quinta-feira, 1 de abril de 2021

Um poema de Mário Botas

 



“Seldom we find” says Solomon Don Dance

                             Half an idea in the profoundest sonnet”

                                                                                         E.A.Poe


A fisionomia, o carinho das coisas impalpáveis,

o balbuciar, todo em amarelo, dos limões...

Cintura na pedra,

correio subtil de Lesbos para Marte.

 

Antinous visitou-me. Deixou a casa desarrumada

e um projecto em mim demasiadamente longo.

No frágil da memória eu durmo e sou eu

deuses de papelão sentando-se a meu lado.

 

No leito fluvial por onde dorme o cisne

chamam por mim os outros príncipes. Todos

irmãos.

 

Escuridão nova na velha escuridão,

efeito de luz nas janelas do poema...

O meu cão dorme. He is a poet, isn’t he?

 

                                                                 (1980)

 

Nota – Oferecido a NS no decorrer da turbulenta sessão surrealista que se refere no texto inserido a seguir, o poema (talvez intimidado por esses sucessos) esteve desaparecido durante 22 anos entre a papelada do poeta alto-alentejano – ou seja cá o meco. Descoberto por um dos seus filhos entre as folhas de um livro de C.W.Ceram iluminado por um desenho de Lud, foi dado a lume em Maio de 2002 no suplemento cultural “Fanal” (depois suspenso por imperativos do destino…) do jornal “Distrito de Portalegre” posteriormente defuncionado por gente sem merecimento após uma triste e sacrílega agonia...


3 comentários:

  1. "Fanal", farol para o qual o NS me arrastou e onde ainda publiquei, todo contente. Há coisas que acabam mas ficam. Gaita, foi mesmo pena, o "Fanal" desiluminar-se.

    Grande abraço para o atalaiânico Saião
    JS

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  2. Ou seja, caro Saial, desiluminaram-no. E tempos depois, o semanário que o transportara finou-se também, conspurcado por gente que até incluía um tipo que, sem o ser, de dizia (e diz) "doutor" (sociopata?), e que num escrito chegou a referir que os nazis julgados em Nuremberg e condenados o haviam sido pela "justiça dos vencedores"...Ou seja, um burlão e um belo menino!

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