Devido à situação grave que a Nação atravessa, em que o regime costista tenta incrementar uma “ditadura branda” apoiada na corrupção, no nepotismo e nos postulados do totalitário Gramsci que hoje o PS perfilha, damos a lume este importante e lúcido texto, com a devida vénia à sua autora e ao órgão de informação que o publicou.
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MARIA VIEIRA DA SILVA
(Jurista
em Direito da União Europeia e consultora em cooperação para o desenvolvimento)
A
propaganda alimenta-se de ignorância e de arrogância. Ela pode assumir várias
formas, mas a manipulação orwelliana da linguagem continua a ser a chave para a
reforma do pensamento.
Nos últimos dias, muita gente tem escrito
sobre o chamado “politicamente correcto” como algo absurdo, que inviabiliza o
debate democrático. Isso está certo. Mas também não vem ao caso. Até à data,
nenhum regime totalitário surgiu espontaneamente, do nada, suprimindo direitos
e reprimindo dissidências. O povo tem de estar pronto para o totalitarismo. Ele
tem de aprender a abraçar os seus princípios básicos e práticas voluntariamente
ou sem grande resistência. Nesse sentido, mais importante do que descrever o
“politicamente correcto” é saber quantas pessoas sabem como se prepara o
caminho para o totalitarismo. Pelo que se vê, poucas. A maior parte pensa que o
totalitarismo é um achado arqueológico, associado a guerras genocidas, impossível
de implementar nas sociedades livres. Nada mais errado: o
totalitarismo impõe-se, sempre que o poder se concentra nas mãos de uma pequena
elite – “a vanguarda”, leninista.
A “vanguarda”, que no passado fomentou a
guerra de classes para alcançar o poder absoluto do Estado sobre cada ser
humano, é a mesma que hoje tenta fazê-lo através do último dogmatismo em voga,
o “politicamente correcto”. O “politicamente correcto” é a sonhada Revolução
falhada do século XX reduzida à mutação lexical, no sentido de que, não podendo
mudar a realidade das coisas e a imperfeição da humanidade, mudam-se as
palavras para indicá-las, adoptando uma nova linguagem.
Se o leitor não acredita em mim, observe as
sociedades livres que vivem uma divisão exacerbada e sem precedentes e o facto
de, praticamente, todas as fontes oficiais de informação e controlo de opinião
estarem nas mãos da “vanguarda” politicamente correcta, incluindo as Big
Techs. Observe também as actuais tendências, que se desdobram a uma velocidade
vertiginosa.
Não enganam. É melhor conhecê-las se
queremos evitar a erosão da liberdade e o crescimento de um poder centralizado,
não? Identifiquei seis passos, que nos mostram a mão oculta da “vanguarda”, sem
a brutalidade soviética, a saber, resumidamente:
1.
Formação das bases
O
processo que coloca as sociedades livres na rota totalitária pode durar anos,
ou até mesmo décadas, e começa, regra geral, com a infiltração da ideologia
totalitária em importantes áreas tradicionais de ensino. É através do controlo
das instituições de ensino que os “intelectuais orgânicos” entorpecem as mentes
e promovem directamente a ideologia totalitária entre os jovens. Fazem-no de
várias formas, que vão desde a burocratização excessiva da vida, que permite
políticas que promovem a polarização, a dependência e o isolamento humano, como
é o caso das políticas identitárias, que substituíram a luta de classes;
atrofiando o pensamento livre e independente com modismos educacionais que
cultivam a ignorância e evitam o conhecimento, ou por meio do ataque às
ciências humanas e sociais.
Quando ingressam na sociedade, a maior parte
dos jovens não consegue pensar fora da narrativa distorcida totalitária, o que
os torna vulneráveis à manipulação, exercida, também, pelos meios tecnológicos
que são incorporados à base.
2.
Propaganda
A propaganda alimenta-se de ignorância e de
arrogância. Ela pode assumir várias formas, mas a
manipulação orwelliana da linguagem continua a ser a chave para a
reforma do pensamento. A propaganda actual assume a forma de politicamente
correcto, que Mao Tsé-Tung usou para controlar a dissidência no início da
Revolução Cultural. A ideia era simples: quem apoiasse as políticas do regime
era considerado politicamente correcto. Quem se opusesse, era punido, atacado,
morto.
A propaganda politicamente correcta funciona
como uma fábrica de tendências em série, em doses liofilizadas, cuja aplicação
isenta de raciocínio, economiza o esforço do julgamento crítico, induz a
autocensura e a falsificação de preferências para criar a ilusão de apoio da
opinião pública.
Ela é usada para dividir o mundo entre
oprimido e opressor e identificar o sistema pelo qual a opressão ocorre.
Ela é usada para estender a moralidade do
presente ao passado, julgar palavras e actos do passado com os olhos, palavras
e preconceitos do presente, aplicando retroactivamente as lentes ideológicas a
todas as eras passadas, que tiveram outras visões do mundo. É a suprema
presunção de que a civilização, a idade da razão e da humanidade começaram com
o presente. O resto é barbárie, pré-história.
Ela é usada para isolar a vida de um
personagem a uma frase, um episódio, independentemente do contexto, para, em
nome daquele particular detalhe, o difamar, demolir e decapitar a sua memória.
A aberração deste revisionismo consiste na condenação de personagens falecidas,
quando, no afinal, a proibição recai sobre os vivos, atingindo, por um lado,
quem tem opiniões diferentes sobre a história e, por outro, afectando e
inibindo historiadores, as suas pesquisas, julgamentos e interpretações.
Ela é usada para reduzir a liberdade de
todos os dissidentes, antagonistas e insubordinados a “racistas”, “nazistas”,
“fascistas” e assim por diante.
A lista continua.
3.
Agitação social
Lenine dizia que agitação e propaganda andam
juntas e são absolutamente essenciais para a revolução. O objetivo da
propaganda é levar as pessoas à acção. Não à acção pacífica, mas àquela que
cultiva o ódio e a frustração. É por isso que a “vanguarda” precisa sempre de alguém
para odiar e quando sonha com um mundo melhor é apenas para punir a humanidade
presente pelas suas imperfeições. O ódio disfarçado de ideologia leva-a a
empenhar-se em manter uma grande subclasse de pessoas dependentes e ignorantes,
porque isso gera sentimentos de frustração e de alienação que podem ser
canalizados para práticas radicais. Fá-lo, seguindo as instruções de Lenine,
ocultando sempre as suas verdadeiras intenções com encenações que parecem
razoáveis ou inofensivas em si mesmas e segundo as regras de Saul David
Alinsky, que aconselham acções que não gerem questionamentos na opinião
pública, porque sempre que se consegue mobilizar as pessoas em torno de uma
causa que faça sentido para elas, o povo ficará pronto para outras acções.
4.
Controlo das instituições
A “longa marcha pelas instituições”
gramsciana começou há cerca de um século e nunca mais parou. Destruir as
instituições da sociedade por dentro permite ao totalitarismo preencher o
vácuo. A instituição da família, por exemplo, foi totalmente desmantelada.
Ontem, com a abolição do pai. Hoje, com a da mãe. A mãe tornou-se uma entidade
supérflua, reduzida a um útero alugado para alegria dos casais homossexuais que
querem comprar filhos. Os termos “pai” e “mãe” também estão em vias de extinção.
5.
Conformidade
A conformidade baseada no medo de ser
socialmente isolado é a essência do totalitarismo. Não se engane: a
“vanguarda” sabe que o seu poder é proporcional ao medo incutido. E tem sido
muito, como podemos ver pelo pelotão de conformistas que marcham uniformizados,
indiferentes à tentativa orwelliana de remover todas as sementes de
dissidência e pensamento crítico das redes sociais. Não há uma voz pública de
relevo que condene este atentado à liberdade, só silêncio-assentimento, quando
não um mandato para empestar o ar com este cheio nauseabundo censório que se
respira. O mesmo se pode dizer da falta de coragem de historiadores para
condenar, veementemente, o linchamento retroactivo de acontecimentos históricos
e personagens do passado. É o seu silêncio cobarde que legitima a demência
totalitária que criminaliza o passado, reduzindo-o a uma colecção de horrores.
A lista podia continuar com o desejo sombrio de censura que domina os media,
mas o leitor já percebeu que estamos a falar de pessoas que temem qualquer
exposição ao risco, que sabem que se levantassem o véu da hipocrisia
totalitária, comprometeriam o seu acesso a cargos de prestígio ou a cátedras,
visibilidade na TV e nos jornais, colaborações e posições. Resta-nos a dissidência
popular.
6.
Solução final
Este é o passo em que a “vanguarda” revela
de que é feita. É quando, em nome da igualdade e da injustiça ou do verniz
humanitário, elimina brutalmente qualquer um que exponha a sua farsa. Agora,
sem o Gulag. A eliminação física do dissidente foi substituída pela eliminação
moral, civil, intelectual, ou seja, ele é considerado morto ou nunca vivido.
É a certidão de óbito em vida.
(in Observador)
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