Poética
O sentimento
está fora de moda.
De tesoura
em punho, os censores vigiam,
muito
académicos.
Plenos de
gramática, de retórica, de subtil análise,
e outras
ferramentas muito bem afiadas
que te rapam
todo o osso e te estruturam,
desconstroem,
psicanalisam.
E tu, que és
velado sentimento,
revelado,
e até
saraivado,
despudor
imenso do mais recatado pudor,
tu guardas
na gaveta a papelada,
muito estoico,
muito
pessoano,
e o silêncio
é deles.
Arte Menor
Esse poema,
como gostaria
De tê-lo
escrito! Porém, outro
O escreveu,
e glorioso, e negaria
Que pudesse
eu, tão pobre e roto,
Alguma vez
tão luminosa harmonia
Alcançar.
Não, neste rude loto
Da vida
feita arte, quem ousaria
Igualar-se
aos grandes, inseguro potro
Que quer
cavalgar sem freio?
Porém, se
vejo o grande, nele me espelho
E arte isso
é também. Menor,
Sem dúvida,
embora seja do vermelho
Alvorecer
leite do mesmo seio,
Embora seja
sangue da mesma dor.
Chiado
Os literatos
fazem literatura.
A vida,
essa, ri-se de nós todos.
O que
fazemos, a jactos ou a rodos,
Só dá
ventura a quem já tem ventura.
Adjectivamos,
substantivamos, a dura
Vida real,
incontornável. Os modos
Com que
falamos, os sentires serôdios
Chegam no
outono, ferida e ligadura.
Para a vida
apontamos, a tremer.
Ela não
perdoa, e lança-nos o pó.
Passa a
multidão na rua, nesta calma.
E nós,
perdidos em palavras, escrever
Sabemos
apenas, nosso clube do Só.
Grande o
azul somente, igual da alma.
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