Sou
um soldado raso do jornalismo. Nunca serei director de nenhum jornal mas
essa situação ocorreu em 1963 em Vila
Franca de Xira quando na Escola Comercial fui director do jornal de parede
«Velas do Tejo». Eram feitos à mão os textos e os desenhos desse jornal que, na
arte final, se colava a uma folha de cartolina. Tudo era efémero, tudo se perdeu
nas emboscadas do esquecimento, a cartolina, os textos, os desenhos, a paixão,
o título, os leitores no corredor entre as salas. É essa memória, são essas as
memórias que eu quero invocar não para mim (que não sou ninguém) mas para Abel
Pereira. Abel Trindade Pereira de seu nome completo, nascido em 22-3-1925 na
cidade da Guarda, freguesia da Sé, eterno chefe de redacção do «Diário Popular»
mesmo quando foi director de «O Ponto» e director-adjunto do «Diário Popular».
Claro que a palavra eterno é relativa de modo absoluto e basta um olhar mais
atento para os livros da casa onde passei férias no Verão de 2022 para perceber
que a sua morte física em 8-1-1985 (tinha só 59 anos) foi replicada na página
212 do livro «Portugal Contemporâneo» organizado por António Reis para as
Selecções do Readers Digest. Nessa página do terceiro volume Abel Pereira é
referido como Abel Fonseca e passado o primeiro momento de repúdio pelo erro
crasso que regista o nome (Abel) mas lhe atribui outro sobrenome (Fonseca)
lembrei-me de uma hipótese. Se um assunto similar lhe passasse pela honrada
banca de trabalho do jornal da Luz Soriano é possível que a sua bonomia
avançasse com uma piada parecida com «Esta coisa vai acabar no Poço do Bispo».
De facto a sua sagacidade poderia tê-lo levado a perceber de imediato a ligação
entre os nomes Abel Pereira (correcto) e Abel Fonseca (errado) pois tudo junto
pode dar Abel Pereira da Fonseca que é o nome dos estabelecimentos de vinho e
seu derivados que Fernando Pessoa frequentou quando o mesmo saía a meio da
manhã da firma Moitinho de Almeida para praticar o seu «flagrante delitro». Mas
é óbvio que isto não aconteceu em 1985 quando o Registo Civil regista a sua
morte em 8 de Janeiro. Está a surgir no meu pensamento não como desculpa do
erro tenebroso mas como possível ou provável explicação para o desvio
onomástico. Num outro registo lembro a bonomia de Abel Pereira quando aos
sábados de manhã na Cooperativa dos Bancários ali ao Arco do Cego ele me
convidava a interpretar os rótulos do peixe congelado. Outras vezes falávamos
da frases feitas como por exemplo «Todas as horas nos ferem, a última mata-nos»
ou «A única medida do amor é amar sem medida.». A primeira foi lida por
Baptista-Bastos numa igreja das Ardenas, a segunda é de Santo Agostinho e está
no livro «Consolação número três» de Santos Fernando, colaborador do «Diário
Popular» com a crónica «Os grilos não cantam ao domingo». Abel Pereira sabia
tudo, era uma Wikipédia antes do tempo. Hoje a Wikipédia nada diz sobre a sua
trajectória de jornalista.
Belo texto. Merecida homenagem a um grande jornalista do «Diário Popular», vespertino que deixou saudade.
ResponderEliminarObrigada. Belo texto.
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