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terça-feira, 24 de maio de 2022

Maria Azenha, Poema e pintura

 




NA MANHÃ SEGUINTE

na manhã seguinte as mulheres vieram
chorar junto às sepulturas

e vejam só: encontraram a céu aberto
pedras
que desabrocharam pela madrugada

os mortos
os mortos
tão vivos

um silêncio impenetrável

in A casa da memória



Maria Azenha, Ucrânia (2022)

terça-feira, 8 de março de 2022

Um poema de Maria Azenha e um outro, de Boris Pasternak

 




Numa folha da Primavera

 

O que é a Paz?

Onde está a sua sede?

Onde está o seu mercado?

Já tem escritório?

Já entrou na bolsa?

A Paz, ontem, valia milhares de mortos…

 

Alguém saberá onde estão os seus ovos?

No cemitério?

No céu?

Ninguém sabe, pois não?!

 

A Paz, atarefada com a guerra, abre a sua própria cova.

Lá esconde os seus ossos. Os seus bosques de neve.

 

Ouvi, então!

Agora mesmo rebentou uma folha da primavera cheia de versos.

 

Só uma criança a viu.

Chama-se Kiev.

 

Porque esperam?

Nada acontece duas vezes do mesmo modo!





POEMA

 

Ser famoso não é o que conta,

Não é o que te levanta.

Não tens necessidade de arquivar

Agitando-te sobre manuscritos.

 

O objetivo da criatividade é a doação,

Não um triunfo, nem um sucesso.

É dispensável, nada significa

Se não for uma parábola na boca de todos.

 

Mas devemos viver sem impostura.

Vive então para que no final

Atraias o amor pelo espaço

Ouvindo o apelo do futuro.

 

E mesmo deixando lacunas

No destino, não entre os teus papéis,

Lugares e capítulos de uma vida inteira

Bem sublinhada nas margens.

 

(Tradução de ns)


quinta-feira, 28 de maio de 2020

Dois poemas de Maria Azenha






Século vinte e um

(Ouvem-se passos de ferro
correndo pela terra inteira.)

Há uma parede branca com um poema esmagado
dentro do peito.
É filho da neve e do Castelo do Medo
– um homem abandonado à sua sede –
cujo cadáver clama por ele.
Vive e chora no Labirinto de Dédalo.
Urina sem piedade
nas mãos de Deus.
*

Três retratos para Fassbinder
I
Nestas cidades desertas há rosas de neve
onde não passa ninguém.
II
A criança está amarrada a uma ave cega
e o seu coração sangra de um espelho
para dentro da luz.
III
O Cavaleiro escarlate
solta a poeira do espelho
num cavalo preso
a duas árvores sempre quietas
Entra pela primeira vez dentro
da morte.

in A casa de ler no escuro , Edit. Urutau, Pontevedra/São Paulo, 2016

Aos confrades, amigos, adeptos e simpatizantes

     Devido a um problema informático de última hora, não nos será possível fazer a postagem desta semana.    Esperando resolvê-lo em breve,...