segunda-feira, 14 de setembro de 2020

Para um minuto de meditação - 26

 

“Já se disse tudo, mas como as pessoas se estão sempre a esquecer é preciso recomeçar”

                                                                                                    André Gide

Dois poemas de Cruzeiro Seixas


Um Cão é isto de Sermos Gente

Um cão
é isto de sermos gente.

Se temos só duas pernas
temos em contrapartida
uma complicação escura
dentro do peito.

Qualquer coisa como
os fundos desconhecidos
da água
só conhecidos
dos náufragos.

Para matar
é preciso uma arma
e para voar
como búzios
precisamos papel e lápis
— e assim viajamos
dentro de vegetais malas de viagens
procurando o destino sufocante
de todas as paragens.

in 'Homenagem à Realidade'

 

 

Poema da Profundidade Horizontal

Pintem uma paisagem dentro de outra
porque nisso está a verdade.
Olhem como avançam cautelosamente
pela falésia a pique;
uma curta aprendizagem
na agulha da torre
bastou.
Olho-te como para uma lente de aumentar,
uma luz para mais iluminar,
como se fosses antes de haver luz
uma pedra preciosa,
a causa das guerras:
dorme sobre os joelhos
e sente
revir ao mesmo tempo
automaticamente
os braços superiores laterais
enferrujados,
como a luz do velho farol.
Beija os dez cães que há dentro de um cão vadio,
os cem homens que há dentro de um homem,
de tal maneira que
o ar fique em chamas
e seja a única salvação
a mão do mar eternamente
na nossa fronte.

in 'Obra Poética'

Artur do Cruzeiro Seixas ou A travessia do deserto

 

ns, Homenagem a Cruzeiro Seixas


     INTRODUÇÃO

    É preciso ver a poesia e a pintura muito ao longe. Ou antes: é necessário, por vezes, vê-las como se estivéssemos muito longe, do lado de cá dos montes com desertos misteriosos pelo meio. Muito longe do poeta/pintor, das suas palavras, das suas razões ou desrazões, muito distantes da sua figura, dos seus secretos motivos, dos seus motivos quotidianos e reais – das suas quimeras ou das realidades que lhe crestam a face, dos segredos todavia muito próprios, dos seus pavores e dos seus encantamentos. Como se, magoadamente, serenamente, o encarássemos como o aventureiro legítimo, cuja imaginação clara e concreta nos vai talvez salvar, nos vai talvez fornecer a pista inquestionável para a viagem mais rara. Para a viagem que iremos fazer, cruzando as lonjuras que frente aos nossos olhos se patenteiam.

    Mas será isto possível? Será mesmo efectivável, por maioria de razão se com ele convivemos durante décadas, se lhe conhecemos muitos dos mitos e dos quotidianos em que se envolveu ou se deixou envolver, dos sonhos que lhe permeiam o espírito, daquilo que viu e que o suscita para que se permita escrever e pintar sem desdouro e sem desfalecimento? Se o estimamos, se vemos nele um companheiro de jornada, um confrade na rota que é própria de quem vive, que é única mas também nos seduziu?

    Pode, pelo menos, tentar-se. Efectuar essa distanciação que é como uma boa regra vital, que é assim como que um olhar lançado na direcção de algo que já vimos mas não esgotámos, como acontece nos grandes passeios que não planeamos ao pormenor mas que ficam em nós para sempre tal qual as memórias de ritmos imarcescíveis.

    E, afinal, não pode esquecer-se que há no artista, como em qualquer outra pessoa, sempre uma parte velada, uma espécie de continente desconhecido que nunca chegaremos a descriptar perfeitamente.

    Perene regra que deverá ser observada, mesmo escutada quando iniciamos uma demanda. Para além dos horizontes, em pleno território da escrita e da pintura que doravante não nos será alheia.





O sabor africano dos dias

    Mesmo estando em Lisboa, no continente divisado seja em Loulé, Caminha ou Alpalhão, ou no Norte onde ele agora vive, há qualquer coisa na poesia de Cruzeiro Seixas – incomplacente, inventiva e com um perceptível halo de mistério (não de exotismo!) – que me comunica um cheiro, um sabor, uma ambiência que me faz sentir a presença da África onde residiu e viveu durante anos que, se foram decerto de encantamento, também foram de inquietação e mesmo de amargura devido a condições muito próprias.

     Creio que qualquer um que ali tenha vivido ou excursionado por um considerável lapso de tempo sente esta sensação ao defrontar-se com o acervo de poemas de sua lavra. Com efeito, se o seu percurso nos mostra um autor absolutamente lusitano e surrealista de várias têmperas, não é menos verdade que, tal como me sucede por exemplo na leitura de Leal de Zêzere, sinto o poderoso apelo de África disseminado no que escreve, ora aqui ora ali, expressa ou impressamente: o cheiro da terra e o sabor dos frutos e dos produtos de quitanda, o ritmo das emoções e dos pensamentos que rodeiam os que, estando em África, tendo conhecido nela como num encantamento jornadas e vilegiaturas, acabam por se ligar a esse continente da forma muito pessoal e peculiar que cifra o seu discurso literário e artístico.

      E, com efeito, Cruzeiro Seixas põe em equação, diria em confrontação, figuras originárias - mitológicas umas, intensamente realistas ou fazendo parte dum imaginário retintamente europeu outras – do continente “lugar de partida” como lhe chamava G.A.Henty e onde cristalizaram muitos ritmos que depois se iriam difundir, mercê dos fados da História,  pelas terras de Mashona, ou de Chiqwelembo, de Shaka ou de Barotse… Ou dos plainos desérticos de Namanga.

    Ou seja: por todos os locais onde se cimentou a imagem que, com alguma dose de magoada ironia, Aimé Césaire, Frantz Fanon ou Fred Blanchod qualificaram de “negritude greco-latina”.

    O apelo da terra, europeia ou africana, é contudo certificado pelo apelo da escrita: dono de uma límpida erudição a que prefiro chamar conhecimento, cultura viva e profundamente humanizada, Artur do Cruzeiro Seixas faz reflectir nos seus poemas uma qualidade de discurso poético absolutamente salubre, cortada por um humor e agilidade de estilo que só aos zoilos aparecerá como agilidade extrínseca. Discretamente dramática, quando não mesmo trágica, na sua poesia percebe-se uma fundura de pensamento que toca os grandes temas universais e a forma que eles tomam ao organizarem-se num determinado espírito, num determinado autor.

     Numa determinada demanda, de cariz muito próprio, complexo mas conseguido e inteiramente fundacional.

                                    (Texto completo na revista AGULHA nº152, aqui:

https://arcagulharevistadecultura.blogspot.com/2020/06/nicolau-saiao-artur-do-cruzeiro-seixas.html )

Rick Wakeman, Piano solo

 


quinta-feira, 10 de setembro de 2020

Para um minuto de meditação – 25

 



Na Festa do Avante 2020, “uma imagem vale mais que mil palavras”


                                                                                   Jorge Gaillard Nogueira


Um Poema de Philip José Farmer

 

(O autor, um dos mais conceituados cultores da Science-Fiction, também se desdobra em ensaísta e poeta. E a sua qualidade nesta matéria é aqui atestada indubitavelmente).                         

 


O PTERODÁCTILO

 

Remoto pai primevo de esvoaçantes plumas futuras

pelo cerebral jurássico vais num estremeção

de asas coriáceas   temeroso

de te embrenhares nos lameiros onde os sáurios

resolvem seus assuntos de ilhargas e dentes.

Predador metafísico de dedos alados

o canto entorpecente dos teus intestinos

revela o entusiasmo com que absorves

saborosos ectoplasmas   esbanjando

o teu fogo interior que pressagia

a imagem futura de um esqueleto

morto na tentativa de ficar.

 

Bicudo resumo da incorpórea ideia

passarola batida pelas lufadas de vento

cruzas abstractas névoas   invadindo o mar da Obra.

Devoras estranhos peixes    desenvolves

largas penas brilhantes e recobres

com a carne da forma os ossos do conceito.

 

Assim deriva

do acto de Beleza   a beleza do Acto                                                 

                

                                                              (Tradução ns)

Presentinhos de Verão

 

    "A finalidade de uma obra de arte é a de tornar sensível o mistério dos elementos que esta põe em jogo" disse um dia Michel Leiris. Dizendo de outra forma, é uma comunicação especializada que, contudo, possui em si uma mistério frequentemente intraduzível e, daí, incomunicante no largo mundo em que se transformou (em que transformaram) o universo societário. A comunicação por extenso ficou assim transmutada em algo de quase secreto, de imarcescível e que, para que haja apreensão dos seus ritmos mais solenes, carece de chaves, de pistas - que no entanto estão ao alcance de quem se disponha a prescrutá-las, a inquiri-las mediante um profundo apego à inteligencia dos afectos que se têm da Arte e da Humanidade encaradas como dois continentes de consciencialização e de ética das vivências.

   Como se usa dizer em linguagem do dia-a-dia, "há males que vêm por bem" e, se esta "incomunicação comunicante" coloca aos menos avisados obstáculos de entendimento, no fundo é ela que garante que os "objectos artísticos" criados não são meras matérias filhas do lugar-comum, da facilidade primária e da vulgaridade manipulatória.

   Ao oferecer a todos esta meia-dúzia de obrinhas que congeminei nas minhas horas, presentinhos de Verão modestos de quem não é grão-fino, saliento que as dificuldades - tal como na Arte - podem ser matéria de adequação para um mais lúcido viver futuro, afastadas que foram as "facilidades" burlonas que buscaram nos capturassem e afinal mais não eram que ouro de pechisbeque. Com coragem, brio e determinação, apesar dos tempos negros que já estão sobre a nossa cabeça por mor da ideologia que nos querem incutir, busque-se que os tempos a vir tenham um vigor mais fecundo.

                                                                                                            ns




A grande aventura





Signo ascendente





A deusa





África





A tarde (1)





Sem cama própria

Herbie Hancock, Cantaloupe Island


 

segunda-feira, 7 de setembro de 2020

Para um minuto de meditação - 24

 

ns


    “A disciplina Cidadania e Desenvolvimento é de natureza ideológica, embora sob aparência científica, e constitui um monstruoso atentado à liberdade de educação”.

                                                                        Gonçalo Portocarrero de Almada

 

    “Os marxistas: socialistas, comunistas (pcp, bloco de esquerda, ps, lgbt) querem substituir-se aos pais que são os primeiros e principais educadores dos seus filhos.     Pretendem impor aos alunos desde pequenos, sem contar com a autorização dos pais, a cartilha marxista, a despenalização do aborto, a liberalização das drogas leves, as salas de chuto, o “casamento” homossexual, as mudanças de sexo, a eutanásia, a ideologia lgbt, etc. E como marxistas, que são, não olham a meios para atingir os fins, mesmo que estes sejam perversos e atentatórios da liberdade!...”.

                                                                                        João Lopes

 

“A endoutrinação dos cidadãos por parte do Estado, seja ela religiosa ou política, é um acto de totalitarismo e um abuso inqualificável”

                                                                                      Henri Merrien

Dois poemas de José Carlos Costa Marques


Voltar à paz

 

Quantas penas, quantas dores, até que ela descobriu:

– Mudar-te, não posso!

Quantas ilusões, quantos enigmas, até que ele entendeu:

– Tu és tu, eu nada posso!

Foi preciso descobrir que a paz inicial,

o deslumbramento

– a felicidade, dissera ela –

foram somente a antecâmara:

tateando no escuro,

sem ferir, sem colidir,

mas buscando o já perdido.

 

Até que, o tempo triturando-os, de passos transviados,

onde, através, resplendores brilharam sempre,

ensinou-os:

tu és tu,

eu sou eu,

nós somos nós.

E, agora, esperar – somente.

 

Voltando sempre,

volta meia volta,

à paz inicial,

ao deslumbramento.


                                              Águas Santas, 3 de Setembro de 2020



Asfalto e macadame

 

pachorrentas pesadas lentas devagar pisando a estrada de asfalto

bem no meio do povoado majestosamente rodeado de muralhas de granito

jamais construídas apenas ali estão desde remotas geológicas eras

com seu rendilhado denteado caprichoso súbito irregular perfeito desenhado

pachorrentas caminhando de chocalhos que tilintam por entre os automóveis

bem no meio da póvoa branda a que ascendem inverneiras vigiadas

guiadas pelo negro laboreiro cão que as segue guiadas pela velha que as prende

de negra lã também vestida que os parcos automóveis não assustam

vindos de franças e araganças com gente da terra ida e seus filhos

e já netos que falam entre si a próxima estranha língua com a avó falam

o português hibridizado gaulês andorrenho germanizado e irmanado

lentas bamboleantes enormes vindas ao entardecer dos lameiros ricos de erva

sopradas na fresca brisa enquanto lá mais longe brame a canícula

o incêndio piroestival crónico repetitivo ano após ano que não cessa

grossos rolos de fumo que se avistam lá por trás dos castelos de granito

de suas estranhas formas a águia a tartaruga subindo e dispersando

grossos rolos de fumo chamas rubras avassaladoras presentes por toda a parte

sobretudo no ecrã na omnipresente tagarelice hertziana que nos impõe

bem no meio do ermo povoado a sua presença obsessiva sem majestade alguma

de uma realidade ela sim majestosa a do fogo a do granito altivo

enquanto devagar entram obedientes o portão do quinteiro atrás da velha

à frente do cão pachorrentas pesadas lentas vindas da estrada de asfalto

as duas imponentes vacas de raça antiga com suas orelhas perfuradas

seus chipes elegíveis a subsídios comunitários com brincos delas pendendo

as duas enormes vacas o atrevido bezerro que as quer já cavalgar

por um momento se confundem com aquelas que na estrada de macadame

iam levantando pó puxando os carros que chiavam carregados de milho

e agora inexistem e se não confundem com esses outros de metal e petróleo

vacas e bois pachorrentos lentos devagar pisando e que súbito irrompem

velozmente vindos da infância que inexiste do teu país que inexiste

da pátria tua que inexiste da sua beleza pobre imorredoira renegada sepultada

da beleza morta que nenhuma carpideira tu mesmo te restitui guarda ou sepulta

da beleza porém viva já não na poeira levantada do macadame mas apenas

na mesma exata música que ascende do asfalto no chocalho na mesma exata

luz fresca levitando em torno à muralha de granito nunca construída

beleza hoje sobrevivente no tempo mecânico veloz cosmopolita globalizado

sobre o cadáver do país vergiliano de milénios quando na infância o conheceste

em instantâneas escassas décadas sem que visses

tu que estavas longe

como ausente ele se ausentou

até que inexistente na tua memória somente no teu coração apenas ainda existe

por mais que o procures o não encontrarás jamais desaparecido

para sempre extinto com ele levando para o túmulo essa beleza que procuras

que jamais reencontrarás porém beleza intacta imperecível acossada

irrefragável neste denteado de fragas tecido no azul declinante do sol poente

lá onde subsiste impera reina o horizonte todo que embalsama levita salva

te consola tu que em breve regressarás ao mais confuso mundo onde domina

omnipresente a fealdade a destruição o acúmulo o repetitivo ensurdecedor

lá porém onde majestosa reina sempre acossada reduzida apenas

ao domínio da luz à pujança do sol à rítmica sucessão da noite empalidecida

do dia solar que ascende sufocante na canícula onde sempre tem seu cetro

majestosa

a beleza

imperecível                                     

                                                                            Castro Laboreiro, 2006

 

           (Sob o nome Aurélio Porto, in Safra do Regresso, Águas Santas, 2011)



Antologia: Um vivo e um morto

 

1. Henrik Edstrom e a reconversão do universo


    Todo o verdadeiro pintor é de facto um demiurgo. E, como referiu Pablo Picasso, “mais que o inspirado é aquele que inspira”. Que inspira o desejo de uma nova visão, de uma nova formulação e, ao mesmo tempo, fornece as faculdades interiores para que tal seja não só possível como concretizável.

   Mediante as cores e as formas com que se erguem os sinais dos três reinos da natureza, o que este pintor lírico e surrealista visa é transfigurar a existência em algo de significativo e de salubre, indo para além das condicionantes sociais e humanas. Uma vez que a pintura autêntica é uma alquimia espiritual, que transforma e que faz permanecer na existência quotidiana os signos que a sustentam e através dela permanecem no mundo.

    Sendo um filho da Europa do Norte, Henrik Edstrom. aprendeu bem cedo as lendas dessas terras onde os gnomos e as fadas dos bosques vivem paredes-meias com os habitantes dos jardins, onde os turbilhões de neve nos deixam adivinhar figuras mágicas ao crepúsculo das povoações. Onde as cores e os traços, por seu turno, nas tardes de sol e de bom tempo possuem uma exactidão precisa e luminosa.

   Porque dá mais facilidade de manejo, sendo mais libertador do gesto uma vez que confere mais rapidez à execução, o pintor utiliza preferentemente o guache e a aguarela, como nas obras (uma série de 24 pinturas encantadoras e plenas de frescura) com que ilustrou os poemas do grande poeta húngaro Attila Joszef.



   Henrik Edstrom, através da sua paleta tão sabedora e livre como o coração duma criança, viaja pelos mundos onde dá gosto viver, mas com o conhecimento que de tal pode ter um animal quotidiano ou fabuloso entre os bosques e jardins dos nossos afectos vitais.

   Nele habitam o poeta e o artista - que as cores e seus prestígios revelam como num encantamento que a todos é, afinal, íntimo e comunicativo.

    Tive o gosto de o conhecer na biblioteca municipal, em Portalegre, onde veio  há um par de anos expôr uma surpreendente série de 46 óleos, guaches, aguarelas e colagens. Eu cumpria ali os meus últimos dias de funcionário.

   Durante duas horas, na sua voz suavizada pela idade, mas firme e sugestiva como os versos do Kalevaala que aliás teve o ensejo de ilustrar, falou-me de lendas da sua terra, de projectos e de maneiras de pintar – pois este pintor-poeta é de igual modo um fabro, um hacedor no plano das matérias, da forma concreta pela qual se exerce a arte de efectivar uma obra que haverá de andar nos dois planos do tempo: a que se palpa com os olhos e a que se observa com os dedos das mãos. Adicionalmente, a que – como a “ars magna”, a opus primae – reside e se reconhece no plano da alma, como nos disse Eyrinée Philalète.

    Dias depois – já ele voava de regresso a Anneberg, onde nasceu em 1937 - sem que para tal eu houvesse feito algo de assinalável vieram trazer-me ao gabinete um embrulho relativamente volumoso. Abri-o com expectativa. Continha dois quadros belíssimos e, num bilhetinho, vinham os seguintes dizeres: “Para o amigo NS intitular como achar melhor”.

  Estão hoje na sala da minha casa de Portalegre. Chamam-se, com efeito, “A partida para a ilha” e “O príncipe colhendo a estrela” e epigrafam duas passagens do Kalevaala.

  Foi a fórmula mais adequada que encontrei para lhe agradecer.


2. Palácios da Silva ou a natureza transfigurada



    Nos quadros e nas esculturas de Palácios esplende a transfiguração do mundo. As cores, os traços, as manchas e as formas que projectam o seu universo interior organizam o caos e dão um sentido novo à perspectiva humana do quotidiano. Recriação da Natureza? Talvez. Mas uma natureza reencontrada, finalmente próxima do Homem, ou seja: habitável, plásmica e salubre - mesmo nos seus tempos de inquietação.

  Em Palácios há drama, - a selva obscura dos filósofos e místicos da Idade Média, mas há também a alegria forjada  por combinações coloridas em que o movimento da mão possibilita o encontro entre raciocínio e sentimento. Descendente directo de La Tour e de Dubuffet, Palácios retoma de forma muito própria a interrogação nuclear que foi cara a Gauguin: Quem somos? De onde viemos? Para onde vamos?, o que significa que ele se apercebeu que a viagem humana pode ser interpretada mediante a elaboração de uma escrita pictural onde consciente e inconsciente se entrecruzam e palpitam. Não é assim estranho que este colorista se sinta atraído simultaneamente pelo vitral e pela escultura monocromática: no fundo, é a interrogação dos elementos contraditórios que, frequentemente, suscitam a atenção e o interesse de parentes pictóricos como Boccioni e Manolo Millares.   

    Ao mesmo tempo próximo e disperso, Palácios conservou do passado os mitos de uma infância que lhe permite esvoaçar sobre o abismo dos minutos que a razia social tenta limitar. Algumas vezes cândido outras vezes trágico, o universo de Palácios conhece os mistérios das estações. E, através duma concentração em que a paleta se transfigura, concebe visões vegetais e minerais que nos dão a imagem duma existência finalmente liberta e à medida do percurso humano.

 

   (Este artista alentejano, para cujas esculturas dei a lume os poemas de “Fotosíntese da pedra” (incluídos no livro “Os olhares perdidos)”, faleceu prematuramente em 2001).

                                                                                       ns

Ennio Morricone, The good the bad and the ugly

 



quinta-feira, 3 de setembro de 2020

Para um minuto de meditação - 23

 

ns


     “O verdadeiro artista não está ao serviço de ninguém, seja da burguesia ou do povo. Efectivamente, os frutos do artista são para os limpos de coração e escorreitos de espírito, a quem poderíamos chamar apenas membros da humanidade autêntica”.

                                                               Marcel Pascualis

C. Ronald, Poemas

 




C. RONALD OU OS FOGOS DA NOITE

    A voz dos deuses não é sempre que fala. Tal como a voz do poeta. Mas, quando isso sucede, há fogueiras na noite que se põem a tremeluzir. Contudo, a voz dos deuses é pouco segura, afasta-se para além de nós, oscila, cria espaços de sombra à escala do destino dos seus senhores: porque os deuses vão secularmente desaparecendo mas a medida dos homens é diferente, resiste e a sua sombra é mais humilde – como a dum gato, dum arbusto, duma oliveira. Duma pessoa, simplesmente.

   Recorra-se então à voz do poeta. Ela tem fracturas, o sangue estanca-se, a penumbra faz-se de súbito nuns olhos inquietos. Não importa, o sinal aí permanece, se propaga e estende. Alastra. Seja num descampado ou dentro duma casa, os sons ouvem-se, é inegável o eco despertado. Em redor da nossa cabeça cria-se como que um espaço  de  brusca realidade    e  é  então

que as figuras e as palavras começam a aparecer: estranhas salas repletas de mesas e reposteiros onde passam claros e sóbrios vultos de mulheres, coisas simples aos cantos que tomam outro perfil, o som de flautas, de violões e até de guitarras espanholas. E de repente um silencio que se dilata mas fica ocupado por um grito reboante e claro, possivelmente feliz. O poeta interroga-se, mas não é tudo uma interrogação? Não é tudo a dúvida de quem, não sabendo, conhece todavia muito do que subjaz às frases? Evidentemente, é o mistério da poesia, essa florescida necessidade que tanto parte do acaso como a ele conduz, essa chama que o poeta acende com ramos e com papéis, com tecidos, com substancias inomináveis, com os próprios dedos e que deixam rastos de fogo nas paredes e, principalmente, nas páginas que se organizam em forma de livros.

   C. Ronald conhece bem os diversos rostos das palavras. Assim como conhece a face da alegria e do sofrimento, desse quotidiano que muitas vezes nos fere e nos angustia. 

   Conhece as ruas e a floresta, conhece o que há dentro duma cozinha e também dentro dum coração desconhecido, o que se esqueceu para sempre dentro dum quarto, o que se tem e teve, vulgar e por isso mesmo absolutamente belo, numa saleta que se recorda duma casa que amámos. Um rosto de velho ou de criança, as mãos dum amigo que se foi. Os ruídos do mar e o vozear da freguesia quotidiana num bar ou numa cidade que se visitou pela primeira vez.

   Nos seus poemas existe sempre uma busca do que é significativo, ele procura sempre aprofundar o conhecimento possível para que se entenda o como e o porquê da escuridão que por vezes envolve o mundo.

   A meu ver, este poeta de que tenho falado com empenho através da voz e da escrita é possuidor de um método de renovação da visão há mais de quarenta anos. E muitos o têm entendido.  

   Nos sons da sua poesia algo se prolonga e percebe-se neles a mais nobre e serena música, como num mundo que discreto se renova e continua a ouvir através das páginas e dos campos onde as fogueiras iluminam a noite. - (ns)


SESSENTA E SETE

 

Morrer imitando o teu jeito de morrer

é possível se no meu corpo trago o teu encanto

Horas oblíquas do fim que surge da sombra

familiar abaixo do anjo prematuro e veemente

Tudo pode voltar e dar nome ao que senti sempre

A solidão virá modificada e a ausência não será

a mesma nem as coisas dadas por engano

Morrer no teu silêncio amando essa conjunção

que não havia ainda dentro ou fora do tempo

A terra tornou-se outra vez o sentido diferente

do teu corpo submisso ao meu tormento

Que coragem para resistir e emboscar a existência

Afortunada representação do lado novo e antigo

dos sentidos com a inocência feita por si mesma

Mas haja memória na galeria humana dos descrentes

que tudo oferece de mal ou bem no pior silêncio

 

                                                             (in “Ocasional Glup”) 

 

PARA ESTAR NA PAISAGEM

 

Assim que entro, a casa estabelece as regras,

o apoio da terra, as mãos como duas naturezas

juntas e algo que não fui quando chego à cozinha:

algoz e vítima, alimento e gosto, amor e ódio

sobre o mesmo fogo. Tu estavas distante

dessa história, iluminada e nua. Débil eco

para quem precisa do encanto, das coisas antigas

e das novas. Ainda uma vez mais os sonhos tentam

o existido com o que fica dos mortos. O hábito

com que provo o tempo nessa noite de chuva.

Acima de nós, beleza e verdade confundem

a liturgia das raízes, o manancial dos enigmas

a graduar o acaso por tudo que tivemos juntos

entre frutos e flores.

 

(in As coisas simples, 1986)

Aos confrades, amigos, adeptos e simpatizantes

     Devido a um problema informático de última hora, não nos será possível fazer a postagem desta semana.    Esperando resolvê-lo em breve,...