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terça-feira, 23 de agosto de 2022

Perguntas de Lino Mendes, respostas de NS

 

A NOSSA LÍNGUA

 

1)- A LÍNGUA é viva porque naturalmente aparecem novas palavras e, as que existem, podem passar a ter (mais) outros significados?

Entretanto há quem considere que “os idiomas se adaptam às pressões do ambiente e são determinados pela estrutura social dos seus falantes". E que as línguas mais faladas tendem a ser mais simples.

O que tem a dizer sobre o assunto?


NS – Sim, tudo isso tal como refere.

 Os idiomas adaptam-se, tal como é aqui dito – mas nunca um idioma pode ser forçado a adaptar-se, mais grave ainda se o for por motivos de baixa política ou por oportunismo de qualquer ordem (comercial, industrial, etc)!

  A adaptação é um facto natural e que decorre de uma progressiva junção da passagem do tempo e das transformações que essa passagem produz. Nunca pode ser forjada artificialmente – no caso de o ser só produzirá frutos mortos, tal como sucede com o famigerado acordo ortográfico: imprudente, ridículo e frequentemente insano.

 A língua é um instrumento de comunicação. Se a comunicação (como na nossa sociedade fundamentalmente dominada por ritmos ao serviço do interesse imediatista dos grupos argentários) se vulgariza ou primariza, é lógico que a língua se torne mais simples (eu diria antes mais simplista ou, mesmo, mais simplória…).

 

2)-Concorda que as novas “entradas” nos dicionários se verifiquem ao critério dos editores, e não haja uma “comissão científica” que o avalize?


 NS – Não concordo. Deixar-se tal caso ao critério dos editores é semelhante a deixar-se ao critério de um qualquer editor a estruturação de um livro de zoologia, ou de química, ou de física…

  A língua é um organismo vivo, parafraseando Aristóteles e que, deixado ao sabor de gentes frequentemente interesseiras, pode sofrer tratos de polé que o magoem irreversivelmente.

 

3)-O que justifica a alteração ortográfica? Por exemplo, a alteração de “pharmácia” por “farmácia”.


NS - Há simplificações que fazem sentido – quando tal não colide com a clareza, a adequação e, digamo-lo também, a própria elegância linguística.

  Mas nada justifica que se altere uma língua porque tal foi exigido ou ardilosamente sugerido por entidades políticas, etc, visando apenas a subordinação de um povo falante e escrevente (com uma determinada criatividade!) a interesses de momentâneos dominadores, de talha grosseira ou oportunista ainda por cima!


4)-Não seria antes de considerar uma “Língua–Mãe” sendo as outras suas sucedâneas? Não será que o grande problema está no “falar” e não no “escrever”?


 NS – Falemos claro! Sem subterfúgios e sem temores estimulados pelo “politicamente correcto” ao serviço dos que, fingindo-se democratas, não o são realmente. A língua portuguesa é a língua criada pelo colectivo português, pelas gentes de Portugal. Depois, é de levar em conta que esse falar e escrever portugueses, tendo navegado para outros locais e sendo adoptado por outras gentes, muito legitimamente ganhou outros tons e outras características. É o falar, o escrever, de outras humanidades. Muito próprio e muito digno! Mas não se venha exigir que nós, por sermos menos milhões que esses milhões de falantes, abandonemos a nossa especificidade, constrangendo-nos a falar de forma artificial, escrever de forma artificial com o único intuito de, sabe-se lá por quanto tempo, os donos do nosso viver colectivo fazerem mais facilmente negócios e abancarem melhor à mesa dos banquetes em que se envolvem com outros da mesma igualha, como eles fazedores de fortuninhas!


5)-Haverá outros interesses para além do “cultural"?


NS – Eu diria mesmo mais, como os primos Duponts do Tintin: interesses culturais devem ser a última coisa em que esses fabianos pensaram/pensarão…! E tem-se visto, agora que já passaram uns anos sobre o desconchavo, que interesses culturais só lá estarão para disfarçar a protérvia e nada mais!


6)-Agradeço que acrescente tudo o que considere de essencial…


NS – Apenas acrescentaria que é triste, é lamentável, que se tenha artilhado uma manobra deste tipo (acordo ortográfico) que não foi acordo nenhum, mas apenas a maneira de curvar a língua portuguesa, de forma arbitrária, autoritária e ardilosa, a manobrismos de baixa estirpe e muito baixa cultura. Desta pessegada não saiu nada de válido, nada de cultural se acrescentou. Apenas ficou provado como gentes de letras grossas (ou grossistas…de tipo em estilo intendência) pode agir impunemente ou quase por dispor do poder político. Imagina-se, por exemplo, a França ou a Inglaterra, países que têm espinha dorsal linguisticamente falando, a alterarem o seu idioma para agradarem ou acatitarem seja quem for? Eu diria que a alteração que esses mandantes têm tentado e estabeleceram como regra abstrusa lhes retrata a figura: gente sem decoro e sem verticalidade… para mais não dizer. E por aqui me fico…!


terça-feira, 2 de agosto de 2022

Lino Mendes, Sobre folclore

 


ns



Quem quiser estudar profundamente o folclore, e para isso tiver capacidade que para todos não será igual, não pode ignorar os “saberes empíricos”, só por si insuficientes mas indispensáveis, não pode esquecer-se que pela UNESCO o mesmo foi reconhecido como “cultura tradicional e popular”, sendo por isso as raízes de todos os usos e costumes, de todas vivências quando as mesmas não eram adulteradas por valores estranhos trazidos pelo progresso que abriu as portas à globalização. Por isso, essa coisa do não ligues que não passa de folclore, já deveria estar varrida da mente dos que não gostam do povo.

Mas nada me admira que ainda haja quem não compreenda que o “popular” e o “erudito” são duas faces da mesma moeda, a Cultura, onde ocupam lugares e não patamares. E é o respeito por estes princípios que nos garantem as nossas “raízes”, o “tradicional”, a nossa “identidade cultural”

Por incrível que pareça, o mistério da Cultura ou entidade a quem o delegue, não tem um pelouro que a questões do Folclore e Outros Patrimónios “responda prontamente e com credibilidade” e é urgente que o assunto seja resolvido.

                

EDUCAÇÃO PARA A CULTURA DA TRADIÇÃO                                                                                                                                                                               

Um povo sem memória não existe

Sem dúvida que para cada um de nós a nossa terra é sempre a melhor. Não pelo facto de na mesma se ter nascido, o que até pode ter acontecido por um simples acaso, mas porque ligado a ela nos formámos, naturalmente nela encontramos as nossas raízes - que nos caracterizam e enriquecem nas diferenças.

É o FOLCLORE, são as tradições, são os usos e costumes a marcarem um meio quando ainda não influenciado por padrões universais. E são essas RAÍZES que hoje, mais do que nunca, interessa preservar e constituem a nossa afirmação neste derrubar de fronteiras na Europa como no Mundo.

É QUE UM POVO SEM MEMÓRIA NÃO EXISTE, pelo que é preciso que este País, que é o nosso, vá sendo construído em português. O que não significa um erguer de barreiras, um delimitar de fronteiras a não ser as culturais. Porque é nas diferenças que o convívio entre os povos se consolida, assim como na identidade se reforça a evolução natural das coisas.

É a maneira de ser e de estar que caracteriza um povo. E por isso mesmo, quando hoje se pretende definir o que é um homem culto, uma certeza de imediato se perfila - a de que não importa a soma de conhecimentos, se ignorada for a realidade do meio em que nos inserimos, nos formámos. Verdade esta que, sem manipulações, deve estar presente a partir dos bancos da Escola, já que a criança só sabe (e pode) amar aquilo que não desconhece.

Temos, pois, que importa compreender e defender o nosso património, a nossa identidade, até porque o desenvolvimento só coabita com uma população culturalmente evoluída, o que não pode acontecer no desconhecimento das raízes que nos definem, no ignorar das memórias do povo que somos.

 

É, pois, um facto, que um povo sem memória não existe. Há por isso que a preservar investigando, reconstituindo e divulgando. Sendo que, inclusivamente a deslocação de um grupo de folclore às nossas Comunidades espalhadas pelo mundo será sempre um bom serviço prestado ao país, desde que esse mesmo grupo seja credenciado por um correcto trabalho de pesquisa, seja de facto representativo. Temos, pois, que investigar, reconstituir, preservar e divulgar as nossas tradições, se torna prioritário.

Não há no nosso país uma “Educação para a Cultura da Tradição”, embora sejamos o povo que mais a respeita; não temos nas nossas Televisões um único programa que a promova - aliás não há um conceito de qualidade, e de representatividade, sempre que  se escolhe um grupo - porque o mesmo tem que assentar o seu trabalho em  bases científicas já que, como se sabe, a Etnografia e o Folclore são ramos auxiliares da Antropologia Cultural. Sendo por exemplo triste ouvir um nome sonante da Televisão perguntar a responsáveis de grupos que lá vão, sem critério de escolha, quem escreveu as cantigas e desenhou os fatos, desconhecendo que naturalmente tudo isso teve os seus autores cujos nomes se perderam no entanto no decorrer dos tempos, acabando por cair no domínio público e ser assimilado natural e voluntariamente pelo Povo.

Refira-se, entretanto, que quando dizemos que se devem delimitar as fronteiras culturais, queremos referir que se deve respeitar a cultura tradicional, outra maneira de dizer folclore. Porque se este não mais evolui, a tradição continua a evoluir, dando lugar a novas formas de cultura que serão estudadas e terão o seu lugar no mundo global da cultura. Assim como quando se diz que “investiguemos”, devemos ter consciência de que começar do zero, já não se pode recuar no tempo como tem sido possível, pois o livro da Sabedoria do Idoso, está a perder as últimas páginas.

Como já dissemos, é preciso que este País “vá sendo construído em português “é preciso que os nossos jornais ponham de lado os “estrangeirismos” e os “DICIONÁRIOS” não façam as novas entradas a seu belo prazer.


quinta-feira, 10 de fevereiro de 2022

Um texto de Lino Mendes

 




DESCOBRIR O FOLCLORE

Folclore?! O que é que é isso?

 FOLCLORE é o conjunto de tradições, de usos e costumes próprios da maneira como os nossos antepassados viviam, no tempo em que a sua vida ainda não era tão influenciada pelos usos e costumes de outros povos. Consegues imaginar um tempo em que “viajar” significava, quase sempre, apenas ir trabalhar para outras terras durante algum tempo? Nesse tempo, quando “viajavam”, as pessoas podiam trazer ou deixar uma ou mais danças, canções, provérbios... Alguns ficavam na cabeça do povo, que os ia adaptando, de maneira espontânea, à sua maneira de ser e de estar. Dizem os entendidos que a partir de 1910 tudo o que foi criado já não pode ser considerado tradição, folclore, mas nós não acreditamos… pois houve terras onde a mudança cultural chegou mais tarde, e foi ela que fez parar a continuidade das tradições. Em 1910 deu-se em Portugal a transição da Monarquia para a República, mas isso não modificou de imediato os usos e costumes e as mentalidades só porque acabou a monarquia constitucional e se instaurou o regime republicano. O que cabe dentro do folclore? Música, dança, canções. provérbios, anexins… tanta coisa! Todas as vivências culturais tradicionais, tanto materiais como imateriais: festas, atividades laborais, utensílios, sabedorias populares, crenças, literatura oral, práticas religiosas, etc,...


PARA QUE SERVE UM GRUPO FOLCLÓRICO?

Serve para manter viva a memória das nossas tradições, e também para mostrar, através do espectáculo, os usos e costumes de antigamente, para que as pessoas os possam conhecer. É, portanto, uma representação muito própria que os Folcloristas, as pessoas que se dedicam a estudar e a representar os usos e costumes, tentam recriar para que se não apague a tradição de cada lugar, de cada aldeia, de cada vila ou região da nossa geografia nacional. Um grupo folclórico é assim um tipo de MUSEU VIVO. Mas, para se poder mostrar como as coisas eram realmente, é preciso que os trajos, as danças, os cantares sejam resultado de uma pesquisa. Como devem imaginar, à medida que o tempo passa, é cada vez mais difícil encontrar pessoas que ainda conheceram as pessoas que viviam nesses tempos… e começa a ser raro encontrar velhinhos que nos possam falar do tempo dos seus avós. Mas a pesquisa tem de ser feita, não podemos inventar…


quinta-feira, 4 de novembro de 2021

Lino Mendes, Crónica


          Ao sabor dos tempos

 

Não sou nenhuma versão masculina de Madre Teresa de Calcutá, mas choca-me profundamente a falta de humanismo com que este país é governado, onde os mais poderosos vão recebendo o que não lhes faz falta, ao contrário dos que nada têm para pôr na mesa. Não sou contra o rico ou mesmo o muito rico, desde que as suas fortunas tenham origem legal e estejam a contribuir para o desenvolvimento do país, embora defenda a existência de tectos salariais.

Se verificar, não há quem no âmbito do governo e do parlamento, não receba um vencimento que permita qualidade de vida. Por outro lado, quem trabalha/va no campo e ajudava a encher celeiros para todos pudessem comer, tinham dias de festa quando um bocado de pão branco servia de conduto ao pão de milho.

Ou porque o destino sempre marca a hora, ou a educação que me deram foi de excelência, há duas palavras que não constam do meu dicionário de vida; a “inveja” e a “vingança”, e quando entrei na primária já sabia que não iria estudar. Filho de pedreiro serás pedreiro, filho de sapateiro serás sapateiro, e no meu caso serás padeiro - e confesso que gostava da profissão. E com base naquele aforismo “quem ganha três e gasta quatro, não precisa de taleigo nem de saco” ia preparado para só pedir aquilo que era possível satisfazer.

E alguns mitos se começaram a desfazer, como o facto de ser pobre não me impedir de querer aprender e ser melhor aluno que os ricos. Quando, e infelizmente isso acontece, aprender é o que muitos académicos não fazem.

Não fui estudar e hoje dou graças a Deus por assim ter sido, pois de outro modo não teria a família que tive, e por muito mais dinheiro que ganhasse, Doutorado que fosse, não teria as alegrias que tive percorrendo o país e parte de alguns outros, representando culturalmente a nossa terra. Claro que fui muito maltratado por gente que não presta, mas desses tenhamos pena, embora não os possamos esquecer.

Mas vamos à grande desigualdade que se verifica no país, e nada tem a ver com a economia do mesmo. Ora se do “trabalhador do campo” ao “doutor “todos são imprescindíveis, qual a razão de tanta diferença no vencimento? E todos eles “são seres humanos “pelo que base de qualquer vencimento deveria ter isso em consideração. Porque não tenha dúvidas,” se o homem do campo não planta o da cidade não janta”.

Enfim, no nosso país anda tudo à deriva. Há uma saúde para ricos e outra para pobres, e o mesmo se passa com a educação. E o que dizer da justiça?

Mas vamos ao essencial, se é certo que os remendos de nada servem e é para ontem a “estruturação” de todos os sectores, o fundamental é “acabar com a pobreza”. Mas é uma tristeza o comportamento dos partidos que o poderiam fazer.

Claro que tudo tema ver com a falta de educação e cultura, e não há governo que mexa um dedo para que isso se altere. Mas podem crer que a luta que especialmente há meio século venho travando em prol do desenvolvimento cultural, é para que tenhamos eleitores que saibam dizer BASTA aos disparates que se fazem a nível governamental e ponham na linha os Salgados deste País.

segunda-feira, 4 de outubro de 2021

Um texto de Lino Mendes

 

HUMANISMO



Eileen Agar


   Não somos todos iguais nos conhecimentos, não somos todos iguais quanto à saúde, mas somos todos iguais sob o prisma do humanismo, todos somos seres humanos, seja-se ”sem abrigo”, seja-se um alto funcionário do estado. Mas a sociedade ainda não entendeu que seja assim. Os próprios cidadãos ainda não entenderam que é urgente um NÃO à subserviência.

   Aqui não se trata de poderes, de dinheiros, pura e simplesmente de “valores humanos”. E se José António Saraiva, num artigo que nos faz pensar, diz que caminhamos para a barbárie, eu atrevo-me a lançar esta questão polémica. Claro que não se pretende abolir o “respeito hierárquico”, não queremos transformar a “liberdade” em “libertinagem”, as regras da “boa educação” são sagradas.

   Agora não podemos voltar aos tempos do “Senhor” e do “Servo”, que ainda no antes do 25 de Abril eram latentes. Fui testemunha, era criança, e desde logo fiquei marcado para hoje ser um defensor da igualdade de tratamento.                                                                  

   É esta a missão a que nos propomos, que para uns até será utópica, mas em que eu acredito - abrir os ”Caminhos da Igualdade Humana”

   Recordo-me da rivalidade vila-campo, em que eram estes que se comportavam como inferiores na maioria dos casos. E há muitos anos que a situação se alterou.

   Recordo-me de as mulheres da vila chamarem cabreiras às do campo. E estas ripostavam que eram cabreiras para guardar as cabras da vila. E hoje “todos somos Montargil”

   No respeito pelos valores humanos, acabemos com os complexos de inferioridade. Mas somos nós, os menos protegidos, que nos temos que impor, porque ainda há muitos arrogantes que desconhecem o humanismo.

   Ainda agora se realizou mais um acto eleitoral e quer um “sem-abrigo” quer o presidente da República, cada um valeu um voto.

Montargil, 28/09/021


segunda-feira, 7 de junho de 2021

Lino Mendes, Crónicas na vertical

 


Fernando Aguiar


Folclore e outros Patrimónios


   Por contingências da vida, só agora tive conhecimento de que o Governo anda a planificar um projecto de apoio ao “Património Cultural Imaterial”, tendo em conta, entre outras razões, que o mesmo “representa a identidade e diversidade de todo o território nacional”. Ora, não é verdade que o PCI - Convenção de 2003 da UNESCO, seja IDENTITÁRIO. E esta confusão que continua a verificar-se, não tem qualquer razão de ser, sendo-me penoso a afirmação da senhora Secretária de Estado da Cultura. Que não compreendo. É de facto tradição, mas não é tradicional.

   Aliás, é a Dr.ª Clara Bertrand Cabral responsável pela cultura na Comissão Nacional da UNESCO, que num artigo esclarecedor, nos diz que o PCI não assenta no autêntico, no tradicional e no identitário, mas sim no constantemente transformado e no criativo. E é a mesma senhora que mais recentemente me esclareceu, que para a UNESCO, enquanto o folclore é “tradição do passado,” o PCI é a “tradição do contemporâneo”.

   Quanto à estratégia em curso, não posso estar contra tudo o que seja destinado a garantir tradições, mesmo que não tradicionais, muito embora e segundo Paulo Lima, autor da candidatura do Cante, estas candidaturas servem acima de tudo para a criação de um destino turístico, ou para aumentar as vendas: como se vai ganhar dinheiro, associar produtos, etc., havendo sempre um intuito comercial ou capitalista, se quisermos.

   É de ter em atenção!

  Projecto diferente, mas que me parece de grande envergadura, está a nascer no Baixo Alentejo e ao que nos dizem visa a revitalização do Cante. Não tenho infelizmente mais informações sobre o projecto.         

   Agora, o meu desencanto, situa-se em dois pontos. Ainda hoje não se compreender, mesmo a nível superior, o que é identitário, e ter sido ignorado o que para mim era prioritário, isto é, o estudo correcto e respectiva sustentabilidade do nosso folclore, da nossa cultura tradicional, garantindo o seu futuro com a inclusão na Escola (formando públicos e sensibilizando crianças) a preparação de formadores, e o apoio a espaços, abertos ao futuro do passado.     

   Ainda quanto ao “não ser identitário” basta resultar de uma convenção - neste caso a de 2003 da própria UNESCO - ser convencionada, combinada.

 

   O “identitário” não nasce de decretos ou do parlamento, é o resultado de uma leitura correcta dos caminhos da cultura, até ao momento em que as vivências das gentes de antigamente sofram influência estranhas à sua maneira de ser e de estar.                                                                                                                             

   Cada dia que passa sem um aprofundamento dos saberes tradicionais locais, é um passo que se recua na manutenção da nossa identidade.

   E quem tem interesse que isso aconteça?                                                                                                                                                      

segunda-feira, 24 de maio de 2021

Caminhos da Literatura – Inquérito a Nicolau Saião (por Lino Mendes)

 


ns, A escrita


A POESIA

1.      O que define a maior ou menor qualidade de um texto literário?
A mensagem? A riqueza(?)linguística? A maior ou menor dificuldade da sua compreensão?

Resposta de NS

   Eu diria que é um conjunto de condições da qual afasto no entanto, à partida, a dificuldade maior ou menor da sua compreensão, que colocarei sob outro enfoque. E isto porque a dificuldade de entendimento de um texto literário pode até partir da maior ou menor inteligência ou preparação do leitor…

   Dizia Lichtenberg “Se um macaco se mirar num espelho, nunca verá um apóstolo” e a frase creio que tem todo o cabimento, como se entende.

   Indo agora ao cerne da questão, a chamada “mensagem” parte da riqueza linguística (melhor dizendo, da boa articulação da escrita – e é isso que configura a riqueza do que se diz e não um eventual estilo rebuscado ou grandiloquente, digamos assim), sendo o inverso também verdadeiro. Um texto de qualidade pode ser original ou mesmo inusitado, mas não é nunca descabelado ou pedante. Mais: o autor de qualidade nunca busca ser original – a originalidade é uma constituinte da sua escrita, simplesmente, parte dos olhares novos que ele soube abrir ou suscitar. A qualidade é sempre uma resultante: da forma e do conteúdo expressos, que fazem sentido e têm poder criativo e criador.

2.      Duas  situações:
Quem não entende António Aleixo?
Quem entende Camões?(LUSIADAS)
É claro que não vamos fazer comparações. Mas gostava que nos situasse
no seu espaço cada um destes exemplos.

NS - Só gente muito primária poderá não entender António Aleixo. Dito isto, há que referir que entender tem dois níveis (pelo menos) de estruturação: o sentido imediato e o sentido profundo. No primeiro parte-se da leitura corrida, digamos desta maneira. O segundo já requisita percebermos o que o autor dizia, queria de facto dizer, recorrendo a um simbolismo, a uma sugestão ou inflexão apontando mesmo para o que nem necessita de ser expresso claramente. No que se refere a Camôes, há o discurso global (celebração dos “heróis” portugueses), na linha de outras celebrações mais antigas (gregas e romanas). A forma em que está vasado, própria daquele tempo e daquele espaço poético é que não será de fácil apreensão, dependendo mesmo da preparação de cada um. Mais consensual, mais fácil de entender como usa dizer-se, será a sua obra lírica, não epopaica, que a meu ver é inclusivamente a sua mais alta realização. Independentemente da sua força discursiva, principalmente em dados trechos, a olhares modernos Os Lusiadas já começa a aparecer-nos como um “tour de force” que perde claramente no cotejo com A Odisseia (para não falarmos noutros…), dado o seu estrénuo esforço em pintar de epopeia uma incursão claramente histórica pouco entusiasmante dado o seu cariz quotidiano-comercial…por muita retórica patrioteira que se lhe faça em redor.

3.      O rimar deixou de ser necessário para haver poesia
Como sabemos então que se trata de um poema?

NS - O rimar nunca foi indispensável na poesia (como o não é o não rimar ou verso branco), correspondeu apenas a um estágio temporal bem determinado. Saliente-se que em certas épocas chegou a assumir, até, foros de obrigatoriedade por parte de alguns sectores “donos da cultura”. O que mostrava não só o seu autoritarismo como a sua própria falta de cultura. Dizendo de modo explícito: faziam passar por poesia algo que não era mais que rimação (perdoe-se-me o eventual neologismo) sem fulgor e sem valor, repisar monocórdico de conceitos ou de pseudo-moralismos de baixa estirpe.   

   Dito isto, realce-se que há por vezes poemas que, partindo da qualidade de escrita do autor, que sabe manejar a rima de forma a ter sentidos de drama, de ironia ou de graça simplesmente, têm nessa certa rima uma expressão adequadíssima – pois está ali a sublinhar uma intenção, uma qualificação, uma sibilina inflexão que posta doutra forma não resultaria na atingida beleza do poema.

  Um poema – e um poema pode ser em prosa, como se usa dizer – reconhece-se por ter nele uma imanência que atinge os mais secretos, mais profundos e mais desconhecidos, por vezes, sentidos do ser. A poesia é uma construção que toca as fontes da Humanidade e da existência comum e do ser vivente, há algo na frase que ultrapassa a simples verdade da sua estrutura para se projectar na realidade interior das coisas.

  Refira-se que uma novela, um romance, um ensaio – que são obras em prosa – podem ter na sua concretização uma imensa poesia e não precisam de sair da sua estrutura (que é específica). Mais: se, neles, o autor quisesse fazer poesia, ferindo a sua especificidade, provavelmente faria era uma obra falhada e pretensiosa. (Há exemplos de romancistas, novelistas, etc. que quiseram fazer romance/novela poéticos e só fizeram, afinal, emolientes pessegadas…).

  A poesia parte da estrutura intrínseca que lhe configura a permanência no tempo e no espaço. Ser com ou sem rima já é uma sequência (ou uma consequência, se quiserem…).


segunda-feira, 26 de abril de 2021

Lino Mendes, Crónica na VERTICAL

 




A nossa identidade não tem preço


   Não obstante o Ministério respectivo o ter reconhecido oficialmente como “Cultura Tradicional”, o Folclore caiu neste período da pandemia na sua maior confusão de sempre, o que eu considero impensável e nada abonador da nossa cultura. E muito especialmente porque figuras cimeiras do momento não sabem interpretar a “convenção de 2003 da UNESCO” e há anos que se vem considerando com uma ligeireza irresponsável o CIOFF(*) como tradicional e folclore.

   Trata-se de três patrimónios imateriais, mas apenas um é folclore, aquele que assenta no autêntico, no tradicional. no identitário. A convenção - e basta ser convencionado para não ser folclore - assenta no constantemente transformado, na criatividade. Podemos até dizer que cada um é aquilo que o outro não pode ser.

   Para agravar a situação, o senhor Presidente da Federação defende em artigo do jornal Folclore que se deve à UNESCO o folclore não ter cortado com o passado, quando foi isso mesmo que ela fez com a convenção. Aliás, numa carta que a mesma UNESCO nos enviou, deixa bem claro que sendo o folclore a “tradição do passado”, a convenção dá-nos a “a tradição do contemporâneo”.

   Agora e quanto ao CIOF, é a situação mais absurda que se encontra na nossa cultura.

   Como é possível haver ali o folclore e o tradicional, se os respectivos festivais devem estar em conformidade com a Convenção da Salvaguarda do Intangível Património Cultural da UNESCO, isso é incluídos na tal “tradição do contemporâneo”. E como consequência de tudo isto temos cá o CIOFF PORTUGAL sem que os nossos grupos respeitem o regulamento, embora participem em festivais e organizem alguns dos mesmos.

   E uma nota final na mesma linha: a Federação organizou a Carta Tradicional do Folclore Português, que no fundo é a Carta Tradicional da Convenção de 2003.

   Já disse tudo o que tinha a dizer sobre a matéria, e já pedi o contraditório, mas ninguém contesta embora sigam por outros caminhos. Mas quem me conhece sabe que mais do que impor a minha ideia, importa clarificar a situação.

   Claro que isto é uma simples síntese do muito que se pode dizer para chegar ao pormenor.

   E, curioso, os amigos com quem agora estou em contradição são pessoas com os quais muito aprendi.

   Deixe-se, entretanto e aqui este REGISTO!

(*) - Grupos do CIOFF são aqueles que só aparecem em especial no verão, para participar dizem eles, em festivais internacionais de folclore, mas são escolas e companhias por vezes profissionais de dança, com coreógrafos. Nada têm de tradicional.

     Já o demonstrei fundamentando e ninguém apareceu a contestar. Fi-lo inclusivamente junto do Ministério da Cultura.

                                     (Nota do autor)

 

Lino Mendes


quinta-feira, 11 de março de 2021

Sobre o Islão e o terrorismo verde

 

Entrevista a Nicolau Saião por Lino Mendes


1)-Sinto-me confuso quanto ao “terrorismo na actualidade”.
   Há quem considere que assim como há famílias que produzem por exemplo atletas ou artistas, outras há que produzem terroristas.
  Há quem diga que os terroristas são oriundos das classes com mais frequência escolar, da classe média ou de famílias com rendimentos elevados.
  Qual o seu entendimento? O que “gera”, afinal, o terrorista?

Resposta – No que respeita à primeira das opiniões: as pessoas que isso dizem, de duas uma: ou o fazem por pura ignorância devido ao seu carácter ou impreparação qualitativa ou, então, é por mera táctica para justificarem ou branquearem na prática o terrorismo ou aquilo que fortemente o produz: a religião ou a ideologia específica desta. Na verdade, o que gera o terrorismo são comunidades e não famílias, embora no caso do terrorismo islâmico a acção das famílias possa agravar o caso, pois é no seu seio fortemente marcado que muitas vezes o fanatismo religioso é incrementado.

  No caso islâmico, em que as comunidades e portanto as famílias vivem maioritariamente em círculo fechado, não convivente com o exterior (onde no entanto foram aceites e frequentemente são ajudados com subsídios e outras facilidades vigentes nesses países democráticos) isso torna-se mais acentuado. Como a História e o bom-senso nos mostra, devido ao seu tipo de formatação mental secular produzido por um tipo de estruturação social autoritária assente num totalitarismo religioso (no Coranismo não há as chamadas “frestas de tolerância” como no cristianismo e no catolicismo moderno ou “agiornado”), os muçulmanos geralmente desprezam os outros povos, que consideram kaffir (não crentes, que merecem submissão). Manifestam uma clara xenofobia – essa sim, insofismável – com fortes apelos racistas. Um ser humano de outra origem só merece igualdade se se converter. Caso contrário é um putativo inimigo a marginalizar ou a não considerar, no mínimo. Foi isso que determinou a decadência árabe e modernamente desperta nos cidadãos ocidentais, caldeados pela Razão e a Democracia, uma repugnância instintiva pelo islamismo.   

  Cinicamente, para tentarem camuflar tal facto, os ”politicamente correctos” cunharam a palavra “islamofobia”, usada por eles como “arma de guerra” para atacarem os que não desejam ser submetidos pelo Islão e o dizem publicamente.

  No que respeita à segunda das opiniões: um terrorista islâmico pode ser proveniente de qualquer classe, pois todas elas estão na dependência mental do Islão. O que acontece é que os islamitas das classes mais desfavorecidas não dispõem de tantas possibilidades logísticas, digamos. Geralmente são empregues como massa moldável para manifestações, apoios consentidos, etc. Até nisso se verifica a discriminação social característica dos mandantes reais islâmicos …

  Com respeito à questão que é posta na terceira parte deste item – No caso islâmico o que gera o terrorismo é, em primeiro lugar, o tipo de formatação social e mental produzido por esta religião (que muitos pensadores consideram na verdade uma ideologia camuflada): o totalitarismo inscrito na sua Entidade propulsora (Allah), cuja vontade deve ser seguida não só absolutamente mas, também, inquestionavelmente (Ou seja, o crente não pode perguntar-se sobre o culto ou o senhor dele). Isso gera o fanatismo, a intolerância extrema e, em última análise – se aparece um colectivo fundamentalizado (Al-Qaeda, ISIS…) – a brutalidade extrema e desumanizada e o crime expresso.

   Finalizando, eu chamava a atenção para o facto de que o terrorismo islâmico nada tem de comum com outros terrorismos historicamente conhecidos. Este visa o domínio total do mundo, com submissão a uma Entidade mística, enquanto os outros visavam dominações político-sociais sectoriais ou mesmo de real libertação.

2)-Passemos agora ao “terrorista que se autoflagela”, que está convicto de que entra de imediato no paraíso. Mesmo tendo família…

  Resposta - Isso provém, claramente, do já referido fanatismo, pois a formatação mental obriga o crente, que naturalmente aceita o facto “de olhos fechados”, a ter como certo que o espera após o sacrifício um Paraíso povoado de virgens e de iguarias e, adicionalmente, a salvação eterna!

  Quanto à família, para o islamita convicto a família é secundária, só Allah e os seus mandamentos contam acima de tudo. Lembremo-nos que, normalmente desde os dois anos, os pequenos islâmicos são submetidos nas “madrassas” (escolas muçulmanas das mesquitas) a uma “evangelização” intensíssima que os verga completamente à crença. Uma espécie da nossa antiga catequese como a descreveu Eça, mas cem vezes mais intensa…

3)-Naturalmente que há diferenças entre os terroristas que no século XIX poupavam mulheres, crianças, idosos ou outros Inocentes (se assim foi…) e os actuais. Como agora em Paris, em Bruxelas…

 Resposta – Sim, há diferenças. Para um partidário da chamada “acção directa” dos séculos 19 e 20 (fiquemo-nos por estes) a bomba ou o tiro eram dirigidos contra mandantes de topo - reis, presidentes, argentários, etc. – considerados fautores de miséria ou de abuso sobre o povo ou a sociedade. E só adicionalmente, à guisa de “danos colaterais” atingiram pessoas do quotidiano. Este tipo de terrorismo, islamita ou fundamentalista, é dirigido contra todos os que participam do chamado “mundo kaffir” e visa ser o prólogo da tomada de poder do Califado global. Por isso os que dizem que não é um terrorismo religioso ou se enganam a eles mesmos por razões de estratégia da “real politik” ou pretendem enganar-nos, adoçando a nossa justa indignação. Lembremo-nos de preleções hoje facilmente visíveis na Net nas quais os chefes islâmicos dizem que todo o  crente está com os que atacam os “infiéis”. Um “moderado” islâmico, a realidade já o demonstrou, ou o é por razões de interesse próprio (mas só o pode ser no Ocidente…lá seria preso ou marginalizado) ou pensa que o bolo lhes cairá nas mãos sem necessidade de violência, apenas com a progressiva e maciça islamização a que têm procedido por laxismo das democracias decadentes.

4)-Será que se pode considerar terrorismo religioso quando ao mesmo tempo  invocam o facto do governo francês ter armado os curdos?

   Resposta - Claro que sim, pode. Já de muito antes de a França ter dado possibilidades aos curdos de resistirem ao massacre a que os islamitas estavam a proceder, o islamismo radical tinha tornado claro o seu intuito de atacar o ocidente assim que pudesse. O eles dizerem isso não é mais que propaganda e contra-informação – a que aliás grupos neo-estalinistas ocidentais dão apoio e cobertura, no seu interesse de desbancar a Democracia, ainda que imperfeita. Qualquer pretexto lhes serve para as suas acções, como tem sido mais que visível. Em nome, não esqueçamos, de Allah ou do profeta, expressamente!
 

5) - Como se deve responder a um ataque terrorista, fazê-lo de igual maneira?

Resposta – Nunca se poderia, em retaliação, fazer o mesmo, pois as forças em confronto são de diferente índole e propósito. O que se deve fazer é, sem complexos pois se trata de defender as populações contra um inimigo totalitário e impiedoso, que visa a destruição da Cultura, da tolerância democrática e dos valores reais do espírito, combatê-los como se combateu o nazismo pois estamos na verdade sob guerra total desses fanáticos.
 

6) - Haverá maneira de contribuir para evitar o aparecimento de terroristas?

Resposta – No que respeita ao terrorismo islâmico e no actual estado de coisas, não me parece possível. Só depois da destruição do auto-designado Estado Islâmico infiro que se poderá partir de novas bases, que serão: criação de uma diferente geo-estratégia bilateral com os países árabes, que terão de abandonar a posição de férreos possuidores do petróleo, o que causa o aparecimento de estratégias concorrentes do ocidente, nem sempre adequadas; abandono do proselitismo, com abertura à modernidade; controle desinibido da islamização na Europa e no mundo. Relacionamento positivo e sem cegueiras ideológicas no âmbito de uma verdadeira Associação Internacional. Adicionalmente, criação de leis que cerceiem a cínica desinformação, de cunho claramente pró-totalitário e mentiroso, das formações neo-estalinistas que se estabeleceram após a caída do Muro e que, ainda que disfarçadamente, apoiam o extremismo islamita por razões de agit-prop visando não uma verdadeira “revolução” das mentalidades e das adequações societárias mas sim uma ditadura como as do antigo Leste.

7)-Agradeço que diga tudo o mais que considere importante e não esteja implícito nas anteriores questões.

Resposta – A luta necessária que somos forçados a efectuar contra o chamado “fascismo verde” será tanto mais conseguida quanto mais Verdade Democrática houver nas sociedades. Não devemos pois deixar-nos encantar por certas “vozes de sereias” que, pretextando beneficiar o zé-povinho apenas visam jungi-lo aos seus interesses ilegítimos e refalsos. E não devemos deixar-nos seduzir por aparências de palavras fraudulentas, pois não será bom esquecer que Hitler tinha cunhado no nome do seu partido a designação de socialista e Estaline se reivindicava, depois de ter morto milhões de cidadãos, de ser um “Pai dos Povos” progressista…


Aos confrades, amigos, adeptos e simpatizantes

     Devido a um problema informático de última hora, não nos será possível fazer a postagem desta semana.    Esperando resolvê-lo em breve,...