João Garção, Sem título
A evolução da Arte Grega constitui uma das mais notáveis aventuras
plásticas do espírito humano, tendo vários dos princípios filosóficos e formais
consagrados nesse percurso sido adoptados posteriormente como símbolos perenes
da arte europeia e como valores da Civilização Ocidental.
Costuma considerar-se que as suas origens se podem encontrar, por um
lado, na Arte das Cíclades, essas pequenas ilhas do Mar Egeu notabilizadas pelo
comércio da obsidiana de Milo e pela produção de pequenas figuras e estatuetas
em mármore de Paros e Naxos; por outro lado, na Arte Minóica, que se
desenvolveu na ilha de Creta e à qual o domínio dos mares conseguido pelos seus
habitantes conferiu segurança, graciosidade e requinte, tudo bem exemplificado
no que ainda resta do Palácio de Cnossos; finalmente, na Arte Micénica -
florescente na Argólida - a qual exprime bem o vigor guerreiro do povo que a
executou.
Os suportes físicos em que se plasma a Arte Grega têm um caracter
marcadamente funcional: a escultura destinava-se maioritariamente a fins
atléticos e, sobretudo, religiosos quando a partir de finais do séc. VIII AC o
ídolo se torna antropomórfico; os vasos que recebem a pintura - conhecemos
pouquíssimo da grande pintura mural grega - têm também uma função utilitária:
ir buscar a água (a amphora), servi-la (a hydria), misturá-la com um vinho
demasiado forte (o krater), por exemplo; no que diz respeito à arquitectura,
esta estrutura-se em função de um sistema básico, o trilítico, em que um elemento
horizontal (a arquitrave) assenta em dois elementos verticais (as colunas), a
partir do qual tudo se desenvolve.
Às finalidades de cariz funcional, os gregos aliavam decisivamente a
estética. O caso do Partenon é a meu ver paradigmático: como todos os outros
templos gregos, este era também a Casa do Deus e não um mero lugar de
recolhimento para os fiéis, pois as cerimónias realizavam-se no exterior, ao ar
livre.
Isto não impediu, no entanto, a sua decoração interior e exterior, nem o
recurso a requintados processos de construção com o objectivo de,
simultaneamente, se corrigirem ilusões de óptica decorrentes da existência de
tantas linhas rectas, por um lado; e, por outro, de garantir ao edifício uma
maior estabilidade e segurança, tudo em nome da clareza, da proporção e da
harmonia.
Esta procura de equilíbrio está também presente no não menos famoso
Discóbolo de Miron, tal como muitas outras obras-primas da escultura grega
conhecida apenas através de cópias romanas. Nesta obra, o escultor captou o
momento entre duas fases do movimento de lançar o disco - estado de tensão
conhecido por isso como "momento mirónico".
Um outro aspecto importante nesta arte,
correlativo com o desejo de racionalismo e harmonia, é a teorização que os
gregos faziam das obras que iam produzindo: sabemos que Ictinos, um dos
arquitectos do Partenon, escreveu um livro, hoje perdido, sobre o processo de
construção deste templo; que com o Doriforo, o escultor Policleto exemplificou
os preceitos que referiu num outro livro, o Canon; que um século depois Lisipo
fez o mesmo, esculpindo o Apoxyomenos e estabelecendo um novo conjunto de
regras ideais para a escultura.
Esta manifestação de intelectualização da
estética é, afinal, a expressão da pesquisa apaixonada da beleza e do equilíbrio
existentes no ser humano, pois é este por excelência o assunto da Arte Grega,
mesmo se a figura humana aparece inúmeras vezes inscrita numa temática
mitológica que pode não o dar claramente a entender.
É precisamente para se obter um maior realismo na sua representação e no
ambiente que a circunda que cerca de 530 AC se verifica na pintura de vasos uma
mudança bastante importante: a substituição das tradicionais figuras em
silhueta negra pintadas sobre fundo vermelho por figuras vermelhas pintadas
sobre fundo negro, obtendo-se desta forma uma pintura bem mais expressiva
porque já então tridimensional.
O sentimento da dignidade do Homem,
exprimindo-se em oposição à barbárie, está presente numa temática muito querida
dos gregos e que podemos encontrar esculpida em alguns frisos do Partenon: o
triunfo da justiça sobre a injustiça, da democracia sobre o despotismo, da
liberdade sobre a sujeição, simbolizados nas composições escultóricas das lutas
dos Lápitas contra os Centauros e dos Gregos contra as Amazonas.
A arte grega constitui a expressão de um processo natural e
inestancável. É, nesta medida, uma arte de proposta, de tal forma significativa
que ainda paira, como recorrência e sublinhado, em muitos autores modernos e
contemporâneos (veja-se Picasso, a corrente neo-figurativa anglo-saxónica mais
actual, mesmo algum surrealismo não-daliniano) e que encontra repercussões na
própria escrita, no que esta tem de ático e luminoso (apolíneo) ou, no outro
lado da imagem, de convulsivo, em acordo com o clarão dionisíaco.
As influências recebidas, sobretudo as do próximo-oriente, foram
rapidamente incorporadas numa metodologia artística própria e utilizadas num
processo criativo autónomo. O racionalismo, a clareza, a justa medida e o
sentido da harmonia e da proporção mas também, na época helenística, a graça, a
elegância e o realismo, são - em conclusão - características fundamentais desta
arte de exaltação do Homem na sua dimensão mais profunda e na qual, como refere
Martin Robertson, o interesse pela Vida é um assunto central.
João Garção
(Licenciado em História da Arte, mestre em História Contemporânea de Portugal. Poeta, pintor, ensaísta e professor).

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