quinta-feira, 12 de novembro de 2020

Gaspar Garção, Cinema&Quotidiano

 




As "fitas" da minha vida: uma crónica


      As histórias de vida são sempre subjetivas e, claro, pessoais, mas talvez seja por isso que são tão interessantes, de escrever e de ler. A minha história de vida não vai ser nostálgica, saudosa ou séria, não pretende surpreender, cativar, emocionar ou entreter. Apenas pretende, com honestidade e perícia, dar um vislumbre do eu que gostava, pensava e sentia quando era mais novo. E claro, não aborrecer o leitor…


    E por onde começar? Com o passado distante, com o passado recente ou o presente imediato? O presente é para se viver, e o meu futuro estará de certeza cheio de “histórias de vida” e amigos a quem as contar, por isso vou falar do que mais me dá prazer, a minha infância, a família, os amigos e o lazer (e principalmente a 7ª Arte, o cinema). Falarmos de nós, é, como diz o ditado, “desnudar a alma” mas, no meu caso, falar dos meus prazeres e dos meus gostos é assunto para um romance do tamanho dos clássicos da literatura em vários volumes…

   A sala de cinema, o seu poder mitológico e mágico, o imaginário da tela e dos espectadores, foram sempre para mim fonte de fascínio, de deslumbramento.

   Recordo-me das primeiras vezes que assisti a filmes, com tenra idade, sentado de pernas cruzadas no chão, ou à beira da cadeira de madeira no Centro Popular do meu bairro (Atalaião), ou nas festas de Natal da Câmara Municipal, de que os meus pais eram funcionários, a assistir deliciado às sessões de cinema organizadas pelo cineclube local, com filmes clássicos “bigger than life” a serem projetados num pequeno ecrã de tela pendurado no ginásio do Atalaião ou no edifício da Câmara (“Doze Indomáveis Patifes”, “Os Reis do Sol”, “O Gavião dos Mares”, “Os Sete Magníficos”, Tarzan, Zorro, Charlot, etc). Filmes hoje talvez pouco recordados, mas para mim intemporais, projetados em festas para crianças, num tempo em que o politicamente correto ainda não existia e podíamos ver “fitas” de guerra, de terror, de suspense, sem que os nossos pais nos encaminhassem para casa e para os deveres da escola (claro que o facto do meu pai escolher os filmes e os projetar foi um fator decisivo da minha presença “rebelde” nessas tardes inesquecíveis…).

    Lembro-me também, apesar de os anos terem passado como um vento veloz, das tardes e das noites que passei no Cine-Parque, um local ao ar livre, ermo e vasto, nas traseiras do atual edifício da Câmara, cujas características propícias para o cinema eram apenas o seu grande espaço e o enorme muro branco onde eram projetados os filmes. Foram muitos os verões dos anos 80 que lá passei, a ver fitas como o primeiro filme do Indiana Jones, “Os Salteadores da Arca Perdida”, uma experiência equivalente a uma montanha russa, o intenso e fantasioso “E.T. – o Extraterrestre”, e clássicos como os filmes do mexicano Cantinflas, o alter-ego de Mário Moreno, com os seus bigodes característicos, “A Volta ao Mundo em 80 Dias”, etc. O meu pai conta-me que também ele passou a infância e a adolescência neste “drive-in” à portalegrense. A década de 50 e 60, para ele, e a década de finais de 70, início dos anos 80, para mim, poderão ser hoje facilmente recordadas em DVD ou na RTP Memória, mas faltam os rebuçados e os amendoins comprados à entrada, o barulho das cadeiras de plástico a serem abertas, o sussurro de antecipação antes do início dos filmes, o burburinho coletivo nos momentos decisivos, as palmadas nas costas e os sorrisos rasgados no final, se o filme fosse do agrado do público…

    Falta falar, claro, do Cine–Teatro Crisfal, um edifício antigo e majestoso (hoje uma discoteca), de que recordo as filas enormes na bilheteira, os cartazes rectangulares na montra com imagens dos filmes, que nos abriam o apetite meses antes; os rebuçados, as pastilhas, as batatas fritas e os salgados vendidos no bar do 1º andar, as frisas, os camarotes e o Galinheiro (o 2º balcão, onde invariavelmente o comportamento era mais “livre”, e de onde se atiravam projéteis para a Plateia, tal e qual como num filme de Fellini); as fotografias e os posters, no átrio e 1º andar, das estrelas e dos filmes clássicos, tudo isto contribuía para tornar o ambiente do Crisfal e as idas semanais ao cinema em algo poderoso, uma ocasião de descoberta e de prazer coletivo, uma experiência catártica e esfusiante.

    Estas idas ao cinema, mais no Outono e no Inverno (o Verão e a Primavera eram para o Cine-Parque), transformavam-se em autênticas excursões do meu prédio e prédios vizinhos; com o meu pai, cinéfilo inveterado, como líder do grupo, e os meus dois irmãos mais velhos (o mais novo ainda era um bebé, embora já mostrasse também propensão por “fitas”) e vários amigos (o Artur, o Paulo, o Luís, o Quim…) como o resto da “equipa” (graças a estas “escapadelas” à rotina, todos eles ainda mantêm o “bichinho” do cinema, um deles inclusive estando a fazer o doutoramento em Cinema e lecionando esta disciplina numa escola superior de Portalegre).

    O curto caminho do Atalaião até ao Crisfal, cinco minutos a pé, servia para nos abrir o apetite em relação ao filme, com o meu pai a “lançar-nos o isco”, discutindo expectativas e as críticas dos jornais nacionais (os trailers nesta época eram coisa rara, e por vezes a espera pelo filme publicitado era de muitos meses), das revistas estrangeiras que o meu pai comprava (a Première em francês sempre foi para mim algo de misterioso e exótico, talvez por apenas ver as imagens, sem compreender a língua), o que nos deixava no estado de espírito ideal para o filme, de mente e coração abertos ao inesperado.

    São inúmeros os episódios divertidos e marcantes que me aconteceram neste “mundo” que era o Crisfal, quando era mais novo (dos tempos de declínio e decadência da sala, do frio e da falta de qualidade dos filmes, não vou falar), e é esses momentos que quero recordar, porque para mim eles constituem a “história da minha vida”, num dos períodos mais importantes e mais felizes de qualquer pessoa, a Infância.

    Uma das minhas mais marcantes excursões de bairro foi para ver o épico “Ben-Hur” (em tempo de poucas estreias, o Crisfal tinha o hábito de passar ciclicamente os clássicos, como “Música no Coração”, “Pipi das Meias-Altas”, “West Side Story”, etc), numa noite tempestuosa e de chuva torrencial, que fazia com que a água nos chegasse às canelas enquanto descíamos a rua para o cinema, e que levou a que chegássemos completamente encharcados ao Crisfal. Este episódio com a chuva transformou anos depois a aventura de Judah Ben-Hur e Jesus Cristo, passada em Jerusalém, no bíblico “Os Dez Mandamentos”, talvez para relacionar a nossa “chuvada” com o episódio do Dilúvio e da Arca de Noé; e mesmo com as evidências à minha frente, sempre neguei que não nos tivesse também acontecido o nosso “pequeno” dilúvio nesse dia, no caminho para o cinema…

     Lembro-me de assistir mais de uma dezena de vezes ao já referido “Indiana Jones e os Salteadores da Arca Perdida” (ainda hoje o meu recorde em salas de cinema), que naqueles tempos mais inocentes se desvanecia da memória poucos dias depois de o ver, o que me levava a um estado de impaciência febril e desvairada até voltar a ver o chicote de Harrison Ford em ação...

    Lembro-me de assistir ao muito esperado e oscarizado “África Minha”, uma história de amores ilícitos no continente africano, num Crisfal a abarrotar e onde se podia ouvir um alfinete a cair, tamanha era a concentração com que se seguia o filme. Nas cenas finais, quando a personagem de Meryl Streep descobre que o seu apaixonado, Robert Redford, morreu, ouviu-se de repente um choro convulsivo e assustador, de alguém que estava a sentir o filme de uma forma ainda mais intensa que nós. Perante as risadas gerais de quem não percebia que o cinema também consegue “mexer” dessa forma com as pessoas, voltei-me para trás e qual não é o meu espanto quando vejo que quem chorava era a minha vizinha do andar de cima, que já nessa altura era uma Testemunha de Jeová, uma religião que não é conhecida pelos seus membros exteriorizarem as suas emoções…

     Lembro-me da estreia de outro filme oscarizado, o magnifico “Amadeus”, e de terem sido projetados os primeiros 30 minutos do filme sem som, devido a um problema técnico, mas de ninguém se ter levantado do cinema e ter reclamado o seu dinheiro de volta, tão cativante era o argumento, embora a música tenha um papel fundamental nesta biografia do grande Mozart (lembro-me de ter saído do cinema e pensado que o filme era uma obra-prima, apesar de só muitos anos depois ter visto a sua versão “não censurada”) …

    Lembro-me com especial ternura de uma noite em que fui sozinho com o meu irmão mais velho (6 anos de diferença), para assistir a um filme que há meses me “impedia” de dormir à noite, “Cocoon – A Aventura dos Corais Perdidos”, de termos ficado num camarote, e de a luz ter falhado logo no início do filme, o que era habitual nessa época em Portalegre ao mínimo sinal de trovoada. Obriguei o meu irmão a ficar cerca de uma hora no cinema, com medo de que a luz voltasse e começassem o filme sem mim, e só quando fomos obrigados a sair das instalações é que cedi, e aceitei ir para casa, mas apenas com a promessa solene do meu irmão de que no dia a seguir lá estaríamos de novo; e para grande deleite meu assisti ao filme com um enorme entusiasmo. Sempre que revejo esta fábula fantástica sobre um lar de 3ª idade, os seus habitantes, extraterrestres de visita à Terra e a súbita e espantosa regeneração e regresso à juventude dos “velhotes” do lar, lembro-me sempre de o meu irmão a tentar convencer-me a irmos para casa nessa noite, e do “vendaval” que fiz para poder ficar na sala à espera do regresso das luzes…

    A melhor história, como é da praxe, guardei-a para o fim, mas terei de confessar que ela já adquiriu proporções tão míticas na minha memória, que já não sei distinguir o que aconteceu na realidade e o que “fabriquei” na minha imaginação como um enredo cinematográfico.

   O ano foi 1982, e o filme a que ia assistir, com o meu pai e os meus irmãos mais velhos, chamava-se “Blade Runner - Perigo Eminente”. Hoje em dia é o “Filme da Minha Vida”, marcante, futurista e inovador, que revisito habitualmente, mas naquela época era apenas mais um filme de Ficção Científica a que queria desesperadamente assistir. O meu pai, que havia lido o livro em que o filme se baseava, e as críticas (não muito positivas, na altura), talvez sem pesar as consequências, criou-me uma enorme expectativa, falando-me dos atores, do argumento, dos cenários, sendo o meu frenesim ainda maior que o habitual. À entrada, e depois de termos comprado os bilhetes, o nosso caminho foi barrado pelo segurança/porteiro/controlador dos bilhetes, que na minha memória ainda hoje se assemelha a um Arnold Schwarzenegger portalegrense, com um típico bigode à anos 80 e a camisola de gola alta da moda. O problema era que o filme era para maiores de 12, e eu tinha apenas 8 anos de idade e o meu outro irmão 9. O meu irmão mais velho, numa demonstração de “ratice” que não lhe era habitual, e que nessa noite não lhe perdoei, escapuliu-se para dentro da sala, dando a entender através da sua cara cheia de pena para comigo, que preferia assistir ao ansiado filme que ficar connosco e expressar solidariedade filial. Depois de uma discussão acerca da minha “pretensa” e precoce maturidade, que recordo como infrutífera, com o aproximar do início do filme e as pessoas atrás de nós à espera para entrar, o meu pai recorreu a um último estratagema, chamando o “facínora” à parte e tendo uma pequena conversa com ele, após o que me foram franqueadas as portas do Crisfal, e lá entrei, depois deste “milagre” caseiro, para assistir ao filme.

   Para um filme que lida com o poder da memória, com a noção do que é ser-se humano, com memórias pré-fabricadas mas que para os andróides do filme parecem reais, não deixa de ser curioso o facto de eu não me recordar de ter visto o filme naquela noite, sendo as minhas muito intensas recordações do filme fruto das muitas vezes que o revi, em casa e no cinema…

   Ficou o mistério do que o meu pai terá dito ao porteiro para eu ter podido assistir ao filme (e se de facto o cheguei a ver), mas devido ao passado de ambos em comum no período pós- 25 de Abril, e as atribulações passadas em conjunto no Verão Quente de 75, só posso imaginar que provavelmente pensou que quem enfrentou cenas de pancadaria e perigos reais bem merecia levar os filhos a um espetáculo inócuo, desde que as crianças em questão não fossem afetadas psicologicamente pelo filme (do qual não devo ter percebido patavina…).

   Hoje em dia, é com motivo de orgulho e com alguma ironia que constato que a minha vida deu uma volta completa, e que me encontro eu agora na posição de decidir que filmes passam comercialmente no cinema em Portalegre, além de vender os bilhetes e colocar as pessoas na sala, impedindo, se necessário, de assistir ao filme quem não tenha a idade legal (talvez pela experiência traumática que descrevi, foram raros os casos em que isso aconteceu). Só não projeto os filmes como o meu pai, porque depressa descobri, quando comecei a aprender essa tarefa, que estava para além da minha capacidade, que não tinha o estofo para ser um “Alfredo”, a famosa personagem projecionista do “Cinema Paraíso”.

    É um prazer estar de novo numa sala às escuras, a assistir à empolgante reação dos espectadores, jovens e não tão jovens, ouvir os seus comentários à saída do filme e as suas sugestões para projeções futuras, ver o “brilho nos olhos” dos mais novos ao deliciarem-se com o mesmo tipo de aventuras que eu, com a idade deles, via.

   Mesmo numa época de cinema digital, 3-D, TV Cabo, clubes de vídeo Meo, canais temáticos e de pirataria online, é reconfortante saber que ainda há quem tenha prazer no ritual que constitui a ida à sala de cinema, o apagar das luzes, o som da máquina de projeção, o trailer, o símbolo do estúdio, o início do filme e o início de uma viagem única…

    E não posso deixar de me sentir identificado, na ingenuidade e na “fome”, com que recentemente um cliente habitual de 10 anos me perguntou entusiasmadamente, à saída da projeção da 1ª parte do último filme da saga Harry Potter, “Os Talismãs da Morte”, se podia voltar no dia seguinte para ver a 2ª parte, que mal podia esperar para saber o que iria acontecer…

     (Gaspar Garção - Portalegre, 1974. Licenciado em Jornalismo e Comunicação pela Escola Superior de Educação de Portalegre e mestre de Jornalismo, Comunicação e Cultura na mesma entidade. Dedicando-se à análise da ficção científica nos seus diversos ramos, é autor de "Relance sobre o humano na literatura de antecipação". Escreveu ainda "Charlie Chaplin e o mito de Charlot". Orientou ciclos cinematográficos sobre F.C. e sobre aspectos dos primeiros anos do cinema mudo. Trabalhou no Centro de Artes e Espectáculos locais e trabalha agora no Gabinete de Comunicação da Câmara Municipal de Portalegre).


Vangelis, Blade Runner - Love Theme

 



segunda-feira, 9 de novembro de 2020

ÚLTIMA HORA - Morreu CRUZEIRO SEIXAS

 



 Hoje, assim que me levantei, recebi um telefonema de Jorge Gaillard Nogueira.

 Tive, assim, dada por este nosso confrade, a notícia infausta de que falecera Cruzeiro Seixas (Artur Manuel do Cruzeiro Seixas). Estava à beira de cumprir 100 anos e, por esse motivo, a revista A IDEIA (dirigida por António Cândido Franco, já programada e preparada para Dezembro) ser-lhe-á inteiramente dedicada. Agora, infelizmente, já como celebração póstuma.

  Em evocação deste confrade e amigo de muitos anos, aqui dou a lume o texto que a seu tempo me fora solicitado pelo seu director e sairá pois ali.

  Evohé, caríssimo mano Artur!

                                                                *

     SOBRE CRUZEIRO SEIXAS

   Em 2018 Cruzeiro Seixas enviou-me duas cartas.

   Uma delas agradecendo com fraternal pormenor o envio que lhe fizera de livros meus.  A outra, que carreava a oferta de um seu catálogo-livro, era mais extensa e nela se alongava em reflexões de índole pessoal norteadas por uma comovente humildade de verdadeiro fabro, de hacedor  sem jaça, sem prosápia (como a que enroupa certos cavalheiros de mão romba que se creem irmãos de predestinados pelas deusas da paleta) – ele que é indiscutivelmente entre nós um dos melhores desenhadores deste tempo, senhor de uma imaginação transbordante e fecunda que lhe permitiu navegar, como diria Péret, “sem norte e sem estrela através das tempestades, rumo aos areais rumorejantes de ágatas onde brilha o olhar provocante das opalas”.

  Elas trouxeram-me de pronto à recordação uma certa tarde, cerca de 50 anos antes, em que o conheci, nos conhecemos, numa galeria de pintura, no decorrer da inauguração de uma mostra de um autor que já não lembro quem teria sido. O que não esqueci, ao ser-me apresentado por um colega de veraneio, foi a sua figura de fino recorte: um senhor esbelto de indumentária em cinzento claro, camisa azul marinho, cabelo grisalho acentuando uma delicadeza bem espalhada nuns olhos perscrutadores e abertos numa espécie de sonhadora atenção.

  Conversámos seu bocado e, sem me lembrar de muitos pormenores, apenas guardei que faláramos de surrealismo, de pintura e de como e porque razão me encontrava eu ali.

  E estivemos algumas décadas sem contactarmos de novo. Embora eu fosse tendo, como ele decerto em relação a mim, notícias do seu trajecto, da sua demanda, ele que com Mário Cesariny e António Maria Lisboa – Pedro Oom era de uma outra dimensão, ainda que paralela – constituíam a trilogia que, no surrealismo em português, sentia que estava mais perto da minha própria caminhada.

  Notícias essas dadas ora por um filho meu, ora por um comum amigo, ora pelos periódicos que até mim chegavam.

  Ora bem: tempos atrás escrevi eu que o Surrealismo tem, nos últimos anos, estado a ser objecto de uma nova e forte atenção de ensaístas, de críticos e investigadores da escrita e da arte em geral. Isso é claramente perceptível e, diga-se mesmo, perfeitamente entendível, uma vez que ele nunca se propôs – fosse nos seus reais praticantes fosse nas suas obras vivas – ser um elemento passageiro ou um modo particular dependente de características momentâneas de moda ou de enfoque.

   Cruzeiro Seixas e Isabel Meyrelles, dois dos primeiros cultores do surrealismo entre nós e felizmente ainda vivos, são duas figuras fundamentais dele e nele presentes.

   Eu colocaria em Cruzeiro Seixas, assim e aqui, a sua limpidez como num espelho policromo e encantado: dum lado a magnificente pintura, do outro a poesia suscitadora, ática e muito rica a um tempo, deste poeta, autor que pela escrita forma e dá imagem em réplica, a seu modo, ao universo de criação originalíssima que é o do pintor que sempre soube excursionar de maneira muito pessoal pelo mito, altamente legítimo e inteiramente salubre.

   No que lhe diz parte, a sua viagem pessoal dentro do surrealismo tem sempre sido uma heterodoxa maneira de encarar o mundo e os seus prestígios ou apoquentações dum ponto de vista filho da curiosidade, da indagação visando as possíveis descobertas, da ligação aos segredos da existência a que podemos ter algum acesso se mantivermos a mente aberta e atenta ao que se vai passando e que vem a seguir ao que se passou em anos de que a nossa vida esteve repleta - não só os factos da história social, quotidiana, mas tudo o que se pôde imaginar de fecundo ou mesmo possível: a magia que parte da escrita ou a ela conduz, a pintura no mundo próprio ou alheio - e tudo o resto que nestas duas se consubstanciam.

                                                              *                                   

Duas cartas de Cruzeiro Seixas

1.

  Amigo Nicolau Saião

 

  Não são nada satisfatórias as notícias daqui.

  O que vai sendo noticiado não é de forma alguma o que verdadeiramente tem a ver comigo e com o Surrealismo.

  Vivemos em sociedade e nela, quer queiramos quer não, uma enormíssima parte de nós está integrada. Gritamos liberdade, liberdade, liberdade do fundo de uma prisão. Além disso tenho 97 anos e a minha vista não me permite que leia uma linha. Os seus livros deram-me enorme satisfação mas tenho que esperar por alguém disposto a ler-me algumas páginas.

  Mesmo nestas circunstâncias é sempre um prazer encontrar um velho amigo como o é o Nicolau Saião. Destes últimos acontecimentos envio-lhe um catálogo onde pode ler alguns desaforismos da minha autoria.

  Felicitando-me pela receção dos seus livros, felicito-o pela constância da sua visão.

  Infelizmente já não me vai ser possível, naturalmente, voltar a Portalegre, à casa do Régio e às manufacturas de tapeçarias, mas no entanto espero ainda o rever.

  Por hoje fica a gratidão comovida, o velho abraço e os melhores votos, do

    “Com a admiração e a amizade do Cruzeiro Seixas”

 

                          Artur (escrito pelo seu punho)   

                                                                      28 Março 2018

 

2.

   Amigo Saião

 

  Não é para mim nem para si satisfatória a resposta que posso dar a uma longa carta. Os meus 97 anos tornam o dia-a-dia muito difícil… É uma série infinita de impossibilidades, como a de ler e desenhar.

  Passei despercebido mas fui “amado” por gente como o Cesariny, o Herberto Hélder; e sobre o que fiz, escreveram críticos, como Edouard Jaguer, José Pierre, Franklin Rosemont, etc.

  Meus pais não tinham meios para me possibilitar a frequência de um curso e assim, durante toda a minha vida, vivi em empregos desenhando dentro da gaveta da minha secretária, isto desde 1948.

  Evidentemente que nunca tive um “atelier”…Essas gavetas e a minha homossexualidade foram a grande família da minha liberdade.

  Envio-lhe fotocópias de um texto de Cesariny e outro de Ernesto Sampaio.

  Hoje estou numa instituição que dá pelo nome de “Casa do Artista”, onde falta espaço, alimentação, etc. etc.

  A “minha obra” parece-me a mim ter sido mais em quantidade do que em qualidade.

  A maior parte dos artistas que conheço são grandes comerciantes; eu, pelo contrário, dei, perdi, deixei roubar a maior parte daquilo que fiz.

  Disso me envaideço imenso. E tudo isto me dá um acréscimo de consciência e responsabilidade, que muito prezo.

  Acresce a estas dificuldades, que são jovens que fazem o grande favor de escrever estas cartas e ler uma página aqui e ali dos livros que recebo.

  O seu nome é uma garantia de honestidade intelectual e é uma das companhias possíveis neste acanhado espaço geográfico.

  Comovidamente lhe agradeço que se tenha lembrado de mim.

  O abraço forte e os melhores votos do…

                                                                        Artur

                                                                                      17/06/2018

 

                                                                              

(O papel destas duas cartas tem, ao cimo, impresso um desenho – uma espécie de ex-libris – constituído por um cavalo cuja cabeça é uma mão empunhando uma caneta de aparo, das que se usavam na escola)                                               

                                                                                                              ns


Mozart, Requiem

 



quinta-feira, 5 de novembro de 2020

Para um minuto de meditação - 41

 

“A liberdade não é um cartaz que se lê na esquina de qualquer rua; é sim um poder vivo, que cada um sente em si mesmo e em torno de si; é o génio protector do lar doméstico, a garantia dos direitos sociais e o primeiro desses direitos.”

                                                                                              Lamennais


Dois poemas de Léon-Paul Fargue

 



O poeta sensível e místico cuja silhueta maciça de Nero bonacheirão, como lhe chamou Brassai, por vezes assombrava Paris.

  Aquele a quem Picasso disse, aquando do ataque de hemiplegia por ele sofrido quando almoçavam juntos no restaurante Catalan: “Que se passa? Tens a cara fora do desenho!”. O Fargue que sobre si mesmo referiu : “J’ai joué ma vie sur la poésie” e “Je suis un fantôme occidental actif » o de “Ludions”, de “Le piéton de Paris” e de “Pour la musique”, mas também o de « Haute solitude » e da revista « Minotaure » nos tempos do Faubourg Saint-Martin…

 

FASES

 

O garoto arrisca-se a morrer

Pois muito se cansa a correr

Por entre os objectos amados

 

Nessa demanda sentimos

Ir o pobre em correria

No grande silêncio do dia

 

E o barulho do dia freme.

E como que em oração rara

A hora passa lenta e clara

Sobre o largo sonolento

Sob o céu do Inverno que treme

 

E a vida é como um lamento.

Ah como ela faz sofrer!

Sem censura, voz calada

 

Por um prazer, por um nada…

 

                                                       in “Tancrède”

 

 

ACHADO ENTRE OS PAPÉIS DE FAMÍLIA

 

Sonhei tanto, tanto que já nem sequer aqui estou.

Não me façam mais perguntas, não me atormentem mais.

Não me acompanhem neste meu calvário.

 

Não me é dado explicar quais as ordens que tenho.

Nem mesmo me assiste o direito de pensar nisso,

Há muito tempo já que me levanto e parto.

 

Há uma permissão da morte, e ei-la que chega.

Na curva da rua que vai dar à noite é que a espero.

O mar vai estar de novo nos últimos terraços.

Um candeeiro de novo aceso sente o desejo das trevas.

Um passo no empedrado. A sombra dele precede-o

E deita-se sobre mim, a cabeça no meu coração.

Ali está ele.

 

Sempre de chapéu redondo, sempre de saco na mão

Tal como era no dia em que regressou de Itália.

Já lhe não vejo os olhos. Já me não fala.

 

Eis que rolo até ele como uma obscura pedra.

Não consigo atravessar a sua sombra.

Portaste-te como devias? E desde então que fizeste?

E porque não subiste?

Todos os dias ia ver se chegavas e não chegaste nunca!

 

Ele nada diz sobre tudo isto.

Mas tudo nele me diz: lembra-te!

 

Sobre ele a noite tornou a fechar-se.

 

                                     

                                                                 in “Sob a luz da lâmpada”

 

(Tradução ns)

João Garção, Introdução ao fenómeno artístico - Relance sobre a arte grega

 

João Garção, Sem título



     A evolução da Arte Grega constitui uma das mais notáveis aventuras plásticas do espírito humano, tendo vários dos princípios filosóficos e formais consagrados nesse percurso sido adoptados posteriormente como símbolos perenes da arte europeia e como valores da Civilização Ocidental.

 

   Costuma considerar-se que as suas origens se podem encontrar, por um lado, na Arte das Cíclades, essas pequenas ilhas do Mar Egeu notabilizadas pelo comércio da obsidiana de Milo e pela produção de pequenas figuras e estatuetas em mármore de Paros e Naxos; por outro lado, na Arte Minóica, que se desenvolveu na ilha de Creta e à qual o domínio dos mares conseguido pelos seus habitantes conferiu segurança, graciosidade e requinte, tudo bem exemplificado no que ainda resta do Palácio de Cnossos; finalmente, na Arte Micénica - florescente na Argólida - a qual exprime bem o vigor guerreiro do povo que a executou.

 

  Os suportes físicos em que se plasma a Arte Grega têm um caracter marcadamente funcional: a escultura destinava-se maioritariamente a fins atléticos e, sobretudo, religiosos quando a partir de finais do séc. VIII AC o ídolo se torna antropomórfico; os vasos que recebem a pintura - conhecemos pouquíssimo da grande pintura mural grega - têm também uma função utilitária: ir buscar a água (a amphora), servi-la (a hydria), misturá-la com um vinho demasiado forte (o krater), por exemplo; no que diz respeito à arquitectura, esta estrutura-se em função de um sistema básico, o trilítico, em que um elemento horizontal (a arquitrave) assenta em dois elementos verticais (as colunas), a partir do qual tudo se desenvolve.

 

  Às finalidades de cariz funcional, os gregos aliavam decisivamente a estética. O caso do Partenon é a meu ver paradigmático: como todos os outros templos gregos, este era também a Casa do Deus e não um mero lugar de recolhimento para os fiéis, pois as cerimónias realizavam-se no exterior, ao ar livre.

 

  Isto não impediu, no entanto, a sua decoração interior e exterior, nem o recurso a requintados processos de construção com o objectivo de, simultaneamente, se corrigirem ilusões de óptica decorrentes da existência de tantas linhas rectas, por um lado; e, por outro, de garantir ao edifício uma maior estabilidade e segurança, tudo em nome da clareza, da proporção e da harmonia.

 

  Esta procura de equilíbrio está também presente no não menos famoso Discóbolo de Miron, tal como muitas outras obras-primas da escultura grega conhecida apenas através de cópias romanas. Nesta obra, o escultor captou o momento entre duas fases do movimento de lançar o disco - estado de tensão conhecido por isso como "momento mirónico".

 

 Um outro aspecto importante nesta arte, correlativo com o desejo de racionalismo e harmonia, é a teorização que os gregos faziam das obras que iam produzindo: sabemos que Ictinos, um dos arquitectos do Partenon, escreveu um livro, hoje perdido, sobre o processo de construção deste templo; que com o Doriforo, o escultor Policleto exemplificou os preceitos que referiu num outro livro, o Canon; que um século depois Lisipo fez o mesmo, esculpindo o Apoxyomenos e estabelecendo um novo conjunto de regras ideais para a escultura.

 

 Esta manifestação de intelectualização da estética é, afinal, a expressão da pesquisa apaixonada da beleza e do equilíbrio existentes no ser humano, pois é este por excelência o assunto da Arte Grega, mesmo se a figura humana aparece inúmeras vezes inscrita numa temática mitológica que pode não o dar claramente a entender.

 

  É precisamente para se obter um maior realismo na sua representação e no ambiente que a circunda que cerca de 530 AC se verifica na pintura de vasos uma mudança bastante importante: a substituição das tradicionais figuras em silhueta negra pintadas sobre fundo vermelho por figuras vermelhas pintadas sobre fundo negro, obtendo-se desta forma uma pintura bem mais expressiva porque já então tridimensional.

 

 O sentimento da dignidade do Homem, exprimindo-se em oposição à barbárie, está presente numa temática muito querida dos gregos e que podemos encontrar esculpida em alguns frisos do Partenon: o triunfo da justiça sobre a injustiça, da democracia sobre o despotismo, da liberdade sobre a sujeição, simbolizados nas composições escultóricas das lutas dos Lápitas contra os Centauros e dos Gregos contra as Amazonas.

 

  A arte grega constitui a expressão de um processo natural e inestancável. É, nesta medida, uma arte de proposta, de tal forma significativa que ainda paira, como recorrência e sublinhado, em muitos autores modernos e contemporâneos (veja-se Picasso, a corrente neo-figurativa anglo-saxónica mais actual, mesmo algum surrealismo não-daliniano) e que encontra repercussões na própria escrita, no que esta tem de ático e luminoso (apolíneo) ou, no outro lado da imagem, de convulsivo, em acordo com o clarão dionisíaco.

 

  As influências recebidas, sobretudo as do próximo-oriente, foram rapidamente incorporadas numa metodologia artística própria e utilizadas num processo criativo autónomo. O racionalismo, a clareza, a justa medida e o sentido da harmonia e da proporção mas também, na época helenística, a graça, a elegância e o realismo, são - em conclusão - características fundamentais desta arte de exaltação do Homem na sua dimensão mais profunda e na qual, como refere Martin Robertson, o interesse pela Vida é um assunto central.

 

                                                                                               João Garção

 

(Licenciado em História da Arte, mestre em História Contemporânea de Portugal. Poeta, pintor, ensaísta e professor).


Zorbas Emmetron

 



segunda-feira, 2 de novembro de 2020

Para um minuto de meditação - 40

 




O Mandante sem máscara


Presidente chinês visitou base militar e pediu às tropas: "Ponham toda a vossa mente e energia na preparação para a guerra"

                                                                                   (Dos jornais)


Poemas de Juan Carlos García Hoyuelos (Basauri – Vizcaya, 1968)

 

APROXIMA-TE, SEJA COM A VERDADE OU COM A MENTIRA

 

Diz-me, ainda que seja uma mentira

de amor com sons de certeza.

Hoje, como nunca, necessito

das tuas palavras, tenho de rodear-me

dos teus montes de nevoeiro.

 

Deixa uma verdade de amor na minha respiração,

um placebo nas minhas dúvidas,

aquelas que, tolo de mim, num dia são ferida

sem cura possível,

e num dia diferente, não muito distante

da ruína evidente, levianas intrigas.

 

Aproxima-te, ainda que a hena das tuas carícias

leve embebida uma morte súbita,

ama-me como eu te sinto agora,

deixemos feridos os nossos lábios

de tanto provocarem vendavais de lume.

 

E quando o leito não consiga

distinguir-nos, desfolhemos nós

essa mentira até dar

com o seu oculto pensamento.

 

 

PODE SER QUE…

 

Pode ser que por serem tão iguais,

o fogo se haja extinto em nossos olhos,

pode ser…que as palavras exactas,

as mais necessárias,

antes tão usuais e espontâneas

se hajam quebrado em mil pedaços

por lhes faltar o ar.

 

Nós nos esforcemos por encontrar
uma razão nos plurais

ou em esperar quem no fim

se apropriará da última palavra;

era um facto mais que evidente

que ambos fômos uns náufragos

aprisionados na mesma ilha.

 

Nem sequer seria justo
dizer que vivíamos num equívoco;

lembra-te dos beijos que derrubaram
o pulso meticuloso da noite
e dos olhares cúmplices
que não precisavam de outro vocabulário
  
Embora assegures que o amor
não dura toda uma vida
(começo a pensar que tens razão),

pode ser que ao dividir-se o dia

na lonjura

a escassos metros do seu ponto final

ainda fiquem contudo beijos rebeldes
esperando na retaguarda


Pode ser…

 

(Tradução ns)


Nicolau Saião, As fraudes literárias

 

ns


  1. Neste caso teatro de sombras, de silhuetas difusas, de hipóteses... De coisas muito reais deliberadamente colocadas sob o signo da aparente brincadeira que afinal tem a ver com os equívocos da literatura e das ainda mais equívocas circunstâncias circenses que por vezes lhe andam em torno.

  Mas eu explico-me já.

  De há uns tempos a esta parte, principalmente depois de haver sido “caçada” uma conhecida e talentosa plagiadora, tem sido razoavelmente falada no milieu nacional a questão das fraudes literárias. Das quais duas - se lhes podemos chamar fraudes - ficaram famosas no século que há 8 anos se finou. Refiro-me, como os de melhor memória terão já percebido, aos affaires de "A caça espiritual" (Rimbaud) e de "Gros Calin" – O lambe-botas, (Romain Gary/Emile Ajar).

   Já vamos dar-lhes uma rápida olhadela. Mas importará, em jeito de leve rol, referir que as chamadas fraudes se dividem em vários grupos, a saber: o plágio puro e simples (que tem sido o mais praticado muros adentro); o livro escrito com questionável qualidade mas valorizado por um “nome” de prestígio já a fazer tijolo; o livro de qualidade que todavia o autor nunca escreveu; o livro de qualidade, de facto escrito por um autor de renome mas atribuído a um desconhecido e que antes de ser premiadíssimo vários editores espertalhaços não agarraram com as quatro mãos. Ainda, numa estância subsidiária, o livro que simplesmente não existe (apenas composto por maravilhosos fragmentos bem artilhados) e o livro convincente mas criado de cabo a rabo com o único intuito de mostrar os limites do que se conhece sobre uma personalidade histórica (e há alguns bastante célebres: sobre Napoleão, Rasputine, Erskine Caldwell...).

  Falemos no caso do falso Rimbaud.

  Certo dia, os eruditos académicos Maurice Saillet e Pascal Pia (que já havia editado falsos Baudelaires, Pierre Louys e Apollinaires...) disseram ao mundo que o arquifamoso e perdido "A caça espiritual" estava nas suas mãos. Começara a grande tourada...

   Imediatamente desmascarado como falso por André Breton, que se baseara apenas no conhecimento interior da obra rimbaldiana, a titarada arrastou pelos bas-fonds da ignorância, da jactância, da sobranceria académica e da tolice literata muitos dos "trutas" das letras francesas mais armados em arco. Afinal, a deliciosa brincadeira fora pensada e executada por dois actores/estudantes que tinham resolvido dar uma lição aos emproados.

  Curiosamente, diz-nos um comentador do caso que apesar das evidentes provas dadas de caducidade mental e societária, os génios da crítica em causa continuaram a dispor de respeitabilidade, ainda que a sua credibilidade tivesse ficado muito abalada nos meios menos atoleimados.

  Ou seja: o que por vezes parece contar (e por cá há maviosos exemplos) não é de facto nem o talento nem a seriedade estudiosa mas a classe de poder onde os pássaros bisnaus se incrustam (1).

 

 2. Em 1973 a editora "Gallimard" recebeu um inédito intitulado "Gros câlin" ( O lambe-botas), relato prenhe de sustância, força, pundonor e novidade de escrita. Intimidada, porque o texto era de facto inovador e ia contra a corrente dos romances que a época e as vendas em montra festejavam, a publicação foi recusada.

   Dias mais tarde é o "Mercure de France" que recebe o dactiloscrito. A sua responsável, Simone também de apelido Gallimard, pesados os prós e contras dá-o a lume. Olhado a princípio com certa incomodidade pela crítica, a pouco e pouco a obra impõe-se. Começa a sua marcha triunfal e é proposta para o prémio Renaudot. O nome do seu autor, Emile Ajar, por ser desconhecido começa a suspeitar-se que cobre um autor de gabarito: para uns, Raymond Queneau; para outros, Louis Aragon. E outros mais...

   Mas um dia, o dia do lançamento de um volume depois célebre, "La vie devant soi", o mistério descripta-se: o seu autor Emile Ajar era o nome com que Paul Pavlovitch, o sobrinho do já galardoado e consagrado escritor Romain Gary (autor, por exemplo, de "Racines du ciel", "La promesse de l'aube", de

"Lady L") dera a lume o livro que, logo a seguir, receberia o prémio Goncourt, venderia mais de um milhão de cópias e seria traduzido em 23 línguas...

   Paul Pavlovitch torna-se uma coqueluche do "tout Paris": repórteres seguem-no de Monte Carlo até à Côte d'Azur, é visto nos restaurantes e bares de luxo com belíssimas actrizes e meninas finas do "demi-monde". Um lindo e saudável forrobodó que não desagradaria, suponho, a se calhar mais de metade dos austeros romancistas lusos...

  No princípio de 79 outro livro de Ajar vem à luz: o belíssimo "L'angoisse du roi Salomon", novo êxito de criar bicho. E é então que em Março outro escrito da autoria de Romain Gary, "Vie e mort d'Emile Ajar" revela o imbróglio: os livros eram produto da sua pena, o sobrinho fôra apenas o actor escolhido para esta partida aos literatos – partida tanto mais gostosa se nos lembrarmos que o Goncourt não se pode atribuir/receber duas vezes...

  Ou seja: então como resolver a bambochata? E os gabirús da literatice desesperavam! (2)

   Na sequência deste seu último livro, pois logo a seguir, profundamente ferido pela morte de sua mulher e amada, a célebre actriz Jean Seberg, Gary suicidava-se - deixara um bilhetinho irónico colado na testa:"Diverti-me a valer! Até à vista e obrigado...".

  Sem ser só por isto - mas também por isto, por esta manifestação de excelente senso de humor e de alto talento que a passagem dos anos não crestou - sugerimos vivamente, a quem porventura os não conheça, a leitura dos livros de Romain Gary. É um dos que, a par de Marcel Scipion, Jean Husson, Philip Claudel e Jacques Borel (ou seja, dos chamados “descentrados” das letras gaulesas) valem muito a pena ser lidos – com os olhos, com as orelhas, com a ponta da alma.

   E com um leve risinho absolutamente colorido…

                                                                                                                                           

(1) Em suma e definitivamente: não é o saber que é poder, mas sim o simples facto de que os indivíduos que adquirem saber (geralmente nos estabelecimentos onde colam grau) e que portanto dispõem dele, pertencem ou seguidamente passam para a classe dirigente. Neles o saber é poder porque, neles, existe o poder para epigrafarem o seu saber.

  Um membro da classe dirigida, tendo saber, passará sempre, sim, por subversivo ou no mínimo desenquadrado: o seu saber pouco pode, uma vez que essa operacionalidade é de facto uma questão de classe. Nessa medida, é usual consentirem-lhe que fale ou faça. Mas como um simpático animal de companhia - o que ajuda também à estratégia.

 

(2) As mais graves fraudes, essas sim verdadeiras fraudes, são as que alegadamente e na opinião de diversos autores se processam em “estabelecimentos de ensino”, principalmente, onde de forma legitimada, mas obviamente irregular ou entrando mesmo na ilegalidade expressa, se alcandoram filosofias de vida e de cultura de forma capciosa ou intelectualmente desonesta, por intermédio da formação de verdadeiros konzerns de apparatchikis ou beatões académicos.  

   Era assim no Leste fascista-vermelho, como o é noutros locais ditos democráticos mas onde geralmente os rebotalhos ideológicos desse sector continuam, bem camuflados, a dominar aproveitando a labilidade dos outros e servindo-se da sua superior organização.  

   Como diz a frase célebre, “Não estudam e investigam para difundir o conhecimento, mas sim para impedirem o mundo de chegar a ele”. Dito de forma clara: para destroçarem o conhecimento, seja através da mentira se necessário seja do oportunismo que nesses locais parece vigorar sem temor.

    Não nos iludamos: hoje, como dantes, a “Cultura” e tudo o que a rodeie são para esses camuflados ou expressos meras armas de propaganda, leia-se: instrumentos para atingir o poder discricionário. Aliás, eles nem o negam quando “em família”. Chamam a isso actuação progressista. Num livro seu o Dr. António Manuel Baptista iluminou a estratégia desses cavalheiros.

     Note-se que esta deliciosa partida feita aos venturosos literatos foi apoiada por Robert Gallimard, confidente de Gary, pois nem todos os editores são estúpidos, velhacos ou cinzentões.


Giuseppe Verdi, Requiem

 



quinta-feira, 29 de outubro de 2020

Para um minuto de meditação - 39

 

“A lei dos três estádios: todo o islamita é potencialmente um fanático, todo o fanático é potencialmente um extremista, todo o extremista é potencialmente um assassino”.

                                                                                   Maurice l’Herbier


Aos confrades, amigos, adeptos e simpatizantes

     Devido a um problema informático de última hora, não nos será possível fazer a postagem desta semana.    Esperando resolvê-lo em breve,...