segunda-feira, 17 de agosto de 2020

Para um minuto de meditação - 18

 

Joaquim Saial, Vida


  “Com razão, sem razão ou contra ela, não me dá vontade de morrer. E quando por fim morra, se é de todo, não me terei deixado morrer, mas me há matado o destino humano. Se não chegar a perder a cabeça, ou melhor, ainda mais que a cabeça o coração, não me demitirei da vida; terei sido destituído dela.”

                                                          Miguel de Unamuno

Poemas alquímicos

 

Nicolau Saião, Homenagem a Fulcanelli



ALEGORIA DO MUNDO NA PASSAGEM DE ARNALDO DE VILANOVA


Ouro tigre leão e prata e crina

te esperam sob o vaso menstrual

Separarás primeiro a água e a mina

porque a Água não é um mineral

 

No coágulo te espera areia fina

e sob a areia planta sideral

que ao manto do Rei Verde se combina

porque a Planta não é um vegetal

 

Ao homem cabe o Ouro de buscá-lo

E a sua cria        morta ou imortal

tirá-la-ás do ventre do cavalo

porque o Homem não é um animal

 

E se o espelho de cobre te fascina

se te aparece o Monstro do Umbral

que à ignea terra o atro abismo ensina

e nas trevas afunda        o Bem e o Mal

 

Reduz expurga fende e ilumina

e com espada de fogo talha e inclina

porque o Fogo não é o seu sinal

 

                                                                  Mário Cesariny

                                                                  in “Planisfério e outros poemas”



ADEPTO 

                                   ao NS


Nunca morro da morte verdadeira

de que morrem os homens mais comuns.

Perseguido, renasço, intemporal,

sem ter morada certa nem fronteira.

 

De Júpiter sou filho – e do mistério.

Alberto ou Paracelso – quem me fez

sabe que nenhum túmulo me guarda

e que do amor perpétuo me acrescento.

 

Contudo, o Tempo dói-me. E, se não caibo

na pedra, a fonte humana me dá luz

(bebi demais no pó sanguinolento,

residual, da obra inteira, a vida).

 

Cumprido o ouro, louvo simplesmente,

com ele, o Pai.  Olvido-me de mim.

Nome não tenho. Nem sossêgo. Ardo.

Feiticeiro não sou, mas aprendiz.

 

 

 

                                                                         António Luis Moita

                                                                        in “Cidade sem Tempo”

 

 

MUNDO

                          ao sr. engº Paul Ducoeur (Fulcanelli)

 

A princípio não sabes

e pensas que sabes

A seguir sabes

e pensas que não sabes

No fim nada sabes

 e é então que tudo sabes.

Ainda que nada

te fite no rosto

não há grau nem posto

ao longo da Estrada

que não seja gosto

virado ao desgosto

na luz ainda errada.

Escada anti-rosto

estrada destroçada.

Ou altivo cão

luminoso e vivo

no espaço votivo

desde o céu ao chão.

Campo mais que ardido

estepe ou sertão.

Barca sem oceano

até ao minuto

da hora subida

no mar aparecida

fecundo e impoluto.

Máscara que navega

até onde chega

o olho vidrado

do dragão solene

sereno e perene

infrene, postado

no corpo e no fruto.

Verão anti-escorbuto.

Soubeste a princípio

no meio saberás

no fim buscarás

a figura ardente

a estrela maldita

o animal silente

a janela oclusa

a mão que se agita

desperta e medita

na porta doente

que usa e abusa

do peito deserto

sangrento e aberto.

 

Na boca fechada

por prata, ouro e espada.

 

                                                                        NS

                                                                        in “Os objectos inquietantes”


Sobre MÁSCARAS, de Floriano Martins

 


1. As máscaras como representação geral

     Quando se trata com máscaras, procura-se ir para além do lugar comum: máscara como disfarce, como alegoria, como simulação teatral? “Bem te conheço, ó máscara!” é aliás locução conhecida, inscrita num cenário ou de festa ou de período carnavalesco mas que contudo não esgota o significado que a máscara pode ser ou inevitavelmente é em circunstâncias específicas. E muitas vezes tal asserção transtorna os imaginários por esta razão muito simples: a máscara é uma projecção de nós nos outros, havendo todo um “background” histórico que nos impele numa determinada direcção, pois de acordo com especialistas a máscara começou por ser encenação ritual no encalço da imitação do rosto dos “deuses” ou do que como tal se tomava. E depois, com o correr do tempo, esvaziado que fôra esse sentido primevo, passou a ser uma simulação de cariz sacerdotal, dentro dum sagrado já perdido enquanto visão imanente ou dependente dum real que se contemplara.

   Ultimamente, neste nosso tempo dessacralizado e filho dum inconsciente colectivo ou dum subconsciente forjado pelas publi-imagens, ou imagens de substituição, multiplicaram-se as fantasias como por exemplo as provenientes da cultura de massas ou cultura popular assim chamada. Por exemplo as fantasias à Batman que, nesse caso, são a face normalizada e em versão cinéfila dum dos mais antigos mitos do Homem revisitado pelo marketing hollywoodesco: o vingador que sai das sombras mas é portador da luz, o anti-minotauro que, por razões diversas e muito próprias (megalomania positiva, adesão a monomanias justiceiras animais, fervor pelo insólito) resolve colocar os seus poderes de máscara poderosa ao serviço da comunidade ferida pelas prepotências diversas. Que é como quem diz: uma espécie de activista imerso em penumbra planejada que, em vez de transportar consigo soluções sociais permitidas, políticas, de cidadania legitimada, traz para o mundo da razão a força dos seus músculos e o engenho da sua perspicácia num universo societário e conceptual paralelo mas que se torna benéfico e reconfortado (reconfortante?). E a quem a comunidade quotidiana, sem máscara ou com a máscara transparente dos direitos frente aos díscolos, aplaude com ardor, enlevada pelas façanhas desse transformado cuja missão é transformar/modificar sem se dar a conhecer no seu contexto de personalidade civil.

   Nesta perspectiva particular a máscara propõe pois o indizível, o impossível aos que não dispõem desse artefacto que pressupõe poderes mais vastos e eficientes. Sem a sua máscara, no caso vertente, o homem-morcego não passa dum argentário vulgar, algo excêntrico e snob mas apenas dono de um lirismo um pouco ingénuo que o aproxima do diletantismo de filho-família. Mas assim que assume a máscara o personagem muda literalmente de figura…

   Sendo uma clara face de substituição, mesmo de transfiguração como ficou sugerido, a máscara é igualmente uma projecção dos nossos continentes submersos, das partes demasiado sugestivas e reveladoras do duplo que se acoita nos nossos compartimentos mais recônditos e que através dela é acordado para as actuações que doutra forma não teriam ensejo de se manifestar. Através da máscara que nos vela e nos esconde, paradoxalmente mostramos então a parte oculta da nossa Lua pessoal. Ao mesmo tempo que nos disfarça, a máscara revela/desvela: o que somos intimamente ou, dizendo doutro modo, o que sem máscara nunca patentearíamos à realidade circundante e colectiva.

   E sendo o teatro (ou o theatrum mundi), como é, a assunção plena da máscara, natural se torna que todos sejamos um pouco actores, ora num plano de recusa ora no da aceitação de uma certa estratégia de saber viver numa sociedade em que as mais graves encenações se apresentam contemporaneamente de forma “aberta” mas num universo em que o grosso da população praticamente perdeu a privacidade na polis em que os donos da realidade fingem que tudo continua a existir normalmente. (Quem não sabe que, hoje por hoje, o reino dos que mandam no quotidiano é uma completa mascarada?).

   Nesta conformidade, o grande e real perigo que nos espreita é que a máscara se nos cole à cara, fazendo com que o imaginário encenado, para uma hipótese mínima de defesa, passe para o lado de lá do palco.

  Que é como quem diz: para o lado de cá da existência em sociedade…


2. As máscaras como representação do artista

   Neste impressionante acervo de quarenta e cinco máscaras proposto por Floriano Martins o que de imediato salta aos olhos é a sua modificação expressiva. Não são máscaras, digamos,  para usar mas para contemplar, para ver, na verdade para que o destinatário – que é o público em geral, se assim me exprimo – se encontre frente ao mistério que elas sugerem. Que elas são – constituindo matéria ora de maravilhamento ora de espanto, ora de inquietação (ora mesmo de medo) frente ao inusitado da transfiguração.

  E tal facto é sublinhado pelos títulos que as certificam, que obviamente as definem tanto no mundo da expressividade como no do humor negro, da surpresa e da eventual estranheza que ante elas se sintam. Máscaras de teatro? Não o afirmarei. Máscaras sobretudo de arte criada por intermédio duma vivência em que o experimentador joga com um certa tradição mas principalmente com os contrastes mais íntimos de quem as pode observar, num jogo incessante (incessado?) de sugestões e de procuras propiciado pelas novas tecnologias de que dispõe hoje em dia um autor plástico capacitado.

    Pela visão do conjunto percebe-se, sente-se, que a máscara com que estamos a contas é todo um engendro patenteado em diferentes recorrências, em diversas visualizações, em diversas montagens calibradas por uma ideia base: elas trazem já em si corpos, transportam subjacentes transmutações carnais, são já o elemento humano que em si-mesmo se transfigurou, se projecta então num universo multifuncional e objectivo que só neste mundo ficcionado cobra a representatividade que lhe é própria fazendo jus à frase canónica de que a Arte, afinal, não é uma verdade mas uma mentira que torna possível a Realidade. Ou seja, por palavras operativas eficazes: que, transtornando a “verdade” que é a mentira global societária em que subsistimos (em que conseguimos ir subsistindo?) atinge e consagra uma realidade mais funda, ou apenas realmente verdadeira, para além do Bem e do Mal que os controladores sociais apresentam como inevitáveis. E que não são mais que impostura num contexto por eles criado e mantido e onde tentam que não tenha lugar a imaginação criadora, pedra philosofal da Liberdade.

   E nestas máscaras compósitas integrando uma intenção, como em toda a verdadeira obra artística, não se detecta uma mística nem mesmo uma metafísica – inúteis e complicativas, alibis para encandear ingénuos ou os que por razões específicas vivem afastados (pois os afastaram) do conhecimento verdadeiro e da sabedoria possível. Estão ali, frente aos nossos olhos, na sua naturalidade e na sua nudez real (e consequentemente surreal, que é a realidade em todas as direcções), constituindo corpo concreto ainda que solúvel numa globalidade que por estes meios se desamarra.

   Aqui, nelas, “on ne peut évidemment s’atendre à une autre jugement sur ce symbol”, como referia Guillaume d’Auvergne citado por Justin van Lennep, “senão àquele que era comum aos alquimistas e aos sábios de antanho”.

   E é este o justíssimo intuito, a meu ver, deste autor que me habituei a estimar – entendendo nesta palavra o que de salubre e de fundamental existe numa criação visando a permanência duma proposta transfiguradora e, para tudo dizer, intemporal.

                                                                                                                                                                                              Nicolau Saião






Gary Moore, Adagio




sábado, 15 de agosto de 2020

Eu era só para dizer - 2


  Estamos de volta, caros confrades & leitores, dado que o portátil está já reparado após um interregno pronunciado...

  Assim sendo, na próxima segunda-feira teremos mais material, que cremos de boa qualidade.

  Esperamos e fazemos votos de que estejam todos bem de saúde e disposição.

  Recebam o abraço firme do vosso

                                                                            ns

quinta-feira, 30 de julho de 2020

Eu era só p'ra dizer - 1

   Sim, é apenas para referir que o aparelho em que são congeminados, armazenados e confeccionados os blocos que, depois, são transformados em postagens adequadas, ainda está no "estaleiro" - pois o destrambelhamento sofrido foi severo…

   A reparação teve até que retirar\substituir vários componentes, um dos quais ainda irá chegar. Só depois disso voltaremos ao vosso convívio cíclico e paulatino. Pese a todos os...destrambelhamentos que se vierem a dar a exemplo deste último. Pois somos partidários convictos da expressão consagrada pelo uso "Alma até Almeida!".

   Até lá, vai o abraço firme do vosso

                                                                          ns

segunda-feira, 13 de julho de 2020

Não há duas sem três...


...como dez o velho ditado - e parece ser verdade…! Pelo menos no que diz respeito ao pc em que são feitos os blocos das postagens habituais, de segunda e quinta feira como é proverbial.
  Ou seja, por destrambelhamento técnico o aparelho teve que recolher ao estúdio onde costuma ser reparado. Não sabemos quando ficará pronto. Quando estiver de novo operacional voltaremos ao vosso convívio.
 Malhas que o império tece… como usa dizer-se.

  Até lá, vai o abraço firme do vosso
                                                                       ns 

quinta-feira, 9 de julho de 2020

Para um minuto de meditação - 17


Nicolau Saião, Sem título



A verdade a que temos direito…

“Comunismo não é amor, comunismo é um martelo com o qual se golpeia o inimigo -Mao-Tse-Tung”.
                                                           Jorge Gaillard Nogueira

Cinco poemas de José Carlos Breia






                     O MOCHO


                     A placidez informe das coisas.

Um rufo de asas
entreabre
o silêncio.

Teus olhos estelares
regressam.

Medito
no início dos astros,
na imensa noite
que antecedeu
o tempo.

E pergunto-me:
(sábio na fábula,
mau agoiro no grito)
de que avatar descendes?

Ou és transmutação?


                     EURÍDICE

                     Entrei por fim na casa abandonada.

Quanto tempo terá ela levado
a tricotar as teias pelos cantos,
a nublar vidros
velando espelhos, rostos e retratos?

Dados dois passos,
sob o ranger das tábuas e das portas,
vi
o que ficara de um vestido
no rasto da fuligem,
o rasgado verde resto da coberta
a resvalar da mesa,
as cadeiras partidas.

E, ao rodar a mão por um desenho
que o mofo recamara,
abri no espesso as linhas de uma face,
tirei do pó
uns olhos apagados.

Abertos, lentamente,
em mim pousaram
com tão funda ironia,
que, sem olhar pra trás,
abandonei-a.

E tudo se ocultou
em sucessivas dobras:
tempo, casa, razão,
cuidados meus.


DICIONÁRIO

Este é o livro
onde as palavras
cristalizam.

Do livro agora aberto
-   do preciso rigor das suas linhas,
retiro algumas dessas formas frias.

Rodeio, lento, a sua geometria.
Paciente, procuro, ponto-a-ponto
a cruz axial em que se animam.

Os pequenos cristais
revelam ângulos, planos
que a sua dura forma escurecia.

Secreto,
fecho depois o livro em que o poema,
recomeçado sempre,
ausente fica.


RETRATOS

Olho os retratos
que nesta velha sala me rodeiam.

Entre quadros e livros muito lidos
eles cercam-me
e pedem-me cuidados:
que lhes tire o pó dos vidros
e a mancha das molduras.

Brilham agora, limpos,
mas ainda inseguros.

Eles querem também que os reconheça:
querem, da minha vida,
a vida que me resta.

(Mesmo o meu gato preto,
por quem chorei talvez
mais do que por ninguém,
me lança a fina fresta dos seus olhos
pedindo-me que o deixe ronronar).

Mas são, contudo, os vivos
-   os que ainda se arrastam lá por fora
que mais me preocupam.

Eram belos e plenos
seus corpos.
Pareciam eternos.

Mas há muito morreram
nos retratos
que nesta velha sala me rodeiam. 


DAS PEDRAS 1

A pedra na mão.
Na minha mão

Disse-o Décio, o romano,
que com ela matou.
Disse-o o nómada Ben Zir
quando ao meditar
a rolou.
Devraux, o arqueólogo,
disse que se tratava de…
Von Zeint, o geólogo,
contestou

Se enobreceu túmulos
ou palácios
não sabemos.
Mas,
talhada por mãos hábeis,
foi arte,
é vida.

Passou por muitas mãos
e de todas, um pouco, ficou.

A pedra na mão.
Na minha mão.
Milhares de histórias
entre os dedos.

*
                                                     
José Carlos Breia nasceu em 3 de Maio de 1930.
Leu muito e muita música ouviu. As artes plásticas fascinam-no tal como a arquitectura.
Viajou pela Europa e pela América do Sul.Trabalhou, naturalmente, pois sem dinheiro não se vive.Reformou-se cedo.
É na altura em que se reencontra com António Luís  Moita que este lhe propõe, para ocupar o tempo livre, que junte todos os poemas que tinha feito e os publique. Surge assim LUGAR NENHUM no ano de 2000, dado a lume na Assírio e Alvim.Continua a escrever  e tem neste momento mais três livros não publicados: “Outro lado”, “Das pequenas coisas” e “Poemas do chão”.

Aos confrades, amigos, adeptos e simpatizantes

     Devido a um problema informático de última hora, não nos será possível fazer a postagem desta semana.    Esperando resolvê-lo em breve,...