quinta-feira, 8 de abril de 2021

Cristino Cortes, Quatro velas no templo de Esculápio

  

1.

 

Nesta minha idade ir ao médico é assim um tanto

Como quem se apresenta face a um juiz. Esperar

Pela pancada que nos vai dar. Sim, ele há-de encontrar

Algo para nos reprovar, e às vezes é um espanto.

 

Se não for uma coisa é outra, se tudo andasse bem

Diversa seria a natureza, não teria a velhice

Suas leis claramente estabelecidas… Grande chatice

Mas é assim, a idade não vai, antes a todos vem.

 

Sabe-se lá o que a cada um espera, o que o destino

Nos reserva. Combatem os doutores a doença, descalabro

Que lhe vem associado. Mas contra a morte, o cérebro glabro

Nada podem, e no fim chega a impotência do menino.

 

Dia após dia, é esta a lógica, e não pode haver outra.

Não desprezemos este escasso bem. Pena é a voz ser rouca.

 

2.

 

Eis o dia do juízo, final. O do bom clínico, entenda-se,

Sobre o que em futuro próximo, talvez, nos aguardará;

Depois de espiolhadas as íntimas entranhas nos dirá

Como a máquina funciona, condição última em que se encontra.

 

Do incómodo da posição, do acto em si não falarei.

Fadário dos homens que os deuses não levaram em jovens

Não sou excepção a esta regra, sei que os parabéns

São sempre provisórios, é bom e eu atento estarei.

 

Vou preparado para o que a estatística nos receita

Mas não tenho pressa de ser mais um cliente hospitalar.

Ouvirei sim, mas é prudente e avisado ponderar

O passo seguinte. Não se transforme a cura na maleita.                                                                             

 

Qual aprendiz de feiticeiro, da evolução futura

Aqui se trata. Oxalá não seja pesada ou escura.

 

3.

 

Completamente nu, humilhado, exposto e vulnerável

Devidamente picado, atado e mesmo entubado

Como alguém que num tabuleiro para o forno é levado

Começa finalmente a viagem, no mínimo pouco agradável.

 

Parece ser assim que agora se descobrem os achaques

Germinando em nossos interiores. Não é curiosidade

Nem a vã vontade de prever o futuro. É mais tarde

Do que cedo, aliás… Mas submeto-me, enfim, a tais técnicas.

 

O aparelho faz jus ao nome, bem alto soa e ressoa.

Nem com auscultadores no mínimo se reduz o ruído

Sinónimo do seu bom funcionamento. Mas eu não me fico

De ressonar não ando longe, qual rio que no mar se escoa.

 

E serve, tamanha investigação? Esse magnetismo

Pouco determina. Mas tranquilo __ se livre  desse sismo.                                                                          

 

4. 

 

Afinal parece que quando mal nunca andemos pior.

Continuamos com pena suspensa, mas autorizados

A encanar a perna à rã. Na maquineta os nossos dados

Não são preocupantes. O receio se foi em vapor

 

E um tanto mais alegres respiramos aliviados.

Até fui lanchar a uma pastelaria da tradição

Fazendo jus ao estatuto de candidato a ancião

E de boa vontade infringi preceitos consolidados.

 

Um dia não são dias e bem parecido com a maratona

É o que nos resta da vida, a prova de resistência.

Ser veloz já lá foi, agora é estender com paciência

Este guardanapo, as nódoas limpando com acetona.

 

Assim corresponda a alma, não falte o apetite, claro.

De fazer coisas, sempre em poesia. Do resto nem sequer falo.


Pequeno mostruário para vampiros

 


ns



Do "Caderno de Notas" do Doutor Jagodes:


 

  Uns estão no ramo da diplomacia, outros no do professorado. Ainda outros e outras, prevalecem-se no meio termo que é qualquer coisa pública, assessorias e jornalismos de meia-mantença. Ou de mantença completa. Propagam-se, como as orquídeas do deserto, digamos. Ou os malmequeres da estepe. E têm blogues e escrevem blogues e entesouram blogues e programinhas de TV. Ora se masturbam, ora fornicam entre eles as frases com que se entesoam. Que andaram quase todos na mesma faculdade, a da notoriedade obrigada a mote.

   São gente fina e reivindicam-se gastrónomos. Ou dizem-se. Ou apelam-se. Comem do bom e bebem do fino. Quando acaso se banqueteiam, enchem o bandulho como humanos piteireiros; e fotografam-se, porque nunca perceberam que, como dizia Beau Brummel, “se tiveres necessidade de dizeres quem és, não és ninguém”. Vestem bem se lhes apetece e mal se lhes quadra. São solidários, dessolidários, inteligentes ou encenadamente estúpidos.  Porque isso é belo lá entre eles. Ou outra palavra qualquer, porque o seu signo é a crueldade e o desdém que disso parte. Sem saberem, acederam à maior santidade, a da galhofa no meio da lama. Por isso, de vez em quando vão de ventas à torneira.

  Para terem um bocadinho de sonho? Creio que nem isso. Usam a cara como se usa a petulância de um sorriso sardónico. Ou a sobranceria ratona de um anacletismo louçano de opereta. São portugueses portuguesas até à medula, mas só nos fundilhos. De esquerda ou de extrema-esquerda tanto faz, isso é apenas um detalhe inócuo. Mas que os ajuda a fingir que são de fora, como aquela pedante loira e depois morena e depois loira televisivamente que escrevendo como se escreve nos croniquentos jornalitos de cá se sentia redactora de grande semanário americano. Para se compensar de ser uma criada de políticos ratoneiros? Muito provavelmente. Velhacazita como um abutre com cio? Tão natural como a sua sede de urubu.  De urubua. Pois o céu está-lhes prometido, a ela e aos seus parceiros de charneca.

  São da bela rapaziada. Decididos mas frascários. Canalhas mas vencedores. E se vencidos por qualquer razão, ficarão sempre na mó de cima. É da sua condição de classe média alta baixa. Ou de fidalgotes que como a pescadinha antes de o ser já o era. Ainda que republicanos. Ou das monarquias pindéricas.

  Espertíssimos, mas o país que controlam jamais passou da cepa torta. Talentosos, mas o sarro nunca o tiraram das esquinas e das paredes da pátria. Quando rebentam, quando estoiram (não morrem, fundem-se, esta gente não é digna de morrer) imortalizam-se na conversa rôta e sorna dos seus pares.

   Nunca escrevem nada de permanente, de sóbrio, de fundacional e sincero. E da emoção apenas sabem a lágrima fácil. Que pode ser arrôto. Ou traque. Mas nunca grito desgarrador e comovente.

  Pululam nos espaços interactivos, televisivos e nas folhas-de-couve da Nação. Unem-se em irmandades informais e em cooptações estarrecedoras. Ou afectuosas. Lusitanamente doloridos, mas no fundo do poço da alma trazem nele a marca, o ferrete da hipocrisia mansa e do cinismo de bom tom.

  Nunca serão fuzilados num terreiro. Nem pendurados num carvalho da Califórnia. Nem empalados num zimbreiro da Transilvânia.

  Quase eternos, omnipresentes como piolhos por costura, nunca nos veremos livres deles.

  São a garantia da raça bastardinha. E têm opiniões. Autónomos na sua infâmia progressiva e moderna, durarão até ao fim dos séculos. Ou mesmo um poucochinho mais.

   Mas nem dão nem nunca darão p’ra tabaco.   

 

José Jagodes, Esquire & Ph.D.M.

  


                                                                                          



Antonio Vivaldi, Tempestade de Verão

 



segunda-feira, 5 de abril de 2021

PÓRTICO

 

    De alguns confrades recebi indicação de que os habituais mails de aviso das postagens (sempre enviados nas segundas e quintas-feiras) os têm recebido em spam. Temos ainda conhecimento, dado por um confrade especialista em contra-informação, que coisas semelhantes têm estado a ser muito comuns no universo nético que é tido por crítico do regime costista. Assim como outros diversos actos de "enegrecimento" anti-democrático.

     Assim sendo, solicitamos aos confrades que, não vendo os mails remetidos nessas ocasiões, vistoriem p.f. a pasta de spam. Obrigado.

ns


Reflexão

 

   Parece-me ser claro o que Costa, ao “desafiar” o presidente, pretende: ou vence a partida, ultrapassando Marcelo que ele considera ser apenas um fala-barato sem arcaboiço para sustentar uma “briga”, ou não levando a água ao seu moinho provocar uma crise política que lhe permita ir para eleições antecipadas. Ele sabe que durante a pandemia, com os problemas inerentes, tem a faca e o queijo na mão podendo continuar a tripudiar e a manobrar como é seu hábito. Mais tarde, com a acalmia e a atenção que essa acalmia proporciona, o perigo espreita-o, os portugueses poderão escrutinar com lucidez a sua má governação e as suas tentativas de permitir a instauração de um regime pró-totalitário em que os corruptos do núcleo duro do regime tenham a força de mando. O que lhe será fatal.

    Daí que conte com o oportunismo do PC e a velhacaria do BE para tentar fazer com que as vacas voem, garantindo o seu poder e o do atual PS, leninista, politicamente correto e autoritário em que o que o separa do BE é apenas o facto de ser poder e governo, enquanto estes são não mais que uma confraria de eventuais alucinados.

 

Manuel Paes de Ornelas


Para um minuto de meditação - 81

 



O nosso Titanic, com orquestra e comandante 

  (Dos jornais)

 

    É evidente que o barco nunca teve comandante. O malabarista tratou da sua vidinha (alcançar o poder com a colaboração do PCP e do BE). Para ele, o "estar" é um modo de vida. Tratar de desenvolver o País e promover o seu crescimento, NADA! Nunca teve qualquer carreira profissional que o fizesse conhecer a vida. E também não tem visão de futuro. Esgota-se no presente, que é manter o poder a qualquer preço. 

Maria Oliveira

 

   Sim, tem razão no que diz. E é gente como ele que dá palco a delinquentes políticos como F.Louçã, que há dias na TV fez declarações repugnantes sobre o Holodomor e outros massacres, onde até canibalismo houve, galhofando sobre esses crimes do fascismo vermelho que ele é claro, perfilha. Já levantou o repúdio dos cidadãos civilizados, embora sociopatas do seu jaez só entendam factos materiais, o que ele merecia sendo expulso de conselheiro de Estado, cargo com que suja a democracia, ainda que periclitante.

Nuno Moura Lopes

 

   M. Rebelo de Sousa, finalmente, agiu como um estadista e não como mero baby sitter do cínico manobrador que está primeiro-ministro e é um autocrata disfarçado de amigo do povo. Ao promulgar três diplomas contra os interesses do dito cujo, mostrou que afinal ainda não se rendeu completamente aos nepotistas autoritários.

  Foi para se portar como um político vertical que o povo o elegeu, senhor presidente!

Jorge Perestrelo


Três poemas de José Carlos Costa Marques

 

Poética

 

O sentimento está fora de moda.

De tesoura em punho, os censores vigiam,

muito académicos.

Plenos de gramática, de retórica, de subtil análise,

e outras ferramentas muito bem afiadas

que te rapam todo o osso e te estruturam,

desconstroem,

psicanalisam.

E tu, que és velado sentimento,

revelado,

e até saraivado,

despudor imenso do mais recatado pudor,

tu guardas na gaveta a papelada,

muito estoico,

muito pessoano,

 

e o silêncio é deles.

 

Arte  Menor

 

Esse poema, como gostaria

De tê-lo escrito! Porém, outro

O escreveu, e glorioso, e negaria

Que pudesse eu, tão pobre e roto,

 

Alguma vez tão luminosa harmonia

Alcançar. Não, neste rude loto

Da vida feita arte, quem ousaria

Igualar-se aos grandes, inseguro potro

 

Que quer cavalgar sem freio?

Porém, se vejo o grande, nele me espelho

E arte isso é também. Menor,

 

Sem dúvida, embora seja do vermelho

Alvorecer leite do mesmo seio,

Embora seja sangue da mesma dor.

 

 

Chiado

 

Os literatos fazem literatura.

A vida, essa, ri-se de nós todos.

O que fazemos, a jactos ou a rodos,

Só dá ventura a quem já tem ventura.

 

Adjectivamos, substantivamos, a dura

Vida real, incontornável. Os modos

Com que falamos, os sentires serôdios

Chegam no outono, ferida e ligadura.

 

Para a vida apontamos, a tremer.

Ela não perdoa, e lança-nos o pó.

Passa a multidão na rua, nesta calma.

 

E nós, perdidos em palavras, escrever

Sabemos apenas, nosso clube do Só.

Grande o azul somente, igual da alma.


Maria Vieira da Silva, Politicamente correcto, o segundo passo para o totalitarismo

 

  Devido à situação grave que a Nação atravessa, em que o regime costista tenta incrementar uma “ditadura branda” apoiada na corrupção, no nepotismo e nos postulados do totalitário Gramsci que hoje o PS perfilha, damos a lume este importante e lúcido texto, com a devida vénia à sua autora e ao órgão de informação que o publicou.

                                  ns


                                                           MARIA VIEIRA DA SILVA

(Jurista em Direito da União Europeia e consultora em cooperação para o desenvolvimento)


A propaganda alimenta-se de ignorância e de arrogância. Ela pode assumir várias formas, mas a manipulação orwelliana da linguagem continua a ser a chave para a reforma do pensamento.

    Nos últimos dias, muita gente tem escrito sobre o chamado “politicamente correcto” como algo absurdo, que inviabiliza o debate democrático. Isso está certo. Mas também não vem ao caso. Até à data, nenhum regime totalitário surgiu espontaneamente, do nada, suprimindo direitos e reprimindo dissidências. O povo tem de estar pronto para o totalitarismo. Ele tem de aprender a abraçar os seus princípios básicos e práticas voluntariamente ou sem grande resistência. Nesse sentido, mais importante do que descrever o “politicamente correcto” é saber quantas pessoas sabem como se prepara o caminho para o totalitarismo. Pelo que se vê, poucas. A maior parte pensa que o totalitarismo é um achado arqueológico, associado a guerras genocidas, impossível de implementar nas sociedades livres. Nada mais errado:  o totalitarismo impõe-se, sempre que o poder se concentra nas mãos de uma pequena elite – “a vanguarda”, leninista.

   A “vanguarda”, que no passado fomentou a guerra de classes para alcançar o poder absoluto do Estado sobre cada ser humano, é a mesma que hoje tenta fazê-lo através do último dogmatismo em voga, o “politicamente correcto”. O “politicamente correcto” é a sonhada Revolução falhada do século XX reduzida à mutação lexical, no sentido de que, não podendo mudar a realidade das coisas e a imperfeição da humanidade, mudam-se as palavras para indicá-las, adoptando uma nova linguagem.

   Se o leitor não acredita em mim, observe as sociedades livres que vivem uma divisão exacerbada e sem precedentes e o facto de, praticamente, todas as fontes oficiais de informação e controlo de opinião estarem nas mãos da “vanguarda” politicamente correcta, incluindo as Big Techs. Observe também as actuais tendências, que se desdobram a uma velocidade vertiginosa.

   Não enganam. É melhor conhecê-las se queremos evitar a erosão da liberdade e o crescimento de um poder centralizado, não? Identifiquei seis passos, que nos mostram a mão oculta da “vanguarda”, sem a brutalidade soviética, a saber, resumidamente:

1. Formação das bases

O processo que coloca as sociedades livres na rota totalitária pode durar anos, ou até mesmo décadas, e começa, regra geral, com a infiltração da ideologia totalitária em importantes áreas tradicionais de ensino. É através do controlo das instituições de ensino que os “intelectuais orgânicos” entorpecem as mentes e promovem directamente a ideologia totalitária entre os jovens. Fazem-no de várias formas, que vão desde a burocratização excessiva da vida, que permite políticas que promovem a polarização, a dependência e o isolamento humano, como é o caso das políticas identitárias, que substituíram a luta de classes; atrofiando o pensamento livre e independente com modismos educacionais que cultivam a ignorância e evitam o conhecimento, ou por meio do ataque às ciências humanas e sociais.

   Quando ingressam na sociedade, a maior parte dos jovens não consegue pensar fora da narrativa distorcida totalitária, o que os torna vulneráveis à manipulação, exercida, também, pelos meios tecnológicos que são incorporados à base.

2. Propaganda

   A propaganda alimenta-se de ignorância e de arrogância. Ela pode assumir várias formas, mas a manipulação orwelliana da linguagem continua a ser a chave para a reforma do pensamento. A propaganda actual assume a forma de politicamente correcto, que Mao Tsé-Tung usou para controlar a dissidência no início da Revolução Cultural. A ideia era simples: quem apoiasse as políticas do regime era considerado politicamente correcto. Quem se opusesse, era punido, atacado, morto.

   A propaganda politicamente correcta funciona como uma fábrica de tendências em série, em doses liofilizadas, cuja aplicação isenta de raciocínio, economiza o esforço do julgamento crítico, induz a autocensura e a falsificação de preferências para criar a ilusão de apoio da opinião pública.

   Ela é usada para dividir o mundo entre oprimido e opressor e identificar o sistema pelo qual a opressão ocorre.

   Ela é usada para estender a moralidade do presente ao passado, julgar palavras e actos do passado com os olhos, palavras e preconceitos do presente, aplicando retroactivamente as lentes ideológicas a todas as eras passadas, que tiveram outras visões do mundo. É a suprema presunção de que a civilização, a idade da razão e da humanidade começaram com o presente. O resto é barbárie, pré-história.

   Ela é usada para isolar a vida de um personagem a uma frase, um episódio, independentemente do contexto, para, em nome daquele particular detalhe, o difamar, demolir e decapitar a sua memória. A aberração deste revisionismo consiste na condenação de personagens falecidas, quando, no afinal, a proibição recai sobre os vivos, atingindo, por um lado, quem tem opiniões diferentes sobre a história e, por outro, afectando e inibindo historiadores, as suas pesquisas, julgamentos e interpretações.

   Ela é usada para reduzir a liberdade de todos os dissidentes, antagonistas e insubordinados a “racistas”, “nazistas”, “fascistas” e assim por diante.

   A lista continua.

3. Agitação social

   Lenine dizia que agitação e propaganda andam juntas e são absolutamente essenciais para a revolução. O objetivo da propaganda é levar as pessoas à acção. Não à acção pacífica, mas àquela que cultiva o ódio e a frustração. É por isso que a “vanguarda” precisa sempre de alguém para odiar e quando sonha com um mundo melhor é apenas para punir a humanidade presente pelas suas imperfeições. O ódio disfarçado de ideologia leva-a a empenhar-se em manter uma grande subclasse de pessoas dependentes e ignorantes, porque isso gera sentimentos de frustração e de alienação que podem ser canalizados para práticas radicais. Fá-lo, seguindo as instruções de Lenine, ocultando sempre as suas verdadeiras intenções com encenações que parecem razoáveis ou inofensivas em si mesmas e segundo as regras de Saul David Alinsky, que aconselham acções que não gerem questionamentos na opinião pública, porque sempre que se consegue mobilizar as pessoas em torno de uma causa que faça sentido para elas, o povo ficará pronto para outras acções.

4. Controlo das instituições

   A “longa marcha pelas instituições” gramsciana começou há cerca de um século e nunca mais parou. Destruir as instituições da sociedade por dentro permite ao totalitarismo preencher o vácuo. A instituição da família, por exemplo, foi totalmente desmantelada. Ontem, com a abolição do pai. Hoje, com a da mãe. A mãe tornou-se uma entidade supérflua, reduzida a um útero alugado para alegria dos casais homossexuais que querem comprar filhos. Os termos “pai” e “mãe” também estão em vias de extinção.

5. Conformidade

   A conformidade baseada no medo de ser socialmente isolado é a essência do totalitarismo.  Não se engane: a “vanguarda” sabe que o seu poder é proporcional ao medo incutido. E tem sido muito, como podemos ver pelo pelotão de conformistas que marcham uniformizados, indiferentes à tentativa orwelliana de remover todas as sementes de dissidência e pensamento crítico das redes sociais. Não há uma voz pública de relevo que condene este atentado à liberdade, só silêncio-assentimento, quando não um mandato para empestar o ar com este cheio nauseabundo censório que se respira. O mesmo se pode dizer da falta de coragem de historiadores para condenar, veementemente, o linchamento retroactivo de acontecimentos históricos e personagens do passado. É o seu silêncio cobarde que legitima a demência totalitária que criminaliza o passado, reduzindo-o a uma colecção de horrores. A lista podia continuar com o desejo sombrio de censura que domina os media, mas o leitor já percebeu que estamos a falar de pessoas que temem qualquer exposição ao risco, que sabem que se levantassem o véu da hipocrisia totalitária, comprometeriam o seu acesso a cargos de prestígio ou a cátedras, visibilidade na TV e nos jornais, colaborações e posições. Resta-nos a dissidência popular.

6. Solução final

   Este é o passo em que a “vanguarda” revela de que é feita. É quando, em nome da igualdade e da injustiça ou do verniz humanitário, elimina brutalmente qualquer um que exponha a sua farsa. Agora, sem o Gulag. A eliminação física do dissidente foi substituída pela eliminação moral, civil, intelectual, ou seja, ele é considerado morto ou nunca vivido.

   É a certidão de óbito em vida.

  (in Observador)                                                                         


Marillion, Three boats down from the Candy

 




sexta-feira, 2 de abril de 2021

Para um minuto de meditação - 80

 

   Como os leitores se deram conta, o outro post tinha o selo claro do 1 de Abril, o chamado Dia das Mentiras…

   Este, que agora aqui vos deixamos, é que constitui a verdade em que, neste momento, o protagonista da foto está mergulhado. 




“Ascenso Simões processado por ultraje a símbolos nacionais e incitamento ao ódio e à violência”

(Dos jornais)


   Cá para mim, que não sou de intrigas, este cavalheiro de fina estirpe socialista aparentemente sedento de sangue, ficará isento de punição adequada, pois como se costuma dizer apenas expressou simbolicamente um sentimento comum aos seus correligionários que optaram pelo silêncio sepulcral.

   E as instâncias próprias, compreensivas, magnânimas, decerto desculparão arquivando fraternalmente como cumpre.

Fernando Biscaia


   Ou talvez não, sabe-se lá. Talvez as tais instâncias próprias tenham um arroubo de dignidade e o ponham no lugar que a meu ver lhe é devido! Não dizem à boca cheia que isto é um país de Direito?

Hilário Barreto


quinta-feira, 1 de abril de 2021

Para um minuto de meditação - 79

 


   O militante progressista Ascenso Simões convocou, esta manhã, a imprensa de referência para uma conferência, na qual revelou que vai propor que a Torre de Belém seja reconvertida numa pequena célula prisional destinada a alojar líderes do Sector Subversivo, ainda designados neste momento como Oposição.

   O famoso pensador histórico fazia-se acompanhar de um varapau e, respondendo a um repórter referencial esclareceu que tal se destinava a, e citamos, “se precaver dos maus encontros” e por ainda não ser altura de estar munido de uma Magnum 357 destinada a esse propósito e muito mais eficaz.

   Este membro da elite mais dinâmica referiu adicionalmente que a seu tempo, no lugar do antigo Padrão dos Descobrimentos, se projectava erigir uma estátua ao Velho do Restelo por este ser dono, de acordo com o reputado deputado, de “uma visão crítica e bem fundamentada do descalabro que fora a colonização perpetrada por indivíduos claramente da direita populista de Quatrocentos e Quinhentos”.

    Refira-se que as declarações do orador foram seguidas por uma espontânea salva de palmas da parte dos repórteres de referência, que não se conseguiram conter.

(Dos jornais)


Um poema de Mário Botas

 



“Seldom we find” says Solomon Don Dance

                             Half an idea in the profoundest sonnet”

                                                                                         E.A.Poe


A fisionomia, o carinho das coisas impalpáveis,

o balbuciar, todo em amarelo, dos limões...

Cintura na pedra,

correio subtil de Lesbos para Marte.

 

Antinous visitou-me. Deixou a casa desarrumada

e um projecto em mim demasiadamente longo.

No frágil da memória eu durmo e sou eu

deuses de papelão sentando-se a meu lado.

 

No leito fluvial por onde dorme o cisne

chamam por mim os outros príncipes. Todos

irmãos.

 

Escuridão nova na velha escuridão,

efeito de luz nas janelas do poema...

O meu cão dorme. He is a poet, isn’t he?

 

                                                                 (1980)

 

Nota – Oferecido a NS no decorrer da turbulenta sessão surrealista que se refere no texto inserido a seguir, o poema (talvez intimidado por esses sucessos) esteve desaparecido durante 22 anos entre a papelada do poeta alto-alentejano – ou seja cá o meco. Descoberto por um dos seus filhos entre as folhas de um livro de C.W.Ceram iluminado por um desenho de Lud, foi dado a lume em Maio de 2002 no suplemento cultural “Fanal” (depois suspenso por imperativos do destino…) do jornal “Distrito de Portalegre” posteriormente defuncionado por gente sem merecimento após uma triste e sacrílega agonia...


É assim que se faz a estória...

 

Um relato-“reportagem”: “Pela porta do cavalo”



ns, Óleo sobre cartão


    No decorrer da turbulenta sessão surrealista aqui referida e durante a qual se esboçaram entre alguns assistentes amoráveis pequenas cenas de pugilato e outras danças a carácter propiciadas por espectadores fãs dos situacionistas de Leste, além de um poema (publicado na entrada acima) Mário Botas – que ali nos fora acompanhar como espectador - teve a gentileza de me oferecer também um desenho aguarelado de excelente feitura.

    Perdido sem apelo nem agravo entre os eflúvios da zaragata ficou ele, creio que capturado por um desembaraçado anónimo admirador do pintor - o que a ninguém dói mais que a mim, seu feliz proprietário durante o melhor de aí uns vinte minutos… ou duas horas.

 

    Sei, por tradição escrita e oral, que há uns senhores (ensaístas ou biógrafos, lhes chamam) que têm por mester traçar a vida e os cometimentos dos que em esta vida pintaram ou poetaram. Dedicado a esses bons espíritos, poupando-lhes assim trabalho moroso de investigação, é que segue este resquício de texto, enviesado porque os tempos não dão para mais.

    Ora foi que no passado dia 1 de Novembro dei comigo, de juntura com Mário Cesariny, num salão de Alcântara a falar de surrealismo. A sessão foi algo picaresca. No meio de gente atenta e interessada houve (e ainda bem, ou mal) uns fulanos que não aguentaram o Artaud, os negros Nauba em livro que lhes dei a ver, os poemas do Mário e os meus próprios. No meio da conversa deram de si, o que foi curioso de contemplar. Já toda a gente sabe que no Movimento político luso (digamos assim por comodidade) há, discreta e séria, uma doce corrente meio nazi/ meio estalinista, expressa ou camuflada. Tão camuflada que por vezes nem os próprios se reconhecem. Bem certo é que o estampido das suas cabeças por dentro lhes dificulta às vezes o conhecimento intrínseco de si mesmos, mas o que não está bonito é que deixemos os vindouros sem isto lhes assinalarmos.

    A palestra sucedeu no âmbito da Semana de Presença Libertária. Antes de nós tinha actuado o Grupo Mandrágora com uma peça em um acto de Jorge de Lima Alves, “Jau”, que está a preparar-se para enfrentar o público.

    Depois de eu ter apresentado uma breve resenha dos prolegómenos dadaístas e surrealistas, Mário Cesariny “para lançar uma ponte entre todos e que permitisse intervenções e perguntas”, começou a ler umas linhas de Artaud, do seu livro “Viagem à terra dos Tarahumaras”. Foi quase a seguir que começou a bagunça (peço desculpa aos meus leitores mas não posso utilizar outro termo menos vernáculo): um senhor de barbas, atingido pela voz do autor de “A cidade queimada” e pelos ecos de Artaud, increpou logo o ledor, perguntando-lhe com laivos que pensou irónicos se “aquilo era uma lição de antropologia”. O que ele queria, viu-se depois, era que os surrealistas dissessem ao que vinham, como os pajens de antanho. Qual era o seu presente e, eventualmente, o seu futuro. Antes de lhe responder, o que fiz seguidamente, uma senhora do sector interessado desfechou-lhe com vivacidade o que ele estava a pedir: “que aquilo não era um comício e, se não estava interessado na voz dos poetas, podia sair e arejar o ambiente”. O rapaz de barbas, que devia ser um tímido, calou-se prudentemente.

    Depois de Cesariny lhe ter dito que, ao contrário dele, não acreditava no seu  “progresso” ocidental, que era o que repassava a sua intervenção, pouco na história e ainda menos no futuro da literatura, afirmei-lhe por minha vez que me parecia que Artaud, pondo de parte o interesse evidente do seu relato, todo percorrido por uma aragem de paixão e imaginação, não estava morto. “Neófito, não há morte”, como dizia Fernando Pessoa. Além disso, era de nos interrogarmos se não estariam mais mortos os laboriosos mentores da cultura oficializada inventora da corrida em frente (para o abismo). Quanto ao surrealismo, vai indo bem e de saúde: a poesia sob todas as formas é o que lhe interessa, os totalitarismos o que não lhe quadra. Disse alguns textos de Cesariny e meus, espalhando revoada de diabos. Recompostas as coisas, tracei um panorama do que se pode entender por acção poética: prospecção do humor negro, do amor e da alta Aventura, da ligação ao não-autoritarismo, à Beleza e ao repúdio do que por detrás dela se esconde como um rinoceronte: o horrível do Belo, exemplificado entre nós por sarcófagos altifalantes como José Augusto França, Prado Coelho, “universitários” e outra gente de fraque. Expliquei mais ou menos em tempo porque é que aderimos à chamada Utopia dos Grandes Transparentes, porque negamos a religião clerical e o Poder, seja ele de Estado ou de sector. Foi a seguir, quando coloquei o Dada retardado Vaneigen no lugar que lhe compete (estraga-albardas mascarado de sacristão, exemplificado pela repugnante frase “a Esperança é a trela da submissão”) que alguns rapazes ficaram um pouco ourados. Após dar a minha opinião sobre o que eles pretendem destruindo a Poesia e a Arte (a arte lúcida e viva) e que é simplesmente destruir a forma mais eficaz de criatividade, dei a altura e a água ao Mário que mostrou sem margem para confusão a razão de serem os adeptos de Vaneigen iguaizinhos aos moços de Brejnev: adesão a um comportamento rígido e totalizador, sequelas sexuais não resolvidas, ódio à Vida no mais alto grau, adesão a esquemas maniqueístas. Depois de me referir ao exemplo que Bradbury equacionou no seu magnífico “Fahrenheit 451”, uma sociedade crestadora dos livros, das pinturas, mergulhada na masturbação, no comer-dormir-trabalhar e na delação, foi aí que tive oportunidade de ver saltar do canto um indivíduo espumando de fúria que, parecendo conhecer-me, achou “que tinha de acabar-se com a Arte e os artistas”. Retorqui-lhe que só havia um meio para isso – prender em campos de concentração os ditos, queimar os quadros e instaurar a polícia total do pensamento e do corpo. Pelo que me dizia respeito garantia-lhe que, mesmo numa cela, mesmo retalhado, continuaria a fazer versos, se não escritos pelo menos pensados. O indivíduo em causa, persistindo, afirmou-me que o que lhe interessava era “destruir o surrealismo”, programa aliás digo eu já no mapa de certos sujeitos como Hitler, Stalin, Mussolini, Mao, Fidel e Salazar. O que o indivíduo queria significar era sem dúvida “destruir a poesia” que para ele ao que percebi é apenas alibi e truque.

    Censurado por alguns assistentes, com quem chegou a envolver-se em disputa física apartada por outros, a pessoa tentou continuar a conversa lá fora, não sem antes me tentar aplacar dizendo-se magoado por eu o ter comparado ao Brejnev. De facto comparei-o mal: parece-se mais com um jovem e desaparecido membro da “Jugendgroup” que vi num filme sobre a Segunda Guerra Mundial.

    A sessão, ao que percebi, iria acabar mal se um interveniente não tivesse vindo pôr termo ao espectáculo (passe a ironia) falando na hora tardia.

    E foi só.

    Resta-me garantir aos jovens assistentes interessados que continuarei a poetar. Isto serve também para os não interessados. Agradeço também a atenção expressa pelos outros assistentes: mulheres e homens. E até sempre…

                                                                                             ns

 

Nota – Este texto foi publicado na página cultural do semanário alentejano “A Rabeca”, órgão de informação onde na altura colaborava.


Ennio Morricone, O oboe de Gabriel

 



Aos confrades, amigos, adeptos e simpatizantes

     Devido a um problema informático de última hora, não nos será possível fazer a postagem desta semana.    Esperando resolvê-lo em breve,...