O poeta sensível e místico cuja
silhueta maciça de Nero bonacheirão, como lhe chamou Brassai, por vezes
assombrava Paris.
Aquele a quem Picasso disse, aquando do ataque de hemiplegia por ele
sofrido quando almoçavam juntos no restaurante Catalan: “Que se passa? Tens a
cara fora do desenho!”. O Fargue que sobre si mesmo referiu : “J’ai joué ma vie
sur la poésie” e “Je suis un fantôme occidental actif » o de “Ludions”, de “Le
piéton de Paris” e de “Pour la musique”, mas também o de « Haute solitude » e
da revista « Minotaure » nos tempos do Faubourg Saint-Martin…
FASES
O garoto
arrisca-se a morrer
Pois muito se
cansa a correr
Por entre os
objectos amados
Nessa demanda
sentimos
Ir o pobre em
correria
No grande
silêncio do dia
E o barulho do
dia freme.
E como que em
oração rara
A hora passa
lenta e clara
Sobre o largo
sonolento
Sob o céu do
Inverno que treme
E a vida é como
um lamento.
Ah como ela faz
sofrer!
Sem censura, voz
calada
Por um prazer,
por um nada…
in “Tancrède”
ACHADO ENTRE OS
PAPÉIS DE FAMÍLIA
Sonhei tanto,
tanto que já nem sequer aqui estou.
Não me façam
mais perguntas, não me atormentem mais.
Não me
acompanhem neste meu calvário.
Não me é dado
explicar quais as ordens que tenho.
Nem mesmo me
assiste o direito de pensar nisso,
Há muito tempo
já que me levanto e parto.
Há uma permissão
da morte, e ei-la que chega.
Na curva da rua
que vai dar à noite é que a espero.
O mar vai estar
de novo nos últimos terraços.
Um candeeiro de
novo aceso sente o desejo das trevas.
Um passo no
empedrado. A sombra dele precede-o
E deita-se sobre
mim, a cabeça no meu coração.
Ali está ele.
Sempre de chapéu
redondo, sempre de saco na mão
Tal como era no
dia em que regressou de Itália.
Já lhe não vejo
os olhos. Já me não fala.
Eis que rolo até
ele como uma obscura pedra.
Não consigo
atravessar a sua sombra.
Portaste-te como
devias? E desde então que fizeste?
E porque não
subiste?
Todos os dias ia
ver se chegavas e não chegaste nunca!
Ele nada diz
sobre tudo isto.
Mas tudo nele me
diz: lembra-te!
Sobre ele a
noite tornou a fechar-se.
in “Sob a luz da lâmpada”
(Tradução ns)

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