Obra Poética (1960 – 2000) - numa editora de grande prestígio público e presença comercial. Ao inscrever o seu nome no catálogo da D. Quixote, João Rui de Sousa como que entrou num outro campeonato, se me é permitida a linguagem futebolística. A essa obra, com um notável prefácio de Fernando J. B. Martinho, foram atribuídos os primeiros dois e importantes prémios com que o Poeta foi galardoado: o do Pen Clube e o do Centro Português da Associação Internacional dos Críticos Literários. Na sua sequência também uma sua outra obra, o Quarteto para as próximas chuvas, de 2008, nos seus oitenta anos exactos, viria a receber o Prémio António Ramos Rosa.

  Não me querendo alongar em demasia começarei por referir, por ser o mais antigo, o jantar que lhe foi oferecido pela Sociedade da Língua Portuguesa, num hotel a meio da Almirante Reis, em Maio de 2008. Muito comentámos, ele e eu, e até mais alguns dias depois - dado que no decorrer do acto ele, como homenageado, tinha de guardar uma maior contenção - a gravata roxa sobre o coletinho amarelo de uma das empregadas que nos servira. Fiz questão de estar presente, eu que pouco frequentava estas realizações, sobretudo à noite. Não queria deixar de lhe manifestar a minha solidariedade, um apreço que era profundo e vinha em crescendo, uma estima que bem poderia ser equiparada a uma sólida amizade.

  Em Janeiro de 2011 realizou-se, na Casa Fernando Pessoa, uma sessão comemorativa dos seus cincoenta anos de vida literária. A reduzida dilação temporal começou por ser explicada por Fernando J. B. Martinho. Foi uma muito bela e concorrida sessão em que João Rui de Sousa pôde testemunhar como tantas pessoas o apreciavam e estimavam. E o local foi particularmente adequado para essa celebração.

  Referente ao ano de 2012 é o Prémio Vida Literária que lhe foi atribuído pela Associação Portuguesa de Escritores, porventura o ponto mais alto desse reconhecimento público. Lá estive, no auditório da Culturgest, no Campo Pequeno, no dia 9 de Julho. Recordo-me que foi José Manuel de Vasconcelos a ler o seu texto e que a sessão foi presidida por Francisco José Viegas, então Secretário de Estado da Cultura. Confesso que mal o vi entrar - e do que disse - se é que falou - bem pouco retive. (Mas também poderá ter acontecido eu ter saído à francesa.)

  Crime de lesa majestade seria, naturalmente, esquecer como João Rui de Sousa era o nosso almirante - por uma vez por tal ter passado, quando ao grupo em que se integrava em determinado dia ter sido recusada a entrada num Clube Naval, por falta de lugar e de marcação. Alguém dos que o acompanhavam teve então a ideia de assim o tratar - e foi remédio santo. Não só para o almoço desse dia, como para a pequena história que, a partir dessa inofensiva mentira, assim se criou. Era como que uma senha, o franquear de uma certa intimidade. Apenas poucos conheciam essa quase lenda e ele próprio, se nela lhe falavam, se fazia desentendido.

  Por tudo isto se compreenderá como me custou não ter estado presente na sua última hora. Outros decerto evocarão a sua obra, os livros que publicou, os estudos em que se ocupou. Sem prejuízo da importância que atribuo aos títulos aqui indicados eu fico-me por este registo mais aéreo e pessoal, ligeiro e lateral, subjectivo e sentimental - mas que espero dê bem a ideia do meu muito apreço pelo Poeta, de como me honro em o ter conhecido, e reconhecido. O João Rui de Sousa foi à frente mas não estará sozinho durante muito tempo. Lá nos encontraremos - indubitavelmente, embora em incerta data. Não há pressa.

  É o meu abraço que por esta forma aqui lhe deixo - e deixo também a esperança de que outros, dele assim ouvindo falar, possam sentir-se motivados a procurar e conhecer a sua poesia. Esta é que verdadeiramente importa, os poetas passam mas a Poesia permanece. Dessa forma, nessa dimensão da existência, connosco continua o João Rui de Sousa. E por muito tempo continuará. E o meu abraço retribuirá.


terça-feira, 22 de março de 2022

Dois poemas de Cristino Cortes

 


ns



CONSULTA DE ROTINA

 

- Então, doutor, como tem passado? Pergunta logo o clínico

Que há muito conheço e com o qual é a confiança

Já grande. Ambos sabemos bem não ser muita a esperança

De os hábitos agora alterar… Mera gestão de danos

 

Vamos fazendo, o passado não se pode substituir

Nem a inércia que transporta. Felizmente há as drogas.

Sobre elas o médico escreve, não pára, e quase acorda

Quando lhe pergunto se posso ser claro e grosso. Inferir

 

É com ele, mas o que eu observo, desculpar-me-á a franqueza

E desfio queixas várias, constantes ou intermitentes

Do foro de diversos órgãos. Mais ou menos persistentes

Incómodas, ridículas… Fica abalado, vejo-lhe a surpresa

 

- Não exagere, diz ele. Calma e verá que tudo se trata

Tome mais isto e aquilo… Se o não curar também o não mata.

 


EXPECTATIVA

 

Não estou particularmente preocupado. À cautela

Conservo no entanto a agenda livre. Adiei, não marquei

Novos compromissos a que agora não sei se poderei

Dar vazão ou cumprimento. É uma temporal janela

 

Assim salvaguardada, talvez por prudência e precaução.

Nas mãos da medicina mais moderna me entrego, coisa pouca

Mas às vezes o diabo está nos pormenores, é ele a louca

Da casa, não é garantido o prognóstico do cirurgião.

 

Tenho fé na estatística, na sorte confio, o optimismo

Não me abandonou. Mas mesmo assim convém estar preparado.

Conformado aceito esse custo num tempo um tanto alongado

Mais um na multidão, na capoeira não cabe qualquer heroísmo…

 

Vou gerindo o calendário, processo que hoje tem o seu início

E no fim logo se verá … quão longo o provisório sacrifício.

 

in “18 Poemas de Hospital”


quinta-feira, 17 de fevereiro de 2022

Dois poemas de Jean Hautepierre traduzidos por Cristino Cortes

 


ns



AQUELES QUE NUNCA SE ENCONTRARAM

 

Aqueles que nunca se encontraram,

Atravessando a noite dos lugares e das idades,

Procuraram longamente sobre mil faces

E sobre mil palavras, entre eles murmuradas,

O eco doloroso do vento que espalha

Dourados e nuvens, tristes nevoeiros

Sem tréguas e sem alegria, a sombra dos olhares,

Esses olhos sem esperança, os únicos que eu amo.

Mas eles partiram, tão cansados!, e sonhadores,

Na noite sem fim do seu destino,

Tornando vão o coração e maldita a alma

Num desleixo de mil dores.

 

Teríamos vivido dias cheios de glória,

Dias desconhecidos, dias triunfantes…

Dos que sempre afagam a memória

E os corações demasiado velhos de pálidas crianças.

Mas o tempo vencedor, a hora retumbante,

Levam-nos bem longe, nos seus abandonos,

Àqueles que jamais conheceram esta vida,

Numerosos, por vezes filhos das pálidas estações.

 

 

ODE À ALEGRIA

 

Ah, não falemos mais desta longa tristeza,

Dos sonhos desfeitos, das esperanças cansadas,

Que nos magoaram por excesso de carícias

Não nos perdoando não as termos visto.

 

Esqueçamos também os dias de indiferença

Em que acreditámos poderíamos repousar…

Mas isso foi, oh meu Deus, a mais triste errância;

Saberíamos nós ainda tudo recomeçar?

 

Nesta tarde eu quero uma ode cheia de alegria,

Cheia de juventude, de risos e algazarra,

Bem afastada duma sombra preguiçosa,

Do velho desespero, e dos nossos dias tão desanimados…

 

Porque nós estaremos sentados, ou de pé à volta das mesas

E alegres, cheios de risos formidáveis!

E o fogo crepitante lançará os seus reflexos

Na noite, nos nossos olhos e nos nossos corações.

Elvira dançará lentas melopeias,

Nós beberemos cantando infinitas alegrias

- E, livres, vencedores, orgulhosos dos nossos anos

Amaremos sem fim no calor das noites.

 

*

O Autor - JEAN HAUTEPIERRE nasceu em Lille, França, em 1967. Além de poeta (Prélude au siège, 1989), é também dramaturgo, com várias tragédias em verso (Néron, Tristan et Yseult, Louis XIII), algumas das quais foram representadas. A epopeia Le Siège é de 2007. Tem dedicado especial atenção à promoção do teatro contemporâneo em verso. Traduziu a poesia completa de Edgar Allan Poe (em 2008), de que foi produzido um recital em 2010 no Teatro de Nesle, em Paris. Traduziu também a correspondência entre Fernando Pessoa e Aleister Crowley (Les secrets de la Bouche de l’Enfer, 2015). Publicou uma narrativa à maneira de Lovecraft, Les Hurlements de la vallée maudite, em 2005. Intervem na imprensa, na rádio e na Internet. Recebeu o Prémio da Sociedade dos Amigos de Maurice Rollinat, de que é membro destacado.

Prepara actualmente uma edição das suas obras poéticas não teatrais, Les Idoles, 1982-1986 e Le testament de la Licorne, criação poética após 1986. Membro da Maison de la Poésie, em cuja revista Le Coin de Table tem publicado poemas, e da Fondation Émile Blémond. Promoveu a obra de outros poetas, publicando de 1995 a 2007 o boletim La Lettre de Jean Hautepierre, em que trimestralmente inseria antologias de poetas contemporâneos.


quinta-feira, 18 de novembro de 2021

Dois poemas de Cristino Cortes

 




SUMA SÍNTESE

(I)

Das carícias, augúrios, da noite ao beijo da manhã

Se inscreve o trajecto que em pura síntese sustém o mundo:

Arco que do convite conduz à despedida, no fundo

Fecha o claro círculo da donzela que é sempre louçã.

 

Falo do seu ponto de vista, na verdade tanto faz.

Acaricia, é acariciada, beija e é beijada

Entra no reino da noite, antes da alva é acordada:

Dia obrigatório como intervalo no que mais apraz.

 

Pelos carinhos nas trevas ingressa na descontracção

No prazer, no à vontade, na alegria de todo o ser;

O ósculo da manhã é o vestíbulo do que há que fazer

Um adeus que lhe deixa consolado e forte o coração…

 

Das carícias da noite ao beijo consagrando a aurora

Abarcando a inteira vida, certo em toda e qualquer hora.

 

 

SUMA SÍNTESE

(II)

Pode ser tão só imaginado. Podem as circunstâncias

Ser impedimento, obstáculo mais ou menos temporário

As carícias da noite por aí se ficarem, no vário

Fluxo da existência a flor não se abrir em sua fragrância.

 

Não importa. O espírito vai à frente, é secundário

Se o corpo não acompanha o desejado movimento.

Fica a memória e a intenção, para nesse momento

Esculpir o que não tem de ser regular ou ter horário.

 

Os afagos da noite são promessa, fundam o desejo

Do que no compasso mais próximo será sempre o melhor;

O beijo da manhã tão só recordatória desse amor

Exposto ao tempo, de muitas formas activando o ensejo.

 

Das carícias da noite ao beijo da manhã eu hoje canto

Envolto em gratidão, ternura, e um espantado espanto.


quinta-feira, 7 de outubro de 2021

Dois poemas de Cristino Cortes

 


ns



POEMA PARA CARLOS CARRANCA, NO DIA DA SUA MORTE

 

Talvez, quem sabe, meu Caro Carlos Carranca, CC como eu

Já o tenho pensado e hoje é maior ainda a razão:

Se vestisse a tua capa de Coimbra, quem sabe se no coração

Não ficaria diminuída esta saudade que arrasto ao léu …

 

À guitarra não te poderia acompanhar, tal capacidade

Me falta. Mas sempre soube reconhecer-te a beleza da voz,

O timbre, a boa colocação, oh irmão de tantos de nós

Amigo e camarada, sem jamais ter vivido na tua cidade!

 

A poesia nos uniu, oh companheiro. É de olhar embaciado

Mesmo bem triste que me curvo, nesta última e sentida homenagem;

Tão prematura, no fundo algo imprevista, te foi esta viagem

Contigo levando o muito sonho que querias ver realizado…

 

Homem bom, digno, decente, aqui te deixo esta flor, e um abraço

Oh poeta que já lá estás, nome sublinhado a grosso traço.

 

29/8/2019

 

 

TRIBUTO E GRATIDÃO

 

Para António Salvado

 

Marcam os poetas os lugares que para viver escolhem

Ainda que a mesma seja acaso ou de circunstâncias

Dificilmente repetíveis fruto… Vindouras vivências

Justificá-la-ão a seguir - quando as terras os merecem.

 

Assim em Castelo Branco. Um grande poeta aqui festejo

Sempre que passo, indo ou vindo. Não podendo parar

Não deixo de o saudar, como que a taça empunhar

Bater-lhe a pala se fôssemos tropas. E assim cumpro o desejo.

 

Sei que compreende o silêncio, esta falta de contacto

Que outras circunstâncias mal explicam. Sabe, no entanto

Como lhe estou grato, como comungamos neste espanto

Das palavras que nos visitam, e nem sempre abunda o tacto.

 

Aprecio-lhe o testemunho, sábia constância ele a tem.

É bem verdade sagrarem os poetas os lugares que escolhem.


Aos confrades, amigos, adeptos e simpatizantes

     Devido a um problema informático de última hora, não nos será possível fazer a postagem desta semana.    Esperando resolvê-lo em breve,...