segunda-feira, 8 de março de 2021

Dois poemas de José Pascoal

 

O MUNDO FECHADO

 

Não sei o que faço aqui,

Neste bocado de chão

Comido pelas formigas,

Nesta hora cinzenta

Como o asfalto gasto da estrada,

Nesta página atravessada

Por soluços e relâmpagos.

Não me interessam

As notícias do desengano

E do desempenho,

Não me interessam as vozes

Que clamam por doses bem servidas

De raiva,

Não me interessam os interesses.

Mas ainda não sei o que faço aqui,

A fazer de eu mesmo,

Porque sou eu mesmo

E o meu medo

De não ser reconhecido por ti

Na rua dos teus passos.

 

 

APARELHO AUDITIVO

 

Falamos muito do silêncio

E não nos damos conta do ruído

Das cidades em chamas.

 

Cantamos de cabeça descoberta

Canções antigas como a terra

Do fogo e do diabo.

 

Só ouvimos a música dos poços

E dos pântanos secos na memória,

Depósito de sombra.

 

Até que a Ceifeira nos seque a palavra.


Sem comentários:

Enviar um comentário

Aos confrades, amigos, adeptos e simpatizantes

     Devido a um problema informático de última hora, não nos será possível fazer a postagem desta semana.    Esperando resolvê-lo em breve,...