quinta-feira, 17 de setembro de 2020
segunda-feira, 14 de setembro de 2020
Para um minuto de meditação - 26
“Já
se disse tudo, mas como as pessoas se estão sempre a esquecer é preciso
recomeçar”
André Gide
Dois poemas de Cruzeiro Seixas
Um Cão é isto de Sermos Gente
Um cão
é isto de sermos gente.
Se temos só duas pernas
temos em contrapartida
uma complicação escura
dentro do peito.
Qualquer coisa como
os fundos desconhecidos
da água
só conhecidos
dos náufragos.
Para matar
é preciso uma arma
e para voar
como búzios
precisamos papel e lápis
— e assim viajamos
dentro de vegetais malas de viagens
procurando o destino sufocante
de todas as paragens.
in 'Homenagem à Realidade'
Poema da Profundidade Horizontal
Pintem uma paisagem dentro de outra
porque nisso está a verdade.
Olhem como avançam cautelosamente
pela falésia a pique;
uma curta aprendizagem
na agulha da torre
bastou.
Olho-te como para uma lente de aumentar,
uma luz para mais iluminar,
como se fosses antes de haver luz
uma pedra preciosa,
a causa das guerras:
dorme sobre os joelhos
e sente
revir ao mesmo tempo
automaticamente
os braços superiores laterais
enferrujados,
como a luz do velho farol.
Beija os dez cães que há dentro de um cão vadio,
os cem homens que há dentro de um homem,
de tal maneira que
o ar fique em chamas
e seja a única salvação
a mão do mar eternamente
na nossa fronte.
in 'Obra Poética'
Artur do Cruzeiro Seixas ou A travessia do deserto
ns, Homenagem a Cruzeiro Seixas
|
INTRODUÇÃO É
preciso ver a poesia e a pintura muito ao longe. Ou antes: é necessário, por
vezes, vê-las como se estivéssemos muito longe, do lado de cá dos montes com
desertos misteriosos pelo meio. Muito longe do poeta/pintor, das suas
palavras, das suas razões ou desrazões, muito distantes da sua figura, dos
seus secretos motivos, dos seus motivos quotidianos e reais – das suas
quimeras ou das realidades que lhe crestam a face, dos segredos todavia muito
próprios, dos seus pavores e dos seus encantamentos. Como se, magoadamente,
serenamente, o encarássemos como o aventureiro legítimo, cuja imaginação
clara e concreta nos vai talvez salvar, nos vai talvez fornecer a pista
inquestionável para a viagem mais rara. Para a viagem que iremos fazer,
cruzando as lonjuras que frente aos nossos olhos se patenteiam. Mas será isto possível? Será mesmo
efectivável, por maioria de razão se com ele convivemos durante décadas, se
lhe conhecemos muitos dos mitos e dos quotidianos em que se envolveu ou se
deixou envolver, dos sonhos que lhe permeiam o espírito, daquilo que viu e
que o suscita para que se permita escrever e pintar sem desdouro e sem
desfalecimento? Se o estimamos, se vemos nele um companheiro de jornada, um
confrade na rota que é própria de quem vive, que é única mas também nos
seduziu? Pode, pelo menos, tentar-se. Efectuar
essa distanciação que é como uma boa regra vital, que é assim como que um
olhar lançado na direcção de algo que já vimos mas não esgotámos, como
acontece nos grandes passeios que não planeamos ao pormenor mas que ficam em
nós para sempre tal qual as memórias de ritmos imarcescíveis. E, afinal, não pode esquecer-se que há no
artista, como em qualquer outra pessoa, sempre uma parte velada, uma espécie
de continente desconhecido que nunca chegaremos a descriptar perfeitamente. Perene regra que deverá ser observada,
mesmo escutada quando
iniciamos uma demanda. Para além dos horizontes, em pleno território da
escrita e da pintura que doravante não nos será alheia. |
O sabor africano dos dias
Mesmo estando em Lisboa, no continente
divisado seja em Loulé, Caminha ou Alpalhão, ou no Norte onde ele agora vive,
há qualquer coisa na poesia de Cruzeiro Seixas – incomplacente, inventiva e com
um perceptível halo de mistério (não de exotismo!) – que me comunica um cheiro,
um sabor, uma ambiência que me faz sentir a presença da África onde residiu e
viveu durante anos que, se foram decerto de encantamento, também foram de
inquietação e mesmo de amargura devido a condições muito próprias.
Creio que qualquer um que ali tenha vivido
ou excursionado por um considerável lapso de tempo sente esta sensação ao
defrontar-se com o acervo de poemas de sua lavra. Com efeito, se o seu percurso
nos mostra um autor absolutamente lusitano e surrealista de várias têmperas,
não é menos verdade que, tal como me sucede por exemplo na leitura de Leal de
Zêzere, sinto o poderoso apelo de África disseminado no que escreve, ora aqui
ora ali, expressa ou impressamente: o cheiro da terra e o sabor dos frutos e dos
produtos de quitanda, o ritmo das emoções e dos pensamentos que rodeiam os que,
estando em África, tendo conhecido nela como num encantamento jornadas e
vilegiaturas, acabam por se ligar a esse continente da forma muito pessoal e
peculiar que cifra o seu discurso literário
e artístico.
E, com efeito,
Cruzeiro Seixas põe em equação, diria em confrontação, figuras originárias -
mitológicas umas, intensamente realistas ou fazendo parte dum imaginário
retintamente europeu outras – do continente “lugar de partida” como lhe chamava G.A.Henty e onde cristalizaram
muitos ritmos que depois se iriam difundir, mercê dos fados da História, pelas terras de Mashona, ou de Chiqwelembo,
de Shaka ou de Barotse… Ou dos plainos desérticos de Namanga.
Ou seja: por todos os locais onde se
cimentou a imagem que, com alguma dose de magoada ironia, Aimé Césaire, Frantz
Fanon ou Fred Blanchod qualificaram de “negritude
greco-latina”.
O apelo da terra, europeia ou africana, é
contudo certificado pelo apelo da escrita: dono de uma límpida erudição a que
prefiro chamar conhecimento, cultura viva e profundamente humanizada, Artur do
Cruzeiro Seixas faz reflectir nos seus poemas uma qualidade de discurso poético
absolutamente salubre, cortada por um humor e agilidade de estilo que só aos
zoilos aparecerá como agilidade extrínseca. Discretamente dramática, quando não
mesmo trágica, na sua poesia percebe-se uma fundura de pensamento que toca os
grandes temas universais e a forma que eles tomam ao organizarem-se num determinado
espírito, num determinado autor.
Numa determinada demanda, de cariz muito
próprio, complexo mas conseguido e inteiramente fundacional.
(Texto completo na revista AGULHA nº152, aqui:
https://arcagulharevistadecultura.blogspot.com/2020/06/nicolau-saiao-artur-do-cruzeiro-seixas.html )
quinta-feira, 10 de setembro de 2020
Um Poema de Philip José Farmer
(O autor, um dos mais conceituados cultores da Science-Fiction, também se desdobra em ensaísta e poeta. E a sua qualidade nesta matéria é aqui atestada indubitavelmente).
O PTERODÁCTILO
Remoto pai primevo de esvoaçantes plumas futuras
pelo cerebral jurássico vais num estremeção
de asas coriáceas temeroso
de te embrenhares nos lameiros onde os sáurios
resolvem seus assuntos de ilhargas e dentes.
Predador metafísico de dedos alados
o canto entorpecente dos teus intestinos
revela o entusiasmo com que absorves
saborosos ectoplasmas
esbanjando
o teu fogo interior que pressagia
a imagem futura de um esqueleto
morto na tentativa de ficar.
Bicudo resumo da incorpórea ideia
passarola batida pelas lufadas de vento
cruzas abstractas névoas
invadindo o mar da Obra.
Devoras estranhos peixes
desenvolves
largas penas brilhantes e recobres
com a carne da forma os ossos do conceito.
Assim deriva
do acto de Beleza a beleza do Acto
(Tradução ns)
Presentinhos de Verão
"A finalidade
de uma obra de arte é a de tornar sensível o mistério dos elementos que esta
põe em jogo" disse um dia Michel Leiris. Dizendo de outra forma, é uma
comunicação especializada que, contudo, possui em si uma mistério
frequentemente intraduzível e, daí, incomunicante no largo mundo em que se
transformou (em que transformaram) o universo societário. A comunicação por
extenso ficou assim transmutada em algo de quase secreto, de imarcescível e
que, para que haja apreensão dos seus ritmos mais solenes, carece de chaves, de
pistas - que no entanto estão ao alcance de quem se disponha a prescrutá-las, a
inquiri-las mediante um profundo apego à inteligencia dos afectos que se têm da
Arte e da Humanidade encaradas como dois continentes de consciencialização e de
ética das vivências.
Como se usa dizer em linguagem do dia-a-dia, "há males que vêm por bem" e, se esta "incomunicação comunicante" coloca
aos menos avisados obstáculos de entendimento, no fundo é ela que garante que
os "objectos artísticos"
criados não são meras matérias filhas do lugar-comum, da facilidade primária e
da vulgaridade manipulatória.
Ao oferecer a todos esta meia-dúzia de obrinhas que congeminei nas
minhas horas, presentinhos de Verão modestos de quem não é grão-fino, saliento
que as dificuldades - tal como na Arte - podem ser matéria de adequação para um
mais lúcido viver futuro, afastadas que foram as "facilidades" burlonas que buscaram nos capturassem e
afinal mais não eram que ouro de pechisbeque. Com coragem, brio e determinação,
apesar dos tempos negros que já estão sobre a nossa cabeça por mor da ideologia
que nos querem incutir, busque-se que os tempos a vir tenham um vigor mais
fecundo.
ns
segunda-feira, 7 de setembro de 2020
Para um minuto de meditação - 24
“A disciplina Cidadania e Desenvolvimento é
de natureza ideológica, embora sob aparência científica, e constitui um
monstruoso atentado à liberdade de educação”.
Gonçalo Portocarrero de Almada
“Os
marxistas: socialistas, comunistas (pcp, bloco de esquerda, ps, lgbt) querem
substituir-se aos pais que são os primeiros e principais educadores dos seus
filhos. Pretendem impor aos alunos
desde pequenos, sem contar com a autorização dos pais, a cartilha marxista, a
despenalização do aborto, a liberalização das drogas leves, as salas de chuto,
o “casamento” homossexual, as mudanças de sexo, a eutanásia, a ideologia lgbt,
etc. E como marxistas, que são, não olham a meios para atingir os fins, mesmo
que estes sejam perversos e atentatórios da liberdade!...”.
João
Lopes
“A
endoutrinação dos cidadãos por parte do Estado, seja ela religiosa ou política,
é um acto de totalitarismo e um abuso inqualificável”
Henri Merrien
Dois poemas de José Carlos Costa Marques
Voltar à paz
Quantas
penas, quantas dores, até que ela descobriu:
–
Mudar-te, não posso!
Quantas
ilusões, quantos enigmas, até que ele entendeu:
– Tu és
tu, eu nada posso!
Foi
preciso descobrir que a paz inicial,
o
deslumbramento
– a
felicidade, dissera ela –
foram somente
a antecâmara:
tateando
no escuro,
sem
ferir, sem colidir,
mas
buscando o já perdido.
Até que,
o tempo triturando-os, de passos transviados,
onde,
através, resplendores brilharam sempre,
ensinou-os:
tu és tu,
eu sou
eu,
nós somos
nós.
E, agora,
esperar – somente.
Voltando
sempre,
volta
meia volta,
à paz
inicial,
ao deslumbramento.
Águas Santas, 3 de Setembro de 2020
Asfalto e macadame
pachorrentas
pesadas lentas devagar pisando a estrada de asfalto
bem no meio do
povoado majestosamente rodeado de muralhas de granito
jamais
construídas apenas ali estão desde remotas geológicas eras
com seu
rendilhado denteado caprichoso súbito irregular perfeito desenhado
pachorrentas
caminhando de chocalhos que tilintam por entre os automóveis
bem no meio da
póvoa branda a que ascendem inverneiras vigiadas
guiadas pelo
negro laboreiro cão que as segue guiadas pela velha que as prende
de negra lã
também vestida que os parcos automóveis não assustam
vindos de franças
e araganças com gente da terra ida e seus filhos
e já netos que
falam entre si a próxima estranha língua com a avó falam
o português
hibridizado gaulês andorrenho germanizado e irmanado
lentas
bamboleantes enormes vindas ao entardecer dos lameiros ricos de erva
sopradas na
fresca brisa enquanto lá mais longe brame a canícula
o incêndio
piroestival crónico repetitivo ano após ano que não cessa
grossos rolos de
fumo que se avistam lá por trás dos castelos de granito
de suas
estranhas formas a águia a tartaruga subindo e dispersando
grossos rolos de
fumo chamas rubras avassaladoras presentes por toda a parte
sobretudo no
ecrã na omnipresente tagarelice hertziana que nos impõe
bem no meio do
ermo povoado a sua presença obsessiva sem majestade alguma
de uma realidade
ela sim majestosa a do fogo a do granito altivo
enquanto devagar
entram obedientes o portão do quinteiro atrás da velha
à frente do cão
pachorrentas pesadas lentas vindas da estrada de asfalto
as duas
imponentes vacas de raça antiga com suas orelhas perfuradas
seus chipes
elegíveis a subsídios comunitários com brincos delas pendendo
as duas enormes
vacas o atrevido bezerro que as quer já cavalgar
por um momento
se confundem com aquelas que na estrada de macadame
iam levantando
pó puxando os carros que chiavam carregados de milho
e agora
inexistem e se não confundem com esses outros de metal e petróleo
vacas e bois
pachorrentos lentos devagar pisando e que súbito irrompem
velozmente
vindos da infância que inexiste do teu país que inexiste
da pátria tua
que inexiste da sua beleza pobre imorredoira renegada sepultada
da beleza morta
que nenhuma carpideira tu mesmo te restitui guarda ou sepulta
da beleza porém
viva já não na poeira levantada do macadame mas apenas
na mesma exata
música que ascende do asfalto no chocalho na mesma exata
luz fresca
levitando em torno à muralha de granito nunca construída
beleza hoje
sobrevivente no tempo mecânico veloz cosmopolita globalizado
sobre o cadáver
do país vergiliano de milénios quando na infância o conheceste
em instantâneas
escassas décadas sem que visses
tu que estavas
longe
como ausente ele
se ausentou
até que
inexistente na tua memória somente no teu coração apenas ainda existe
por mais que o
procures o não encontrarás jamais desaparecido
para sempre extinto
com ele levando para o túmulo essa beleza que procuras
que jamais
reencontrarás porém beleza intacta imperecível acossada
irrefragável
neste denteado de fragas tecido no azul declinante do sol poente
lá onde subsiste
impera reina o horizonte todo que embalsama levita salva
te consola tu
que em breve regressarás ao mais confuso mundo onde domina
omnipresente a
fealdade a destruição o acúmulo o repetitivo ensurdecedor
lá porém onde
majestosa reina sempre acossada reduzida apenas
ao domínio da
luz à pujança do sol à rítmica sucessão da noite empalidecida
do dia solar que
ascende sufocante na canícula onde sempre tem seu cetro
majestosa
a beleza
imperecível
Castro Laboreiro, 2006
(Sob o nome Aurélio Porto, in Safra
do Regresso, Águas Santas, 2011)
Antologia: Um vivo e um morto
1. Henrik Edstrom e a reconversão do universo
Mediante as cores e as formas com que se erguem os sinais dos três
reinos da natureza, o que este pintor lírico e surrealista visa é transfigurar
a existência em algo de significativo e de salubre, indo para além das
condicionantes sociais e humanas. Uma vez que a pintura autêntica é uma
alquimia espiritual, que transforma e que faz permanecer na existência
quotidiana os signos que a sustentam e através dela permanecem no mundo.
Sendo um filho da Europa do Norte, Henrik Edstrom. aprendeu bem cedo as
lendas dessas terras onde os gnomos e as fadas dos bosques vivem paredes-meias
com os habitantes dos jardins, onde os turbilhões de neve nos deixam adivinhar
figuras mágicas ao crepúsculo das povoações. Onde as cores e os traços, por seu
turno, nas tardes de sol e de bom tempo possuem uma exactidão precisa e
luminosa.
Porque dá mais facilidade de manejo, sendo mais libertador do gesto uma vez
que confere mais rapidez à execução, o pintor utiliza preferentemente o guache
e a aguarela, como nas obras (uma série de 24 pinturas encantadoras e plenas de
frescura) com que ilustrou os poemas do grande poeta húngaro Attila Joszef.
Henrik Edstrom, através da sua paleta tão sabedora e livre como o
coração duma criança, viaja pelos mundos onde dá gosto viver, mas com o
conhecimento que de tal pode ter um animal quotidiano ou fabuloso entre os bosques
e jardins dos nossos afectos vitais.
Nele habitam o poeta e o artista - que as cores e seus prestígios
revelam como num encantamento que a todos é, afinal, íntimo e comunicativo.
Tive o gosto de o conhecer na biblioteca municipal, em Portalegre, onde
veio há um par de anos expôr uma
surpreendente série de 46 óleos, guaches, aguarelas e colagens. Eu cumpria ali
os meus últimos dias de funcionário.
Durante duas horas, na sua voz
suavizada pela idade, mas firme e sugestiva como os versos do Kalevaala que
aliás teve o ensejo de ilustrar, falou-me de lendas da sua terra, de projectos
e de maneiras de pintar – pois este pintor-poeta é de igual modo um fabro, um hacedor no plano das matérias, da forma concreta pela qual se
exerce a arte de efectivar uma obra que haverá de andar nos dois planos do
tempo: a que se palpa com os olhos e a que se observa com os dedos das mãos.
Adicionalmente, a que – como a “ars magna”, a opus primae – reside e se
reconhece no plano da alma, como nos disse Eyrinée Philalète.
Dias depois – já ele voava de regresso a Anneberg, onde nasceu em 1937 -
sem que para tal eu houvesse feito algo de assinalável vieram trazer-me ao
gabinete um embrulho relativamente volumoso. Abri-o com expectativa. Continha
dois quadros belíssimos e, num bilhetinho, vinham os seguintes dizeres: “Para
o amigo NS intitular como achar melhor”.
Estão hoje na sala da minha casa de Portalegre. Chamam-se, com efeito,
“A partida para a ilha” e “O príncipe colhendo a estrela” e epigrafam duas
passagens do Kalevaala.
Foi a fórmula mais adequada que encontrei para lhe agradecer.
2. Palácios da Silva ou a natureza transfigurada
Nos quadros e nas esculturas de Palácios
esplende a transfiguração do mundo. As cores, os traços, as manchas e as formas
que projectam o seu universo interior organizam o caos e dão um sentido novo à
perspectiva humana do quotidiano. Recriação da Natureza? Talvez. Mas uma
natureza reencontrada, finalmente próxima do Homem, ou seja: habitável,
plásmica e salubre - mesmo nos seus tempos de inquietação.
Em Palácios há drama, - a selva obscura dos filósofos e místicos da
Idade Média, mas há também a alegria forjada
por combinações coloridas em que o movimento da mão possibilita o
encontro entre raciocínio e sentimento. Descendente directo de La Tour e de
Dubuffet, Palácios retoma de forma muito própria a interrogação nuclear que foi
cara a Gauguin: Quem somos? De onde viemos? Para onde vamos?, o que significa
que ele se apercebeu que a viagem humana pode ser interpretada mediante a
elaboração de uma escrita pictural onde consciente e inconsciente se
entrecruzam e palpitam. Não é assim estranho que este colorista se sinta
atraído simultaneamente pelo vitral e pela escultura monocromática: no fundo, é
a interrogação dos elementos contraditórios que, frequentemente, suscitam a
atenção e o interesse de parentes pictóricos como Boccioni e Manolo Millares.
Ao mesmo tempo próximo e
disperso, Palácios conservou do passado os mitos de uma infância que lhe
permite esvoaçar sobre o abismo dos minutos que a razia social tenta limitar.
Algumas vezes cândido outras vezes trágico, o universo de Palácios conhece os mistérios
das estações. E, através duma concentração em que a paleta se transfigura,
concebe visões vegetais e minerais que nos dão a imagem duma existência
finalmente liberta e à medida do percurso humano.
(Este artista alentejano, para cujas esculturas dei a lume os poemas de “Fotosíntese da pedra” (incluídos no livro “Os olhares perdidos)”, faleceu prematuramente em 2001).
ns
quinta-feira, 3 de setembro de 2020
Para um minuto de meditação - 23
“O verdadeiro artista não está ao serviço
de ninguém, seja da burguesia ou do povo. Efectivamente, os frutos do artista
são para os limpos de coração e escorreitos de espírito, a quem poderíamos
chamar apenas membros da humanidade autêntica”.
Marcel Pascualis
C. Ronald, Poemas
C. RONALD OU OS FOGOS DA NOITE
A voz dos deuses não é sempre que fala. Tal
como a voz do poeta. Mas, quando isso sucede, há fogueiras na noite que se põem
a tremeluzir. Contudo, a voz dos deuses é pouco segura, afasta-se para além de
nós, oscila, cria espaços de sombra à escala do destino dos seus senhores:
porque os deuses vão secularmente desaparecendo mas a medida dos homens é
diferente, resiste e a sua sombra é mais humilde – como a dum gato, dum
arbusto, duma oliveira. Duma pessoa, simplesmente.
Recorra-se então à voz do poeta. Ela tem fracturas, o sangue estanca-se,
a penumbra faz-se de súbito nuns olhos inquietos. Não importa, o sinal aí
permanece, se propaga e estende. Alastra. Seja num descampado ou dentro duma
casa, os sons ouvem-se, é inegável o eco despertado. Em redor da nossa cabeça
cria-se como que um espaço de brusca realidade –
e é então
que as figuras e as palavras
começam a aparecer: estranhas salas repletas de mesas e reposteiros onde passam
claros e sóbrios vultos de mulheres, coisas simples aos cantos que tomam outro
perfil, o som de flautas, de violões e até de guitarras espanholas. E de
repente um silencio que se dilata mas fica ocupado por um grito reboante e
claro, possivelmente feliz. O poeta interroga-se, mas não é tudo uma
interrogação? Não é tudo a dúvida de quem, não sabendo, conhece todavia muito
do que subjaz às frases? Evidentemente, é o mistério da poesia, essa florescida
necessidade que tanto parte do acaso como a ele conduz, essa chama que o poeta
acende com ramos e com papéis, com tecidos, com substancias inomináveis, com os
próprios dedos e que deixam rastos de fogo nas paredes e, principalmente, nas
páginas que se organizam em forma de livros.
C. Ronald conhece bem os diversos rostos das palavras. Assim como
conhece a face da alegria e do sofrimento, desse quotidiano que muitas vezes
nos fere e nos angustia.
Conhece as ruas e a floresta, conhece o que há dentro duma cozinha e
também dentro dum coração desconhecido, o que se esqueceu para sempre dentro
dum quarto, o que se tem e teve, vulgar e por isso mesmo absolutamente belo,
numa saleta que se recorda duma casa que amámos. Um rosto de velho ou de
criança, as mãos dum amigo que se foi. Os ruídos do mar e o vozear da freguesia
quotidiana num bar ou numa cidade que se visitou pela primeira vez.
Nos seus poemas existe sempre uma busca do que é significativo, ele
procura sempre aprofundar o conhecimento possível para que se entenda o como e
o porquê da escuridão que por vezes envolve o mundo.
A meu ver, este poeta de que tenho falado com empenho através da voz e
da escrita é possuidor de um método de renovação da visão há mais de quarenta
anos. E muitos o têm entendido.
Nos sons da sua poesia algo se prolonga e percebe-se neles a mais nobre
e serena música, como num mundo que discreto se renova e continua a ouvir
através das páginas e dos campos onde as fogueiras iluminam a noite. - (ns)
SESSENTA E SETE
Morrer imitando o teu jeito de morrer
é possível se no meu corpo trago o teu
encanto
Horas oblíquas do fim que surge da
sombra
familiar abaixo do anjo prematuro e
veemente
Tudo pode voltar e dar nome ao que senti
sempre
A solidão virá modificada e a ausência
não será
a mesma nem as coisas dadas por engano
Morrer no teu silêncio amando essa
conjunção
que não havia ainda dentro ou fora do
tempo
A terra tornou-se outra vez o sentido
diferente
do teu corpo submisso ao meu tormento
Que coragem para resistir e emboscar a
existência
Afortunada representação do lado novo
e antigo
dos sentidos com a inocência feita por
si mesma
Mas haja memória na galeria humana dos
descrentes
que tudo oferece de mal ou bem no pior
silêncio
(in “Ocasional Glup”)
PARA ESTAR NA
PAISAGEM
Assim que entro, a casa estabelece as
regras,
o apoio da terra, as mãos como duas
naturezas
juntas e algo que não fui quando chego
à cozinha:
algoz e vítima, alimento e gosto, amor
e ódio
sobre o mesmo fogo. Tu estavas
distante
dessa história, iluminada e nua. Débil
eco
para quem precisa do encanto, das
coisas antigas
e das novas. Ainda uma vez mais os
sonhos tentam
o existido com o que fica dos mortos.
O hábito
com que provo o tempo nessa noite de
chuva.
Acima de nós, beleza e verdade
confundem
a liturgia das raízes, o manancial dos
enigmas
a graduar o acaso por tudo que tivemos
juntos
entre frutos e flores.
(in As coisas simples, 1986)
Aos confrades, amigos, adeptos e simpatizantes
Devido a um problema informático de última hora, não nos será possível fazer a postagem desta semana. Esperando resolvê-lo em breve,...
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Devido a um problema informático de última hora, não nos será possível fazer a postagem desta semana. Esperando resolvê-lo em breve,...
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ns A Rosa de Todo o Ano Não se chamava Rosa, ‘tá de ver, mas eu chamava-lhe assim. Criada de todo o serviço duma família de teres, ia à pr...












