quinta-feira, 10 de dezembro de 2020

Dois poemas de Gabriel Chaves Casazola

 


 

O SONHO DE BERTIMEO

 

Não posso ver

 

a minha indigência como um cajado

às apalpadelas bate na rocha da noite

 

quer beber da água

que lava a cinza

dos olhos do mundo

 

então

alguém me lança um sonho

passa um deus

 

limpa as minhas pálpebras com a sua saliva

 

vejo

 

todos os rios dividirem-se

todas as águas confluirem

 

é demais

afundo-me até o pescoço no rio originário

e contemplo as macieiras à sua beira

 

estendo-me na erva

desdobro

um muito precioso manto branco que comprei lá em Esmirna

 

volto a comer da maçã

vejo Eva chegar

 

Eva que dança

com brancos pés na manhã do rio

 

o fulgor cega-me e

desperto

 

é o veneno da maçã

 

não posso ver

 

busco o cajado

 

à minha direita

à minha esquerda

 

dorme uma mulher

toco no seu rosto

tem a cara do deus

 

mas está cega.

 

VOO NOCTURNO/Arte Poética

 

Essa luz que se apaga

não é um império

nem um vaga-lume.

 

Antoine sabia-o, soube-o  voando sobre a Patagónia.

 

Essa luz que se apaga é uma casa que cessa de fazer os seus ademanes

ao resto do mundo,

um palácio

 

— um humilde palácio se tal coisa é possível: todas as casas do homem são    

                      um palácio, todos os palácios do homem uma cabana —

 

um palácio, dizia Antoine, que se fecha sobre o seu amor. Ou sobre o seu tédio.

 

Uma luz vacilante à qual

— frio ao calor —

uns camponeses reunidos

se aferram

 

náufragos que balançam um fósforo

ante a imensidade

desde uma ilha deserta.

 

(Tradução de Pedro Sevylla de Juana e colaboração de NS)

 

 

Nicolau Saião, Breve relance sobre a música

 


ns, A música



   A música, imagem da alma, como referiu com propriedade Frederich Herzfeld, tem sido uma segura acompanhante do Homem embora só tardiamente o tivesse sido da sociedade. Com efeito, se nos lembrarmos que a primeira escola de música – ainda estabelecida em termos muito artesanais – foi criada em mil e nove por Saint-Gall e que o primeiro público musical (ou seja, reunido com o fito de ouvir a música por si mesma) só começou a existir no ano de 1725, com a criação por Philidor dos chamados “concertos espirituais”, começaremos a perceber que, como uma âncora profundamente fixada no mar societário, a música enquanto fenómeno ou, para dizer doutra maneira, a música enquanto entidade criadora de acontecimentos partilhados por milhares ou por milhões é um dado relativamente recente, tanto mais que os meios técnicos de difusão só neste século se tornaram uma presença quase absoluta.

   Nos dias de hoje, em que vivemos rodeados de sons e de timbres organizados de forma lógica (e relembro que foi somente no séc. XVIII, com Mozart, que o timbre começou a ser utilizado de modo significativo e criativo) é-nos difícil entender quanto a música estava afastada das grandes massas populares como fruição habitual e quotidiana. Como refere apropriadamente Konrad Riemann, para o geral da população havia, nos dias de semana, as frases musicais ritmadas ao jeito de pequenas canções que sublinhavam o trabalho feito ou a fazer; no domingo era a canção entoada quando havia festas mas, acima de tudo, a presença do canto religioso, frequentemente expresso mediante a monódia gregoriana.

   Antes disso – e a memória mais afastada vai só até 40 mil anos, documentados no fresco de Ariège, na gruta dos Três Irmãos em França – a música seria um sublinhar de fastos mágicos ou ritos religiosos, pois era coisa de deuses e de alguns homens que se haviam subtraído ao seu presumido controle.

   A música era apanágio do mago, do sacerdote ou do monarca, fracção espiritual que proporcionava um contacto directo com as divindades e os seus áulicos.

   Contudo, no nosso tempo a música espalhou-se pelo imaginário, dando azo a muitas figurações sociais, políticas e psicológicas. Goebbels, por exemplo, com a sua fina intuição de patifório esclarecido, conhecia bem o peso que tem, ante os basbaques, o desfilar dum cortejo precedido duma poderosa charanga e fez disso um uso infernalmente manipulador. Também os nossos meios de comunicação de massas manejam bem esta matéria: repare-se na forma psicologicamente bem estudada com que nos bombardeiam os ouvidos, repetindo até à saciedade temas de sucesso (as mais das vezes de pouca qualidade) entoados por vedetas primárias que eles próprios criam. Aliás, o consabido ambiente musical dito ligeiro dispensa-me de maiores comentários.

   Seja a música – como alguns pretendem – uma variante da linguagem ou, como outros defendem, a abstracção da linguagem levada às últimas consequências, a verdade é que constitui um dado incontornável do nosso tempo. É, em suma, um dos componentes do grande imaginário actual para além de ser, nos casos mais exemplares – como por exemplo em Bach, Mozart ou Schubert – talvez um sinal com que a “música das esferas” chega até nós para nos dar testemunho profundo do rosto secreto da eternidade.

 

                                                                                                      ns


Mozart, Lacrimosa


 


segunda-feira, 7 de dezembro de 2020

Para um minuto de meditação - 49


 

       «As palavras em jogo» ou não perde pela demora"

     José do Carmo Francisco por um momento volta à vaca fria para nos dizer que…

    O grande escritor argentino Jorge Luís Borges, cujos avós eram de Moncorvo (Trás os Montes), afirmou um dia que «muitos se orgulham do que escreveram; eu, porém muito me orgulho do que li». Quando me referi à forte «dor de alma» que foi saber da destruição próxima (guilhotina) do meu livro «As palavras em jogo» (Editora Padrões Culturais) não enumerei por falta de espaço os poemas e as prosas que alguns dos entrevistados me entregaram para, num certo sentido, «completar» a entrevista. Ainda vai a tempo de recordar essa espécie de «bónus cultural» que algumas entrevistas integravam. Vejamos Mário Soares «Para ti meu amor», Clara Pinto Correia «Soccer», David Mourão-Ferreira «Piscina», Dinis Machado «Seis quadros de uma exposição», Eduardo Guerra Carneiro «As corridas», Francisco José Viegas «Morreu um jogador», Helena Marques «Prazeres são os jogos», Joaquim Pessoa «Ruas de Lisboa», José Duarte «Gillespie e Eusébio» , Lídia Jorge «A instrumentalina», Rita Ferro «Quem é quem no Campeonato do Mundo», Romeu Correia «Essa palavra Desporto» e Urbano Tavares Rodrigues «O ás do Atlético de Moura». E já agora o meu poema «Memória justificativa do livro The Busby Years» mas, como diz o outro, «isso são outros quinhentos». A máquina (guilhotina) vai cortar palavras por uma decisão do administrador da massa falida, uma deliberação que equipara os livros da Padrões Culturais às barras de sabão, ao café, ao açúcar ou ao bacalhau. Mas um livro é outra coisa – é uma máquina para pensar. Já dizia Cervantes que «não há livro tão mau que não tenha algo bom» e já Cícero tinha afirmado «uma casa sem livros, é como um corpo sem alma». Por tudo isso e mais alguma coisa julgo que nenhum livro merece ser guilhotinado.             

Dois poemas de Maria Estela Guedes

 




Cesarianas e casuarinas

 

Passeios nas tardes de domingo

Pelo Jardim de Teixeira Pinto

Empurrando o carrinho com o bebé da D. Otília

Nascido entre dores e cortes de cesariana…

A estátua do militar no alto do outeiro

A dominar toda a cidade de Bissau

Mira ao longe as evoluções

Dos milicianos e da Mocidade Portuguesa

Diante do palácio do governador e do obelisco

No centro da Praça do Império,

Coroado com a legenda “Ao esforço da Raça”.

Hoje é o mesmo obelisco mas diversa a legenda:

“Monumento aos Heróis da Independência”.

 

Todas as raças se esforçaram,

Desde os muito brancos aos muito pretos

Passando pelos muito e quase nada mulatos

A que indistintamente se chamava “cabo-verdianos”.

Para enorme estranheza, no Alto Crim vivia um homem

Sem pêlos nem cabelos, mais orelhudo

Que um morcego, muito branco,

Apesar de ser filho de negros.

Era o Albino Orelhas e trabalhava na Granja

Para o Governo.

 

As casuarinas do Jardim de Teixeira Pinto

- O Pacificador -

Abrigavam olhares apaixonados na distância

Mais ou menos curta

O coração a pular no peito

Sempre o encontro anunciado

Pela melodia assobiada

Sempre com alguma diferença

Para não a confundires com a de algum pássaro.

Ah, as casuarinas de domingo

Abrindo-se como cesarianas...

 

Nha cretcheu ta papiando

Naquele familiar assobio

O coração na boca e a cara afogueada

Aquela inesquecível melodia

Sempre com alguma diferença

Para não o confundires com um pássaro.

 


Pescando bagres

 

Um dia o pai levou-te ao forte da Amura

Com os seus canhões de bronze

Depois desceste com ele até ao cais

Onde estava atracado um dos barcos em que

Costumáveis viajar até à metrópole

 

Era o navio Ana Mafalda e pertencia à CUF, como o Alfredo da Silva - nome do empresário dono da CUF. Creio que a Quimigal, na outra banda, frente a Lisboa, descende desse antigo empório industrial.

 

Ainda vos vejo sentados lado a lado

- Ao longe o ballet das canoas em contraluz

E mais ainda o esboço a carvão do misterioso

Ilhéu do Rei –

Puxaste a linha várias vezes e uma ou outra

Trazia um peixote grosso de áspera pele

Sem escamas

Pelo menos tens essa imagem na memória

Instantes felizes em que a lembrança

Traz aos olhos o rosto ainda novo e bonito

Desse grande pescador de devaneios

Que lia à mesa, mas volta e meia era teu pai.

 

                                                  in “Chão de Papel”


Conversa com Maria Estela Guedes sobre Herberto Helder

 

Maria Estela Guedes – Ouvi dizer que o Nicolau pertenceu ao grupo do café MonteCarlo. Que grupo era esse? Parecido com o do Café Gelo?

Nicolau Saião – Creio que sim, embora pelos relatos que tenho lido em revistas e livros de mais ou menos memórias o do Gelo tivesse características que lhe advinham, obviamente, da maior juventude das personagens envolvidas... Ali, naquele círculo, só havia dois mais novitos: o Martins e eu, os outros eram mais velhos, alguns beiravam mesmo a meia-idade.

  Nós chegáramos da Guiné, ainda vínhamos frescos e treinados da barafunda. Iniciávamos - ou reiniciávamos, pois a guerra cortara os nossos primeiros tentames artísticos - a guerrilha com as artes & letras...

   Os convivas que ali viemos encontrar, ainda que pertencessem a um sector que não estava em grande “cheiro de santidade” no milieu literário (eram todos para-surrealistas ou surrealistas mesmo, em todo o caso remando contra a corrente de conformismo que ontem como hoje ainda tentava fazer da actividade artística uma coisa compenetrada e enquadrada por áulicos e não políticos) tinham já o reconhecimento pelo menos dos intelectuais atentos e, nalguns casos, mesmo do sector cultivado das gentes.

  Havia convivas de todas as noites e outros que chegavam, passavam e demandavam diferentes paragens.

   Os primeiros, proverbiais, eram o Herberto Helder, o Virgílio Martinho, o Ernesto Sampaio e a Fernanda Alves, o Pedro Oom, o Ricarte-Dácio, o Miguel Erlich, o Eurico Gonçalves... Frequentemente o Barahona e a Eunice Muñoz, o Rui Mário Gonçalves, a Luiza Neto Jorge, o Luiz Pacheco, o Vítor Silva Tavares... Lembro-me de outras presenças, algumas já difusas: o Escada, o Valente da Fonseca, o João Vieira, o Mário Viegas, o Camacho Costa, mas também o Manuel Gusmão e o João César Monteiro, críticos de várias traças e gente ligada ao cinema, uma declamadora alourada com o seu marido baixito (daí que a esse acervo de convivas lhe chamassem o “Grupo dos Gnomos”, pois curiosamente eram todos de pequena estatura)... Ah, sim, aparecia também o António José Forte...

 

MEG – O Herberto Helder escreveu o prefácio de "Uma faca nos dentes", de António José Forte. Tenho-o aqui ao pé, a distinguir a inspiração da escrita automática e a falar de surrealistas e barrocos... Então o António José Forte também frequentava o MonteCarlo...

 

NS – O MonteCarlo era um entreposto onde se cruzavam autores de diversas expressões, cada um tinha o seu círculo de relações quer literárias quer pessoais... Em outras mesas lembro-me de ver por vezes o José Gomes Ferreira, o Vasco de Lima Couto, o Mário Castrim...

   De vez em quando partíamos para outras rotas: íamos jantar a tasquinhas/restaurantes com boa pinta, visitávamos por vezes a casa de alguns confrades... Recordo-me que certa noite fomos ao apartamento de um casal próspero de autores-pintores-editores e, acarinhados com boas doses de uísque pelo anfitrião - o Miguel Erlich, que era mais ou menos atleta, resolveu experimentar os músculos dependurando-se da parte de fora da janela...que ficava ao que creio num quarto andar ou assim! A seguir houve concurso de beleza: os cavalheiros tiraram a camisa para as senhoras aquilatarem da pureza varonil do torso... Fiquei em terceiro lugar ex-aequo com o Martins... não foi mau... O prémio foi atribuído por unanimidade ao António Barahona, que as senhoras tinham em muita conta! O Herberto - nunca mais me esqueci do desabafo dele, assim como nunca me esqueci da primeira frase que me dirigiu quando na noite inicial chegou ao MonteCarlo (“São vocês os que escreveram ao Pacheco? Pode dar-me um cigarro dos seus? Estes não têm filtro e tenho a boca um pouco amarga”) - comentou: “Que coisa, estavam a pôr-me lá pró fim, até atrás do Eurico...”. Terá ele destes tempos/destes sucessos alguma lembrança?

 

MEG – E mesmo ao pé, na rua de cima, Avenida Praia da Vitória, havia outra tertúlia, a do Toni dos Bifes… Era onde se reuniam o Carlos de Oliveira, o Herberto Helder, ali ou ao Montecarlo ia também a Margarida Gil... Apareciam pelo Saldanha artistas de vários quadrantes, cinema e televisão também…

 

NSEm certas noites, principalmente devido ao Ernesto Sampaio e à Fernanda Alves, transpunhamo-nos para o vizinho-do-lado café Saldanha, que era o que os actores e actrizes mais frequentavam. Gente que tinha boa aparência... e nós éramos jovens e galhardos...

   Conversava-se, flirtava-se eventualmente... Dali íamos a seguir, por vezes e pela noite bem entrada, ao mercado intramuros um pouco mais abaixo, do outro lado da rua, à massa-frita, às chávenas de cacau e a jogar aos matraquilhos! Não me desenrascava mal, vinha ainda bem jogado das mesas da cantina do quartel em Bissau...

 

MEG – Vou dizer algo sobre mim que ninguém sabe: eu também frequentei esses cafés, ocasionalmente as conversas cruzavam-se de mesa para mesa, mas o grupo em que nessa altura eu estava inserida era o dos jogadores de poker…

 

NS – De poker...?! Mas também se entregava a essa salutar disciplina (dizem que é muito boa para o bestunto, que desenvolve a agilidade mental e a sagacidade – é, segundo parece, o jogo preferido dos agentes secretos e outra malta de cloak and dagger) ou era só membro platónico, de conversar?

 

MEG – Não sendo jogadora, joguei uma vez ou duas... Não tenho perfil para o poker, não aguento a máscara do bluff... Eram só as más companhias da época...

 

NS – No MonteCarlo também havia um grupo, que geralmente chegava bastante tarde, que às vezes cumprimentava o Dácio (e a quem ele cumprimentava... vi-o uma noite, a um deles, cravar-lhe um par de notinhas) que eram gente das cartas ou do jogo por extenso. Recordo-me dum, pequenito e muito aprumado, de sua graça ou de seu anexim Feijão. Elegante, parecia o Peter Lorre... E dum Cabeça de Vaca, este devia ser mesmo anexim a não ser que tivesse ascendencia espanhola... um encorpado e parece que dado às artes da porrada, que se queixava ao Virgílio, com amargura, porque andava  em maré de azar... Tempos curiosos!

 

MEG – Mundo machista, em que o homem precisava de demonstrar que era homem, de um lado e do outro, apesar da revolução cultural… Discorda?

 

NS – Nem por sombras! Sei do que fala... Escritores, artistas, malta do pensamento presumivelmente – mas alguns uns belos cavalões alfacinhas. Ontem como hoje, infelizmente.

   Olhe, até uma vez tive que fazer o meu tirocínio como tipo varonil numa rua adjacente: um comparsa eventual que me começou a xingar, alentejano práqui... magano práli... Creio que se especializara em derribar o oponente com uma súbita cabeçada. Mas eu estava prevenido e como andara no pugilismo, resolvi a questão expeditamente. Adiante!

 

MEG  O Nicolau assistiu à cena em que o Herberto Helder e o Luiz Pacheco se pegaram à pancada, no MonteCarlo? Uma guerra em que também eu andei metida… Alguém fez uma reedição pirata de um livro do Herberto, na Contraponto, editora do Luiz Pacheco, e pôs-lhe em prefácio um texto meu que tinha saído no Diário Popular.  Devia ser “O corpo O luxo a Obra”, lembro-me de que o meu ensaio tinha sido impresso em papel de seda amarelo… Depois o Vítor Silva Tavares, da & etc., editora original, ficou furioso, o Herberto, ainda mais, mas eu nem tinha sido consultada…

 

NS – Ná, não assisti a essa festarola – foi na época, decerto, em que eu já empregado na meteorologia como ajudante-de-observador na Estação Meteorológica do Atalaião (foi a única profissão que de facto tive, o resto foram eventualidades de cidadão luso), ia a Lisboa já só em fins de semana, de quinze em quinze dias, ou assim. Tenho vagas referências desse vigoroso combate... que não deve a meu ver ter tido consequencias graves, vencedor nem vencido (a esquelética robustez do Pacheco estava mais vocacionada para fastos menos marciais... e o Herberto sempre me pareceu pessoa deveras pacífica). Bom, mas na Lisboa provinciana da época deve ter sido um pratinho...

 

MEG – Como via o Herberto nessa época, Nicolau? Como o lê agora?

 

NS – Quando o conheci - naquela noite que conferia a carta que escrevêramos ao Pacheco (só porque soubéramos onde o poderíamos apanhar, o nosso fito era contactar o Grupo da Grifo) endereçada à Ed. Estampa, onde HH trabalhava e por isso lha entregou – impressionou-me o seu aspecto simultaneamente austero e, afinal, muito cordial e... digo-o marcadamente... solidário e mesmo bondoso. Bondoso, sim. Debaixo daquele ar talhado a granito, que umas barbas à Zeus grego acentuavam, eu sentia uma sensibilidade poderosa e um pouco sonhadora, uma discreta limpeza de carácter que muito me agradava e comprazia. Tive, com outros confrades /convivas mais lidação... mas isso foram coisas da vida vidinha, apenas.

   A última vez que o vi e contactei, foi num outro café, anos depois daqueles tempos (e já há décadas). A saudação que me dirigiu ao cumprimentá-lo revelou genuíno gosto, senti-o: ”Você por aqui?! Está mais gordo!”, disse com uma bacalhauzada. “E você está mais magro", revidei eu com certa maldade, pois isso de nos atribuírem mais uns quilitos... faz um pouco de mossa, saudosa dos tempos da grande elegância. Mais magro? Pois ainda bem!”, respondeu logo mas sem azedume, inteligente como é percebera de imediato a minha leve ferroada de esgrimista sem emenda...!

   Trocámos mais umas palavras, disse-lhe ao que viera... e até à próxima (que, mesmo só em evocação, durou até hoje).

 

Como escritor, senti sempre nele uma profundidade e uma execução de gran hacedor, de fabbro de primeira água, ainda que eu seja mais sensível a, em detrimento de outros, certos aspectos da sua obra que, aqui o digo com frontalidade, considero que alguns festejam por terem a pontaria desfocada. Ou por bem lhes convir ao discurso próprio, creio que me faço entender...

   Como aquele vate proto-neo realista que, acho que sem medir – na sua eventual candidez de espírito, dou-lhe o benefício da dúvida – a jaculatória, disse algures e cito de memória que  A Herberto tudo se perdoa”. Mas perdoa o quê? Ter um mundo que pela sua densidade, pelos continentes de horror e maravilha que criou, é dos mais significativos da poesia europeia contemporânea? Digo-o insuspeitamente, creio, pois a minha incursão, seja de autor seja de leitor encartado, tem sido mais por outros universos que não o seu. O seu livro – e não falo agora noutras obras - Apresentação do rosto” é uma obra surpreendente, singular e uma das minhas preferidas.    

  Uma obra seminal.

 

MEG – O autor proíbe às pessoas que leiam esse livro... Como se fosse possível retirar das bibliotecas o que lá está e proibir os investigadores de fazerem o seu trabalho. Os piores textos dele, como um poema "Regresso", publicado na revista Búzio, em 1956, só para mencionar algo que fotocopiei ontem na Biblioteca Nacional, os piores textos dele têm valor, porque prestam muita informação. Engraçado, ele publicou ali dois poemas. O "Regresso" regressou ao útero, acho que foi totalmente riscado do mapa. O outro é o primeiro da série "Fonte", e sobreviveu quase sem emenda até aos dias de hoje. Ora veja a versão originária:

 

Ela é a fonte. Eu posso saber que é

a grande fonte

em que todos pensaram. Quando no campo

se procurava o trevo, ou em silêncio

se esperava a noite,

ou se ouvia algures na paz da terra

o urdir do tempo

cada um pensava na fonte. Era um manar

secreto e pacífico.

Uma coisa milagrosa que acontecia

ocultamente.

 

 

Ah, ninguém falava dela, porque

era imensa. Mas todos a sabiam

como a teta. Como o odre.

Algo sorria dentro de nós.

 

 

Minhas irmãs faziam-se mulheres

suavemente. Meu pai lia.

Sorria dentro de mim uma aceitação

do trevo, uma descoberta muito casta.

Era a fonte.

 

Eu amava-a dolorosa e tranquilamente.

A lua formava-se

com uma ponta subtil de ferocidade

e a maçã tomava um princípio

de esplendor.

 

Hoje o sexo desenhou-se. O pensamento

perdeu-se e renasceu.

Hoje sei permanentemente que ela

é a fonte.

                                          1953

 

NS – Que delícia de poema. Está, concordo plenamente, como se tivesse sido feito mesmo agora. Que beleza, que quadro de comovente alegria e sugestão nos oferta! Li recentemente alguns poemas, pois não consegui mais, do seu último livro: uma obra notável, em que a parte velada que toda a grande obra possui e sem a qual não sobrevive, subitamente se ilumina com descobertas fulgurantes e duma justeza a toda a prova.

   Realista e surrealista, ela mostra quem é o Autor duma maneira insofismável.


Mea Culpa Jazz, Le vent nous portera

 



quinta-feira, 3 de dezembro de 2020

Para um minuto de meditação - 48

 

“Às vezes, maravilhamo-nos ante um objecto eleito; acumulamos hipóteses e sonhos; formamos assim convicções que têm a aparência de um saber. Mas a fonte inicial é impura: a evidência primeira não é uma verdade fundamental”.

                                                                                   Gaston Bachelard


Um poema de António Luís Moita

 



LUPAS

 

Formam sentido as palavras

no azul em que são ditas

sílaba a sílaba, dadas

à teia tensa da tinta?

 

Ou só quando evaporada

sua túnica sortílega

acordam desse letargo,

rangem, sentem, significam?

 

São milenária memória,

feitas de saibro e de cinza,

ou água que se renova,

laranja que se imagina?

 

São, por enquanto, palavras

sibiladas que associo

como soldados, soldadas

numa inocência de anil.

 

No ludo – mosto das horas –

decantam devagarinho

formando bolhas gasosas

à superfície do linho.

 

Uma definha, outra cresce.

Esta canta, aquela ri.

Farão sentido mais tarde

mas não agora ou aqui.

 

Para já, são caravelas

num mar de espuma de vidro.

Ou lupas. Através delas,

movido por suas velas,

viajo, invento, investigo.

 

- Como se fossem janelas

e tu, poema, um postigo.


João Garção, A importância da transversalidade na construção do conhecimento

 

"É sempre interessante colocar uma questão,
                                             mesmo que a resposta o não seja"
                                                                      Oscar Wilde



Édoxè té boulé kai to démo...

Todas as antigas leis gregas começavam por esta cláusula a qual, traduzida para a nossa Língua, significa "Pareceu bem ao Conselho e ao Povo..."

É importante que tenhamos em consideração esta primeira palavra - pareceu. Na verdade, as leis eram feitas não porque fossem boas mas porque, na opinião dos legisladores, pareciam boas. E há aqui uma diferença muito importante e que deveremos ter em consideração: as leis eram entendidas não como o resultado de um saber científico (epistéme) mas como um produto de opiniões (doxa), de convicções frágeis porque variáveis na medida em que eram o resultado da momentânea reflexão humana e do debate entre seres humanos.

Platão classificava a opinião entre os conhecimentos inferiores. Contudo, prefiro realçar, neste exemplo que a História nos fornece, o facto de ele constituir uma afirmação de abertura e de tolerância no que se refere à forma como se encara a produção do Conhecimento. Este não advém de crenças impostas, mas sim, desejavelmente, da reflexão participada, fruto da acção de indivíduos informados e abertos às opiniões dos seus semelhantes.

Pelo que atrás fica dito, será lógico que constatemos que o Conhecimento não é algo rígido e estanque mas sim flexível e mutável. O conhecimento que hoje em dia temos de nós próprios e do Mundo não é o mesmo que possuíam os nossos antepassados. Ao longo dos séculos, temos vindo a acumular informações sobre muitas matérias, algumas das quais não utilizamos no nosso quotidiano - contudo, o interessante e positivo é que as temos à nossa disposição, para delas nos servirmos, se assim o entendermos.

Por este motivo, e na medida em que as descobertas científicas se sucedem a um ritmo cada vez maior, sendo também mais rápida a sua aplicação ao dia-a-dia dos seres humanos, com as inevitáveis e correspondentes mutações sociais, costuma afirmar-se que o nosso mundo ocidental contemporâneo é altamente complexo e de mais difícil compreensão do que o de séculos anteriores. Este "acelerar do tempo histórico", que se vai estendendo igualmente a outras sociedades fora do mundo ocidental e que se vão paulatinamente ocidentalizando (melhor seria dizer, "americanizando"), condiciona de forma decisiva a maneira como se processa a construção do Saber e a sua divulgação e, por essa via, regula a configuração das sociedades.

Ora, se analisarmos o mundo contemporâneo - cada vez mais estruturado em função de arquétipos culturais norte-americanos, repito - constataremos a prevalência de um modelo globalizante, simultaneamente político, económico e cultural que, a pretexto de defender a liberdade individual, em última instância encara o Homem como um recurso que pode ser consumido como qualquer outro, circunstância esta apresentada como inevitável - aspecto expresso de forma exemplar, há alguns anos, na obra “O Fim da História e o Último Homem”, de Francis Fukuyama. Na perspectiva dos ideólogos que partilham destas concepções, a uniformização das mundividências dos seres humanos, progressivamente estruturada, é indispensável para que esse modelo possa impor-se. Construir-se-á, desta maneira - e para parafrasear Herbert Marcuse - o "Homem unidimensional", aquele que age num único registo pré-concebido e cujas atitudes, aparentemente livres, são moldadas por forças que lhe são exteriores e que o mesmo não tem a capacidade nem o discernimento de reconhecer como condicionantes das suas aparentemente livres escolhas.

Impõe-se que lutemos contra esta domesticação do Indivíduo e contra a crescente persuasão do abandono da sua autonomia. Na verdade, esta autonomia depende da existência de reflexão e de deliberação próprias. Quem assim não agir, não será autónomo, não será, portanto, democrata numa sociedade democrática, ou seja, numa sociedade onde as várias opiniões devem passar, para se validarem, pelo crivo do confronto de ideias. E não existirá maior perigo para a Democracia do que o de estar assente numa cidadania apenas aparente, na medida em que os cidadãos desenvolvem interesses pelo superficial e pelo acessório, secundarizando as análises sobre as questões prioritárias e que, na verdade, condicionam o nosso destino comum.

Infelizmente, há que reconhecer que se tem desenvolvido, nos últimos tempos, um tipo de indivíduo que não é próprio das sociedades democráticas: desinteressado, desinformado, domesticado, afinal, este indivíduo é aquele que Giovanni Sartori designa por "Homo Videns" - aquele que é formado prioritariamente pela televisão, em que o facto de ver prevalece sobre o de falar, uma vez que se habitua a ver televisão antes mesmo de aprender a ler e a escrever, respondendo prioritariamente a estímulos audio-visuais (e, desta maneira, a imagem destrona a palavra e a recepção passiva das imagens coloca em segundo plano a reflexão crítica e criativa sobre a realidade circundante). Em conformidade e na sequência do desenvolvimento destas concepções, tem ganho espaço, entre nós, um tipo de indivíduo simultaneamente céptico e cínico em relação à sociedade humana - e, atrever-me-ia a dizer, em relação à própria Vida - mas igualmente passivo e indulgente (constate-se, por exemplo, que a noção de "injustiça" tende a enfraquecer: se analisarmos a problemática da pobreza, constataremos que esta ainda causa pena, mas já são menos aqueles a quem causa indignação...).

Não é por acaso, portanto, que os neo-fascismos têm encontrado um campo favorável para a sua proliferação, visto que nas sociedades ocidentais actuais parece existir o desenvolvimento de uma amnésia colectiva em relação a algumas das páginas mais negras da História humana contemporânea, cada vez menos conhecidas apesar de nunca, como agora, o ser humano dispor de tanta informação sobre esses assuntos, bem como de tantos meios de a obter.

Contra este "Homem unidimensional", urge que afirmemos, de maneira veemente, a noção de multidimensionalidade do Conhecimento humano, como forma de combatermos os propósitos totalitários que, crescentemente, vão surgindo no horizonte.

Desta maneira, compreender-se-á que a problemática da Transversalidade na construção do Conhecimento não seja uma simples questão semântica mas sim um aspecto nuclear na definição da maneira como se processa o entendimento humano sobre a sua própria Existência. É que "Transversalidade", termo aproximado a "Transdisciplinaridade", implica , por um lado, multidimensionalidade operativa e, por outro, reintegração de parcela do Saber isoladas na sequência do tratamento disciplinar dos assuntos. Logo, necessariamente, colocação de questões, debate, tolerância, e não inflexibilidade hierárquica doutrinária ou rigidez epistemológica. Significa, na prática, a constatação de que o Saber não é construído a partir de uma praxis assente sobre o preconceito cultural nem sobre monolíticos esquemas ideativos. Num mundo heterogéneo e em rápida mudança, como poderia estruturar-se correctamente a procura do Saber a partir de processos tendencialmente estanques e parcelares, porque fragmentados?

Daí que Hugo Hassmann tenha introduzido uma sílaba neste termo, referindo-se-lhe como "Transversatilidade" para significar que a apropriação dos dados da Realidade não deverá fazer-se apenas a partir da sua decomposição disciplinar mas igualmente através do reconhecimento de pontos de convergência recorrendo à totalidade dos meios técnicos e tecnológicos actualmente à nossa disposição.

Nesta perspectiva, evidentemente, a Escola desempenha um papel fundamental. Tal como o próprio mundo que habitamos, a Educação não é uma realidade homogénea e a Escola é, igualmente, multidimensional. Ela deverá reflectir esta pluralidade, lançando interrogações, confrontando posicionamentos, inovando em termos de processos e contribuindo, enfim, para o aprofundar das vivências democráticas, pois não pode existir verdadeira Democracia sem Educação. No entanto permito-me chamar a atenção para o facto de o Pluralismo não poder dar origem ao Subjectivismo extremo, ou seja, à noção de que, em nome da Tolerância, todos os postulados possuem a mesma validade, o que se me afigura bastante perigoso. Deveremos, isso sim, possuir uma base sólida de convicções democráticas a partir das quais desenvolveremos o nosso Conhecimento do mundo que nos rodeia. Sem a existência deste núcleo de certezas, a questionação não é profícua, mas sim demagógica e estéril.

Ao finalizar, permitam-me chamar a atenção para o facto de ser fundamental que a Acção complemente a Reflexão, que a participação activa (Civismo) se siga às cogitações e ao confronto de opiniões livremente expresso. "Há que escolher: descansar ou ser livre", afirmou um dia Tucídides. Cabe-nos efectuar essa escolha, com a certeza, porém, de que a nossa opção condicionará não apenas o nosso trajecto futuro mas igualmente o dos nossos semelhantes. Saibamos nós, em nome de um mundo melhor, tomar a opção correcta.

                                                                                    João Garção


Shostakovich, A segunda valsa

 



Aos confrades, amigos, adeptos e simpatizantes

     Devido a um problema informático de última hora, não nos será possível fazer a postagem desta semana.    Esperando resolvê-lo em breve,...