(1889-1959)
Francês e homem do mundo, foi um dos mais
constantes companheiros de André Breton.
Fez, tal como George Orwell, a Guerra de
Espanha integrado nos batalhões do POUM e das brigadas libertárias. Salvou-se por
um triz de ser assassinado pelos Serviços Especiais do exército a mando de
Stalin. Autor multifacetado e ateu assumido, deu a lume entre outros “A cabra
galante” e “Eu não como desse pão”. Foi casado com a pintora surrealista
Remédios Varo. - ns
TEMPO DIFERENTE
O sol da minha cabeça é de todas as
cores
É ele que ilumina as casas
de palha
onde vivem os senhores saídos das
crateras
e as belas mulheres que em cada dia
nascem
e em cada tarde morrem
como os mosquitos.
Mosquito de todas as cores
que vens tu fazer aqui?
O sol este sol
é para cães
e o calor sacode as montanhas
enquanto as montanhas nadam
sobre um mar pleno de luzes
onde o calor e o peso da vida
não existem
- onde eu não meteria nem a ponta
do meu pé.
A DOENÇA IMAGINÁRIA
Eu sou o cabelo de chumbo
que viaja de astro em astro
que se tornará em cometa
e num ano e num dia te destruirá.
Mas por enquanto não há dias nem
anos
existe apenas uma planta viçosa
de que desejas ser semelhante
Para ser irmão das plantas
é preciso crescer na vida
ser sólido quando na morte
Ora eu sou somente imóvel
e mudo como um planeta
Vou banhando os pés nas nuvens
que como bocas em volta
me condenam a ficar
entre os que parados estão
e que as plantas desesperam
No entanto um dia
os líquidos revoltados
lançarão para as nuvens
armas assassinas
manejadas pelas mulheres azuis
como os olhos das filhas do norte
E esse dia será dentro de um ano e
um dia.
(Tradução de nicolau saião)

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