quinta-feira, 20 de agosto de 2020
segunda-feira, 17 de agosto de 2020
Para um minuto de meditação - 18
Joaquim Saial, Vida
“Com razão, sem razão ou contra ela, não me
dá vontade de morrer. E quando por fim morra, se é de todo, não me terei
deixado morrer, mas me há matado o destino humano. Se não chegar a perder a
cabeça, ou melhor, ainda mais que a cabeça o coração, não me demitirei da vida;
terei sido destituído dela.”
Miguel de Unamuno
Poemas alquímicos
Nicolau Saião, Homenagem a Fulcanelli
ALEGORIA DO MUNDO NA PASSAGEM DE ARNALDO DE VILANOVA
Ouro
tigre leão e prata e crina
te
esperam sob o vaso menstrual
Separarás
primeiro a água e a mina
porque
a Água não é um mineral
No
coágulo te espera areia fina
e
sob a areia planta sideral
que
ao manto do Rei Verde se combina
porque
a Planta não é um vegetal
Ao
homem cabe o Ouro de buscá-lo
E
a sua cria morta ou imortal
tirá-la-ás
do ventre do cavalo
porque
o Homem não é um animal
E
se o espelho de cobre te fascina
se
te aparece o Monstro do Umbral
que
à ignea terra o atro abismo ensina
e
nas trevas afunda o Bem e o Mal
Reduz
expurga fende e ilumina
e
com espada de fogo talha e inclina
porque
o Fogo não é o seu sinal
Mário Cesariny
in “Planisfério e outros poemas”
ADEPTO
ao NS
Nunca morro da morte verdadeira
de que morrem os homens mais comuns.
Perseguido, renasço, intemporal,
sem ter morada certa nem fronteira.
De Júpiter sou filho – e do mistério.
Alberto ou Paracelso – quem me fez
sabe que nenhum túmulo me guarda
e que do amor perpétuo me acrescento.
Contudo, o Tempo dói-me. E, se não caibo
na pedra, a fonte humana me dá luz
(bebi demais no pó sanguinolento,
residual, da obra inteira, a vida).
Cumprido o ouro, louvo simplesmente,
com ele, o Pai. Olvido-me de mim.
Nome não tenho. Nem sossêgo. Ardo.
Feiticeiro não sou, mas aprendiz.
António Luis Moita
in “Cidade sem Tempo”
MUNDO
ao sr. engº Paul Ducoeur
(Fulcanelli)
A
princípio não sabes
e
pensas que sabes
A
seguir sabes
e
pensas que não sabes
No
fim nada sabes
e é então que tudo sabes.
Ainda
que nada
te
fite no rosto
não
há grau nem posto
ao
longo da Estrada
que
não seja gosto
virado
ao desgosto
na
luz ainda errada.
Escada
anti-rosto
estrada
destroçada.
Ou
altivo cão
luminoso
e vivo
no
espaço votivo
desde
o céu ao chão.
Campo
mais que ardido
estepe
ou sertão.
Barca
sem oceano
até
ao minuto
da
hora subida
no
mar aparecida
fecundo
e impoluto.
Máscara
que navega
até
onde chega
o
olho vidrado
do
dragão solene
sereno
e perene
infrene,
postado
no
corpo e no fruto.
Verão
anti-escorbuto.
Soubeste
a princípio
no
meio saberás
no
fim buscarás
a
figura ardente
a
estrela maldita
o
animal silente
a
janela oclusa
a
mão que se agita
desperta
e medita
na
porta doente
que
usa e abusa
do
peito deserto
sangrento
e aberto.
Na
boca fechada
por
prata, ouro e espada.
NS
in “Os objectos inquietantes”
Sobre MÁSCARAS, de Floriano Martins
1. As máscaras como representação geral
Quando se trata com máscaras, procura-se ir
para além do lugar comum: máscara como disfarce, como alegoria, como simulação
teatral? “Bem te conheço, ó máscara!”
é aliás locução conhecida, inscrita num cenário ou de festa ou de período carnavalesco mas que contudo não esgota o
significado que a máscara pode ser ou inevitavelmente é em circunstâncias
específicas. E muitas vezes tal asserção transtorna os imaginários por esta
razão muito simples: a máscara é uma projecção de nós nos outros, havendo todo
um “background” histórico que nos
impele numa determinada direcção, pois de acordo com especialistas a máscara
começou por ser encenação ritual no encalço da imitação do rosto
dos “deuses” ou do que como tal se
tomava. E depois, com o correr do tempo, esvaziado que fôra esse sentido
primevo, passou a ser uma simulação de cariz sacerdotal, dentro dum sagrado já
perdido enquanto visão imanente ou
dependente dum real que se contemplara.
Ultimamente, neste nosso tempo dessacralizado
e filho dum inconsciente colectivo ou dum subconsciente forjado pelas
publi-imagens, ou imagens de substituição,
multiplicaram-se as fantasias como por exemplo as provenientes da cultura de
massas ou cultura popular assim
chamada. Por exemplo as fantasias à
Batman que, nesse caso, são a
face normalizada e em versão cinéfila dum dos mais antigos mitos do Homem
revisitado pelo marketing hollywoodesco:
o vingador que sai das sombras mas é portador da luz, o anti-minotauro que, por
razões diversas e muito próprias (megalomania positiva, adesão a monomanias justiceiras animais, fervor pelo
insólito) resolve colocar os seus poderes de máscara poderosa ao serviço da
comunidade ferida pelas prepotências diversas. Que é como quem diz: uma espécie
de activista imerso em penumbra
planejada que, em vez de transportar consigo soluções sociais permitidas,
políticas, de cidadania legitimada, traz para o mundo da razão a força dos seus
músculos e o engenho da sua perspicácia num universo societário e conceptual
paralelo mas que se torna benéfico e reconfortado (reconfortante?). E a quem a
comunidade quotidiana, sem máscara ou com a máscara transparente dos direitos
frente aos díscolos, aplaude com ardor, enlevada pelas façanhas desse transformado cuja missão é transformar/modificar
sem se dar a conhecer no seu contexto de personalidade civil.
Nesta
perspectiva particular a máscara propõe pois o indizível, o impossível aos que não dispõem desse
artefacto que pressupõe poderes mais vastos e eficientes. Sem a sua máscara, no
caso vertente, o homem-morcego não passa dum argentário vulgar, algo excêntrico
e snob mas apenas dono de um lirismo um
pouco ingénuo que o aproxima do diletantismo de filho-família. Mas assim que
assume a máscara o personagem muda literalmente de figura…
Sendo uma
clara face de substituição, mesmo de transfiguração como ficou sugerido, a
máscara é igualmente uma projecção dos nossos continentes submersos, das partes
demasiado sugestivas e reveladoras do duplo
que se acoita nos nossos compartimentos mais recônditos e que através dela é
acordado para as actuações que doutra
forma não teriam ensejo de se manifestar. Através da máscara que nos vela e nos
esconde, paradoxalmente mostramos então a parte oculta da nossa Lua pessoal. Ao
mesmo tempo que nos disfarça, a máscara revela/desvela:
o que somos intimamente ou, dizendo doutro modo, o que sem máscara nunca
patentearíamos à realidade circundante e colectiva.
E sendo o
teatro (ou o theatrum mundi), como é,
a assunção plena da máscara, natural se torna que todos sejamos um pouco
actores, ora num plano de recusa ora no da aceitação de uma certa estratégia de
saber viver numa sociedade em que as
mais graves encenações se apresentam contemporaneamente de forma “aberta” mas
num universo em que o grosso da população praticamente perdeu a privacidade na polis em que os donos da realidade fingem
que tudo continua a existir normalmente. (Quem não sabe que, hoje por hoje, o
reino dos que mandam no quotidiano é uma completa mascarada?).
Nesta
conformidade, o grande e real perigo que nos espreita é que a máscara se nos
cole à cara, fazendo com que o imaginário encenado, para uma hipótese mínima de
defesa, passe para o lado de lá do palco.
Que é como quem diz: para o lado de cá da existência em sociedade…
2. As máscaras como representação do artista
Neste impressionante
acervo de quarenta e cinco máscaras proposto por Floriano Martins o que de
imediato salta aos olhos é a sua modificação
expressiva. Não são máscaras, digamos,
para usar mas para contemplar, para
ver, na verdade para que o destinatário
– que é o público em geral, se assim me exprimo – se encontre frente ao
mistério que elas sugerem. Que elas são – constituindo matéria ora de maravilhamento
ora de espanto, ora de inquietação (ora mesmo de medo) frente ao inusitado da
transfiguração.
E tal facto é
sublinhado pelos títulos que as certificam, que obviamente as definem tanto no
mundo da expressividade como no do humor negro, da surpresa e da eventual estranheza
que ante elas se sintam. Máscaras de teatro? Não o afirmarei. Máscaras sobretudo
de arte criada por intermédio duma vivência em que o experimentador joga com um
certa tradição mas principalmente com os contrastes mais íntimos de quem as
pode observar, num jogo incessante (incessado?) de sugestões e de procuras
propiciado pelas novas tecnologias de que dispõe hoje em dia um autor plástico capacitado.
Pela visão do conjunto percebe-se, sente-se,
que a máscara com que estamos a
contas é todo um engendro patenteado
em diferentes recorrências, em diversas visualizações, em diversas montagens
calibradas por uma ideia base: elas trazem já em si corpos, transportam
subjacentes transmutações carnais, são já o elemento humano que em si-mesmo se transfigurou,
se projecta então num universo multifuncional e objectivo que só neste mundo
ficcionado cobra a representatividade que lhe é própria fazendo jus à frase
canónica de que a Arte, afinal, não é uma verdade
mas uma mentira que torna possível a
Realidade. Ou seja, por palavras operativas eficazes: que, transtornando a “verdade”
que é a mentira global societária em que subsistimos (em que conseguimos ir
subsistindo?) atinge e consagra uma realidade mais funda, ou apenas realmente verdadeira, para além do Bem e
do Mal que os controladores sociais apresentam como inevitáveis. E que não são
mais que impostura num contexto por eles criado
e mantido e onde tentam que não tenha lugar a imaginação criadora, pedra philosofal da Liberdade.
E nestas máscaras compósitas integrando uma intenção, como em toda a verdadeira obra
artística, não se detecta uma mística nem mesmo uma metafísica – inúteis e
complicativas, alibis para encandear ingénuos ou os que por razões específicas vivem
afastados (pois os afastaram) do conhecimento verdadeiro e da sabedoria
possível. Estão ali, frente aos nossos olhos, na sua naturalidade e na sua
nudez real (e consequentemente surreal,
que é a realidade em todas as direcções), constituindo corpo concreto ainda que
solúvel numa globalidade que por estes meios se desamarra.
Aqui, nelas, “on ne peut évidemment s’atendre à une autre
jugement sur ce symbol”, como referia Guillaume d’Auvergne citado por
Justin van Lennep, “senão àquele que era
comum aos alquimistas e aos sábios de antanho”.
E é este o justíssimo
intuito, a meu ver, deste autor que me habituei a estimar – entendendo nesta palavra o que de salubre e de
fundamental existe numa criação visando a permanência duma proposta transfiguradora
e, para tudo dizer, intemporal.
Nicolau Saião
sábado, 15 de agosto de 2020
Eu era só para dizer - 2
Estamos de volta, caros confrades & leitores, dado que o portátil está já
reparado após um interregno pronunciado...
Assim sendo, na próxima segunda-feira teremos mais material, que cremos de boa
qualidade.
Esperamos e fazemos votos de que estejam todos bem de saúde e disposição.
Recebam o abraço firme do vosso
ns
quinta-feira, 30 de julho de 2020
Eu era só p'ra dizer - 1
Sim, é apenas para referir que o aparelho em que são congeminados, armazenados e confeccionados os blocos que, depois, são transformados em postagens adequadas, ainda está no "estaleiro" - pois o destrambelhamento sofrido foi severo…
A reparação teve até que retirar\substituir vários componentes, um dos quais ainda irá chegar. Só depois disso voltaremos ao vosso convívio cíclico e paulatino. Pese a todos os...destrambelhamentos que se vierem a dar a exemplo deste último. Pois somos partidários convictos da expressão consagrada pelo uso "Alma até Almeida!".
Até lá, vai o abraço firme do vosso
ns
segunda-feira, 13 de julho de 2020
Não há duas sem três...
quinta-feira, 9 de julho de 2020
Para um minuto de meditação - 17
Cinco poemas de José Carlos Breia
O
MOCHO
A placidez
informe das coisas.
Um rufo de asas
entreabre
o silêncio.
Teus olhos estelares
regressam.
Medito
no início dos astros,
na imensa noite
que antecedeu
o tempo.
E pergunto-me:
(sábio na fábula,
mau agoiro no grito)
de que avatar descendes?
Ou és transmutação?
EURÍDICE
Entrei por fim na
casa abandonada.
Quanto tempo terá ela levado
a tricotar as teias pelos cantos,
a nublar vidros
velando espelhos, rostos e retratos?
Dados dois passos,
sob o ranger das tábuas e das portas,
vi
o que ficara de um vestido
no rasto da fuligem,
o rasgado verde resto da coberta
a resvalar da mesa,
as cadeiras partidas.
E, ao rodar a mão por um desenho
que o mofo recamara,
abri no espesso as linhas de uma face,
tirei do pó
uns olhos apagados.
Abertos, lentamente,
em mim pousaram
com tão funda ironia,
que, sem olhar pra trás,
abandonei-a.
E tudo se ocultou
em sucessivas dobras:
tempo, casa, razão,
cuidados meus.
DICIONÁRIO
Este é o livro
onde as palavras
cristalizam.
Do livro agora aberto
- do preciso
rigor das suas linhas,
retiro algumas dessas formas
frias.
Rodeio, lento, a sua
geometria.
Paciente, procuro,
ponto-a-ponto
a cruz axial em que se
animam.
Os pequenos cristais
revelam ângulos, planos
que a sua dura forma
escurecia.
Secreto,
fecho depois o livro em que o
poema,
recomeçado sempre,
ausente fica.
RETRATOS
Olho os retratos
que nesta velha sala me
rodeiam.
Entre quadros e livros muito
lidos
eles cercam-me
e pedem-me cuidados:
que lhes tire o pó dos vidros
e a mancha das molduras.
Brilham agora, limpos,
mas ainda inseguros.
Eles querem também que os
reconheça:
querem, da minha vida,
a vida que me resta.
(Mesmo o meu gato preto,
por quem chorei talvez
mais do que por ninguém,
me lança a fina fresta dos
seus olhos
pedindo-me que o deixe
ronronar).
Mas são, contudo, os vivos
- os que ainda
se arrastam lá por fora
que mais me preocupam.
Eram belos e plenos
seus corpos.
Pareciam eternos.
Mas há muito morreram
nos retratos
que nesta velha sala me
rodeiam.
DAS
PEDRAS 1
A pedra na mão.
Na minha mão
Disse-o Décio, o romano,
que com ela matou.
Disse-o o nómada Ben Zir
quando ao meditar
a rolou.
Devraux, o arqueólogo,
disse que se tratava de…
Von Zeint, o geólogo,
contestou
Se enobreceu túmulos
ou palácios
não sabemos.
Mas,
talhada por mãos hábeis,
foi arte,
é vida.
Passou por muitas mãos
e de todas, um pouco, ficou.
A pedra na mão.
Na minha mão.
Milhares de histórias
entre os dedos.
*
José Carlos Breia nasceu em 3 de Maio
de 1930.
Leu muito e muita música ouviu. As
artes plásticas fascinam-no tal como a arquitectura.
Viajou pela Europa e pela América
do Sul.Trabalhou, naturalmente, pois sem dinheiro não se vive.Reformou-se
cedo.
|
Aos confrades, amigos, adeptos e simpatizantes
Devido a um problema informático de última hora, não nos será possível fazer a postagem desta semana. Esperando resolvê-lo em breve,...
-
Devido a um problema informático de última hora, não nos será possível fazer a postagem desta semana. Esperando resolvê-lo em breve,...
-
ns A Rosa de Todo o Ano Não se chamava Rosa, ‘tá de ver, mas eu chamava-lhe assim. Criada de todo o serviço duma família de teres, ia à pr...








