quinta-feira, 9 de setembro de 2021

António Cândido Franco, Surrealismo e teatro em João Garção

 


Zuca Sardan



   O surrealismo em Portugal está ainda hoje largamente por estudar. O único grande estudo que hoje sobre ele existe data de há quase trinta anos. Refiro-me ao trabalho de Maria de Fátima Marinho, O Surrealismo em Portugal (1987), que, se tem o mérito de ter procedido a uma vastíssima recolha de elementos que doutro modo mais longínquos ficariam, não conseguiu ser o trabalho que Mário Cesariny aguardava com exaltação desde pelo menos 1971, altura em que estava para se fechar um quarto de século sobre o primeiro voo surrealista em Portugal. Nesse ano, a propósito da edição portuguesa d’O Amor Louco de André Breton, em tradução de Luiza Neto Jorge, pronunciou-se ele assim sobre o estado em que o luso surrealismo se encontrava ante a crítica: Temos pois de concluir que não interessamos. Também é certo que não estávamos interessados. De qualquer modo, não parece normal que em 24 anos de existência o surto surrealista não tenha levado as consciências a nenhuma espécie de ensaísmo, crítico, interpretativo, histórico ou lírico, quando vemos pletóricos de tais mimos nomes ou movimentos que entretanto se sucederam.

Mágoa? Decepção? Surpresa? Talvez – mas outrossim constatação de que estariam para chegar, como normal se lhe afigurava então, os estudos da lusa ensaística sobre o grande surto surrealista do final da década de 40 e primeira metade da seguinte. O trabalho que acabou por aparecer, e mesmo assim mais duma década e meia depois, foi o já citado de Maria de Fátima Marinho. Recentemente foi dada a conhecer uma carta datada de 1989, em que Mário Cesariny se pronunciou de forma muito dura sobre a investigação de Fátima Marinho. Cito (carta de Mário Cesariny a Ana Maria Pereirinha, 14-12-1989, in Delphica, 2, Braga, 2014, pp. 146-151): O trabalho da Maria de Fátima Marinho é de uma nulidade aflitiva. O único caso de informação-interpretação pessoal, tipo achega de inquiridor, que ela apresenta, é erro total.

Aceite-se ou não este juízo, e no nosso caso não aceitamos, pois prezamos no volume de 1987 um caudal informativo que não pode ser deixado de lado, chega ele para se perceber, quando se pensa que depois do trabalho de Fátima Marinho pouco se adiantou, o estado lastimável em que se acham os estudos do surrealismo em Portugal. E não obstante o silêncio e o vazio, não obstante o desinteresse e o abandono, o surrealismo entre nós foi um movimento riquíssimo, que revolucionou por dentro a criação poética e plástica, juntando em torno de si duas ou três gerações, todas marcadas por altos espíritos criadores, e acabando reconhecido pelos pares internacionais como uma das manifestações surrealistas mais significativas de sempre. Veja-se neste sentido a boa atenção que o Portugal surrealista mereceu ao trabalho de Adam Biro, de René Passeron e dos seus muitos colaboradores, em especial Édouard Jaguer, no Dictionnaire Général du Surréalisme et de ses Environs (PUF, 1984, pp. 464). 

Essas primeiras gerações surrealistas portuguesas, que actuaram no final da década de 40 e nas duas seguintes, deixaram em herança um vastíssimo legado, muito mais vivo hoje do que qualquer outro do seu tempo, mau grado a marginalidade em que viveram junto dos grupos que lhe foram coevos na sociedade portuguesa – os neo-realistas, os existencialistas, os católicos, os sartrianos, os marxistas, todos eles muito mais presentes que o pequeno grupo marginal (e quase invisível em termos de atenção mediática ou académica) dos surrealistas. Logo em 1952, no prefácio que escreveu para a estreia poética de Carlos Eurico da Costa, “A Volta do Filho Prólogo”, num momento em que estava pronto para edição o manifesto colectivo Afixação Proibida e António Maria Lisboa havia dado a conhecer parte do seu trabalho, já Cesariny estava consciente da nada ordinária novidade que o surrealismo trazia à poesia em português.

Eis porque o estudo de João Garção nos interessa. Seria porém injustíssimo pensar que este trabalho ganha o seu lugar junto do leitor apenas por se posicionar num terreno em que, apesar de riquíssimo, tão pouco há. Ainda que muito houvesse, este estudo não perdia interesse nem lugar. Dividido em três partes, ele apresenta, nas duas iniciais, que funcionam como espaço de introdução, uma excelente síntese sobre as principais linhas de força, tanto fora de portas como dentro, dum movimento em geral lido de forma muito pobre e reducionista como momento estético de entre as duas guerras do século XX. Todas as questões fundamentais do surrealismo (do sentido do automatismo às posições políticas) e todos os problemas da sua aculturação em Portugal (da ditadura aos antecedentes – posto que sem Teixeira de Pascoaes) nos aparecem aí discutidos com propriedade e feliz clareza. Em nenhum momento é desprezível o que se diz.

O coração deste estudo de João Garção, O Teatro Surrealista em Portugal, está porém na sua terceira parte, dedicado ao teatro surrealista português. Se o surrealismo é mal conhecido entre nós, o teatro surrealista em Portugal faz figura de intruso irreconhecível. Ninguém dá por ele; a bem dizer, não existe. Foi preciso esperar pelo estudo de João Garção, apresentado inicialmente como trabalho curricular na cadeira de História do Teatro (regida por José Oliveira Barata) do curso de História de Arte da Faculdade de Letras de Coimbra, no ano lectivo de 1989/1990, para se perceber a pertinência do tema e a sua extensão em nada menos do que seis autores.

Não se julgue pois que a questão do teatro seja de somenos no surrealismo. Manuel Granjeio Crespo, no texto que abre O Gigante Verde (1965), entrevista anterior ao Jornal de Letras e Artes (11-9-1963), diz assim (p. XI): Pena Capital do Cesariny, que eu considero um dos raros textos portugueses de grandes possibilidades teatrais. O mesmo se pode dizer para muitos textos poéticos de André Breton. No texto de 1971 atrás citado, Cesariny dava por sua vez a entender que Portugal, ao ler Breton, se estava a livrar do seu lirismo professo. Ao invés do que apressadamente se pensa, o surrealismo tem uma vocação dramática muito mais significativa do que lírica, que retoma ou remonta às origens da poesia como canto do bode.

Festeje-se pois o pioneirismo de João Garção e saúde-se a publicação em livro do seu trabalho – que reputamos importante para o desenvolvimento do estudo do surrealismo em Portugal, tanto mais que depois dele parece que nada mais se adiantou no domínio do teatro surrealista.

 

(Prefácio ao livro de JG “O teatro surrealista em Portugal”)

Colecção “Cadernos surrealistas sempre”, dirigida por Maria Estela Guedes

Editora “Apenas Livros”


Sem comentários:

Enviar um comentário

Aos confrades, amigos, adeptos e simpatizantes

     Devido a um problema informático de última hora, não nos será possível fazer a postagem desta semana.    Esperando resolvê-lo em breve,...