quinta-feira, 5 de novembro de 2020

João Garção, Introdução ao fenómeno artístico - Relance sobre a arte grega

 

João Garção, Sem título



     A evolução da Arte Grega constitui uma das mais notáveis aventuras plásticas do espírito humano, tendo vários dos princípios filosóficos e formais consagrados nesse percurso sido adoptados posteriormente como símbolos perenes da arte europeia e como valores da Civilização Ocidental.

 

   Costuma considerar-se que as suas origens se podem encontrar, por um lado, na Arte das Cíclades, essas pequenas ilhas do Mar Egeu notabilizadas pelo comércio da obsidiana de Milo e pela produção de pequenas figuras e estatuetas em mármore de Paros e Naxos; por outro lado, na Arte Minóica, que se desenvolveu na ilha de Creta e à qual o domínio dos mares conseguido pelos seus habitantes conferiu segurança, graciosidade e requinte, tudo bem exemplificado no que ainda resta do Palácio de Cnossos; finalmente, na Arte Micénica - florescente na Argólida - a qual exprime bem o vigor guerreiro do povo que a executou.

 

  Os suportes físicos em que se plasma a Arte Grega têm um caracter marcadamente funcional: a escultura destinava-se maioritariamente a fins atléticos e, sobretudo, religiosos quando a partir de finais do séc. VIII AC o ídolo se torna antropomórfico; os vasos que recebem a pintura - conhecemos pouquíssimo da grande pintura mural grega - têm também uma função utilitária: ir buscar a água (a amphora), servi-la (a hydria), misturá-la com um vinho demasiado forte (o krater), por exemplo; no que diz respeito à arquitectura, esta estrutura-se em função de um sistema básico, o trilítico, em que um elemento horizontal (a arquitrave) assenta em dois elementos verticais (as colunas), a partir do qual tudo se desenvolve.

 

  Às finalidades de cariz funcional, os gregos aliavam decisivamente a estética. O caso do Partenon é a meu ver paradigmático: como todos os outros templos gregos, este era também a Casa do Deus e não um mero lugar de recolhimento para os fiéis, pois as cerimónias realizavam-se no exterior, ao ar livre.

 

  Isto não impediu, no entanto, a sua decoração interior e exterior, nem o recurso a requintados processos de construção com o objectivo de, simultaneamente, se corrigirem ilusões de óptica decorrentes da existência de tantas linhas rectas, por um lado; e, por outro, de garantir ao edifício uma maior estabilidade e segurança, tudo em nome da clareza, da proporção e da harmonia.

 

  Esta procura de equilíbrio está também presente no não menos famoso Discóbolo de Miron, tal como muitas outras obras-primas da escultura grega conhecida apenas através de cópias romanas. Nesta obra, o escultor captou o momento entre duas fases do movimento de lançar o disco - estado de tensão conhecido por isso como "momento mirónico".

 

 Um outro aspecto importante nesta arte, correlativo com o desejo de racionalismo e harmonia, é a teorização que os gregos faziam das obras que iam produzindo: sabemos que Ictinos, um dos arquitectos do Partenon, escreveu um livro, hoje perdido, sobre o processo de construção deste templo; que com o Doriforo, o escultor Policleto exemplificou os preceitos que referiu num outro livro, o Canon; que um século depois Lisipo fez o mesmo, esculpindo o Apoxyomenos e estabelecendo um novo conjunto de regras ideais para a escultura.

 

 Esta manifestação de intelectualização da estética é, afinal, a expressão da pesquisa apaixonada da beleza e do equilíbrio existentes no ser humano, pois é este por excelência o assunto da Arte Grega, mesmo se a figura humana aparece inúmeras vezes inscrita numa temática mitológica que pode não o dar claramente a entender.

 

  É precisamente para se obter um maior realismo na sua representação e no ambiente que a circunda que cerca de 530 AC se verifica na pintura de vasos uma mudança bastante importante: a substituição das tradicionais figuras em silhueta negra pintadas sobre fundo vermelho por figuras vermelhas pintadas sobre fundo negro, obtendo-se desta forma uma pintura bem mais expressiva porque já então tridimensional.

 

 O sentimento da dignidade do Homem, exprimindo-se em oposição à barbárie, está presente numa temática muito querida dos gregos e que podemos encontrar esculpida em alguns frisos do Partenon: o triunfo da justiça sobre a injustiça, da democracia sobre o despotismo, da liberdade sobre a sujeição, simbolizados nas composições escultóricas das lutas dos Lápitas contra os Centauros e dos Gregos contra as Amazonas.

 

  A arte grega constitui a expressão de um processo natural e inestancável. É, nesta medida, uma arte de proposta, de tal forma significativa que ainda paira, como recorrência e sublinhado, em muitos autores modernos e contemporâneos (veja-se Picasso, a corrente neo-figurativa anglo-saxónica mais actual, mesmo algum surrealismo não-daliniano) e que encontra repercussões na própria escrita, no que esta tem de ático e luminoso (apolíneo) ou, no outro lado da imagem, de convulsivo, em acordo com o clarão dionisíaco.

 

  As influências recebidas, sobretudo as do próximo-oriente, foram rapidamente incorporadas numa metodologia artística própria e utilizadas num processo criativo autónomo. O racionalismo, a clareza, a justa medida e o sentido da harmonia e da proporção mas também, na época helenística, a graça, a elegância e o realismo, são - em conclusão - características fundamentais desta arte de exaltação do Homem na sua dimensão mais profunda e na qual, como refere Martin Robertson, o interesse pela Vida é um assunto central.

 

                                                                                               João Garção

 

(Licenciado em História da Arte, mestre em História Contemporânea de Portugal. Poeta, pintor, ensaísta e professor).


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