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segunda-feira, 8 de maio de 2023

Nicolau Saião, Sobre um poema de José Régio

 



“Toada de Portalegre” - dois rascunhos prévios

 

A poesia, já se sabe, é a seu modo um processo de acumulação e juntura. Qual o seu secreto encadeamento, qual o percurso que toma a sua ordenação, de que forma o poeta talha e restaura, observa e finalmente conclui? Perguntava Camus, a certo passo dum texto seu: “Quem testemunhará por nós?” e respondia de imediato: “As nossas obras”. Apontava, é claro, para o testemunho da obra acabada no seu ciclo de coisa espiritual, de matéria interior que transporta para os vindouros, com toda a sua carga própria, as perguntas e as respostas que nos é dado formular.

Mas, em simultâneo, é fascinante e importante a mais dum título que tanto quanto o possamos fazer nos debrucemos sobre o suporte em si, seja no caso da poesia ou da pintura, da música ou da filosofia, serve dizer: nos ramos das actividades superiores que, por o serem, não estão dependentes de eventuais manobras ilegítimas de tiranos ou de equívocos mandantes, ainda que a matéria em que se revelem esteja por vezes submetida a ditames exteriores à vontade de quem as utiliza. Porque, nas suas vias interiores, os poetas não têm dono, não são assimiláveis pelos que, frequentemente, tentam à custa deles estabelecer currículos, efectuar brilharetes duvidosos, bolsar jaculatórias de nulo poder encantatório. Não falando, é claro, no caso extremo de quem subtrai à visão e fruição de outrem as produções com que os autores buscam interpelar o seu tempo e o tempo a vir.

Já vários ensaístas e poetas têm analisado proficientemente a questão dos vestígios. Deixa-se adivinhar a seguinte pergunta: o rigor interior duma obra pode ser divisado, digamos, no rigor do suporte? É inevitável lembrarmo-nos de Balzac e das sucessivas emendas a que submetia os seus escritos, cujos gatafunhos desesperavam os tipógrafos, ou das partituras de Schubert frequentemente lançadas num qualquer papelucho que lhe caía nas mãos, ou até sobre o tampo de mesas até que um fortuito papel salvador lhe chegasse…

Como se estrutura pois a matéria criada, de que maneira peculiar voga e navega o processo criador - tal pode entrever-se pela observação desses vestígios que os diversos autores nos legam ou simplesmente vão deixando na sua viagem pelo tempo que lhes coube viver. No caso que a seguir abordaremos isso naturalmente acontece.

Cedidas em fotocópia pelo Dr. Manuel Inácio Pestana - a quem fora oferecida reprodução das mesmas pelo coleccionador António Capucho - temos na nossa frente as duas versões prévias (deverá chamar-se-lhes rascunhos?) do conhecido texto regiano que fez e muito bem momentos inesquecíveis de muitos leitores tanto lusitanos como brasileiros. Dediquemos-lhes atenção, visando deixar algumas pistas consistentes.

A primeira versão, exarada na bela e clara letra de Régio, tem emendas em todas as páginas, sendo de assinalar que a “emenda” da décima é um acrescento no verso da mesma; acrescento significativo, uma vez que é a famosa reflexão que começa: “O amor, a amizade e quantos/ Mais sonhos de ouro eu sonhara,(…)” aliás também emendada na oitava linha. As páginas 2, 5, 7 e 10 são ilustradas por desenhos como que ao correr da pena.

Contudo, apesar de o serem, diria que nos mostram a preocupação plástica do poeta duma forma incisiva: o desenho da página 10, por exemplo, patenteia-nos um rosto arrepanhado, dorido, inclinado sobre a esquerda (tradicionalmente o lado do coração), um rosto que o poeta frequentemente plasmou em desenhos diversos. Na segunda versão, apenas uma palavra foi substituída na primeira linha da oitava página - retomando aliás a palavra escrita na primeira versão: desgraçados em vez de enforcados, que para Régio decerto marcava em demasia a sequência da estrutura do poema. De assinalar, ainda, que nenhuma destas versões manuscritas contém a palavra atónito, que se lê na versão publicada em livro (“Deixado só, nulo, atónito…); nelas, a que consta é a palavra vácuo.

“Esta é a minha mão das palavras”, diz num seu poema Carlos Edmundo de Ory (em excelente tradução de Herberto Hélder). A mão interior dos poetas procura na escuridão e no silencio “le mot juste” para tentar redefinir o mundo, para adequar o seu percurso próprio a uma rota de liberdade, de felicidade e de sabedoria.

É essa a única aposta que vale a pena como referia Mathew Mead, a única tarefa que ao poeta eventualmente caberá e que num universo de inquietações várias faz de facto sentido. O resto, coisas um tanto espúrias que a vida civil pela mão de alguns tenta colar ao perfil dos criadores, é apenas acrescento frequentemente inútil ou dispensável.

Régio, como grande escritor que era, sabia-o na perfeição.


segunda-feira, 24 de abril de 2023

Hoje como sempre!

 


ns


   Lembrar o 25 de Abril legítimo e democrático é também recordar e celebrar o 25 de Novembro. Sem ele teríamos mergulhado no sinistro regime que os totalitários daquela altura – e de agora – queriam instaurar com cínicas justificações, que não resistem a uma análise séria e fundamentada.

  Ontem, tal como hoje, a realidade tem desmascarado a formação e formações anti-democráticas com que nos queriam e querem roubar o futuro, utilizando uma verborreia propagandística no intuito de nos levarem à certa. Tal como o fizeram nos países onde assentaram pé e nos quais tripudiaram levianamente sobre os respectivos povos que fingem proteger, mas que em essência sempre tutelam com a repressão.

   Saibamos ser firmes e lúcidos (como o foram Salgueiro Maia ou Jaime Neves) para que a democracia – ainda que imperfeita ou maculada por inanidades de gente que lhes é próxima – permaneça viva e persistente.

   Devemos isso aos nossos descendentes e a todos os concidadãos que partilham connosco esta casa comum!

 

nicolau saião

Joaquim Simões


segunda-feira, 17 de abril de 2023

PÓRTICO

 


ns



   Não me “debruço”, com um sim ou com um não, sobre as marotices, parece que platónicas porque mais não conseguia, do emérito Boaventura Sousa Santos. Isso ficará, se houver coragem ou razão, para as entidades jurídicas ou outras, apropriadas. Apenas quero referir que no capítulo estudos sociais e pseudo científicos já há razoável período de tempo este cavalheiro foi desmascarado, de forma arrasadora e definitiva, pelo Professor António Manuel Baptista, esse sim um verdadeiro cientista, que nos seus livros “O discurso pós-moderno contra a Ciência” e “Crítica da razão ausente” efectuou competentemente um escalpar memorável do personagem que, o que não espanta, com habilidades maneirinhas sempre se esquivou a um frente-a-frente directo com aquele mestre da Física e justo crítico dos seus desarrincanços.

  BS Santos, nessa circunstância, teve o apoio – e o contrário é que seria de espantar – do colectivo ultra-esquerdista ou boa-boca de cavalheiros da corda, entre os quais se destacava o célebre Eduardo Prado Coelho, o mesmo que José Martins Garcia desmascarou sem hesitações durante o famoso caso do jornal República.

  Não é pois de estranhar que, encabuladas/os agora ante o vendaval de acontecimentos grotescos bem típicos desta “sociedade criminal”, certos boys and girls esganiçados ou com fala de galo-capão se calem prudentemente ou, com alguma discrição, venham tentar justificar o velho guru das esquerdas totalitárias e autor de versos medíocres ou decididamente míseros para quem tenha um mínimo de sentido crítico ou de decência intelectual.

  Digamo-lo sem subterfúgios: não é BSS quem sai mais mal-ferido desta torpe arlequinada. São, sim, os que durante anos e anos babujaram esta figura e lhe sublinharam a “filosofia”, o “cientismo”, ou mesmo lhe transcreveram com unção de “velhas beatas” os textos ideológicos propagandísticos em que se transbordava e repoltreava visando instaurar um mundo em que Estaline e demais canalhas políticos se reconheceriam.

   O caso em que BSS está metido vem, à puridade, desvelar perfeitamente uma prática que tem tentado colocar a canga esquerdóide a todos nós, sejamos de esquerda, de centro ou de direita mas com honradez e bom-senso e, o que é mais grave e significativo do mau trabalho dos “governantes” que lhe davam e ainda dão cavalaria, usando de forma (in)conveniente o dinheirinho de todos nós!


nicolau saião

Jorge Gaillard Nogueira

Álvaro de Navarro

Manuel Carreira Viana

Joaquim Simões


Nicolau Saião, Mais uma lembrança… - De “Retratos de fantasmas nítidos”

 


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A Rosa de Todo o Ano


Não se chamava Rosa, ‘tá de ver, mas eu chamava-lhe assim. Criada de todo o serviço duma família de teres, ia à praça, varria as escadas do prédio de seus patrões, lavava janelas e batia tapetes, lá para dentro certamente se dava a misteriosas tarefas de cosimentos e cozinhados, habituada a alombar, percebia-se, com tudo o que requisitasse suor. Quando eu morava na parte velha da cidade, nos meus tempos de gaiato, encontrava-a frequentemente numa loja de tecidos a mercar carrinhos de linha e a buscar a caixa das amostras de botões, aparelho misterioso e encantado com encaixes sobrepostos como jardins suspensos que também eu transportava para minha tia, que cosia para fora como franco-atiradora de linhas e agulhas.

   Sempre jovial, dava-se bem com vizinhos e lojistas. Quarentona, ainda denotava que fora linda cachopa. Mas, retirada das lides do coração, ficava-se perceptivelmente pela existência de mourejadoura a todo o pano. Constava que tinha um filho lá para os longes de uma mirífica Lisboa, marçano ou manga-de-alpaca de pequeno porte em lugares mais ou menos lendários. Portalegre naquela altura ficava longíssimo da capital, daí o desapego aparente. Um dia, ia eu nos meus catorzes/quinzes, perguntou-me onde comprara uma capelinha de macela que por esses dias de S.João eu levava nas mãos (todos os anos as compro, rendido às flores secas da tradição).”Foi ali na do senhor Xis, senhora Rosa…”, disse-lhe eu deixando escapar a boca para a crisma que lhe dera. “Eu não me chamo Rosa, menino! Sou …” e lá me disse o nome que agora omito a vosselências. E daí em diante, sempre que nos cruzávamos, cumprimentávamo-nos como velhos conhecidos. Sabia lá ela quanto eu apreciava a sua lhaneza natural, a sua inocente bondade de burrinha de trabalho e que eu somente deixava transparecer na minha saudação respeitosa!

   Como outros de outros mesteres, perdi-lhe depois o rasto, ao mudar de casa para lugares mais centrais. Ainda estará viva? Se assim for deve decerto trabalhar para os netos, nessas paragens lisboetas onde talvez se tenha juntado ao filho por reforma bem suada. Deverá, concerteza, continuar anciã de boa catadura: os pequenos lojistas e os vizinhos devem apreciá-la, num relacionamento fácil e contente com este saintéxupery feminino e anónimo cruzando a terra dos homens do quotidiano esvoaçante.


segunda-feira, 3 de abril de 2023

Nicolau Saião, Por quem os sinos dobram

 



    Obra-prima de Ernest Hemingway, o famoso romance com este título provindo de um poema do autor cristão John Donne afixa uma atitude de humaníssima interrogação perante as amarguras do mundo e, mais do que isso, perante os actos discricionários que, desde os mais pequenos caciques de província até aos ditadores de Nações, conspurcam a existência pacífica e civilizada das sociedades, criando uma espécie de vida paralela, antidemocrática e assente na mentira, no confusionismo, na difamação e na baixa calúnia.

 O que visam é criar um estado de coisas sensível à intimidação, para que através da cedência moral e ética não se tenham forças para efectuar o repúdio de manipulações ilegítimas, de negações da vida íntegra: o que ultimamente se tem passado com a criminosa clonagem de seres humanos é um exemplo do que pretende essa propaganda. Mas não é o único: em determinados locais, busca-se interditar a acção de pessoas de boa-fé, que desmascaram ou combatem gente eivada de cinismo e que chega a servir-se de instituições respeitáveis. O objectivo é bem claro: estabelecer o seu autoritarismo sobre os destroços que desejam criar.

  A este propósito, ocorre-me o que sucedeu em França, nos anos 30, com um homem de grande nobreza de carácter: diversos sujeitos, atacados nos seus privilégios indevidos e maliciosos pelo escritor François Janin, brilhante orador e amigo de escritores destacados tais como Gilbert Cesbron, Jules Jacob e Robert Weiglé - confidente de Saint-John Perse - desencandearam contra ele acções que configuravam um verdadeiro “assassinato de carácter”, visando impedi-lo de esclarecer a opinião pública sobre os jogos de influencias que os norteavam. Durante dois anos tudo tentaram, apoiados em gente sem moral, venal e maldosa.

   No entanto, ajudado pela força da razão e também pelos escritores seus amigos, que igualmente se destacariam no combate contra os nazis, François Janin desmascarou os energúmenos, que a seu tempo ali tiveram o seu simbólico Waterloo.

  E foi lembrando-se duma conversa que em dada altura com ele manteve, durante a qual ele lhe citara a frase de Donne, que Hemingway epigrafou o título famoso.

  De facto, por quem dobram os sinos? Não é apenas pelos que morrem, mas por todos os que a felonia, a venalidade e o falso testemunho tentam prejudicar na sua integridade. Quando, simbolicamente, a morte por algum tempo se sobrepõe à vida, a mentira à verdade – eis que se ouve um plangente som de sinos dobrando. Por isso é que as pessoas de bem devem recusar os tentames dos que, servindo-se das falsas analogias (caso da clonagem) ou das calúnias soezes, buscam violar as consciências das populações e das pessoas decentes, para melhor estabelecerem o seu reinado de horizontalidade moral.

   E se é verdade que, como diz a conhecida frase, “a maldade não prevalecerá contra a verdade dos justos”, é preciso que as pessoas de boa-fé ergam um muro de honradez que corte o passo aos que se servem de ardilosas camuflagens para se furtarem a que os reconheçamos como aqueles que sempre buscaram perpetuar o calvário humano. 


segunda-feira, 27 de março de 2023

Dois poemas de Floriano Martins

 


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3.

Algo nos torna mais que forma

dissolvida ou transfigurada

na matéria de nossos deslizes.

Respiro tua esquiva semelhança,

abres tua casa ao sigilo do nada.

Um grito imóvel, uma noite fixa

em seus próprios olhos, a terra

ilusória por trás de toda imagem.

O que refletimos não sabemos

se mera justiça ou dura asfixia.

 

4.

Wei Yin Wu temia que as trevas

fossem o desenho do coração,

que fosse a dor a casa do homem

e sangue a duração de seu êxodo.

Novos nomes doava a formas

já desfeitas em sua memória.

O próprio rosto não reconhecia,

nem mesmo o fulgor de seu olhar.

Indagava atônito sobre a luz do dia,

certo de seus racimos ainda visíveis.

 

in ÓLEOS DE TREVAS

 

terça-feira, 21 de março de 2023

Para que a Terra não esqueça

 


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"Igreja tem de pagar indemnizações às vítimas"

A procuradora Dulce Rocha diz que a reação da Igreja ao relatório da Comissão Independente mostrou "falta de empatia com as vítimas" e que a "ocultação" que durou "décadas" faz "parte do abuso".

(Dos jornais)


Sem comentários


Um poema de Céline Arnauld

 

OS MEUS TRÊS PECADOS DADA

 

Sobe, sobe a colina

oh roda esmagada roda

quebrada pupila amarga

amargo abrunho dos bosques

oh tu que sobes assobiando

e que és um cobertor velho

o hino das crianças amadas.

Os olhos dos papagaios são bolinhas enganadoras.

Vós não sois deuses, mantilhas

ou escuros guarda-chuvas, nem mecanismos de toque

de alvorada.

Vós sois o anfitrião dum Amphion sem lira

uma vela sem poesia

uma majestade sem reflexos de música

o nascimento semanal dum girassol

- o girassol da minha prece –

e os meus olhos de roda quebrada

que envio ao grande mágico Merlin.

Para me castigar irei imolar-me numa adega.

 

Este é o pecado do fogacho quase extinto.

 

Ah sorte malina!

Beber uísque numa flor-de-lis

discussão espiritual da minha traição a sós

com a sua imagem

e depois dormir, dormir até que uma esmola

dos olhos tombada deslizasse nas minhas veias

Mas o que dei ao papagaio

não, para vós não é –

Amizade não se escreve em estenografia.

 

E é sempre essa roda, esse suplício

quebrado que me atormenta.

Para consertá-lo tomo

Merlin como testemunha

a escada como ícone

o vidro como microscópio

o copo como microscópio

e as minhas belas pupilas

como a linguagem mais formosa.

 

E depois, já que tudo acabou

iremos deitar abaixo

o edifício construído

sobre uma prisão e um suplício

na adega das discussões espirituais

 

do seu calvário de uísque.

 

 

  (Este poema da co-fundadora e directora da revista “Projecteur” e mulher do poeta Paul Dermée foi extraído de “L’Aventure Dada”.)


Tradução de Nicolau Saião


Nicolau Saião, Viajar com o Vicente



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    A mais bela reflexão sobre “a viagem” não a fez o tal político avis rara que deu duas vezes a volta ao planeta sem sair do gabinete e recebeu, por tal feito, os correspondentes emolumentos. Nem o tal escritor de sucesso que faz viagens de propósito – que horror! – para depois escrever buques que os interessados e os artolas irão consumir regalados. Nem sequer o estimável Xavier de Maistre, com o seu “Voyage au tour de ma chambre” que nos compraz e nos excita pela evidente convicção e o eficaz discurso literário.

  De facto, quem me parece ter feito a tal superlativa reflexão que em 9 páginas arruma de vez a questão, foi mesmo Vicente Blasco Ibañez – e de que maneira inteligente, criativa, realmente lúcida e poética! Exacto, o mesmo autor de “Os 4 cavaleiros do Apocalipse”, de “Sangue e arena” cinematograficamente protagonizado por um Tyrone Power novinho pero todo un hombre – o outro, em fita, tinha por lá o Glenn Ford, a Ingrid Thulin, o Charles Boyer...

   O livro – “A volta ao mundo dum novelista” (3 volumes) – foi publicado em Espanha, na França, nos E.U.A. faz este mês precisamente 92 anos. É, pois, um livro antigo – como se tivesse sido escrito mesmo agora. Leiam as páginas sobre Nova Iorque, sobre a China, sobre as ilhas perdidas do Pacífico e depois venham falar comigo. Sujeito de razão e coração este Ibañez e ainda por cima um democrata de antes quebrar que torcer.

  Se não encontrarem nos escaparates (saíu por cá em 44 na Livraria Peninsular Editora, em bela tradução de Agostinho Fortes) ameacem o editor de lhe ferrarem um tiro caso não reedite. Nunca uma doce ameaça faria tanto sentido.

  Recomenda-se aos aventureiros/as e aos muito adultos - a todos os que souberam conservar o seu vibrante coração de adolescentes sem remorsos.


segunda-feira, 13 de março de 2023

PÓRTICO

 

IN MEMORIAM DE ANTÓNIO SALVADO

         (Castelo Branco, fevereiro 1936 março 2023)       





 Há, neste acervo, um verso que a meu ver descreve com exactidão o mundo da escrita de António Salvado: “só a natureza purifica os sons”, diz ele a dada altura no poema dedicado a Claudio Rodriguez. (Claudio Rodriguez, sublinho, ou seja: um dos poetas europeus onde a natureza se confrontou decisivamente com os sons duma modernidade assumida, reencaminhada nos troços vicinais de um continente que não perdera de vista a claridade da Grécia mas sabia ser impossível não a tentar reconverter através do mergulho achado em Rimbaud e Dylan Thomas).

  Poeta da natureza, António Salvado? Sim, mas também da linguagem que a certifica, perpassa e ultrapassa. Conhecedor dos clássicos, sempre soube viajar – como fica patente nesta pequena antologia – pela comovida desconstrução da escrita.

   E, assim, é um contemporâneo tanto dos que se foram como de todos os outros que a seguir irão vindo.

     Por último e ainda no continente da Poesia, gostaria de relevar o trabalho incontornável de A.S. enquanto tradutor – e dou ao termo trabalho, aqui, o seu exacto perfil e conteúdo não só de labor mas de encantamento partilhável, uma vez que é disso que se trata: ser António Salvado, como a meu ver tem sido, o poeta do seu poeta vertido em português sem jaça e com o ritmo próprio e a figura de quem escreve como se em língua lusa este escrevesse. - ns

 

CASA DO AMOR


Foi nas perenes coisas que aprendi

a ser: a casa do amor cercada

de ruas que subiam junto ao fim

do céu que sempre mais se prolongava,

 

de longos mudos maternais jardins

onde as eternas flores eram lagos

de fragrância ofegante colorida

e os lagos sol em água mergulhado.

 

E nela: o pão cantado sobre a mesa,

a bilha da ternura a renascer,

a pureza do linho a dedilhar

as palavras nos lábios entoadas…

 

deito longe a saudade: permanece

a casa do amor, em mim, perene.

 


MEDITAÇÃO

                             (à memória de Claudio Rodriguez)

 

Dos olhos e das mãos brotam as coisas:

inocentes paisagens onde a vida

e a morte se insinuam e comprazem.

Feitas indagação, elas entregam

- mesmo longínquas – o fluir constante

do sangue atravessando o pensamento.

De há muito que o sabemos caminhando:

somente a natureza purifica os sons

da chama inviolável que destrói

enganos: uma flor desabrochada,

rapariga na curva do distante,

calor do oiro na melancolia.

Daí, que a claridade estenda os braços

a resvalar-se à voz: e invada os veios

exaltados da pureza   e bafeje

para que ouçamos dela o sussurrar,

como um astro súbito   inesperado,

como a verdade plena de harmonia.

Em segredo, o pulsar do coração

traça novos destinos entre areia,

reconstruindo a casa à beira do abismo

solidifica a água das correntes.

Em segredo. Os olhos abrem-se mais

e as mãos, hirtas p’lo frio passageiro,

modelam outro espaço e outro tempo

para que o canto seja eternidade.

 

 

ANOS SE LEVA


Anos se leva a descobrir a pátria:

a terra onde existir   p´ra sempre a salvo,

o barro que há-de    modelar a alma,

a língua a ser sabida   a ser falada.

 

E que os rios e serras e que mares

e que cidades grandes    ou lugares,

que plantas  animais   vão habitar

essas paisagens virgens   a brotarem.

 

Porque o amor - uma conquista lenta -

precisa de passado e de presente

quando constrói os elos do futuro;

 

que a pátria seja    em ânsia   toda a gente -

de mãos nas mãos   e olhos indif´erentes

a quem não queira partilhar o fruto.

 

António Salvado


José do Carmo Francisco, Primeira pessoa do singular

 


ns



   Fui Juiz Social no Tribunal de Família e Menores de Lisboa entre 1993 e 2016. Participei como «juiz asa» em dezenas de audiências de julgamento e ouvi juízes, pais, crianças, assistentes sociais, advogados, testemunhas, oficiais de justiça, guardas da PSP, etc. Primeiro foi nas Varas no Alto do Parque, depois foi numa Rua perto do Edifício Imaviz e, mais tarde, no Campus da Justiça. Foram muitos anos a ouvir histórias; como na peça de Pirandello «Para cada um sua verdade» e no meu caso a verdade tem muitas versões. Por tudo isso fui espectador interessado do filme «Spotlight» de 2015 cuja história se passa no interior de um dos mais importantes jornais dos EUA – o Boston Globe. Um dos aspectos mais curiosos do enredo do filme é que foi a leitura dos Anuário da Arquidiocese de Boston que permitiu perceber as deslocações anuais dos sacerdotes nas várias paróquias. Como num jogo de dominó as peças foram-se juntando. As últimas imagens do filme antes da onda de telefonemas, mostram as camionetas a saírem das garagens carregadas de jornais. Um jornal não deixa de ser uma empresa que só existe graças aos seus lucros, vive de vender notícias aos assinantes e aos compradores em quiosque e mesmo que o jornalista seja o historiador do quotidiano, mesmo que o jornal seja o livro de todos os dias, o assunto não deixa de ser o que é – um jornal é uma empresa, não é uma IPSS. A vida não começa nem acaba no «Spotlight». Os abusos sobre as crianças são mais elevados nas famílias, nos prédios, nos bairros e nas escolas. Sempre que tocam as pandeiretas sobre três por cento são noventa e sete por cento que ficam remetidas ao silêncio. A nódoa permanece mas a pandeireta deixou de se ouvir.      


terça-feira, 7 de março de 2023

Nicolau Saião, in Contarelos para mortos vivos

 

3. Vida e aventuras de Jonas P. Clausewitz



ns



    Na tarde clara Jonas arrotou.

    Era o antes da noite e a cidade, semi-morta, esperava assustada a brisa do mar. Para os lados de Samarcanda, a Outra, Jonas divisava, através do mofo do rio, um brilho estranho de casarios desvairados, um jardim, os ameaços pintados da planície, uma capela enorme e silenciosa, dura, quente. E por debaixo da janela de Jonas, o preclaro, rei dos reis e sábio dos sábios, as folhas sempre sem flores das árvores do seu parque palacial estralejavam como pães de trigo talvez por causa daquele vento que vinha não se sabia de onde.

    Jonas, antes da primeira estrela, levanta-se. A cadeira de prata, aliviada do seu peso, suspira. Mas levemente, mas ternamente, que o peso de Jonas é doirado e de veludo negro as suas calças são. E doce o seu sentar de largos anos.

     O quarto, suspenso, como que amoroso e dado, morno, espia-lhe todos os gestos. E altos são os pensamentos de Jonas, que nele próprio pensa e no seu destino. Como está velho! Os cabelos, até os brancos, desapareceram e no crânio de Jonas, por bondade, uma luz cor de anil depositou os seus ovos e as suas esperanças. E assim é que a cabeça do Preclaro brilha vagarosamente na não-obscuridade.

     No seu princípio, ante o mar e ante a terra, enquanto as palavras que mais tarde – oh quão mais tarde – iriam poisar-lhe na língua limpa como manteiga e dela sair após, Jonas amara o seco roncar do oceano, onde – pensava ele – haviam habitado os seus ascendentes. Ou nele andado haviam, que o povo de Menchu-Pachu, ciente da direcção que oferece a terra a achar, para ela caminhara, mas com norte, e nele saudando o carinho do sol e dos cogumelos em pó. Pois que deles é que vinha a riqueza trágica de Menchu-Pachu, cujas chaves de cera e de bronze nas mãos doces de Jonas repousavam.

 

      Ouro canela marfim florete de espadachim leão jumento segmento de

      prazer ou de tormento raro porque é claro o lembrete do juramento

      como um não e um porque sim.

 

    E eram os pensamentos do Grande Rei que num soprar instantâneo lhe viajavam através das circunvalações, lhe traçavam violências para haver, glórias para estimar, duas crianças ameaçadas por um rouxinol, o divisar de relógios podres na moleza de um salão que Jonas amava, que haveria de amar quando à noite, bem na noite, no meio do palpitar das velas tremulantes da sua câmara de dormir o seu fiel Culhambas até ele viesse e junto ao leito esperasse o seu gesto de olhos, o seu aceno de queixo e depois de ouvir o sapiente ensino das suas palavras para um governo de mestre aguardasse a chegada de Blazina, a por demais amada. Jonas dir-lhes-ia, com a brancura da alegria na sua face mártir, o quanto os relógios todos lhe eram queridos, com os seus minutos lentos e poderosos. Pois não é através deles, da sua marcha por entre as horas esquivas, que a grandeza dos grandes se ademonstra?

     Jonas, sabe-o, não morrerá. Defeso lhe é morrer, vedado lhe será jazer em pedra e em vermes, e nunca no seu corpo rodeado de prantos e cetins repousarão os dentes verdes e agudos de alguém do além-túmulo. Ah mas agora é a morte. Da dúvida, da inquietação dos outros que lá por fora andam, daqueles que pouco sabem e quase nada podem. Que para Jonas é todo seu o dizer para onde - a mais bela das mortes, a da indecisão e da procura de pequenas escusas para os que não encontraram a verdade que é dele e de mais ninguém. O saber para quê, o como e o com certeza, e ficar desta maneira junto à janela, com a silhueta envolta em macia pele de animais do quase polo sul, serenamente, sustentando o seu ardor amado de ser a Lei, a Vida, o Sempre. O ontem e o hoje e o permanente.

    Frente ao rio, lodoso e luzindo como uma flama no horizonte, Jonas arrotou. Saída é a lua, embora a noite espere. E como um traço de cal no céu se firma. E a ele lhe anuncia, Jonas o puro, rei dos reis e sábio dos sábios, o de Menchu-Pachu a loira e a morena, que também na madrugada não cumprida Dona Leonarda virá com Blazina já ida, com o seu silêncio senhoril e sensual sentado num escabelo. E ali ficará até que Jonas, com o gesto do seu queixo, com o vazio ondeante da sua mão, lhe acaricie o ombro vidrado de recordações e de mistérios e sonolências. Antigas, da sua existência vizinhas, comuns e raras.

    Pois de Jonas, o Preclaro, é a sabedoria do mundo que nele achou seu mando. E nele perdurará. Enquanto o Universo rolar para o lado de Altair, o astro de todas as realidades sobrepostas.

    Inteiras, inconquistáveis.   


terça-feira, 28 de fevereiro de 2023

Nicolau Saião, de "Contarelos para mortos vivos"

 

2.  BREBIS   



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    No meio da noite, ao acordar de supetão, Brebis sente vontade de rir. Mentira parecerá mas por momentos, no mar do sono, notou-se ligeiramente iluminado; por momentos, sobre a calva monacal, ouviu adejar o fru-fru da clara santidade.

    No Casarão já começaram a palpitar os ecos dos que vêm de longes terras: cavalheiros-andantes, irmãos-chegados, dormidos-nas-encruzilhadas, manas-de-mau porte, corcundas, coxos, famélicos, leprosos; o costume, enfim, naquele santo retiro, onde chegam dia após dia, ano após ano, e grão mérito se junte e daí releve, os que desejam por bem a doçura jamais negada do repousar beatífico.

    Foi nessa altura, dizia eu, que o manso Brebis de orelha longa pela primeira vez olhou com atenção os dedos das suas mãos sabedoras.

    Outrora Brebis soubera coisas de muita espantação: o lugar que a aurora escolhe para nascer, por exemplo. Mas já esquecera tudo, as dúvidas não nos ligam às recordações. Como se calcula, a suavidade dos cânticos é grata ao coração do homem, eis a verdade.

    Na cozinha ronrona a voz seráfica de frei João Sem Cuidados, cantando o seu mote de esperançosa mágoa:

 

                   Frère Jacques, frère Jacques

                   dormez vous, dormez vous?

 

e no pátio lajeado os burricos de serviço, cobertos pela sombra lunar dos pessegueiros e das tílias, esperam o início do seu turno de bondades.

    Na Torre dos Grilos, aquela de tijolo e pedra que pelos anos fora crescera até às barbas das nuvens, S. Estrabum exercita-se cantochando e responsando, ardente e comovido com o seu “métier” de grande purificador. A seus pés, um donato vai registando em velino as frases a celebrizar.

    No catre, irmão Brebis espreguiça-se para compensar e sente lá por dentro uma intensa alegria.

    Na cela quase nua, quase virgem, de velharias nos cantos, de certeza que se esconde uma invisível presença. Inventariemos: uma cadeira cambada, uma távola redonda, uma bacia de esmalte, um mocho empalhado (símbolo da coragem e da humildade) uma caveira de esculápio, um astrolábio, um globo. E Brebis. Inventariemos mais: uma gamela onde por vezes, com preguiça de ir ao urinol, faz o chichi; uma estante com “in fólios”, seis terços com as contas de pau-santo; um relógio de cuco; três exemplares do “Reader’s Digest”; um óculo para ver o destino; uma lamparina. E Brebis.

    Brebis olhou segunda vez, atentamente, as suas mãos cor de caca de recém-nascido e os dedos bondosos. E sente que na alma lhe vai caindo como que um trémulo pingo de negro licor.

    Brebis, como se sabe, já inventou uma nova filosofia: negar a existência das ruas que a partir do crepúsculo perdem a luz e a memória. Qualquer dia começará a comer o pão pelo lado mais escuro e cortará as unhas seis vezes por ano. Andará pelos corredores com a cabeça baixa, salmodiando ciência e reza. Olhará a luz que os vitrais coam, estremecerá de frio como a flama das velas, bimbalhará como os sinos das matinas, rirá para dentro devagar.

    Sentirá rumores de gente esquisita, com um odor lixado a incenso. Mas por enquanto, pensando nisto, apenas a sacola das migas se começa a queixar de abandono e desprezo.

    Diz para si próprio que o maior mistério é andar quando deve andar, dormir quando deve dormir, fazer a barba, entrar no refeitório com pratos de boa loiça, rir para o sol, rir para as árvores do monte, contar anedotas. Fugir dos ajuntamentos e não desejar a mulher do próximo. As rugas, os olhos fechados, ficam onde calha. Brebis, ausente em rugidos, sonolento enquanto velho, deixa escapar um gemido honrado. Um gemido sulfuroso.

    No salão onde as orações e os suspiros têm quentes frenesis, as preces misturam o arrependimento com o desejo de entusiasmo. Tanta gentinha! O oratório resplandece no meio dos rostos intensamente ardidos. Brebis começa a pensar que, dali para a frente, o resto da sua vida começará a ganhar em deslumbramento e santidade.

    …Que Brebis, aliás, repartirá pelos outros. Pois o regresso é sempre nobre e as sombras que tremem, quase mortas, mesmo assim pulsam misteriosamente como a paz magnífica das lágrimas redentoras.


Aos confrades, amigos, adeptos e simpatizantes

     Devido a um problema informático de última hora, não nos será possível fazer a postagem desta semana.    Esperando resolvê-lo em breve,...