Chocolate
Disseste que o chocolate
com que pintaste os meus lábios
era feito com o amor
de cem mil segredos sábios.
Mas também foste deixando
e
demorando os teus dedos,
como quem quer misturar
mais um, em tantos segredos.
Saber é saborear
o gosto que a vida tem,
se lhe soubermos juntar
o sabor de um outro alguém.
Só que eu fiquei sem saber
ao que me soube no fim:
se aos dedos se ao chocolate,
se mais a ti ou a mim.
Por isso, agora nem sei
o que me sabe melhor:
se ao que sabe o chocolate
se o que tu sabes do amor.
Pequena canção de Outono
para o Xico Zé
Henriques
Levei o meu coração
à varanda. Tão bonito
que é vê-lo contente, à solta,
ir de mim ao infinito…
Entranhar-se no poente
ao alto de um velho monte,
e assomar com as gaivotas
que o rio põe no horizonte.
Envolver-se com a brisa,
numa folha e, de mansinho,
apoiar-se em cada passo
de quem vai no seu caminho.
Fazer companhia à lua
p’los telhados, a escutar
os sonhos que a minha rua
fica à noite a segredar.
E, ao fim, quando alguém me chama
lá de dentro, entrar comigo
como um gato que tivesse
encontrado um novo amigo.
P’ra de novo, no lugar
que é o seu, ser ele o dono
de mim, e em mim soar
a Primavera no Outono.
Não há-de ser nada!
Volto
a casa à noite com o saco cheio
de
tretas
após
ter corrido o dia inteiro pelas vossas ruas
e
valetas
deito-me
na cama entre a espada e a parede
vi
cães mortos de trânsito e de sede
na
cidade gelada! descanso em pesadelos!
mas
isto já passa!
isto
não há-de ser nada!
cravadas
há muito no meu corpo estão as notas
de
um piano
mudo
que
a surdez e a solidão rainhas de nós todos
cavaram
a martelo
sobre
isto tudo!
em
cima da tumba vai ficar somente
a
flor de plástico a aguçar o dente
para
a vida vomitada! dói-me a barriga!
mas
isto já passa!
isto
não há-de ser nada!
dia
a dia vejo o sol a ser dobado e metido dentro
de
cabidela
esparguete
sem carne que mata com miolos de fome
o
filho do dono
da
cadela
é
no talho que compro os foguetes para a festa
com
gente de cabo a rabo! e o vazio é o que resta
essa
tosca marmelada! tenho os olhos peganhentos!
mas
isto já passa!
isto
não há-de ser nada!
o
suor executa o arco-íris sobre o meu esqueleto
murcho
e
a histeria colectiva faz queimar o último
cartucho
a
bala não me atinge mas um amigo meu
leva
com ela nas ventas e já morreu!
é
vossa esta jogada! é uma vergonha!
mas
isto já passa!
isto
não há-de ser nada!
pensei
por muito tempo em me calar
viver
deixar-vos morrer
sem
saberdes de mim
mas
pode alguém viver sem outros?
mas
pode alguém amar sem outros?
se
isto que digo é assim
então
só resta cantar
e
esperar a vida no fim
a
dor que sinto entretanto
da
vida que desperdiço
a
dizer o que sabeis
muito
bem pela calada
põe-me
o cérebro às três pancadas!
mas
isto já passa!
isto não há-de
ser nada!
(Fevereiro de 1974)
. . .
Joaquim Simões
nasceu em Paço d’Arcos, em 1950. Licenciou-se em Filosofia. Frequentou o
mestrado em Cultura Clássica da Universidade de Lisboa, sob orientação do
Professor Victor Jabouille, tendo sido investigador da Linha de Acção 1 do
Departamento de Línguas e Cultura Clássicas da mesma Universidade, abandonando,
porém, ambas as actividades por motivo de doença. Foi professor do Ensino
Secundário. Para além da actividade docente, exerceu ainda as funções de
orientador de estágio profissionalizante e fez parte de órgãos constitutivos de
diversas escolas da área de Lisboa, representando uma delas em encontros,
nacionais e internacionais, sobre multiculturalidade. Em 1979, publicou um
livro de poemas, "Não há-de ser nada!", em edição de autor, com prefácio de Manuel Grangeio Crespo.
Desenvolveu e participou em
diversas realizações nas áreas do teatro, do cinema e da música. Nesta última, em
colaboração com a cantora tijucana Lúcia Helena Weiss e os músicos Luís
Barcelos e Glauber Seixas, elaborou recentemente um projecto na confluência das
ligações entre a tradição musical brasileira e o fado, cuja apresentação teve
lugar no Rio de Janeiro entre Maio e Outubro de 2019. Desse trabalho, “À flor
do destino”, foi editado um EP com o mesmo título em Abril do ano passado, com
5 dos 15 fados com poemas originais que constituíam o espectáculo, disponível
no Spotify.
Sem comentários:
Enviar um comentário