Zuca Sardan
O
surrealismo em Portugal está ainda hoje largamente por estudar. O único grande
estudo que hoje sobre ele existe data de há quase trinta anos. Refiro-me ao
trabalho de Maria de Fátima Marinho, O
Surrealismo em Portugal (1987), que, se tem o mérito de ter procedido a uma
vastíssima recolha de elementos que doutro modo mais longínquos ficariam, não
conseguiu ser o trabalho que Mário Cesariny aguardava com exaltação desde pelo
menos 1971, altura em que estava para se fechar um quarto de século sobre o
primeiro voo surrealista em Portugal. Nesse ano, a propósito da edição
portuguesa d’O Amor Louco de André
Breton, em tradução de Luiza Neto Jorge, pronunciou-se ele assim sobre o estado
em que o luso surrealismo se encontrava ante a crítica: Temos pois de concluir que não interessamos. Também é certo que não
estávamos interessados. De qualquer modo, não parece normal que em 24 anos de
existência o surto surrealista não tenha levado as consciências a nenhuma
espécie de ensaísmo, crítico, interpretativo, histórico ou lírico, quando vemos
pletóricos de tais mimos nomes ou movimentos que entretanto se sucederam.
Mágoa? Decepção? Surpresa? Talvez – mas
outrossim constatação de que estariam para chegar, como normal se lhe afigurava
então, os estudos da lusa ensaística sobre o grande surto surrealista do final
da década de 40 e primeira metade da seguinte. O trabalho que acabou por
aparecer, e mesmo assim mais duma década e meia depois, foi o já citado de
Maria de Fátima Marinho. Recentemente foi dada a conhecer uma carta datada de
1989, em que Mário Cesariny se pronunciou de forma muito dura sobre a
investigação de Fátima Marinho. Cito (carta de Mário Cesariny a Ana Maria
Pereirinha, 14-12-1989, in Delphica,
2, Braga, 2014, pp. 146-151): O trabalho
da Maria de Fátima Marinho é de uma nulidade aflitiva. O único caso de
informação-interpretação pessoal, tipo achega de inquiridor, que ela apresenta,
é erro total.
Aceite-se ou não este juízo, e no nosso
caso não aceitamos, pois prezamos no volume de 1987 um caudal informativo que
não pode ser deixado de lado, chega ele para se perceber, quando se pensa que
depois do trabalho de Fátima Marinho pouco se adiantou, o estado lastimável em
que se acham os estudos do surrealismo em Portugal. E não obstante o silêncio e
o vazio, não obstante o desinteresse e o abandono, o surrealismo entre nós foi
um movimento riquíssimo, que revolucionou por dentro a criação poética e
plástica, juntando em torno de si duas ou três gerações, todas marcadas por
altos espíritos criadores, e acabando reconhecido pelos pares internacionais
como uma das manifestações surrealistas mais significativas de sempre. Veja-se
neste sentido a boa atenção que o Portugal surrealista mereceu ao trabalho de
Adam Biro, de René Passeron e dos seus muitos colaboradores, em especial
Édouard Jaguer, no Dictionnaire Général
du Surréalisme et de ses Environs (PUF, 1984, pp. 464).
Essas primeiras gerações surrealistas
portuguesas, que actuaram no final da década de 40 e nas duas seguintes,
deixaram em herança um vastíssimo legado, muito mais vivo hoje do que qualquer
outro do seu tempo, mau grado a marginalidade em que viveram junto dos grupos
que lhe foram coevos na sociedade portuguesa – os neo-realistas, os
existencialistas, os católicos, os sartrianos, os marxistas, todos eles muito
mais presentes que o pequeno grupo marginal (e quase invisível em termos de
atenção mediática ou académica) dos surrealistas. Logo em 1952, no prefácio que
escreveu para a estreia poética de Carlos Eurico da Costa, “A Volta do Filho
Prólogo”, num momento em que estava pronto para edição o manifesto colectivo Afixação Proibida e António Maria Lisboa
havia dado a conhecer parte do seu trabalho, já Cesariny estava consciente da
nada ordinária novidade que o surrealismo trazia à poesia em português.
Eis porque o estudo de João Garção nos
interessa. Seria porém injustíssimo pensar que este trabalho ganha o seu lugar
junto do leitor apenas por se posicionar num terreno em que, apesar de
riquíssimo, tão pouco há. Ainda que muito houvesse, este estudo não perdia
interesse nem lugar. Dividido em três partes, ele apresenta, nas duas iniciais,
que funcionam como espaço de introdução, uma excelente síntese sobre as
principais linhas de força, tanto fora de portas como dentro, dum movimento em
geral lido de forma muito pobre e reducionista como momento estético de entre
as duas guerras do século XX. Todas as questões fundamentais do surrealismo (do
sentido do automatismo às posições políticas) e todos os problemas da sua
aculturação em Portugal (da ditadura aos antecedentes – posto que sem Teixeira
de Pascoaes) nos aparecem aí discutidos com propriedade e feliz clareza. Em
nenhum momento é desprezível o que se diz.
O coração deste estudo de João Garção, O Teatro Surrealista em Portugal, está
porém na sua terceira parte, dedicado ao teatro surrealista português. Se o
surrealismo é mal conhecido entre nós, o teatro surrealista em Portugal faz
figura de intruso irreconhecível. Ninguém dá por ele; a bem dizer, não existe.
Foi preciso esperar pelo estudo de João Garção, apresentado inicialmente como
trabalho curricular na cadeira de História do Teatro (regida por José Oliveira
Barata) do curso de História de Arte da Faculdade de Letras de Coimbra, no ano
lectivo de 1989/1990, para se perceber a pertinência do tema e a sua extensão
em nada menos do que seis autores.
Não se julgue pois que a questão do teatro
seja de somenos no surrealismo. Manuel Granjeio Crespo, no texto que abre O Gigante Verde (1965), entrevista
anterior ao Jornal de Letras e Artes
(11-9-1963), diz assim (p. XI): Pena Capital
do Cesariny, que eu considero um dos raros textos portugueses de grandes
possibilidades teatrais. O mesmo se pode dizer para muitos textos poéticos de André Breton. No texto de
1971 atrás citado, Cesariny dava por sua vez a entender que Portugal, ao ler
Breton, se estava a livrar do seu lirismo
professo. Ao invés do que apressadamente se pensa, o surrealismo tem uma
vocação dramática muito mais significativa do que lírica, que retoma ou remonta
às origens da poesia como canto do bode.
Festeje-se pois o pioneirismo de João
Garção e saúde-se a publicação em livro do seu trabalho – que reputamos
importante para o desenvolvimento do estudo do surrealismo em Portugal, tanto
mais que depois dele parece que nada mais se adiantou no domínio do teatro
surrealista.
(Prefácio ao livro de JG “O teatro
surrealista em Portugal”)
Colecção
“Cadernos surrealistas sempre”, dirigida por Maria Estela Guedes
Editora
“Apenas Livros”

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