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terça-feira, 28 de junho de 2022

Para que a Terra não esqueça

 


Alfonso Bonifacio


   Do poeta é preciso exigir uma única coisa: não deixar de ser poeta. Ele não deixa de ser poeta se se cala, se não escreve, se não publica. Mas ele deixa de ser poeta a partir do momento em que consente em escrever a língua que mente, a “língua de pau”, a língua morta, mesmo se alinha milhares de versos.

Radovan Ivsic


terça-feira, 21 de junho de 2022

Dois poemas de Radovan Ivsic

 




DE TUDO

 

De tudo o que sei

E que eu sei que tu sabes

De tudo o que vejo

De tudo o que ouço

Quando escuto o teu coração

De tudo o que tu me dizes

E que eu tanto amo

De tudo o que acontece

Quando fechas os teus olhos

De todos os sonhos

De todas as estrelas

De todas as nuvens

De tudo isso que sabes

O que me deixa mais feliz ainda?

De tudo isso que me deixa ainda mais feliz

É que eu sei que tu sabes

Porque tu sabes isso e eu também sei

 

Tu sabes que me amas

E eu sei que te amo também.

 

POEMA

 

Ainda que os teus seios sejam flores fugazes

as tuas coxas de erva balançam na minha mão

e os beijos são tão lentos como a claridade

lentos

E eu esqueço o peso e a dor

a tristeza das flores demasiado ao longe

para nos beijarem

e os meus dedos desfolham-se nas tuas espáduas

como se o vento os semeasse e eu morresse de ternura

em toda a parte

e de novo a minha mão corre o teu claro corpo

e os teus seios

que eu acaricio com o meu olho

nu

(Tradução de nicolau saião)


(Publicados anteriormente, pela primeira vez em língua portuguesa, na revista brasileira ACROBATA, inseridos num bloco mais extenso).


quinta-feira, 17 de junho de 2021

Um poema de Radovan Ivsic

 




POEMA

 

Pouca água

vem e vai nas dobras da areia

ao lado das pegadas molhadas dos pássaros.

E de novo uma onda tudo cobre.

E como se nada tivesse acontecido,

a névoa arrasta-se no musgo,

abre caminho entre as densas samambaias.

Mas ao crepúsculo as palavras estão vivas,

são como um botão que fecha a respiração,

e as palavras nascem sem cessar.

Esmagadas, dobradas, espremidas,

envenenadas, sufocadas, podadas, ridicularizadas

as palavras contudo não morrem.

 

Talvez se conheçam sob os penhascos,

ou sob nuvens pesadas,

talvez nos desertos mais distantes

ou nos corações perdidos.

 

(in “SER CAPAZ DE DIZER”)

 

(Tradução de nicolau saião)


quinta-feira, 13 de maio de 2021

PÓRTICO

 

   Do poeta é preciso exigir uma única coisa: não deixar de ser poeta. Ele não deixa de ser poeta se se cala, se não escreve, se não publica. Mas ele deixa de ser poeta a partir do momento em que consente em escrever a língua que mente, a “língua de pau”, a língua morta, mesmo se alinha milhares de versos.

Radovan Ivsic

(Trad. ns)


Radovan Ivsic, Chamas desportivas... num tempo sob medida

 


João Garção


   Este pequeno mas esclarecedor e creio que oportuno texto de Radovan Ivsic foi dado a lume pela primeira vez no catálogo da exposição internacional “L'ÉCART ABSOLU” (1965) e, depois, republicado no volume de ensaios do autor intitulado “CASCADES” (Editora Gallimard 2006).

ns

 

 “Estou firmemente convicto de que o desporto é o melhor meio de produzir uma geração de cretinos perniciosos”, escrevia Léon Bloy, sem suspeitar de que estas palavras proféticas poderiam em breve ser aplicadas a numerosas gerações de todos os continentes. Sob a máscara do jogo, de que é a caricatura senão mesmo a negação, ou, melhor ainda, do apolitismo e desta forma falaciosa do internacionalismo acerca do qual já Charles Maurras dizia: «esse internacionalismo não eliminará as pátrias, antes as fortificará», o desporto alastra desde há um século como uma elefantíase imunda. Nele não poupam os dirigentes de todos os países, não somente por o considerarem um complemento do serviço militar mas porque – denuncia-o também Benjamin Péret – enquanto «meio de embrutecimento» leva seguramente a palma aos demais. O célebre treinador americano Knut Rockne não imaginava até que ponto era certeiro quando afirmava: «Logo a seguir à Igreja, a melhor coisa é o futebol». Mais explícito ainda, o barão Pierre de Coubertin, promotor dos Jogos Olímpicos modernos, esclarece: «A primeira característica essencial do antigo olimpismo bem como do olimpismo moderno é o de ser uma religião. Ao cinzelar o corpo pelo exercício à semelhança do escultor modelando a sua estátua, o atleta antigo “honrava os deuses”. Copiando-o, o atleta dos nossos dias exalta a pátria, a raça, a bandeira». Esta passagem torna-se tanto mais significativa quanto é extraída de um prefácio à escandalosa olimpíada de 1936, inaugurada em Berlim por Hitler, onde o barão desportivo, promotor da «arte de criar o puro-sangue humano», saudará «um dos maiores espíritos construtores do nosso tempo», que «serviu magnificamente, sem o desfigurar, o ideal olímpico».


Ivo 91


Os ensurdecedores espectáculos dos ringues e dos estádios retratam a organização da vida contemporânea, baseada na rivalidade e na concorrência, numa palavra, na competição, cujos efeitos não poderiam ser mais prejudiciais ao associativismo de Fourier. O campeão torna-se, em geral, graças a ela, num profissional, num trabalhador modelo que, à força de abstinência, paciência e suor, conquista o seu lugar ao sol poeirento das grandes provas. Far-se-á dele um homem-sanduíche à escala da grande imprensa e da televisão ou, melhor ainda, uma vedeta nacional, desde que, note-se, a sua vida em família seja exemplar. Quer para o adepto activo quer para o infame passivo, a suposta cultura física é habilmente erguida numa barragem aos excessos da vitalidade libertadora do indivíduo, que tenta escapar às garras do progresso técnico sem derramamento de sangue ou aos danos de uma educação esclerosada. De origem escolar, o desporto transforma-se numa dura escola onde, sob a orientação do instrutor técnico, se aprende «a paixão da docilidade». O estádio é a porta grande que leva ao mundo dos robots.

No centro desta exposição, a máquina de lavar todos os jornais, de L’Aurore ao L’Humanité, e do New York Herald Tribune ao Quotidiano do Povo, de Pequim, terá de branquear, entre outras, uma profusão de omnipresentes páginas desportivas. Tanto pior para algumas raras e, por vezes, magníficas fotos de bólides em chamas invadindo arquibancadas a transbordar, antes de explodirem: tal flash solene é a única luz apropriada a estes locais sinistros. 

Radovan Ivsic

Trad. Joaquim Simões


Aos confrades, amigos, adeptos e simpatizantes

     Devido a um problema informático de última hora, não nos será possível fazer a postagem desta semana.    Esperando resolvê-lo em breve,...