segunda-feira, 5 de abril de 2021

Três poemas de José Carlos Costa Marques

 

Poética

 

O sentimento está fora de moda.

De tesoura em punho, os censores vigiam,

muito académicos.

Plenos de gramática, de retórica, de subtil análise,

e outras ferramentas muito bem afiadas

que te rapam todo o osso e te estruturam,

desconstroem,

psicanalisam.

E tu, que és velado sentimento,

revelado,

e até saraivado,

despudor imenso do mais recatado pudor,

tu guardas na gaveta a papelada,

muito estoico,

muito pessoano,

 

e o silêncio é deles.

 

Arte  Menor

 

Esse poema, como gostaria

De tê-lo escrito! Porém, outro

O escreveu, e glorioso, e negaria

Que pudesse eu, tão pobre e roto,

 

Alguma vez tão luminosa harmonia

Alcançar. Não, neste rude loto

Da vida feita arte, quem ousaria

Igualar-se aos grandes, inseguro potro

 

Que quer cavalgar sem freio?

Porém, se vejo o grande, nele me espelho

E arte isso é também. Menor,

 

Sem dúvida, embora seja do vermelho

Alvorecer leite do mesmo seio,

Embora seja sangue da mesma dor.

 

 

Chiado

 

Os literatos fazem literatura.

A vida, essa, ri-se de nós todos.

O que fazemos, a jactos ou a rodos,

Só dá ventura a quem já tem ventura.

 

Adjectivamos, substantivamos, a dura

Vida real, incontornável. Os modos

Com que falamos, os sentires serôdios

Chegam no outono, ferida e ligadura.

 

Para a vida apontamos, a tremer.

Ela não perdoa, e lança-nos o pó.

Passa a multidão na rua, nesta calma.

 

E nós, perdidos em palavras, escrever

Sabemos apenas, nosso clube do Só.

Grande o azul somente, igual da alma.


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