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quinta-feira, 24 de junho de 2021

Um texto de Jacques Tombelle

 

Sobre um quadro de Nicolau Saião, “A noite iluminada”


Nicolau Saião, A noite iluminada


    Um cartão para azulejo, depois concretizado num painel de consideráveis dimensões (180cm x 120cm) que hoje faz parte da colecção pessoal do A. patente na sua residência de Arronches (parede do lado direito do corredor da Casa da Muralha), dá-nos algumas pistas que nos permitem debruçar-nos proveitosamente sobre uma característica pouco estudada do universo conceptual subjacente à pintura deste autor.

    As conversas que com ele mantive ao longo dos tempos têm-me permitido confirmar esta análise, que aliás vai ao encontro de outras reflexões semelhantes já efectuadas a outro propósito. “A noite iluminada” é pois uma pintura onde existe um conceito, mesmo uma proposta existencial por detrás de uma evidência de ordem plástica.

    A começar pelo título, há nos elementos do quadro (concepção, cor e desenho) sinais que não enganam se os encararmos devidamente, utilizando um ponto de vista que leve em conta a simbologia filosófica tradicional.

    A execução da obra baseia-se na técnica-mista do lápis de cor, do guache e da caneta de feltro, sobressaindo três cores: o amarelo, o negro e o rosa forte, com um enquadramento em castanho de terra-siena e verde esmeralda. Fazendo pendent estão algumas variações de verde, azul plúmbeo e o branco em marcações breves.

    A estrutura do quadro é simples, quase linear. Verificam-se na vertical três planos sucessivos: o de baixo, com um solo juncado de flores; o do meio, preenchido por figuras que aludem ao caminho filosofal dos adeptos e o do alto, onde o clarão do dia sobressai do escuro da noite. Desta forma se sublinham as alegorias da primavera renascente e da luz irrompendo das trevas segundo a lição de hermetistas antigos como George Starkey e Joana de Vivonne ou modernos como Fulcannelli, que é simbolizado pelas seis pontas da coroa de safiras (em cima, à direita). Esta imagem remete para a dupla trindade, ou seja a completa realeza filosofal que é o apanágio próprio do Adeptado daquele iniciado e Mestre.

    Tanto a estrutura do quadro como os seus elementos nos sugerem a unidade trina dos filósofos per ignem e a simbologia mística dos cooptados de Heliópolis, com as suas alusões ao sagrado transcendental. As cores também são significativas: há o verde, com raízes na sabedoria tradicional e no cristianismo; o negro, o rosa e o amarelo, que são as cores centrais da alquimia operativa de acordo com os textos canónicos de filósofos herméticos como Eyrinée Philalète ou Louis d’Estissac (o negro masculino, o rosa feminino e o amarelo que é a sua síntese fulgurante.

    No plano do meio destaca-se, mas apenas sugerido (velado) um rosto em amarelo (a cor da Sabedoria hermética). Um pouco acima, à sua direita, vê-se a rosa mística sobre os nove degraus do conhecimento (em amarelo e doirado) que uma figura rosada em repleção (a gravidez do lege e relege, que antecedem o ora e o labora) irá subir. No lado esquerdo está um torso amputado e decapitado (o símbolo da matéria afastada da Obra), tendo perto dele os círculos em que o trabalhador ao forno se perde ou se encontra e os três elementos recompostos de que se serve para as suas manipulações: o enxofre, o mercúrio e o sal filosóficos.

    Na parte superior vêem-se alguns insectos (abelhas, besouros e falenas – símbolos da seiva secreta, volátil, das águias alquímicas) algumas plantas vivas (aludindo à natureza contida no duplo Homem ígneo) pirilampos (representação da via-láctea dos Sábios) e uma lua vermelha em quarto minguante (símbolo do aparecimento posterior da lua de Deus e sinal da Obra ao branco que na tradição espagírica cristã nos é dado pela figura de Notre Dame).

   Na parte média podemos ver um elemento branco, redondo (em cima, representando a cal filosófica) e outro triangular (em baixo) aos quais se seguem, com a mesma dimensão e forma, um elemento terroso com laivos doirados e outro onde a cor do ouro dos sapientes já brilha sem quaisquer entraves.

    Assinale-se ainda que na direita-baixa o quadro se inicia com o símbolo da música das esferas, ou música universal, que é como se sabe um quadrado verde claro e rosa forte (o alvorecer e o anoitecer) cindido em oito partes em diagonal, as partes em que simbolicamente se divide, ou pelas quais se forma, o infinito sempre espelhado no 8 que é simultaneamente algarismo,  círculo musical e figura alegórica da derradeira casa da Obra.

    Denota-se por último que a grinalda azul  (do rigor mortis) a meio do embaixo, é pelo seu recorte um sinal do 9 alquímico, figura adquirida antes da dupla fase final transmutatória em que cobram existência perfeita os onze degraus da Obra acabada e ultradimensionada.

    Esta abordagem feita do ponto de vista da arte hermética permite-nos divisar um tipo específico de sugestões presentes com frequência em alguma pintura contemporânea e analisada já por estudiosos e conhecedores do que significa no nosso tempo este tipo de mensagem proposta por autores de formações bem diversas - a indicação cognitiva das condições metafísicas em que o mundo se vai reconvertendo e ao mesmo tempo afeiçoando, numa sucessiva transfiguração da Criação Inicial.


                                    Tradução de Guiomar Fernandéz                                                                    

quinta-feira, 25 de junho de 2020

Sobre Jacques Tombelle




  Ser artista, já se sabe, é um trabalho arriscado – pese às opiniões contrárias e menos avisadas. E isto porque ser artista é algo que se nos impõe, que não escolhemos (pelo menos numa fase anterior) que vive e palpita com a força das evidências e quase sempre nos arrasta, se sabemos ser fiéis à demanda, por caminhos onde pedras e ciladas, se mal nos precatamos, buscam tolher-nos o passo e extinguir-nos a frescura do olhar.

  Ser professor é também arriscado: o consciencioso mestre-escola (expressão magnífica em todas as línguas que até mim vem do fundo da infância, desse passado a que se deve ser fiel) tem dependentes de si inúmeras razões e corações - os alunos e seus múltiplos destinos – a que se impõe dar indicações de rumo, dar respostas a par de sugestões que amparem o futuro. Nisto se irmana com o artista, também ele um companheiro de bordo visado à linha por diversos perigos, quais sejam: a dispersão dos ritmos quotidianos, o desespero eventual pela descrença na sociedade circundante, que é frequentemente opressora, muitas vezes desumana, quase sempre inquietante.
  Jacques Tombelle, artista e professor, é pois um homem que vive perigosamente, como sempre vivem os que dão testemunho sincero, os que se afirmam por sobre o que é precário nas suas horas fecundas.
  Diz no “Zohar, o livro do resplendor” que as palavras não caem no vazio. Nem os desenhos, as cores, as formas, permitir-me-ia acrescentar. Com efeito o artista, sendo um levantador de universos (Pavese), um verdadeiro agrimensor (Ionesco), um “mastigador do mundo” na expressão de Cristóvam Pavia, é igualmente uma consciência viva no meio do aparato do quotidiano inadequado mesmo quando de tal não tem completa noção ou entendimento. Veja-se Balzac, por exemplo, que referia serem os seus romances não mais que um meio para poder pagar dívidas, ou Huysmans que via as suas obras mais como experiência mística. A arte tem em si verdades intrínsecas que reflecte e propõe, para citarmos a expressão de Stendhal.


  No que diz parte a Tombelle, este artista nos seus melhores momentos coloca-nos um curioso problema: como é que a emoção e a “simplicidade” se podem conciliar com a exactidão? E ainda este outro: como é que o artista, sem deixar de ser sincero (ou ingénuo, se preferirem – e recordo que a ingenuidade, para citar Herman Hesse, é em dados casos um alto valor) pode executar determinadas tarefas picturais e poéticas nas quais uma dada razão não pode embaraçar-se com o sentimento? Creio que o artista que nos ocupa o consegue mediante a assumpção de um realismo franco, indisfarçado mas vigoroso que dá tanto a medida da sua criatividade como a da sua pessoa cordial e fraterna e o seu apego a posições que, muitas vezes banalizadas ao nível de um certo discurso alheio, nele conservam inteirinho o seu poder apelativo: a lealdade, a crença na sensualidade da arte e da escrita e, também, o desejo de que o futuro seja mais favorável ao Homem, além da busca do conhecimento e do saber possíveis.

   É isto que vejo na arte filha duma intencionalidade e mesmo de uma emoção indisfarçada, perto da terra em que se criou, deste desenhador-colagista  pleno de vigor e imaginação, poeta e professor que nos faz participantes interessados. E poderia concluir dizendo que à sua maneira ele está ganhando a aposta que a todos, sejamos pintores ou não, nos move: o desejo humano de mais luz. No fundo, ganhou-a já.
    E nós com ele.
                                                                           ns
                                                                                                                                                  
                    in catálogo de exposição,
Traduzido para francês por André Morais

Aos confrades, amigos, adeptos e simpatizantes

     Devido a um problema informático de última hora, não nos será possível fazer a postagem desta semana.    Esperando resolvê-lo em breve,...