Hoje, assim que me levantei, recebi um
telefonema de Jorge Gaillard Nogueira.
Tive, assim, dada por este nosso confrade, a
notícia infausta de que falecera Cruzeiro Seixas (Artur Manuel do Cruzeiro
Seixas). Estava à beira de cumprir 100 anos e, por esse motivo, a revista A
IDEIA (dirigida por António Cândido Franco, já programada e preparada para
Dezembro) ser-lhe-á inteiramente dedicada. Agora, infelizmente, já como celebração
póstuma.
Em evocação deste confrade e amigo de muitos
anos, aqui dou a lume o texto que a seu tempo me fora solicitado pelo seu
director e sairá pois ali.
Evohé, caríssimo mano Artur!
*
SOBRE CRUZEIRO SEIXAS
Em 2018 Cruzeiro Seixas enviou-me duas
cartas.
Uma delas agradecendo com fraternal pormenor
o envio que lhe fizera de livros meus. A
outra, que carreava a oferta de um seu catálogo-livro, era mais extensa e nela
se alongava em reflexões de índole pessoal norteadas por uma comovente
humildade de verdadeiro fabro, de hacedor
sem jaça, sem prosápia (como a que enroupa certos cavalheiros de mão
romba que se creem irmãos de predestinados pelas deusas da paleta) – ele que é
indiscutivelmente entre nós um dos melhores desenhadores deste tempo, senhor de
uma imaginação transbordante e fecunda que lhe permitiu navegar, como diria
Péret, “sem norte e sem estrela através
das tempestades, rumo aos areais rumorejantes de ágatas onde brilha o olhar
provocante das opalas”.
Elas trouxeram-me de pronto à recordação uma
certa tarde, cerca de 50 anos antes, em que o conheci, nos conhecemos, numa
galeria de pintura, no decorrer da inauguração de uma mostra de um autor que já
não lembro quem teria sido. O que não esqueci, ao ser-me apresentado por um
colega de veraneio, foi a sua figura de fino recorte: um senhor esbelto de
indumentária em cinzento claro, camisa azul marinho, cabelo grisalho acentuando
uma delicadeza bem espalhada nuns olhos perscrutadores e abertos numa espécie
de sonhadora atenção.
Conversámos seu bocado e, sem me lembrar de
muitos pormenores, apenas guardei que faláramos de surrealismo, de pintura e de
como e porque razão me encontrava eu ali.
E estivemos algumas décadas sem contactarmos
de novo. Embora eu fosse tendo, como ele decerto em relação a mim, notícias do
seu trajecto, da sua demanda, ele que com Mário Cesariny e António Maria Lisboa
– Pedro Oom era de uma outra dimensão, ainda que paralela – constituíam a
trilogia que, no surrealismo em português, sentia que estava mais perto da
minha própria caminhada.
Notícias essas dadas ora por um filho meu,
ora por um comum amigo, ora pelos periódicos que até mim chegavam.
Ora bem: tempos atrás escrevi eu que o
Surrealismo tem, nos últimos anos, estado a ser objecto de uma nova e forte
atenção de ensaístas, de críticos e investigadores da escrita e da arte em
geral. Isso é claramente perceptível e, diga-se mesmo, perfeitamente
entendível, uma vez que ele nunca se propôs – fosse nos seus reais praticantes
fosse nas suas obras vivas – ser um elemento passageiro ou um modo particular
dependente de características momentâneas de moda ou de enfoque.
Cruzeiro Seixas e Isabel Meyrelles, dois dos
primeiros cultores do surrealismo entre nós e felizmente ainda vivos, são duas
figuras fundamentais dele e nele presentes.
Eu colocaria em Cruzeiro Seixas, assim e
aqui, a sua limpidez como num espelho policromo e encantado: dum lado a
magnificente pintura, do outro a poesia suscitadora, ática e muito rica a um
tempo, deste poeta, autor que pela escrita forma e dá imagem em réplica, a seu
modo, ao universo de criação originalíssima que é o do pintor que sempre soube
excursionar de maneira muito pessoal pelo mito, altamente legítimo e inteiramente
salubre.
No que lhe diz parte, a sua viagem pessoal
dentro do surrealismo tem sempre sido uma heterodoxa maneira de encarar o mundo
e os seus prestígios ou apoquentações dum ponto de vista filho da curiosidade,
da indagação visando as possíveis descobertas, da ligação aos segredos da
existência a que podemos ter algum acesso se mantivermos a mente aberta e
atenta ao que se vai passando e que vem a seguir ao que se passou em anos de
que a nossa vida esteve repleta - não só os factos da história social,
quotidiana, mas tudo o que se pôde imaginar de fecundo ou mesmo possível: a
magia que parte da escrita ou a ela conduz, a pintura no mundo próprio ou
alheio - e tudo o resto que nestas duas se consubstanciam.
*
Duas cartas de Cruzeiro Seixas
1.
Amigo Nicolau Saião
Não são nada satisfatórias as notícias daqui.
O que vai sendo noticiado não é de forma
alguma o que verdadeiramente tem a ver comigo e com o Surrealismo.
Vivemos em sociedade e nela, quer queiramos
quer não, uma enormíssima parte de nós está integrada. Gritamos liberdade,
liberdade, liberdade do fundo de uma prisão. Além disso tenho 97 anos e a minha
vista não me permite que leia uma linha. Os seus livros deram-me enorme
satisfação mas tenho que esperar por alguém disposto a ler-me algumas páginas.
Mesmo nestas circunstâncias é sempre um
prazer encontrar um velho amigo como o é o Nicolau Saião. Destes últimos
acontecimentos envio-lhe um catálogo onde pode ler alguns desaforismos da minha
autoria.
Felicitando-me pela receção dos seus livros,
felicito-o pela constância da sua visão.
Infelizmente já não me vai ser possível,
naturalmente, voltar a Portalegre, à casa do Régio e às manufacturas de
tapeçarias, mas no entanto espero ainda o rever.
Por hoje fica a gratidão comovida, o velho
abraço e os melhores votos, do
“Com a admiração e a amizade do Cruzeiro
Seixas”
Artur (escrito pelo
seu punho)
28 Março 2018
2.
Amigo Saião
Não é para mim nem para si satisfatória a
resposta que posso dar a uma longa carta. Os meus 97 anos tornam o dia-a-dia
muito difícil… É uma série infinita de impossibilidades, como a de ler e
desenhar.
Passei despercebido mas fui “amado” por gente
como o Cesariny, o Herberto Hélder; e sobre o que fiz, escreveram críticos,
como Edouard Jaguer, José Pierre, Franklin Rosemont, etc.
Meus pais não tinham meios para me
possibilitar a frequência de um curso e assim, durante toda a minha vida, vivi
em empregos desenhando dentro da gaveta da minha secretária, isto desde 1948.
Evidentemente que nunca tive um
“atelier”…Essas gavetas e a minha homossexualidade foram a grande família da
minha liberdade.
Envio-lhe fotocópias de um texto de Cesariny
e outro de Ernesto Sampaio.
Hoje estou numa instituição que dá pelo nome
de “Casa do Artista”, onde falta espaço, alimentação, etc. etc.
A “minha obra” parece-me a mim ter sido mais
em quantidade do que em qualidade.
A maior parte dos artistas que conheço são
grandes comerciantes; eu, pelo contrário, dei, perdi, deixei roubar a maior
parte daquilo que fiz.
Disso me envaideço imenso. E tudo isto me dá
um acréscimo de consciência e responsabilidade, que muito prezo.
Acresce a estas dificuldades, que são jovens
que fazem o grande favor de escrever estas cartas e ler uma página aqui e ali
dos livros que recebo.
O seu nome é uma garantia de honestidade
intelectual e é uma das companhias possíveis neste acanhado espaço geográfico.
Comovidamente lhe agradeço que se tenha
lembrado de mim.
O abraço forte e os melhores votos do…
Artur
17/06/2018
(O papel destas duas cartas tem, ao cimo,
impresso um desenho – uma espécie de ex-libris – constituído por um cavalo cuja
cabeça é uma mão empunhando uma caneta de aparo, das que se usavam na
escola)
ns

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