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terça-feira, 27 de setembro de 2022

Para que a Terra não esqueça

 


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  No Irão, dezenas de pessoas (homens e mulheres), são baleados nas ruas e praças por se manifestarem em prol da Liberdade que desde há mais de quatro décadas lhes é retirada por uma corte de fanáticos barbudos.

  Por seu turno, na Rússia do quadrilheiro imperialista Putin, rodeado de apparatchikis e sicofantas, quem se manifeste contra uma mobilização guerreira abusiva e cínica é detido de imediato e posto sob a ameaça real de 10 anos de prisão.

   Cabe citar aqui a frase final da antiga Declaração dos surrealistas franceses que escreveram: “Em período de insurreição o juízo moral é pragmático: os fascistas são os que reprimem e atiram sobre o Povo”.

    E são aqueles dois blocos criminosos que, entre nós, têm recebido apoio impresso ou expresso de gente que se pretende isenta, muitos deles e delas reclamando-se do nome de poetas e artistas!

    A esses/essas apenas dirigimos o nosso repúdio e o nosso desprezo.


Nicolau Saião, Joaquim Simões, Jorge Gaillard Nogueira, Álvaro de Navarro, Manuel Caldeira, João Garção, António Garção


terça-feira, 19 de julho de 2022

João Garção, Porquê estudar História?

 

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Algumas pessoas consideram que a História (como Ciência, mas também como disciplina escolar) acaba por não ser mais que o amontoar de datas de batalhas, de revoluções e de vidas e feitos de personalidades mais ou menos distintas, mas que o inevitável passar dos séculos há muito consumiu e tende a lançar no esquecimento das novas gerações.

E, por isso, perguntam: “qual é o objetivo de estudar vidas passadas, conflitos há muito enterrados, países e impérios há tanto tempo desaparecidos, crises há tanto ultrapassadas? Qual é a utilidade de analisar tempos e lugares que já não são os nossos e nos quais não voltaremos a viver? Por que razão tem importância saber datas, nomes ou acontecimentos que na nossa vida profissional não terão qualquer aplicação prática?”...

Contudo, a disciplina de História é uma das mais importantes disciplinas curriculares que um aluno pode ter no seu trajeto de vida escolar. Vejamos, de seguida, alguns dos motivos que me levam a efetuar esta afirmação.


1 – A História ajuda-nos a compreendermo-nos.

O desenvolvimento individual, nas suas diversas facetas, está intimamente ligado à progressiva construção, por parte de cada pessoa, de um sentimento de identidade. Ninguém consegue posicionar-se corretamente no mundo (nas suas relações com os outros, na sua pertença a grupos, na exibição das suas preferências, na afirmação das suas rejeições...) sem desenvolver esta perceção de si próprio. “Conhece-te a ti mesmo”, aconselha um antigo ditado grego, reforçando uma máxima semelhante que já no Antigo Egito era difundida e que posteriormente não deixou de ser divulgada. Na verdade, perguntemo-nos: acaso conseguiremos pretender viver à altura das nossas esperanças e dos nossos sonhos se fingirmos que não nos conhecemos, procurando - ingenuamente - enganarmo-nos? Como conseguiremos (como propunha o filósofo norte-americano Ralph Waldo Emerson) ‘prender o nosso destino a uma estrela’ se, querendo olhar o céu, perdermos o solo sob os nossos pés porque não sabemos sequer onde estamos e que terrenos são aqueles que pisamos? Como poderemos, enfim, querermos mostrar-nos ao mundo e nele nos afirmarmos se não soubermos onde e como nos deveremos posicionar, em função daquilo que somos (com as nossas virtudes e com os nossos defeitos, pois somos humanos) e tendo em vista aquilo que queremos ser?...

Ora, uma boa parte de nos conhecermos e de nos compreendermos passa também por conhecermos e compreendermos o espaço onde nos posicionamos, ou seja, conhecermos e compreendermos o que é e o que foi o território onde vivemos – a nossa comunidade, a nossa cidade, a nossa região, o nosso país. O território que os nossos antepassados ajudaram a construir e onde viveram - esse território que já foi deles, que agora é nosso e que um dia será dos nossos filhos e dos nossos netos.


2 – A História ajuda-nos a compreender melhor o mundo.

 Não poderemos efetuar eficazmente o nosso trajeto pelo mundo sem procurarmos compreender como é que este funciona. Enquanto espécie e enquanto indivíduos, não temos outro mundo, apenas este. Impõe-se, assim, que compreendamos o seu funcionamento, para construirmos um enquadramento que nos ajude a viver tão gratamente quanto possível. Tal passa por compreender os avanços tecnológicos, a evolução das formas de governo, as conceções ideológicas, a maneira como se processou a ocupação dos diversos territórios e as relações que o ser humano com eles tem estabelecido, a forma como a sociedade tem encarado os inovadores e os criadores de beleza ... Mas também passa, é claro, por contactar com manifestações de ódio e de violência, de egoísmo e de cobardia, de maldade e de perfídia, já que nem só de virtudes são feitas as sociedades e os seres humanos (pois, como bem indicou o filósofo francês Blaise Pascal, ‘o homem oscila constantemente entre o Anjo e a Besta’). Compreender o mundo como ele é passa, inevitavelmente, por procurar compreender o mundo como ele foi. E, ao aprendermos com os erros passados, poderemos ter uma melhor abordagem em relação à construção do mundo futuro.


3 – A História ajuda-nos a compreender melhor ‘o outro’.

Estudar História também implica, necessariamente, contactar com maneiras de pensar e de agir diferentes das nossas, protagonizadas por pessoas que, mesmo que tenham as mesmas nacionalidades, religião ou inclinações políticas que nós, ainda assim se encontram de nós muito distantes (não apenas distantes no tempo, mas também – e sobretudo – distantes nas suas conceções de vida e práticas quotidianas). Assim, por exemplo, será talvez mais fácil identificarmo-nos e construirmos afinidades com um islandês ou com um búlgaro atuais, que tenham aproximadamente a nossa idade, do que fazê-lo com um português do século XIII, com um africano do século XV ou com um sul-americano do século XVII. No entanto, contactar com a diferença, como sucede quando se estuda História, também nos familiariza com a existência de perspetivas alternativas, tantas vezes bem diferentes das nossas, em diversos domínios da vida dos indivíduos e das sociedades - perspetivas essas que, para esses grupos e para essas pessoas, faziam sentido, tinham razão de ser e moldavam a sua personalidade, condicionando profundamente muitas das suas ações. Este contacto com o diferente, se o fizermos visando a sua compreensão (mais do que fazê-lo para julgarmos criticamente essa diferença à luz dos nossos princípios e das conceções atuais), pode habituar-nos àquilo que não nos é familiar, àquilo que é diferente, àquilo que não integra a nossa maneira de ser. No entanto, o que não nos é familiar não tem necessariamente de ser detestável, só por nos ser desconhecido ou estranho. Ao estudarmos a História, se o fizermos sem uma atitude preconceituosa, mas antes procurando entender os contextos, as culturas e as práticas diferentes e frequentemente distantes no tempo, acabamos por adotar uma atitude que visa a compreensão do ‘outro’ – mas sem que (atenção!) isso tenha de significar a nossa passiva e indulgente aceitação de tudo o que esse ‘outro’ tenha feito.


4 - A História ajuda-nos a podermos ser melhores cidadãos.

Para podermos agir convenientemente na sociedade (numa sociedade democrática, é claro) impõe-se que sejamos cidadãos informados e com espírito crítico. Não é por acaso que as ditaduras sempre têm procurado esconder informação aos cidadãos sobre os quais lançaram as suas garras, impondo formas de censura (e de autocensura), a par da repressão daqueles que se atrevem a defender perspetivas diferentes das propagandeadas ‘verdades’ oficiais, da dura punição dos que não se conformam com o quotidiano que os rodeia, enfim, daqueles que, criativos e corajosos, ousam sonhar com outras realidades mais estimulantes e mais ricas de possibilidades - não é por acaso que, quando uma ditadura se procura instalar, os indivíduos mais esclarecidos são sempre os primeiros a ser presos, desterrados ou mortos (sejam eles poetas ou escritores, pintores ou músicos, professores ou líderes cívicos, jornalistas ou médicos, por exemplo), caso não se verguem aos ditames ditatoriais.

Ora, dificilmente pode alguém considerar-se um cidadão informado se não tiver efetivamente algum interesse em relação aos enquadramentos históricos da sua comunidade. E um cidadão informado, se é sempre um ‘perigo’ para as ditaduras, também é sempre uma ‘bênção’ para as democracias.


5 – A História ajuda-nos a tomar melhores decisões.

O desconhecimento da História impede-nos de aprender com os erros do passado, pelo que, como bem afirmou um dia o filósofo norte-americano George Santayana, ‘aqueles que não aprendem História estão condenados a repeti-la’. Através do estudo da História, aprendemos os contextos e as motivações, as razões pelas quais os nossos antepassados fizeram o que fizeram, os motivos que os impulsionaram a agir de uma determinada forma, as situações que suscitaram as suas reflexões, os seus comportamentos e as suas decisões. Essa aprendizagem – assim o esperamos – pode ajudar-nos a tomar melhores decisões e a evitar voltar a cair, na atualidade, em erros já cometidos noutros tempos.

A História, pois, é muito mais do que apenas memorizar datas, batalhas ou nomes e tem uma importância muito maior do que aquela que, por vezes, se lhe procura atribuir. Como todo o conhecimento humano estruturado, a sua plena apreciação e utilização também apela à memória em relação às realidades que se constituem como seu objeto de estudo. Da mesma forma que se espera de quem estuda Medicina que não confunda os órgãos do corpo humano ou de quem estuda Engenharia Civil que não se baralhe com as caraterísticas estruturais dos diversos materiais utilizados em construção, também se espera de quem estuda História que conheça (e, para tal, memorize) certos contextos relevantes, determinadas circunstâncias importantes e diversos eventos significativos. E isto não tem necessariamente de ser mau, pois, na verdade, uma das caraterísticas do ser humano é precisamente ser um ‘animal que recorda’ (não é por acaso que a perda de memória que surge na sequência de certos traumas ou acidentes é uma das maiores angústias que uma pessoa pode enfrentar, pela perda de referências essenciais que daí advém).

O estudo da História é, em suma e para concluir, um nosso privilegiado meio de acesso à rica, multifacetada e extraordinária experiência humana.


(Texto para os alunos do terceiro ciclo da Escola Portuguesa de Luanda)

terça-feira, 31 de maio de 2022

Nicolau Saião, Lyle Carbajal ou O passeio real pelo país da infância

 


João Garção


   Um mundo de animais fabulosos que são quotidianos e domésticos e familiares quanto baste, um universo de anjos que são pessoas vulgares, um continente de gente diversa e de situações encenadas que de repente cobram razões e têm a sua razão muito própria, a naturalidade do tempo e o inaudito que a cada momento se encontram e se completam. É possível ser livre, serve dizer: transportar a liberdade – seja de existir seja de conceber a existência desta ou daquela maneira intensa e peculiar?

   O pintor diz-nos que sim. E atesta-o com os seus quadros, onde cobra realidade uma vida tumultuosa, encantada e quase miraculosa: a do seu pensamento.

   O seu pensamento, sublinho.

   Pois Carbajal, tendo nele toda a singularidade dos ritmos que às crianças em geral se atribuem, está longe de ser um pintor naif. Com efeito, detectam-se facilmente na sua pintura os vestígios dum conhecimento profundo tanto dos autores do Renascimento como dos modernos que o antecederam, de Cézanne a Matisse, de Beckman a Picasso, de todos os pintores que souberam excursionar tanto pela realidade como pela imaginação que cria os mundos alternativos e reconvertidos que a arte permite e proporciona. Ele é mais um pintor do fantástico, daquele surrealismo onde a poesia busca um sentido de memória que lhe permita dar o retrato transfigurado – e por isso mais real – do passado que se teve e que se lembra com emoção, esse passado onde era possível encenar um futuro provável – ou antes: desejado.

   Numa entrevista dada a um órgão de comunicação onde sagazmente é chamada a nossa atenção para as suas raízes hispânicas, Carbajal refere o que sempre o motivou e orienta a sua pintura: as estórias com que as crianças pontilham o dia a dia, esse dia a dia feito de coisas habituais – de idas e vindas da escola pelo “chemin des écoliers”, de objectos e móveis de uso quotidiano, de frutos e de animais, de pessoas que se vêem ao deambular pelas horas correntes; mas também os grandes medos, os grandes espantos e as grandes alegrias das descobertas de um lugar, daquilo que se aprende seja com os parentes seja com os mestres, seja mediante o nosso próprio silêncio e a nossa meditação. E a maravilha dum livro, dum filme, dum passeio, duma ida a um circo… Para além do específico bem material dum trabalho aturado.

   Sendo um grande colorista, ou seja, um conhecedor profundo de como um rosa se liga a um cinzento, de como um verde azeitona pode fazer sentido junto a um amarelo escuro ou um anil, Carbajal tem também um domínio exemplar do inacabado, do imperfeito e do obscuro – esses que mudam de plano no interior e no exterior do suporte e que de repente criam uma nova realidade, tão multifacetada como oportuna.

    «Un soldat marche, seul, a travers la forêt. Il est minuscule, parmi les troncs des sapins immenses, serrés et compacts comme un mur. On distingue à peine un sentier étroit dans la neige». O pintor, tal como o soldado na floresta assombrada da Sabedoria Tradicional, só tem para se orientar a sua capacidade de entrega aos mundos que ele cria e que lhe permitem não desistir, rodeado que está (como todos afinal) dos perigos que a cada momento o tentam destroçar. Ou pelo menos impedir que se veja livre dos liames do hábito, do preconceito e da mesquinhez um pouco sórdida dos infernos sociais.

   Com a naturalidade dos que sabem purificar o seu modus operandi, sem os dramatismos que os zoilos tentam colar-lhe na face (a arte como objecto de turismo mental…), o pintor faz com enlevo nascer o quadro, razão de quem sabe que a arte é ou deve ser um elemento próximo e ao alcance de todos os olhos que querem de facto ver.

   Leia-se: que sabem maravilhar-se, isto é - entender a existência como inteira evidencia e doação dos adultos que souberam conservar o seu coração de criança.


terça-feira, 26 de abril de 2022

Um prefácio de João Garção...

 




... ao livro A CUMPLICIDADE DOS SENTIDOSde Ana Maria Amorim  

  

Conta-se que o editor Marc Humblot, ao rejeitar a obra À Procura do Tempo Perdido, de Marcel Proust, argumentou que não compreendia por que razões eram precisas trinta páginas para descrever as voltas que alguém dá na cama antes de dormir… E, no entanto, nesta magistral obra, Proust fez a realidade ganhar sentido precisamente através das suas mais peculiares impressões. Mas não nos enganemos, pois essa obra não se resume a uma simples análise introspectiva, revelando também – revelando sobretudo – uma dimensão de mordaz e justa crítica social em relação à sociedade do seu tempo.

Não pude deixar de me recordar desse episódio ao ler este trabalho de Ana Maria Amorim, autora que evidencia (com as devidas diferenças em relação ao grande escritor francês) uma predisposição de teor semelhante. As dezenas de páginas por si escritas ‘de rajada’ (entre 25 e 26 de Setembro de 2010, como indica), não são apenas ‘reflexões ao correr da pena’, impressões subjectivas sobre o mundo que a rodeia e onde lhe foi dado viver, mas, ao introduzirem-nos no seu mundo pessoal (com os seus fantasmas, os seus lamentos, as suas esperanças, as suas angústias e as suas alegrias), levam-nos igualmente a reflectir sobre o estado desse mesmo mundo, que também é o nosso. A própria autora, aliás, afirma imaginar-se ‘muitas vezes outra pessoa’, afirmação de alteridade indispensável para qualquer indivíduo poder ter veleidades de carácter ético e moral, já que a incapacidade de nos colocarmos no lugar do outro impossibilita sabermos conferir-lhe a indispensável dignidade de que é merecedor, decorrente da sua condição de ser humano.

Este é um trabalho que funciona como balanço de vida da autora até ao presente momento. É, nesse sentido, uma obra de amadurecimento pessoal. Mas é também uma obra de descoberta – de descoberta de si mesma e de descoberta da forma como encara a maravilhosa aventura que é a vida (garantia de quotidiano renascimento, mesmo que esteja, aqui e ali, salpicada de desilusões, de angústias e de receios).

Ao efectuar esta análise à sua existência e ao mundo que tem habitado, Ana Maria Amorim coloca-se claramente como tributária das doutrinas católicas que enquadram o seu viver e norteadoras das suas acções. Em várias passagens da obra, a autora mostra aceitar os ensinamentos de Cristo e da Igreja e colocar-se nesse patamar de aceitação. A adesão a esses princípios leva-a a construir determinadas mundividências e a manifestá-las de forma sincera, algumas das quais, pelo menos para quem se situar fora desses princípios, podem considerar-se polémicas e merecer uma rápida rejeição. Mas essa adesão de Ana Maria Amorim não é absolutamente linear e acrítica, a meu ver. É o que sucede, por exemplo, com a sua apreciação sobre a Morte. Como católica, a autora aceita que ‘a vida não é aqui’ (pelo menos, a ‘vida’ mais importante). Com efeito, os ensinamentos de S. Paulo salientam que o corpo pode estar morto, mas que o Espírito é vida - “E se o Espírito daquele que ressuscitou Jesus de entre os mortos habita em vós, Ele, que ressuscitou Cristo de entre os mortos, também dará vida aos vossos corpos mortais, por meio do seu Espírito que habita em vós.” (Romanos, 8. 11). Idêntico posicionamento se pode encontrar em S. João: “Em verdade, em verdade vos digo: quem ouve a minha palavra e crê naquele que me enviou tem a vida eterna e não é sujeito a julgamento, mas passou da morte para a vida.” (João, 5.24). Mas, mesmo assim, Ana Maria Amorim não deixa de se questionar acerca do que existirá numa outra vida para além desta (“quer ela exista ou não”, como refere), desejando rejeitar a morte, a doença e o sofrimento terrenos. Embora a dogmática cristã lhe dê alento, não lhe proporciona completa tranquilidade: “Viver, é o que mais importa nesta passagem. Viver intensamente, desfrutando todos os prazeres que a vida nos proporciona, como se cada dia fosse o último. A morte é o que mais me assusta e atormenta. A dúvida e a incerteza, que enigma delirante e ao mesmo tempo detestável!”.

Menos cristã, por isto? Creio que não. Aliás, a rejeição da Morte e a exaltação da Vida são princípios divulgados pelo Cristianismo (e, como tal, por todos os cristãos deveriam ser sempre enfatizados, em qualquer tempo e em todas as circunstâncias). Foi aliás o Nazareno que disse: “Eu sou a Verdade e a Vida”. A Morte, que, no dizer de Cristovam Pavia (um poeta português, límpido como poucos e frequentemente – e injustamente – esquecido e em cujos poemas é bem visível a mensagem de Jesus), é velha, gorda e feia, merece da autora, muito salutarmente, a maior rejeição. Como Cristovam Pavia, Ana Maria Amorim, corajosamente, não foge e sustem ‘o peso da hora’ para homenagear familiares já falecidos e, ainda como o escritor alentejano, desejaria poder regressar à ternura de menina, a um tempo de felicidade onde todos os seus irmãos ainda viviam e onde as vivências quotidianas tinham o doce sabor da alegre inocência, mesmo que experimentadas sob o amargor de algumas difíceis condições materiais (a que muitos portugueses não podiam furtar-se, em tempos idos – como ainda o não podem fazer, infelizmente, em tempos actuais).

A recordação desses queridos familiares, entretanto falecidos, leva Ana Maria Amorim a construir-lhes uma elegia ao longo de algumas páginas desta obra. ‘Y aunque la vida murió, nos dexó harto consuelo su memoria”, escreveu no século XV Jorge Manrique, cavaleiro de Santiago, nas suas magníficas Coplas a la Muerte de Su Padre. “Tudo está escrito em mim”, afirma Ana Maria Amorim, que também deseja compartilhar connosco essas gratas (mas simultaneamente dolorosas) recordações, pelo que a escrita – e a autora o deixa entrever – constitui também para si uma actividade catártica, através da qual vai desabafando e, por essa via, procurando amortecer o peso da dor que essas pungentes memórias, nunca apaziguadas, ciclicamente lhe vão trazendo (“o mal é inesquecível” e “o passado é uma sombra”, como afirma).

As gratas vivências quotidianas, em anos felizes, servem de ponto de comparação em relação ao quotidiano actual e, em consequência, de claro contraponto. Os tempos actuais são, para a autora, uma “floresta habitada, mas cada vez mais deserta em valores éticos e morais.”. Ana Maria Amorim contesta a violação dos direitos humanos, enfatizando as situações que têm as crianças como vítimas, manifestando grande inquietação pelas apetências pesadamente materialistas contemporâneas e pelas correlativas inconsistências e traições que considera grassarem com despudor na actual sociedade. O comodismo egoísta do homem contemporâneo reflectir-se-á na sua paralela solidão (solidão espiritual, já que fisicamente, pelo contrário, está muito próximo dos seus semelhantes). Esta avaliação, refira-se, tem sido uma constante ao longo da história humana, evidenciando-se com particular acuidade em certas épocas. Jorge Manrique, por exemplo, na obra atrás referida, não deixou de salientar ‘cómo, a nuestro parescer, cualquiera tiempo passado fue mejor.”. Este desconforto com as características do tempo presente levou alguns autores a elogiar uma vida retirada (Frei Luís de León, por exemplo, na senda deste tema ‘Beatus Illie” popularizado pelo poeta latino Horácio, escreveu no século XVI: “Qué descansada vida/ la del que huye del mundanal ruido,/ y sigue la escondida/ senda por donde han ido/ los pocos sabios que en el mundo han sido.”.

A autora, no entanto, não cede a esta possibilidade. É no aqui e no agora imperfeitos, a seus olhos, que decide travar o seu combate, enfrentando, do passado, as memórias que ferem; do presente, as insuficiências individuais e colectivas, e, do futuro, as perturbantes incógnitas.

Deseja fazê-lo, porque conseguir enfrentar as experiências dolorosas faz parte do seu sonho enquanto mulher (“quando nasce uma mulher, nasce um sonho com ela”, escreveu).

E deseja fazê-lo de forma corajosa, mas sem perder a humildade em prol do orgulho que o excesso de veemência pode acarretar aos menos avisados – humildade de que o já citado Frei Luís de León exemplarmente deu mostra, quando, libertado dos cárceres da Inquisição para retomar a sua cátedra na Universidade de Salamanca, após anos de prisão, mostrou desejar viver a sua vida “ni envidiado, ni envidioso.”.

A autora fá-lo-á com dúvidas, com angústias e com temores?

Sim, mas também com alegrias, pois o riso existe porque o choro também existe (digo agora eu, tomando a liberdade de inverter os termos de uma passagem desta obra). E Ana Maria Amorim deixa bem evidente a sua mensagem de esperança sobre a Vida, apesar de tudo: “Ontem talvez fosse assustador, mas já passou, foi apenas uma chama que quase se apagou. Voltou a acender-se. Hoje é uma fogueira que se sustenta e se consome. Arde e continua a arder em labaredas incandescentes.”.

É que, afinal, como disse Swan (personagem de Proust de À Procura do Tempo Perdido), “a que mais se deve ligar senão à Vida, o único presente que o bom Deus nunca faz duas vezes?...


segunda-feira, 18 de outubro de 2021

Nicolau Saião – Entrevista dada à revista mexicana BLANCO MOVIL



João Garção



 01 | ¿Ante de las noticias de prensa te sientes más cerca o lejos del mundo que allí te informan?

 

Resposta NS – Depende do jornal…e do jornalista. Umas deixam-me mais próximo, outras afastam-me, porque infiro que me estão a mostrar um mundo apenas virtual e enganoso, por razões que tenho por falaciosas ou mesmo retintamente falsas.

 

02 | ¿Alguna vez llegaste a una conclusión satisfactoria sobre el motivo que te lleva a escribir o este acaso es un tema que jamás te preocupó?

 

R – Claro que me preocupou, digamos, ou melhor: me intrigou. No meu caso pessoal concluí que escrevo para não morrer, como afirmei recentemente numa entrevista dada a um poeta brasileiro. Neste não morrer fica tudo incluído: a solidariedade com os seres e as coisas, o trabalho específico da demanda na escrita, o perfume de viver (título dum trabalho meu), a amargura de ter que deixar o mundo, tudo o que nos faz ser homens no universo.

 

03 | Reflexionando sobre la tradición literaria de tu país, ¿Cuáles libros crees que nunca deberían haber sido escritos y por qué motivo?

 

R – Sem personalizar - também porque um rol cabal seria extenso e atravancaria uma resposta salubre e sucinta: aqueles livros que alguns escrevem para estabelecer o domínio de opressões sociais, religiosas ou políticas. Ou seja, todos os livros desses “escritores” que fazem das suas obras nefandas armas de extermínio moral, que geralmente tenta preceder outros extermínios.

   E, também, aqueles livros medíocres que as capelinhas infames dum meio societário infame tentam epigrafar como valorosos, criando o ambiente lamentável da mentira e da burla intelectual.

 

04 | ¿El método de trabajo es fundamental y indispensable a la creación artística?

 

R – É, pelo menos, muito útil para que a criação artística chegue a bom porto. Picasso referia que uma obra de arte é um terço de inspiração e dois terços de transpiração e eu estou em crer que assistia muita razão a esta aparente “boutade” do grande pintor malaguenho.

 

05 | Cuando estás en algún lugar público en que tocan el himno de tu país, ¿cómo reaccionas y por cuál razón?

 

R – Sinto simultaneamente gosto e vergonha: gosto porque esse hino existe na sequência da instauração de uma sociedade que se buscou mais justa (republicana) e porque sintetiza ideais de liberdade e democracia. Vergonha porque esse hino é também usado por gente desacreditada, mesmo nefasta, que se serve dele para lançar poeira nos olhos dos cidadãos sobre os quais tripudia cinicamente.

 

06 | ¿Cuál acontecimiento en tu país, en los últimos 25 años, te provocó indignación?

 

R – Vou generalizar: a contínua e perversa mancebia, o repugnante conúbio, em que têm vivido certos sectores políticos arrivistas e o totalmente desacreditado, dum ponto de vista ético, sistema judicial em que se espojam governantes, causídicos, magistrados e forças obscuras de irmandades. É isso que constitui o cancro que está a destroçar o meu país.

  Sem generalização: as tentativas imperiosas surgidas ultimamente de instaurar de novo a censura e o controle do pensamento, por parte de magistrados altamente colocados e de áulicos políticos sempre dispostos a tudo e prontos para tudo.

 

07 | Arte, ciencia, religión – ¿Cuáles de esas tres corrientes, a lo largo de la historia de la humanidad, causó más daño al hombre?

 

R – A religião, sem qualquer dúvida. E que continua a causar. Pese às declarações piedosas dos chefes de todas as religiões, estas não são mais que instrumentos de domínio mental, espiritual, físico e social. O que individualmente ou sectorialmente possam ter feito de positivo certos indivíduos ou instituições não oblitera ou apaga os crimes e sufocações que fizeram e continuam a fazer as chamadas “religiões reveladas”. Elas partiram, na verdade e continuam a apoiar-se, na simulação e na impostura. Nos casos mais marcados, na violência nua e crua e no crime, conceptual ou expresso pela repressão.

 

08 | ¿Crees que la vida de una persona puede ser regida, de manera separada, por la lógica o por la suerte?

 

R – Creio que por ambas. Tem alguma lógica, por exemplo, que Evariste Galois, um dos maiores matemáticos de todos os tempos (o criador do “grupo de operações”), tenha morrido aos 22 anos na sequência de um duelo para defender a honra duma senhora que mal conhecia e tenha levado a noite que o precedeu a escrever as trinta e tal páginas que imortalizariam o seu nome?

   Talvez tenha, mas é uma lógica que me escapa…

 

09 | ¿El mito aun existe o no pasa de un efecto publicitario aplicado a la industria, a la moda, al consumo?

 

R – Acho que existe ainda. Mais: que certos artistas o têm purificado e até incrementado. No entanto, sem dúvida que os donos dessas áreas que referes, sempre ávidos e frequentemente oportunistas, o tentam poluir, deformar, capturar para servir os seus duvidosos interesses. Compete-nos a nós, criadores e homens de bem, à guisa de bravos guardiões da Távola ou do Segredo, preservá-lo e mesmo vivificá-lo.

 

10 | ¿Cuáles son los actos más importantes sucedidos en la cultura en general, y en la literatura en particular, en los últimos 25 años en tu país?

 

R – O aprofundamento da liberdade de expressão, por um lado. A possibilitação, nomeadamente mediante os meios interactivos, da difusão de obras de qualidade que os sectores egoístas ou cínicos, que dominam certos meios editoriais, doutra forma teriam impedido ainda mais fortemente de aparecerem à luz dos dias…e das montras.

 

CODA | ¿Cómo convives con los seres que están en tu vida?

 

R – Há, feliz e infelizmente, vários tipos de seres que quer queiramos quer não estão na nossa vida: os que amamos/estimamos e nos amam/estimam; os que detestamos ou nos detestam; os que vivem noutro plano (animais e vegetais) e, finalmente, os que sem estarem já connosco no entanto vivem na nossa memória. Com os primeiros convivo bem, sulcados ambos pelos ritmos do tempo. Com os segundos não convivo, ou convivo sob a égide do desprezo salutar que lhes voto. Com os terceiros relaciono-me através do apreço e do carinho de ser vivente. E com os quartos mediante a saudade e a nostalgia mais pura.

quinta-feira, 23 de setembro de 2021

Quatro poemas de João Garção

 




SENTIMENTO

 

A água está parada, muito quieta no meio da noite.

E é preciso perguntar-lhe: és água de um rio?

És água dum mar? És água dentro dum copo

sobre uma mesa muito antiga e sonhada?

És água para um cavalo beber? Para um cão se banhar?

Para um homem e uma criança se lavarem ao relento?

Para uma mulher, para um gato, para um lobo?

 

E a água talvez não te responda. Nunca te responda.

Ou te responda tarde de mais. Ou nem sequer te ouça.

 

Mas tu pergunta. Pergunta e espera pela resposta.

Mesmo que os minutos passem entre ti e a água.

E devagar uma silhueta se desloque

e depois se detenha no meio das árvores imóveis.


 

AGUARELA

 

Na minha terra, quando eu era pequeno

havia montanhas altas com bosques e recantos

pelo menos um Oceano com piratas e segredos

e muitas outras coisas que se transfiguravam

 

Os heróis eram altos, atléticos, usavam duas cores

e parece que havia uns outros sobrados da Grande Guerra

 

A velhota gorda que vendia castanhas no largo do Rossio

pertencia a uma misteriosa quadrilha francesa

falava alto, tratava os fregueses pelo nome

aparecia e desaparecia consoante era Inverno ou Verão

 

No dia de Santos o gajo das barbas (que tinha um tesouro escondido)

dava-nos nozes, se lhe batíamos à porta

e havia alguns, corajosos, que batiam

 

Havia um espanhol que era barbeiro

mas as tesouras cantavam em português

 

Os polícias passavam, nas tardes de Primavera

muito suaves, devagarinho, rua do Comércio abaixo

quando não era pela Corredoura acima

 

Pareciam anjos vestidos de azul claro

 

Só muito mais tarde notei que usavam cassetete

 

Como eu gostava da Escola! E ainda por cima

os professores era tudo gente esperta

 

Não havia, que eu soubesse, pessoas infelizes

e os bandidos só faziam serviço no “Tintin”

ou nos filmes (poucos) da televisão

 

Mas as coisas, como nas fitas, parece que às vezes

andam demasiado depressa.

 

Os heróis – os mais velhos morreram –

tinham estado, coitados, com o Milhões na França

e os que eram às cores transformaram-se em futebolistas

com o remate trocado

 

A mulher das castanhas foi um ar que lhe deu:

finou-se com um colapso e era avó de três netos

como ela trabalhadores da fábrica da rolha

 

Os anjos que eram polícias já só andam de carro

e um deles até me ofendeu, um dia, junto a um Bar

 

Alguns dos professores ficaram com orelhas de burro

 

E nesta coisa de crescer, o que mais (juro-vos) me dana

é que agora corto o cabelo num cabeleireiro de homens

que competentemente me afeita (enquanto leio o jornal)

 

com um aparelho que rosna como um rafeiro sem classe.


 

ABECEDÁRIO

 

Vá, não entres aí

Isso é um advérbio de modo

E embora te pareça um particípio passado

é um adjectivo e às vezes um presente.

 

Fica parado à saída: está a chover

Dentro dessa frase quem anda ao sol molha-se muito

É um discurso idiomático e por isso

onde está o prenome é o substantivo.

 

Junta-te ao ponto e vírgula: custa menos

do que escrever com pontinhos nos is

quando as reticencias nos confundem

com exclamações ou verbos no futuro.

 

Os conjuntivos na oração nunca se entendem:

e por isso, dizem, é que os agás são mudos.

 

 

FOTO DE ABRIL

 

O pai chegava tarde…A mãe e os avós

(que o mano era pequeno) estavam sempre comigo.

Então o pai chegava, perguntava da escola

perguntava das coisas que a mãe lhe sussurrava.

 

A escola era a Escola onde eu agora andava.

E a mãe pela manhã falava devagar

arranjava-me o lanche, chamava-lhe merenda

e eu ia no autocarro (sem o mano que tinha)

 

Eu não sabia de anos    só sabia de meses

- o que a mãe me ensinara e que na escola aprendia –

(o mano era pequeno!) eu jogava sozinho.

O pai que vinha tarde não jogava comigo.

 

E o pai que vinha tarde    mesmo se era Domingo

chegou perto da porta na manhã daquele dia.

Havia gente na rua    e gente que gritava

E na televisão     muitos desconhecidos.

 

E o pai depois daquilo     disse-me: anda jogar

Anda jogar meu filho    pois já não há fascismo.

E o pai que vinha tarde jogou comigo à bola

na rua da Amoreira    a rua pequenina

 

E a mãe chorou ao ver-nos    e eu não a entendia

a mãe que era só minha (e do mano que havia)

Eu sabia de meses    mas não sabia de anos

E jogava com o pai    pois já não há fascismo

 

A avó não gritava    Levava-me p’la mão

até ao autocarro    E para a Escolas eu ia

Sozinho ia p’rá Escola (o mano era pequeno…)

- E eu e o pai jogávamos quando eu de lá vinha

 

Jogávamos jogávamos – eu e o pai jogávamos

E o mano (era pequeno!) olhava sentadinho

E a mãe também por vezes nos olhava a jogar

Pois já não há fascismo    Pois já não há fascismo!

 

JG

in “Os versos do Zé Povão”

 

    Portalegre (1968). Poeta, pintor, ensaísta, desportista e professor. Foi guarda-redes profissional na Académica de Coimbra. Licenciado em História da Arte e Mestre em História Contemporânea de Portugal pela Universidade de Coimbra.

   Representado em diversas antologias poéticas/plásticas, proferiu palestras e publicou artigos sobre Educação, Arte, Ética e Política em jornais e revistas da especialidade no país e no estrangeiro. Está traduzido em inglês e espanhol.

   Especialista em teoria artística e arte aplicada, a sua postura poética surrealista vivencia-se mediante um lirismo tracejado pelo humor negro e a visitação da memória dum quotidiano repleto de ironia e liberdade formal. Vive em Luanda, onde é professor na Escola Portuguesa.


quinta-feira, 15 de julho de 2021

João Garção, Raúl&Florbela

 


João Garção



1.RAUL PROENÇA, LEITOR E CRÍTICO DE FLORBELA ESPANCA

“ [...] Só há dois dias soube do horrível desgosto por que está passando. Não calcula como o lamento e como compreendo o seu tremendo sofrimento conhecendo, como conheço, a arreigada afeição que tem pelos seus, e tendo eu própria sofrido com a morte repentina do meu querido irmão o que nunca pensei que pudesse sofrer.

Todos os desgostos por que tem passado, as cobardias e injustiças que o têm tentado esmagar, o seu exílio nada disso conta hoje ao lado desse profundo golpe ao seu coração de pai tão amigo.

Nada lhe digo nem lhe falo de resignação e paciência sabendo quanto tudo isso é inútil quando a gente se sente esmagado por um fado mais pesado do que poderia merecer. Que os seus outros filhinhos o possam ver desaparecer a si, é tudo quanto de consolador lhe posso desejar para o futuro.

Para a pobre mãe, tão cheia de desgostos, vai um grande quinhão da minha simpatia e da minha profunda piedade. [...] ”.

   Raul Proença recebeu esta carta, datada de 2 de Dezembro de 1927 e assinada “Florbela Espanca Lage”, já em França, país onde se encontrava homiziado na sequência do fracasso da revolta democrática de Fevereiro de 1927 na qual tomara parte como elemento da área de interligação e informações. Florbela Espanca solidarizou-se assim com esse republicano, dirigindo-lhe estas palavras de conforto na sequência do falecimento da filha Berta, mas também não se esquecendo de apontar como “ crimes e cobardias” as atitudes protagonizadas pela Ditadura Militar e seus apaniguados na tentativa de prejudicar e desacreditar Raul Proença.

   Quem era este homem por quem Florbela nutria elevada consideração? E como entrou ele no circulo de relacionamentos da poetisa calipolense?

   Raul Sangreman Proença nasceu nas Caldas da Rainha em 10 de Maio de 1884, tendo passado a sua infância também em Leiria e em Alcobaça em consequência das deslocações profissionais de seu pai, funcionário público. Após uma breve estadia liceal em Coimbra, transferiu-se para o Liceu do Carmo, em Lisboa, tendo neste estabelecimento iniciado a sua formação ideológica republicana. Esta foi decisivamente consolidada durante a sua frequência do Instituto Industrial e Comercial de Lisboa, a partir de 1902. Aqui, participou na constituição do “Grupo Teófilo Braga”, o qual atesta a sua admiração pelo pensador açoriano e pela sua obra. Neste Instituto amadureceu também o seu primeiro sistema filosófico-político, interpenetração de aspirações políticas republicanas com preceitos filosóficos hauridos no Positivismo ( sobretudo tal como este foi divulgado por Teófilo Braga, após a filtragem por si realizada), no Monismo haeckeliano e numa particular concepção de Evolucionismo (decorrente da sua admiração não apenas por Darwin mas também por Lamarck). Este sistema era cimentado pela defesa intransigente de uma ética de vida que valorizasse o ser humano como sujeito criador de uma sociabilidade qualitativamente superior, tanto na esfera privada como na actividade pública.

   Terminado o curso, rumou a Alcobaça para aí exercer o cargo de professor do ensino particular primário e secundário. Nesta vila integrou os corpos gerentes do Centro Republicano, colaborou no semanário Semana Alcobacense e fundou e dirigiu, na prática, o efémero jornal O Republicano (7 números). Publicou igualmente um livro de poesia intitulado Os Sinos. Colaborou ainda noutros jornais da província, sobretudo em O Heraldo (Tavira) e Democracia do Sul (Montemor-o Novo). Em 1908 e 1909 colaborou também nos diários republicanos lisboetas República (dirigido por Artur Leitão) e Vanguarda (dirigido por Magalhães Lima, grão-mestre da Maçonaria portuguesa), tendo feito parte da redacção deste último. Mas foi a sua participação na célebre revista republicana Alma Nacional, de António José de Almeida, que lhe trouxe alguma notoriedade. Raul Proença, que aí começou a escrever sob o pseudónimo de Varius, foi o segundo colaborador do periódico, em número de artigos publicados, logo a seguir ao seu director.

   Após a revolução republicana de 5 de Outubro de 1910, recusou um convite para conservador do Museu das Janelas Verdes por julgar insuficientes os seus conhecimentos de arte mas aceitou integrar os quadros da Biblioteca Nacional, tendo então sido nomeado 2º bibliotecário em Janeiro de 1911 - com um ordenado muito inferior ao que teria na categoria profissional que recusara. Foi um dos fundadores do Comité de Lisboa da Renascença Portuguesa, sendo um dos poucos activos membros do núcleo lisboeta do movimento. As suas criticas à administração republicana do país e aos seus políticos e partidos foram subindo gradualmente de tom mas, paralelamente, não deixou de defender de forma abnegada o ideal republicano contra os seus detractores, estabelecendo assim uma distinção clara entre o que considerava serem as virtudes de um modelo de organização social tendencialmente progressivo e democratizante e a praxis protagonizada por muitos seus concidadãos que se afirmavam republicanos. A ditadura do general Pimenta de Castro, militarista, anti-liberal e germanófila, mereceu a sua mais viva oposição e a participação portuguesa na I Guerra Mundial a sua mais ardente defesa. Quando em Março de 1916 Portugal se envolveu oficialmente no conflito, Proença integrou voluntariamente as fileiras do Exército português, tendo frequentado o Curso de Administração Militar na Escola Prática de Oficiais Milicianos. Ao contrário do seu amigo Jaime Cortesão, contudo, não chegou a ser enviado para o estrangeiro.

   Nesse ano de 1916 recebeu da filha dum amigo do seu irmão Luís, à altura residente em Évora, um caderno com onze poesias, para que acerca delas emitisse uma opinião. A jovem chamava-se então Florbela Moutinho. A própria Florbela o conta em carta a Júlia Alves, localizada em Pavia e datada de 12 de Agosto de 1916: “ Olha, sabes, mandei alguns dos meus versos a um dos nossos mais distintos poetas, que é irmão dum amigo intimo de meu pai. Provavelmente, é ele que faz o prefácio do meu livro, apresentando-me ao ‘respeitável público’, como se diz nos teatros.”. O caderno incluiu os seguintes títulos: “Escreve-me!”, “O Meu Alentejo”, “Quadro Rústico”, “Dôce Certesa”, “Ás Mães de Portugal”, “Quem Sabe?!”, “Humildade”, “Rustica”, “De Joelhos”, “P’rá Frente!” e “O Teu Olhar”.

   Raul Proença sempre dedicou grande atenção à poesia e sempre teve pelos verdadeiros poetas uma grande consideração. Se anos mais tarde João Chagas elogiou o seu combativo trabalho demopédico em favor da vivência democrática chamando-lhe “a primeira pena da República”, durante a sua juventude foram poemas os primeiros textos que Proença publicou, muitos deles, é certo, eivados dum profundo cunho político-social (de que são exemplos os títulos “A Lei 13 de Fevereiro”[dedicado ‘aos anarchistas’] , “A Epopeia do Trabalho”, “A Marselhêsa”[ datado de 27 de Outubro de 1905, ‘depois de ouvir cantar o Orpheon das creanças, na Rocha, no dia da chegada de Mr. Loubet’] ou “Comte” ). A poesia era, para si, uma área de expressão privilegiada. Em 1905 escreveu o seguinte: “Eu entendo que o verso é um campo expositor de ideias, como a prosa: a única diferença é que ele as expõe duma maneira sintética, e portanto mais luminosa.”. E num texto ainda inédito dedicado a António José de Almeida, intitulado O Poeta e depositado no seu espólio, afirmou: “ Porque é ele [o poeta] quem encontra as relações imprevistas e acaba sempre por achar a palavra ainda não proferida - a única palavra que abrange todos os aspectos do Facto e o pinta e descreve com todas as subtilezas. Bendito seja, porque é o ‘homem completo’, trazendo em si mesmo mais condições para uma vida melhor, mais garantias de êxito feliz! Bendito seja! ”. Um dos aspectos em que a sua ética privada sempre se manifestou foi na rejeição da mentira e do carácter quase sacrossanto das chamadas autoridades intelectuais. Em 1909, escrevendo n’ A República, declarou a este propósito: “ Todos nós (duma maneira geral) apreciamos as ‘opiniões’ pelas ‘pessoas’ que as ditam. Devia ser o contrário: deviamos apreciar as ‘pessoas’ pelas ‘opiniões’ que emitem.”. A forma como a critica literária era praticada em Portugal merecia-lhe os maiores lamentos e recriminações. “Quem quiser ser um critico sincero a valer, tem de seguir esta regra inflexível: fugir do contacto dos homens e procurar o contacto dos livros. É por isso, apesar de não ter pretensões a critico, que eu lhes leio os seus livros, mas não os procuro nas suas casas.”, aconselhou. A imparcialidade com que procurou tratar os textos analisados, independentemente de quem fossem os seus autores, pode ser bem exemplificada pelas referências expendidas a propósito da obra de Carrasco Guerra O Triunfo e pela polémica que em 1912 travou com Júlio de Matos, onde a dado passo afirmou: “ De homens como Teixeira de Pascoais, Correia de Oliveira, Jaime Cortesão, Leonardo Coimbra, Mário Beirão, Augusto Casimiro, Lopes Vieira, não se diz: ‘Tudo isso é muito ordinário’. O que é muito ordinário é não saber distinguir entre as discordâncias doutrinárias e as apreciações a fazer dos escritores.”.

   Particularizando, aqueles poemas de Florbela mereceram de Raul Proença as considerações que se seguem:

- “Escreve-me!” - Considerou-o “Bom”, anotando “quadra perfeita esta” à margem da seguinte quadra: “Escreve-me! Ha tanto, ha tanto tempo/ Que não te vejo, amor! Meu coração/ Morreu já e no mundo aos pobres mortos/ Ninguem nega uma frase d’oração! ”.

- “O Meu Alentejo” - Quando Florbela escreve “Tudo é tranquilo e casto e sonhador...”, Proença questiona: “Ao meio dia, no Alentejo?” e aconselha a modificação para “Tudo é fecundo e quente e creador”. Numa consideração geral sobre o poema, apontou: “isto não me dá a impressão do Alentejo” .

- “Quadro Rustico” - Raul Proença foi bastante critico em relação a este poema, tendo sugerido várias alterações. Anotou: “ A paisagem é dada em traços insuficientes. Os bezerros, os noivos, a calhandra - tudo isto é a parte animada. Da parte inanimada só vemos a levada [do moinho]. É pouco.”. E quando Florbela escreveu “ Perpassa nos seus olhos vagamente/ qualquer coisa, de casto como o linho”, Proença opinou: “ Versos sem significação real e sem necessidade.”. Mas já gostou da expressão grandiloquente que Florbela utilizou a finalizar (“ Oh, abre-me em teu seio a sepultura,/ Minha terra damor e de aventura,/ Oh meu amado e lindo Portugal! “) .

- “Dôce Certesa” - Proença poucas considerações fez a respeito deste poema, de que gostou, tendo mesmo julgado “perfeitos” os seguintes versos: “ Muito beijo damor apaixonado/ E não te lembrarás de mim sequer! ”.

- “ Ás mães de Portugal” - Este foi um dos poemas que Raul Proença mais apreciou, tendo-se-lhe referido como “Belo Poema”. O clima algo heróico com que Florbela aqui exorta as mães portuguesas a conformarem-se com a partida de seus filhos para o combate nos palcos europeus era do agrado de Proença, declarado pró-intervencionista desde o primeiro momento. O seu posicionamento foi publicitado no diário portuense O Norte, dirigido por Jaime Cortesão e sobretudo no conhecido artigo “Unidos pela pátria”, publicado num número especial da revista A Águia com que a Renascença Portuguesa quis apoiar a participação portuguesa no conflito. E quando Florbela concluiu o poema da seguinte forma “ A patria rouba os filhos mas é mãe/ A mãe de todos nós!/ Direito de a trair não tem ninguém,/ Ó mãe nem sequer vós!”, Proença emendou com veemência : “Eu diria antes: ‘E muito menos vós’! Sem esta correcção, a ideia parece-me má. ”.

- “ Quem sabe?!” - Raul Proença fez poucas considerações e emendas a este poema.

- “ Humildade” - Poucas sugestões, além de uma emenda a dada altura já que, em sua opinião, “estes versos não são alexandrinos”.

- “Rustica” - Um dos poemas que Raul Proença preferiu, tendo-se limitado a escrever “Bom” e “Lindo” à margem de alguns versos.

- ”De joelhos” - Raul Proença anotou: “Uma das produções melhores do caderno. É cheia de delicadeza, ainda que seja bem pouco humano esse amor.”.

- “P’rá Frente!” - Como o poema “Ás Mães de Portugal”, também a temática deste é a intervenção portuguesa no conflito bélico então em curso. No entanto, ao contrário daquele, Raul Proença considerou-o “não grande coisa”, tendo apontado um “mau verso” e mesmo um “péssimo verso” quando Florbela, concluindo, afirmou: “Nun’Álvares arranca a espada de gloria.”.

- “O teu olhar” - Considerados por Proença “versos harmoniosos, mas sem pensamento”.

   Raul Proença concluiu, escrevendo nas primeiras páginas do caderno: “Impressão geral: tendo em conta a idade, e visto tratar-se dos ‘primeiros passos’, não tenho senão bem a dizer. Não se trata, evidentemente, de obras primas, nem de tal se poderia tratar nessa idade. Quando se critica alguem é preciso, porém, muito mais do que analisar o que realmente fez, descobrir o que poderá vir a fazer. Como promessa, as poesias que acabo de ler são belissimas. Se alguma coisa me fosse permitido aconselhar, seria que se não fosse levado pela simples harmonia dos versos, e se não pusesse no papel senão o que exprime um verdadeiro pensamento ou um profundo sentimento poético. Estão no caso da harmonia da forma sem nenhum pensamento lá dentro os versos ‘O teu olhar’. Nota-se também ainda uma grande ingenuidade na escolha dos temas, como em ‘Escreve-me’, ‘Quem sabe?!’, etc. E certas fórmas insignificativas e feitas, como ‘o perfume brando da açucena’, as ‘folhas leves e tenras de boninas’, ‘qualquer de coisa de casto como o linho’, mãis d’ ‘olhos liriais’, etc. Isto é pecha fatal de principiantes. A minha impressão fica aqui dada sinceramente, e não como poeta, que o não sou: A poetiza tem diante de si um largo caminho; acho que deve continuar, afinando a lira na mesma corda que vibra em ‘O meu Alentejo’, ‘Ás mãis de Portugal’, ‘De joelhos’... E deixando de lado o ponto de vista poético, e falando no presente, uma ideia como a que domina a bela poesia ‘Ás mãis de Portugal’ honra a pessoa que a soube exprimir.”.

   Florbela recebeu com agrado a apreciação critica expressa por Raul Proença acerca destes seus poemas mas resolveu não efectuar as alterações por ele sugeridas, o que, aliás, foi uma repetição do que já sucedera quando a poetisa enviara alguns destes poemas a Mme. Carvalho, de O Século, e esta lhe sugerira igualmente algumas modificações.

   Dois anos mais tarde, Raul Proença recebeu de Florbela, então na localidade algarvia de Quelfes, uma carta onde esta mostrou um estado de espírito bem diferente do anterior: “Estou bastante desanimada com tudo o que me diz dos meus versos. Estou a ver que decedidamente nada farei com geito se bem que eu nunca tivesse a vaidosa pretensão de escrever obras- -primas. Afinal absolutamente nenhum soneto lhe pareceu bom? Quaes e quantos são os absolutamente razoaveis?”. Tinha já enviado ao publicista trinta e cinco sonetos e nesta carta acrescentou mais dois (“Castelã” e “Mais triste”). O desânimo de Florbela seria, assim o cremos, exagerado mas compreensível quer em função do seu próprio estado de saúde nesse momento, quer decorrente da rígida atitude de grande exigência ( tanto em termos éticos como em termos profissionais) que Raul Proença sempre tinha para quem com ele contactava - contrapartida para a não menor exigência que ele tinha para consigo próprio. E a prova de que a poesia de Florbela encontrava no espírito do vigoroso polemista um significativo campo de acolhimento é o facto de este se ter afadigado a tentar encontrar editor para o tão almejado e até então adiado livro e de ter dado um grande contributo para a sua organização interna, num período conturbado da vida portuguesa em que os acontecimentos políticos requeriam que as atenções do republicano e democrata Proença não se dispersassem em tarefas que este pudesse considerar marginais. Na verdade, era já Raul Proença 1º bibliotecário na Biblioteca Nacional quando em Dezembro de 1917 foi proclamada a “República Nova”, que lhe mereceu a maior oposição. Foi, aliás, durante o consulado sidonista que o autor do Guia de Portugal foi preso pela única vez na vida, aquando duma conferência pronunciada por Leonardo Coimbra em favor da intervenção portuguesa na guerra. E em 1919, ano em que o citado livro de poemas de Florbela viu a luz do dia com o título de Livro de Máguas, Raul Proença escrevia logo em Janeiro: “[...] entendo que é agora necessária a união de todos os republicanos para fazermos a verdadeira República, que não é realmente a de 5 de Outubro, mas é muito menos - a de 5 de Dezembro. [...] Num dos números [refere-se ao jornal Monarquia] em que sou transcrito, vejo que o sr. Conde de Monsaraz afirma pôr a sua espada à disposição do snr. D. Manuel. Hoje sou também soldado como s. Exª. Creio, pois, que me é permitido afirmar que pela República estou disposto a dar, sem hesitação, até à última gota do meu sangue.”. Que esta promessa não era um mero projecto de intenções foi o que Proença teve oportunidade de mostrar pouco depois, quando foi proclamada a “Monarquia do Norte”. Primeiro, participando na chamada “escalada de Monsanto” e logo a seguir incorporando-se nas forças militares republicanas que avançaram para o norte do país e que acabaram por aí restabelecer a República. É que, em sua opinião, “a verdadeira aristocracia é a dos que se sacrificam pelos outros”, como afirmou posteriormente num dístico não assinado mas seguramente de sua autoria inserido no número inicial dos Anais das Bibliotecas e Arquivos - revista que dinamizou quando já chefiava a Divisão dos Serviços Técnicos da Biblioteca Nacional e que ajudou a projectar além-fronteiras.

   A este denodado democrata Florbela dedicaria mais tarde um poema do seu Livro de Sóror Saudade, publicado em 1923. Esse belo texto intitula-se - muito a propósito - “Prince Charmant”.


Aos confrades, amigos, adeptos e simpatizantes

     Devido a um problema informático de última hora, não nos será possível fazer a postagem desta semana.    Esperando resolvê-lo em breve,...