quinta-feira, 22 de outubro de 2020
segunda-feira, 19 de outubro de 2020
Para um minuto de meditação - 36
"O politicamente
correto é abominável, porque pode conduzir, exagerando um bocado, à destruição
da cultura"
Manuel Alberto Valente
Um poema de Marcel Delpach
SENTADINHO, PENTEADINHO
Uma
cara azul, pálida, ou se calhar
apenas
amarela, triste talvez como o som dos aviões que
passavam bolas de luz
pode dizer-se assim O que
amava
nesses tempos Olha dizia a Júlia os figos o
pardal a calhandra Olha. E o carro passava na
estrada
um touro luminoso desconhecido o calor
do
Verão e a noite rasgada enorme Mas ao longe
Uma
escuridão dentro um corpo redondo um
soluço
sentadinho penteadinho As borboletas paradas no
castanho
daquele olhar Fica tão feio
o tempo a chuva sobre as árvores a casa escura
e depois sempre sempre a vinha
sentadinho, penteadinho A criança que deitei à
terra como semente
como pó
de
pedra. E assim é que era o bom pálido
amarelo
assustava-se um pouco era um besouro entre
paredes de
coelheira de sementes
as mãos firmes finas mãos de antiga colhedora de
camomila. O burro com ar de
bom rapaz. Os
dois
andando dentro do túnel o pé do mais pequeno
batendo arrastando pálido amarelo o escuro do
pai
ressoando ressoando sentadinho,
penteadinho não
antes
não depois Um apelo sobre túneis sobre
silhuetas
sobre caras memórias acrescentadas azuis de
noites
e num ruído o mundo.
Fica
tão feio Como saber como de que maneira um
negrume medroso
um
negrume perto perto Anos de viva
camomila as
plantas têm outra
memória ainda que
sentadinho
penteadinho. Encantador o verde verde o
escuro
do peixe morto e
da
pedra da água do esquecido sol
e
voava esvoaçava as camionetas ruas
os tapumes
sobre um soluço pálida
pálida colhedora
de
pais de um gole de vinho de uma só estrela
amarela andando voando no Verão
rasgado na noite
azul na noite dia
penteadinho
sentadinho. Fica tão feio disforme. Criança
de chão ressoante de olhos e
mãos viajando em
fundo
encanto mas as mãos as cidades do amor molhadas
a
maravilha amarela folhas cobrindo-lhe a
água descoberta.
A água do pai a pedra do peixe vivo As
mãos coisas da noite no teu olhar um túnel entre
paredes. As maçãs luminosas.
Sons ardendo no
tempo
da tarde. Sentadinho. Penteadinho. E a sombra
toda nos taludes
e
os homens os homens imensos e de súbito de repente
o
verde da chuva
o
pai a mãe o túnel o pé batendo
ressoando tão belo
na
noite amarela na mão disforme no Verão
na porta
do
peixe escuro.
*
Marcel Delpach nasceu
em 1970 em Créteil, Paris. Poemas dispersos em jornais e revistas. Editou
depois “Vacances”, livro em verso e prosa. Exerce a profissão de analista num
laboratório.
A propósito da crítica
ns
“A Crítica?
Sim, sei de quem se trata: é uma que vai ali adiante, de vestido muito sujo e
chapéu às três pancadas. “
John Buchan
O assunto, mil vezes tratado de
forma ora desenfadada ora dramática, pode ser colocado sob que égide? A do
apego à decência, à verdade, à dignidade do que é viver, escrever, ser homem de
corpo inteiro e de cabeça bem levantada? Ou a do direito de informar e ser
informado de maneira cabal, verdadeira e não manipulatória, de aceder à Cultura
sem que os cínicos de sempre ponham imediatamente, ao ouvirem tal palavra, o
velho ar sofisticado de risota ou de fábula, como os canalhas mediáticos usam
fazer quando alguém cai na asneira, ou na ingenuidade, de proferir a palavra
honra?
Moderemos um
pouco, digamos, a nossa prosa ainda que nos excite alguma indignação. O assunto
seria de facto cómico se não fosse trágico. Ou antes: triste e equívoco. O
problema é que temos, talvez, a alma demasiado ardente, demasiado indagadora,
provavelmente mal adestrada para negócios escuros. Perdidos entre esperanças e
amores mortos - um deles a realidade, que já está mais que apodrecida neste
país - desejamos como que num desespero a alegria, a verdade dos tempos
recompostos, a beleza. Como aquele jovem e aquela senhorita dos romances. Se
calhar o problema é que de há muito o jogo, le grand jeu, não é mais que
uma imagem esfumada, um retrato desaparecido, passos que se afastam na noite
dura e adversa. A crítica? Sim, sim, em geral uma excelente pendura...
No que me diz
parte, estou de alma branca: tenho tido razoáveis críticas, o que se chamam
“boas críticas” se não formos maliciosos, mal formados ou simplesmente difíceis
de contentar. Ou seja: na maior parte dos casos um bocadinho de açafrão, um
cheirinho de pimentão, um trago da “rija”. Resumindo: coisas que fundamentam
umas horas de prazer gastronómico. Não tenho pois de que me queixar. O meu
relativo desapego, a minha críptica olhadela é inteiramente motivada por razões
de mínima decência.
Vogamos em pleno
oceano deserto. O da poesia, o da escrita. As provisões começam a escassear, ao
longe no vasto mar não se distingue a brancura de uma vela, a nossa escuna
desapareceu e só dispomos deste pequeno bote. Nem se divisa o rasto de um
corsário de bons fígados, estamos entregues a nós mesmos. E no entanto...
E no entanto, de
súbito, como vinda dum sonho, aparece uma linha de costa. Coragem, um esforço
mais, chegámos a terra firme. Eis-nos já na orla do bosque.
E então começam
as realidades inquestionáveis a deixar ver o seu perfil difuso, algo começa a
fermentar e sente-se que se juntaram sujeito e predicado em estranhos
conciliábulos, em frases de esquisitos recortes. Talvez não seja ainda o “que
horror!” de Margarita no livro de Bulgakov, mas é já decerto o “uns belos
trastes”, quiçá algo injusto, de Péret. Porque é difícil divisar-lhe nos horizontes,
a isso da crítica cá da nação, o sul e o norte, a matéria provável e desejável
de que seriam feitos os mais belos sonhos de uma realidade não poluída.
A evidência, como
se compreende, consiste nisto: a crítica é, como dantes se dizia da tropa, o
espelho do país. E quase tudo daí decorre. E daí tudo parte: os críticos
altissonantes e vazios, mas palavrosos e espertalhões, iguais aos políticos e
aos filhos-de-algo vazios e altissonantes que nos arrasam a paciência com as
suas mentirolas e o seu arrazoado de vendedores de banha-da-cobra.. Os que são
competentes e modestos, como certos homens públicos sofredores e esforçados,
membros duma raça em vias de extinção na coisa quotidiana.
Há a crítica que
se lê nos jornais. Muitas vezes simples aparelho de aferição, mais ou menos
galhardo ou gaiteiro mas que podia ser - e nos melhores casos é - algo de
suscitador, de exaltante, de nobre e de digno que não envergonha quem a lê e
quem a escreve. Mas, em grande parte, trata-se de pequeninas traves duma casa
onde já se instalou o incêndio, cocabichices sobranceiras de pequenos
empafiados, ignorantes e patifórios nos casos limites. Em suma, pedacinhos não
inermes de alguma arrogância ou de seguro fingimento. A sensação que se tem,
frequentemente, é a de que se trata duma encenação fraudulenta, duma espécie de
jogatana para capangas dum milieu de bairro de má fama revestido de
ouropéis de pacotilha.
No entanto é
amorável conseguirmos distinguir nesse lume uma, ainda que transitória,
iluminação. E por vezes vê-se mesmo, distingue-se por detrás de algum
constrangimento (certas chefias têm um poder discricionário), traçado em dez ou
vinte linhas, o percurso justo e adequado do que uma obra é, do que representa.
Aqui e ali descortinam-se saberes e honestidades, o apego a uma real
descriptação duma caminhada, a adesão fremente a um futuro verdadeiro e certo.
Mas para estas pepitas, quanta ganga excrementícia, quantos ademanes espúrios e
quantas arlequinadas que nos fazem enrubescer. E já não falo da pura
ignorância, da pura desvergonha, da pura falta de senso. Da pura – não tenhamos
medo das palavras – pesporrência e da simples e boa maldade.
Já que mo
perguntam, o que é um crítico, ou antes: o que devia ser? Tenho para mim que um
ente que acredite mesmo, co’a
figura inteira, na sua actividade de guia bem informado, um ente de boa-fé
realmente empenhado em saber e em dar a saber aos outros o que há por ali - por
aquela poesia, aquela música, aquela pintura, aquela prosa - que constitua
tesouro, fruto e mistério encantador. Assim como uma espécie de missão
tranquila e honesta? E porque não? Nisto não cabe nenhuma espécie de moralismo
e sim de uma ética. Acaso o cinismo espertalhaço e lusitano já retirou do nosso
vocabulário (dizem-me do lado que talvez sim) palavras como decência, saber,
imaginação e outras mais que não recordo ou simulo não recordar – porque têm a
ver com a honra de se existir, de se viver acima da lama, de se andar de rosto
erguido entre réprobos ou malandrins?
Críticos por
dever de ofício? Sim, se tiverem o fulgor de um Sainte-Beuve, de um Silone ou
dum Claude Roy. Mas triste mester, vergonhosa tarefa a de acatitar eventuais
jogos de editoras, de grupos de pressão, de castas sedimentadas num país de
tartufos. Valer-lhes-á a pena semelhante trabalho?
E há também a
crítica encorpada em livros, em cartapácios. E que é um gosto ler quando severa
e argumentada, feita por homens de uma só cara. E há alguns que a praticam,
parece que com um impulso vindo das tripas e das meninges. Mesmo que, aqui e
ali, pontapeado e ferido pelo mal de vivre da sociedade portuguesa, que
é uma coisa repelente e sinistra, tenaz como aquelas sujeiras que se nos colam
aos fundilhos.
Poucos são os
exemplos, muitos os fados, imensos os desvigamentos que os rodeiam. É assim de
estranhar que alguns próceres entreguem os pontos e se rendam à mundanidade
trombeteada por altifalantes de potente recorte? É que não pode ser por
estupidez, pela santa estupidez que nos fulmina. Ninguém pode ser tão tolo
assim. Sigamos, como dizia o “Garganta Funda” da película de Oliver Stone, “a
pista da massinha e deixemo-nos de filosofias...”. Aí se encontrarão muitas
descriptações tendenciais.
Por outro lado,
esse encordoamento, essas “calosidades morais” a que Fitzgerald aludia,
serão devidas a um tom hirto de escola ou de vezo universitário? De novo, do
lado, me dizem que talvez sim, mas daí não viria mal ao mundo se os exemplos
fossem entusiasmantes e consistentes. Mas em geral são taciturnos e duram pouco
mais que a hora clássica das rosas do lírico francês. Quem pode, por exemplo,
ler hoje as obras pretéritas de um conhecido figurão mediático sem um riso de
escárnio, essas obras cobertas de citações, de espertezas saloias, de frases
esgalhadas apenas para abater o presumível adversário? Para colocar no pequeno
Olimpo deste triste parque dormitando à beira-mar determinados vates que não
podemos, apesar de com carradas de razão, apelidar de poetinhas – que é o que
eles são – sem ficarmos passíveis de cadafalso?
No fundo, a nossa
voz – se a pudéssemos soltar – seria não mais que a voz pobre contra as vozes
que sem cessar rolam nomes pelas quebradas, pelos largos e praças, pelas
tabernas do reino onde se fazem reputações. Porque o penoso é também isto: a
crítica servir para fazer reputações...
Vejo na crítica -
quero eu dizer, gostaria de ver na crítica - uma ajuda real, inteligente e despreconceituosa
para entrarmos melhor nos universos propostos pelos autores, sem facciosismos
nem atitudes de baixa política. Para jogarmos a dois, digamos, a aventura do
conhecimento e, mais tarde, das linhas de sombra da sabedoria possível. Para
compulsarmos, talvez, numa casa solitária, ante o espelho onde o Eterno parece
que irá aparecer um dia, o nosso próprio rosto, a nossa própria figura. Uma luz
ardente que nos devastasse o rosto com súbitos clarões, para que pudéssemos um
dia surgir com a verdadeira figura a que o nosso ter vivido, o nosso ir vivendo
com a escrita nos concederia direito.
E, afinal, o que visam oferecer-nos na melhor das hipóteses é apenas um
lugar numa espécie de campeonato de competências...
Gostaria de
dizer, a finalizar, que vivo - por decisão do destino - afastado dos grandes
meios lusitanos, que aliás quase nunca visito. Habito lugares entre as serras
alto-alentejanas e os desertos do sul de Espanha. Aí tenho as minhas casas, que
são casas de dentro e de fora. Falo a partir do que me chega em ondas, em
revoadas trazidas pela voz de um amigo, por uma que outra revista oferecida ou
por vagos periódicos, uma vez que quase só leio jornais espanhóis. Creio por
isso que não conheço exaustivamente, in loco, os exactos meandros do
assunto que busquei abordar. O meu trabalho profissional, específico,
permite-me ir vivendo magnificamente isolado. Não vejo a chamada televisão, que
detesto, embora veja inúmeros filmes a partir dos programas por cabo. Não
frequento a sociedade, que aliás não desprezo nem odeio, com os seus ritmos
calhordas e de uma videirice a toda a prova – os meus amigos são os minerais,
os vegetais e os animais a que, com os familiares de sangue ou de ritmo vital,
estou ligado e que me sustentam. O que intuo, entretanto, para além do que vou
sabendo intermitentemente, não é contudo de molde a tranquilizar-me. E isto
porque detesto a falsidade – nomeadamente a de um certo universo da crítica que
tenho por aproximativa ou pesporrente nos seus considerandos pouco desembaraçados.
Aqui há dias, num
periódico lido na casa de um familiar, topei com a prosa de um fulano que dizia
serem “inanidades” os belos poemas de José Luís Puerto (que não conheço), dados
a lume na “Apeadeiro”. Comprovei ser este o estilo fuliginoso usado em certos
meios críticos. Que defesa haverá para uma opinião de tal jaez? O vómito urbano
desculpará ou explicará coisas assim?
No cartão onde
cortêsmente me convidavam a opinar, deram-me – como a todos – espaço até às
trinta páginas. Nunca poderia lá chegar. Tal como Marie Noel não sou uma árvore
nem sequer, talvez, uma planta útil. Estou sim ao lado da urze, do heléboro, do
serpão. Intelectualmente, não consigo viver em bosques tranquilos.
E, apesar de
tudo, para minha alegria e inquietação simultâneas o sol continua a brilhar
sobre todas as coisas - até sobre imundícies que alguns propagam.
nicolau saião
quinta-feira, 15 de outubro de 2020
Para um minuto de meditação - 35
“(…) É absolutamente claro que Homens e Mulheres são
geneticamente, fenotípica e fisicamente, bem como psicologicamente, diferentes,
e tudo isto de uma forma complementar.
É por isso que a
Ideologia do Género é uma ideologia totalitária, usada como instrumento para
doutrinação e linguagem homossexista e experimentação social. Corrompe e
destrói vidas, casais, famílias, crianças, igualdade, coesão social, sociedades
e no fim a própria humanidade.
Sousa Pinto acertou
em cheio quando desmascarou o arauto da esquerda mais totalitária (Daniel
Oliveira) ao dizer-lhe que era um “troglodita de esquerda” com “uma cabeça
totalitária” que usa a “técnica da amálgama” para insultar os seus adversários.”
Abel Matos Santos
José do Carmo Francisco - Poema para José Pereira, o pássaro azul
«E ainda me devem seis
contos»
Ouvi eu esta sua frase
magoada
A única vez que consigo
pude falar.
Uma
resposta à sua difícil saída
Foi
para o Beira-Mar, o de Aveiro
Lá
pelos idos de sessenta e sete.
Mas nada acontece por
acaso aqui
Mário Duarte foi o primeiro keeper
Da equipa de cruz de
Cristo em 1919.
Há
quem teime em ver o seu perfil
Todas
as manhãs frente ao Mosteiro
E
de costas para o Centro Cultural.
Tudo isto tem a sua razão
de ser
No país de doutores e
engenheiros
E de mortos que falam em
Belém.
Dizem
eles que morreu há um ano
Mas
eu não acredito em ninguém
Só
quando lhe pagarem seis contos.
José
do Carmo Francisco
Santos Fernando, Viagem à volta dos prefácios
Dezassete
anos (1) depois da sua morte caiu
sobre a obra de Santos Fernando (1927-1975) um silêncio tenebroso. É tão
difícil encontrar nas livrarias os treze livros que publicou como encontrar nas
revistas e jornais literários um texto de estudo e divulgação da sua obra. Esta
pequena viagem à volta dos prefácios dos seus livros surge como um alerta a
quem ainda não o descobriu e uma chamada de atenção a quem já conhece. Todos
sabemos o significado da palavra «prefácio» (discurso preliminar, inserto no
princípio de um livro) mas Santos Fernando utilizou o prefácio como instrumento
privilegiado de comunicação com o leitor: neles se pode descobrir o perfil
biográfico ao lado da nota sobre a sociologia da literatura, relações com a
crítica, problemas da fortuna editorial e da precária posteridade. Sem esquecer
um olhar sobre os disparates do Mundo. Sobre a biografia lê-se em Os Cotovelos de Vénus: «Dizem que nasci
em Lisboa, na Travessa do Moinho de Vento à Lapa, no dia 22 de Janeiro de 1927,
num quarto exíguo onde mal couberam as três balas disparadas da Cova da Moura,
onde se cozinhava uma revolução» E em Areia
nos Olhos: «A nossa rua é algo que, mais tarde ou mais cedo, começa a
significar alguma coisa para nós. A sua calma secular, aureolada por uma
tradição de suspiros de amantes, escondidos em arcas encouradas, vejo-a agora
fugir em montões de terra e pedra, que estrondosas viaturas transportam num
frenesim apocalíptico.» Sobre o ofício de escritor lê-se em Os Cotovelos de Vénus: «O escritor,
parte integrante da vida da sua época, observador firme no meio social, bastas
vezes insociável, não pode desempenhar o papel frio e frívolo que volta as
costas à cena. A sua missão lógica é estudar a geração a que pertence, de molde
a auxiliá-la, gritando-lhe os podres, caricaturando-a, amando-a, em suma.» Mais
tarde, em As Uvas Estão Maduras: «A
literatura é uma arte famélica numa época de simbioses, mitos e contrastes –
opinião para a qual se pode fornecer o seguinte exemplo: naquele prédio há um
agregado familiar que morre vítima da fome e uma família que rebenta de
indigestão.» Finalmente em Sexo 20:
«Não se escrevem já livros extensos. Livros longos e mulheres enormes, assustam
e o homem deixou de ter tempo para leituras excessivas.» Sobre o problema da
posteridade descobrimos em Areia nos
olhos: «Convencionou-se deixar passar o préstito dos artistas para, após
terceira badalada, se invocarem então as glórias do defunto, depois da crítica
severa dos íntegros infalíveis os ter apunhalado em vida. E eu pergunto: será
fundamental, imprescindível chegar ao estado de fertilizante, de repolho, de
fóssil, para finalmente se nascer?». Ou em As
Uvas Estão Maduras: «Explorado como uma mina de antracite resta ao escritor
a imortalidade que, se um dia chega, é já muito depois da transladação dos ossos,
dos poucos, ainda assim, que resistiram aos prodigiosos roedores.» Sobre a
importância dos prefácios lemos em A
Bolsa do Canguru: «Perguntar se alguém costuma escrever os prefácios dos
seus livros ou dá-los a outros para que os façam não será o mesmo que inquirir
duma pessoa se manda fazer os filhos ao estrangeiro?» Já em As Uvas estão Maduras escrevia: «Eu
gosto dos prefácios rosados, redondos, rijos como os seios que despontam às
jovens colegiais, quase sem darem por isso, entre as aulas de ginástica e de
físico-química. O prefácio é o meu living
room. Onde eu aguardo os amigos. Os que gostam de dois dedos de conversa.»
Em Os Cotovelos de Vénus reafirmava:
«Escrevo estas linhas porque estimo os prefácios que são para a literatura o
que um beijo é para as grandes paixões. Mas um prefácio nunca transmitirá
bacilos.» Em Seis Gramas de Paraíso
advertia: «O Mundo é, às vezes, pequeno para os Homens que cresceram demasiado
e – sobretudo – para os que incharam soprados pelo fole hiperóxido da toleima.
Talvez que num Mundo hipotético mas bem intencionado, as falsas convicções de
vaidade se vistam com o rigor da modéstia; os problemas da matemática diária se
resolvam no quadro negro da branca equidade…» E em Areia nos Olhos denunciava o esplendor gritante da nossa época:
«Noites de núpcias de alta roda, ventiladas pela revista mundana, até ao
pormenor rendilhado da íntima cueca; espirros de magnate com repercussões de
abalo telúrico; frases desmioladas de um médio-centro lançadas à venta do
indígena como relevantes descobrimentos científicos…» Mas se é preciso
defrontar o Mundo com Humor – o que é o Humor? Talvez aquilo que diz o prefácio
de A Bolsa do Canguru: «Eça de
Queirós afirmava que uma só gargalhada chegaria para abalar uma instituição mas
isto só é adaptável à nossa época se a instituição estiver a cair de podre.» Ou
mais adiante no mesmo prefácio: «O humorismo, muitas vezes, não é uma
gargalhada mas um silêncio que se faz à sua volta. Beaudelaire era da opinião
de que o riso é provocado por uma quebra de equilíbrio.» Como nota final estas
duas frases amargas dum autor que teve um livro publicado no Círculo de
Leitores em 1971 (Consolação número três)
no qual afirmou: «Com quem eu me entendo ainda melhor é comigo mesmo. Quando
não estou irreflectidamente ao pé de mim.» No prefácio de Sexo 20 advertia: «A cozinha é o cérebro dos povos; o coração a
alcova. As bibliotecas foram condenadas.» Anos antes em Os Cotovelos de Vénus tinha sido profético: «Morrem breve os que,
escrevendo para viver, acabam por escrever do mal que vivem.»
OS
LIVROS DE SANTOS FERNANDO
A, Ante, Após, Até
(1957), Seis gramas de Paraíso
(1959), A Bolsa do Canguru (1961), Areia nos Olhos (1963), Os cotovelos de Vénus (1963), Tempo de roubar (1964), As Uvas estão Maduras (1965), Consolação número três (1968), Os grilos não cantam ao Domingo (1969), A sopa dos ricos (1970, Absurdíssimo (1972), A árvores dos sexos (1974) e Sexo 20 (1975)
(1)
O
texto é de 1993 (Revista Ler nº 22) e entretanto foi publicado (Editora
Sulfúria) o livro «Sexo 20»
José
do Carmo Francisco
segunda-feira, 12 de outubro de 2020
Para um minuto de meditação - 34
“Os fundos da EU estão
para Portugal, como o petróleo está para a Venezuela.
Costa está a conseguir,
através da corrupção, fazer de Portugal a Venezuela da Europa.”
António Ferreira
Um poema de Jacques Borel
A ROSA
De uma a outra rosa vão e
vêm as abelhas.
É o mesmo antigo dia de Verão no roseiral,
E eu respiro de novo na extensão virgem, ensolarada
Onde como sempre as borboletas estendem as suas asas de oiro
E param um instante entre os lábios da rosa
Vacilante contra o muro cheio de sol.
Um só murmúrio de junco, um só suspiro, um
só sorriso
E nunca nada cessou de ser o que era. Existe ainda
este minúsculo farrapo de céu, esta fenda na parede
Uma andorinha que passa e sobrevive ao seu grito perdido
E o sorriso terno de minha mãe encolhida no seu vestido.
Rosa, fui eu alguma vez o hóspede do
tempo?
Esta sombra de um perpétuo cipreste no meu coração
Foi mais curta ou mais longa?
Onde está o sol que nasceu e desapareceu
E a espuma dos dias mortos ao pé de anónimas encostas?
Muros do dia, porta perfumada, parede de
pétalas,
Não há recordações, jamais algum presente se foi
Os mesmos olhos miram sempre no mostrador a mesma hora
A mesma mão tece e destece o mesmo eterno tapete
E nem a memória nem o adeus sabem já o que dizem
A esta criança eternamente curvada sobre a mesma rosa imóvel.
- Esta borboleta suspensa que não voou nunca.
Jacques Borel
Trad. ns
As espécies poéticas
Sabe-se que há pessoas felizes - segundo me
confidenciou o meu assistente de bordo, que por coincidência crepuscular ou
madrugadora ainda é parente do daimon
do pensador grego - que colhem os seus textos (poemaria sentimental ou
quotidiana, versalhada esotérica com e sem rima, naco de prosa ou entradazinha
diarística relativamente sobranceira ou merencória) ao deambular pelas ruas, no
escuro dum parque, à porta duma estalagem ou na dulcíssima e profícua casa-de-banho
duma amante ocasional ou dum consistente companheiro de estúrdia.
Assim como quem apanha, de passagem, no
estrépito gratificante de um bar de luxo, meia-dúzia de amêndoas torradas ou um
punhadinho de ervilhanas descascadas ao passar pelo balcão a caminho duma mesa
onde os convivas o esperam com as peças de resistência.
Pelo menos é o que se extrai, se bem lidos,
da frequentação de alguns autores e de matérias de aturado estudo de costumes,
de enviesados momentos de profunda criação (alheia) que nos fazem, nos melhores
casos, salivar com apetite.
Dizia Guillaume de Poitiers, numa bela tarde
que também pode ter sido noite ou manhã, que fizera um poema de nada. Por seu turno, Saint-John Perse
afirmou algures que a sua aspiração maior era fazer um poema sobre nada. Seria o nada que é tudo como artilhou o sagaz e melancólico portuguesinho
de Durban (South África)? Mas é claro que por detrás destas pequenas e
aparentes boutades vive e
sobressalta-se uma profunda contemplação do Universo das probabilidades, no
género das que Bernard Trevisan punha no seu tempo em equação.
E, detalhe profundamente contemporâneo mas
conjunturalmente inquietante embora sem metafísicas, tende imensos cuidados vós
que me ledes: se mal vos precatardes, pelo descuido dum dedo podereis mandar
interactivamente para a inexistência definitiva e sem piedade um lindíssimo
trecho que acabastes de escrevicar, o que pode dar choro e ranger de dentes sem
ponta de literatura dramática. Em tudo terá também de haver, sem desdouro, um
pouco de ternura!
A verdade é que, nos tempos mais chegados,
por mor da modificação de usos societários (?) sai-se para o lirismo como se
sai para a caça. E, conforme me esclarecem, isso dá-se tanto em Chicago como em
Bruges, tanto em Edimburgo ou Lyon como no Funchal, no Porto, em Nápoles, em
Lisboa. Serão aspectos da mundialização, do aquecimento global dos corações e
dos cérebros postos à prova pelos que traçam (os Bielderbergs? os Opus Dei? os
aqueles que nem é bom nomear para não se ficar feito em estilhas?) as nossas
folhas de destino sobre o planeta?
(Antes de passar para outro continente,
continuando todavia a juntar alhos e bugalhos, permitam-me entretanto que
proceda a alguns agradecimentos completamente filhos de uma comoção muito aparentada
com certa inocência que me foi escapando devido à safra dos anos e às más
companhias que sempre nos estorvam antes de as pontapearmos com decisão: a Axel
Munthe por ter escrito tudo o que escreveu; a Mikhail Bulgakov por não ter
escrito o que queriam que escrevesse; a Jean Husson por ter andado pouco com os
gandulos das letras com quem queriam aparentá-lo; a Silver Kane por ser também
Enrique Moriel e Francisco González Ledesma, além de possivelmente outros na
vasta pradaria dos seus afectos; a Alain Decaux por ter narrado, em directo e
de viva voz na televisão, todas as suas surtidas históricas que só depois,
razoavelmente mais tarde, iria passar ao papel – feito notável que só um herói
das letras conseguiria; a Sherlock Holmes e Poirot por terem existido; a Conan
Doyle e Agatha Christie por não terem existido, excepto com a lupa e o cachimbo
e o bigodinho roubados às suas criaturas; a Cézanne por ter sido apenas pintor;
a Schubert por ter sido apenas compositor e músico; a Malte Laurids Brigge por não
ser nem um a coisa nem outra; por último, mas não finalmente, a Rilke por ter
sido tudo inclusivamente secretário particular de Rodin, que como poderia
escrever outro companheiro da corda não entrava nesta estória; e a alguns
ibéricos e lusitanos por o terem continuado a ser, não sendo alanos ou mouros).
Mas dizia eu que se vai saindo para o
lirismo como se sai para a caça. Nos últimos anos de civilização certos
quadrantes aumentaram extraordinariamente o apuro da sua pituitária espiritual.
A mistura em partes desiguais de carne de primeira e de segunda, ou mesmo de
terceira ou quarta, vem permitindo uma transubstanciação que muitos julgariam
inimaginável. Os gourmets da
literatura não são, evidentemente, todos do mesmo género. Há felizmente nuances compensadoras. E se é um facto
que se subdividem em dois grandes sectores – o escarlate e o cinzento, sendo o
primeiro de tendência devoradora e o segundo raciocinadora – isso não implica o
desaparecimento dos que vêem na poesia algo mais que uma tarefa ou uma
fatalidade. Por enquanto – o panorama pode mudar.
Há contudo variações insuspeitadas e não
estou a lançar uma indirecta, garanto, àquele ensaísta genial que uma vez vi ao
vivo numa sessão em Cascais e que afirmou com pujança que nunca nada tinha sido
criado no programa do Bernard Pivot, o que não o impediu de um mês depois lá
ter estado a convite, de face risonha e radiante e engrolando seus conceitos
lusos que ora se engelham ora se distendem como se fossem bonecos insufláveis.
Há o lirismo para comemorações patrióticas
progressistas ou casamenteiras de estadão, para desforços conservadores, para
amores infelizes, para gestos sociais diversos; o lirismo circunspecto,
diríamos universitariante, em timbres
secos e escanhoados, preciso e conciso como o relatório de um conselho de
administração, ou o mais exaltado ainda que científico,
sendo este uma variante algo descabelada do anterior. Digamos – mais pão pão, queijo queijo.
Segundo julga saber-se, há poemas que não
convém serem deglutidos de manhã: pesam no bucho, criam soluços e azia. De modo
que é mais aconselhável tomá-los à tardinha, quando os apetites já se
locupletaram com meia dúzia de canalhices bem rimadas ou uma pratada de sonetos
à marinheira ou com todos os
matadouros.
A
verdadeira vida está ausente, dizia Rimbaud. Ausente, no entender de alguns
gastrónomos que por vezes também versejam – gastrónomos premiados, se calha,
pelos salões de jantar letrados - como as narcejas, as galinholas, as lebres e
as perdizes. A caça espiritual ainda
será, se os fados ajudarem, uma realidade peculiar.
Em certas alturas, o pesquisador-amador das
várias espécies poéticas está particularmente inclinado para a amável prática
desta salutar manducação: de alma à bandoleira, com boas reservas de cartuchos
de escolaridade obrigatória no cinturão, facanejo de aço carbónico na ilharga,
ei-los que partem para os lugares apropriados.
Nos montes e valados distinguem-se então
minúsculas figuras movendo-se ora ágil e graciosamente, ora mais pesadamente;
uns mais ardilosamente que outros lá se acocoram, armadilham, tocaiam, simulam.
E finalmente estendem a presa com dois ou três certeiros balázios.
No fim, chegado o crepúsculo, aconchegadas as
matilhas no palheiro ou no pátio, ao redor da grande mesa de madeira de pinho
grosseiro ou de carvalho mal desbastado, abancam os amantes desta actividade
venatória. Todo o dia o sol lhes ondeou sobre as frontes, queimando-lhes as
faces, crestando-lhes os olhos e a vivacidade. Uma paz muito suave os prende
agora à fraternal roda de congéneres. Da cozinha já chega até aos narizes dos
convivas o cheiro picante dos pitéus: Camões guisado, Lorca salteado, Antero
com rodelinhas de paio, Neruda com alcachofras na caçarola, Pessoa com vinho
grego, Régio frito com batatinhas às rodelas, Pascoaes assado com uma gota de
limão prudente. (Eugénio, por distracção da cozinheira, primeiro ficara meio
cru, depois demasiado passado).
No fim virão as sobremesas diversas: vates
novos, postos em remolhão de vinho do Porto durante horas, a embeberem-se, para
fazerem contraste com as arrufadas de Coimbra e as queijadas de Sintra
espirituais, com sabores e com doçuras a dar para o selvagem e o inusitado (e
que até requentadas calam no gosto, entrada a hora da ceia).
Lá fora crescem luzes no céu: Sírius, Canis
Minor, o sete-estrelo, o brilho nostálgico de Vega que na Caldeia inspirava
magos e arquitectos (talvez, como alguns cá, traçando por vezes seu versinho no
fim dum lauto repasto).
Se o tempo é de grilos, ralos e cigarras
ei-los que cantam ajudando à festa. Mas sempre, por sobre a massa pura das
árvores e o negrume palpitante da noite estrelada, se expande um ruído difuso,
amplo, que conviria ser – para que tudo estivesse a carácter – o filosófico
rolar das esferas do universo.
Seja como for, tenho para mim que as
espécies poéticas ainda irão estar intensamente noutros locais privilegiados e
privilegiadores – e que possibilitarão menos canseira - as grandes superfícies
comerciais aprazíveis e acolhedoras onde por ora praticamente só se mercam
produtos para bater: romances,
novelas, robustas casquinadas políticas, memorialismo relativamente pindérico.
Mais frescas e nutritivas (porque sujeitas
ao congelamento eficaz e benéfico que lhes preserva os elementares), mais
baratas e abundantes, terão ademais o aliciante do diploma e certificado de
garantia. É aliás assim que tem de se proceder em sociedade organizada e
moderna. Claro que a caça pode continuar, deve continuar, ninguém pretende
hostilizar a surtida cinegética. No entanto dá obviamente um certo conforto
saber-se que há nas bancas, estimuladas pela tecnologia, espécies prontinhas
para a festança quando calham de ser subitamente desejadas.
Enfim, será um quadro apropriado onde poderá
talvez, até, achar-se um bom naco de felicidade. Havendo, mesmo, lugar para as
surpresas porque existirão concerteza aspectos não contemplados nos manuais de
civilidade obrigada a mote. Poderão inclusivamente propor-se, pelo seguro,
interessantes variações: sonetilhos escalfados, elegias torradinhas, odes com
mel e pinhões, haikais empapados em uísque ou no proverbial saké para os
puristas. O espanto ganhará o seu justo lugar na sensibilização das línguas – mesmo
mortas – através de uma ou outra distribuição fortuita mas enquadrada de
provérbios e redondilhas.
Entraremos no domínio da poesia quase
perfeita, ora de cariz labirintiforme ora de raiz levemente mística. Às tantas,
subindo verticalmente na bolsa de valores da existência como as pirites
neo-zelandezas ou o café do Calulo.
Um tom rosado irá paulatinamente cobrindo as
faces outrora lívidas dos cidadãos alfabetizados.
E tudo findará, evidentemente, por uma
poderosa manducação geral só detida nos limites da antropofagia.
Bastante épica.
ns
quinta-feira, 8 de outubro de 2020
Para um minuto de meditação - 33
“O
ateu é, em geral, um homem mais simples no convívio do que o praticante das
morais imperativas, - assim como a moralidade dos povos fanatizados pelas
religiões é, de ordinário, inferior à dos povos guiados por um reduzido corpo
de preceitos éticos.
Um ateu nunca teria colaborado na intriga
que justificou o extermínio dos Templários, nem teria organizado uma matança
tão canibalesca como a dos albigenses”.
Sant’Ana
Dionísio
Cristovam Pavia, Antologia
SOBRE
CRISTOVAM PAVIA
Fez no dia 7 deste Outubro 87 anos sobre o
nascimento do Poeta (que faleceria a treze do mesmo mês em 1968).
Recordado foi-o por alguns, os que sem dúvida
amam a sua poesia luminosa e perturbadora na sua quase ática simplicidade tão
cheia de uma vivíssima interpelação ao mundo, às coisas, aos pequenos
fragmentos de uma existência cifrada em amarguras e ocasionais alegrias de
alguém que, tal como seu Pai Francisco Bugalho, não viveu tudo quanto quis ou
quanto merecia.
Mas, no geral do que se convencionou chamar mundo das
letras, não houve – porque não podia haver num areópago de escada-abaixo
como é o que nos rodeia – conveniente celebração. O que é compreensível, pois
os Poetas também vêem medida a sua grandeza, frequentemente, menos pelo ruído
que pelo silêncio - e a sua melhor honra está precisamente nisso. O mesmo se
fez, em diferentes lugares, com Bruno Schulz, com Hans Carossa, com Nuno
Guimarães, uma vez que as mundanidades literatas se dão mal e ainda bem com os
que só têm de seu o alto talento tão alheio a notoriedades de baixo calibre
festejadas pela pedantice literata de determinados milieus societários.
***
Dizia o célebre inquisidor-mor de
Richelieu, com um cinismo não isento de senso de humor, “Dai-me uma frase
qualquer e conseguirei que ela ponha um baraço ao pescoço do seu autor”. E
embora se trate aqui de poesia e de um poeta, talvez faça sentido suspender a
respiração por uns segundos.
Porque, com efeito, a poesia é um perigoso
ofício. E se não pelas partes de fora, pelo menos pelas partes de dentro.
Será verdade que os poetas são sobreviventes?
Talvez sejam - sobreviventes do tal
lugar onde se acoita a verdadeira vida a que aludia, entre outros, o
sobrevivente de Charleville (Rimbaud). A poesia será também, assim, uma certa arte
das retiradas, a forma mais pessoal de combater a adversidade. Quem diz pessoal diz eficaz. Eficaz,
na verdade, porque nisto de coisas de dentro temos de nos haver com
presenças muito mais perigosas que os habituais fantasmas do quotidiano. Daí
que, por vezes, como (não) queria Cristovam Pavia, só possa haver “saída
pelo fundo”. Pelo fundo, pelo meio, por cima, em suma e afinal: pelo lugar
onde, no encalço de Flamel, “os touros encantados que deitam fumo e fogo
pelas narinas” encontram finalmente a brancura da verdade perseguida.
De Cristovam sei muito pouco. Quer dizer,
talvez saiba alguma coisa ou relativamente muito – porque vou a ele
inteiramente pelo coração. Como fascinado leitor, primeiro, de uns raros poemas
inseridos numa pequena antologia algo precária e, depois, dum livro muito
pundonorosamente feito, com os seus poemas completos - publicados, esparsos e
inéditos – que li inteirinho num pedaço de tarde de verão, sentado sob uma das
nogueiras citadinas em frente do edifício barroco do antigo Hospital da
Misericórdia portalegrense.
Cristovam falava (fala) de pequenas coisas, o
que é indício de que o fazia de grandes coisas: da morte do seu cão, da luz
difusa batendo na parede da casa da velha quinta alentejana dos ancestros, da
recordação que sua mãe teria na noite do seu hipotético e afinal sucedido funeral.
Coisas assim leves para quem julga que o poeta é uma espécie de artilharia
pesada.
E porque o tom em que o fazia é dos mais
belos (e estou a lembrar-me da emoção em Rilke, em Hesse, mas também em
Marie-Noel), há-de encontrar sempre quem através dele possa olhar as tardes de
negrume e, simultaneamente, de inteira claridade onde se vão reflectindo ora um
rosto, ora um ombro, ora uma mão escapando ao nevoeiro...
ns
TRÊS
POEMAS DE CRISTOVAM PAVIA
REQUIEM
(ao menino
morto, eu próprio)
A tarde declina com uma luz ténue.
Estou grave e calmo.
E não preciso de ninguém
Nem a luz da tarde me comove: entendo-a.
Até as imagens me são inúteis porque contemplo tudo.
Os ventos rodam, rodam, gemem e cantam
E voltam. São os mesmos.
Como os conheço desde a infância!
E a terra húmida das tapadas da quinta...
O estrume da égua morta quando eu tinha seis anos
Gira transparente nesta brisa fria...
(Na noite gotas de orvalho sumiam-se sob as folhas das
ervas)
Oh, não há solidão, nas neblinas de inverno
Pela erma planície...
E foi engano julgar-te morto e tão só nas tapadas em
silêncio...
Agora sei que vives mais
Porque começo a sentir a tua presença, grande como o
silêncio...
Já me não vem a vaga tristeza do teu chamamento
longínquo
Já me confundo contigo.
NA NOITE DA MINHA MORTE
Na noite da minha morte
Tudo voltará silenciosamente ao encanto antigo...
E os campos libertos enfim da sua mágoa
Serão tão surdos como o menino acabado de esquecer.
Na noite da minha morte
Ninguém sentirá o encanto antigo
Que voltou e anda no ar como um perfume...
Há de haver velas pela casa
E xales negros e um silêncio que eu
Poderia entender.
Mãe: talvez os teus olhos cansados de chorar
Vejam subitamente...
Talvez os teus ouvidos, só eles ouçam, no silêncio da
casa velando,
Uma voz serena de infância, tão clara e tão longínqua...
E mesmo que não saibas de onde vem nem porque vem
Talvez só tu a não esqueças.
AO MEU CÃO
Deixei-te só, à hora de morrer.
Não percebi o desabrigado apelo dos teus olhos
Humaníssimos, suaves, sábios, cheios de aceitação
De tudo... e apesar disso, sem o pedir, tentando
Insinuar que eu ficasse perto,
Que, se me fosse, a mesma era a tua gratidão.
Não percebi a evidência de que ias morrer
E gostavas da minha companhia por uma noite,
Que te seria tão doce a minha simples presença
Só umas horas, poucas.
Não percebi, por minha grosseira incompreensão,
Não percebi, por tua mansidão e humildade,
Que já tinhas perdoado tudo à vida
E começavas a debater-te na maior angústia, a debater-te
com a morte.
E deixei-te só, à beira da agonia, tão aflito, tão só e
sossegado.
***
Reencontro:
13/10/68
À memória de CRISTÓVAM PAVIA
e de seu Pai
FRANCISCO BUGALHO
- meus amigos.
Quando
o comboio surgiu
na
curva do caminho
teu
pai estava perto. E disse:
Não queria, meu filho, que viesses
tão cedo.
Tenho, porém, aparelhada e pronta
(oh, desde sempre!) a égua.
E, sem coleira, o velho cão te aguarda,
fiel e meigo como um sol de Outono.
Meu colo tens também à tua espera
e a força do meu braço, do tamanho
da noite e do silêncio da tapada.
A força do meu braço quis descê-la
a tempo, sobre ti, descê-la quando
imaginaste um rosto na paisagem
- rosto que, distraído, se desfez
num prado alheio ao teu.
Quis, sobre ti, descer esse meu braço
de força já não minha forte ainda.
Mas era tarde para projectar-te
em ruas mais propícias.
Quis dá-lo a tua mãe (como tu, só)
mas já não foi possível.
Quis entregá-lo a dois ou três amigos,
mas tinham compromissos
pessoais.
Mesmo assim não queria que viesses
tão cedo.
Muita coisa podia acontecer
(muita coisa acontece)
como um súbito barco, uma palavra
- glicínia, madrugada, madressilva –
para teu recomeço
e minha espera
maior.
Aguardo-te, porém.
E, comigo, o teu cão, a égua alada,
a inocente infância dessa fonte
fresquíssima, da quinta, onde bebemos
a água
única.
Regressa, inteiro, à terra iluminada,
nu de mitos, de pétalas, de pranto
e das outras humanas falsidades
(como dizias)
do mundo.
Entrega-te e regressa.
Transparente.
No fundo, desde o fundo, pelo fundo
esmaga-te em meu peito!
António Luís Moita
*
Cristovam Pavia, de seu nome civil Francisco António Lahmeyer Flores
Bugalho, nasceu a 7 de Outubro de 1933 em Lisboa, vindo a falecer sob o rodado
dum comboio, na mesma cidade, em 13 de Outubro de 68.
Seu pai era o presencista
Francisco Bugalho, oriundo de Castelo de Vide e ali residente.
A partir de 1940, o poeta
morou em Lisboa, ali finalizando os estudos liceais.
Frequentou a Faculdade de
Direito de Lisboa, que abandonou para ingressar na Faculdade de Letras. Entre
1960 e a sua morte trabalhou na construção civil e viveu entre Lisboa, Castelo
de Vide, Paris e Heidelberg, tendo nesta última recebido acompanhamento
psicoterapêutico. Deu a lume, em 1959, “35 Poemas”, a sua única obra poética
publicada em vida. Anteriormente tinha publicado colaboração poética em jornais
e revistas, como Diário Popular, Árvore, Anteu, Távola Redonda, Serões. Usou,
além de Cristovam Pavia, os pseudónimos, ou "semi-heterónimos",
Sisto Esfudo, Marcos Trigo e Dr. Geraldo Menezes da Cunha Ferreira.
"A poesia de Cristovam Pavia é a revelação de si próprio, de uma personalidade em conflito com o mundo em que vive e que procura uma fuga pela recuperação da infância morta, pela aceitação do seu conhecer-se diferente e despojado do que lhe é mais caro (a infância, o amor, o espaço e o tempo em que ambos se situavam), a transformação do seu próprio ser pelo sofrimento, num movimento de ascese e de autodestruição, quando o poeta atinge a consciência de si próprio e da sua voz.", diria José Bento em "Sobre a Poesia de Cristovam Pavia", in Poesia de Cristovam Pavia, Lisboa, 1982, p.15 (volume póstumo).
Aos confrades, amigos, adeptos e simpatizantes
Devido a um problema informático de última hora, não nos será possível fazer a postagem desta semana. Esperando resolvê-lo em breve,...
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Devido a um problema informático de última hora, não nos será possível fazer a postagem desta semana. Esperando resolvê-lo em breve,...
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ns A Rosa de Todo o Ano Não se chamava Rosa, ‘tá de ver, mas eu chamava-lhe assim. Criada de todo o serviço duma família de teres, ia à pr...









