segunda-feira, 12 de abril de 2021

Joaquim Simões, Três poemas

 

Chocolate

 

Disseste que o chocolate

com que pintaste os meus lábios

era feito com o amor

de cem mil segredos sábios.

 

Mas também foste deixando

e demorando os teus dedos,                         

como quem quer misturar

mais um, em tantos segredos.

 

Saber é saborear

o gosto que a vida tem,

se lhe soubermos juntar

o sabor de um outro alguém.

 

Só que eu fiquei sem saber

ao que me soube no fim:

se aos dedos se ao chocolate,

se mais a ti ou a mim.

 

Por isso, agora nem sei

o que me sabe melhor:

se ao que sabe o chocolate

se o que tu sabes do amor.

 (2007)

 

Pequena canção de Outono

 

                                para o Xico Zé Henriques

 

Levei o meu coração

à varanda. Tão bonito

que é vê-lo contente, à solta,

ir de mim ao infinito…

 

Entranhar-se no poente

ao alto de um velho monte,

e assomar com as gaivotas

que o rio põe no horizonte.

 

Envolver-se com a brisa,

numa folha e, de mansinho,

apoiar-se em cada passo

de quem vai no seu caminho.

 

Fazer companhia à lua

p’los telhados, a escutar

os sonhos que a minha rua

fica à noite a segredar.

 

E, ao fim, quando alguém me chama

lá de dentro, entrar comigo

como um gato que tivesse

encontrado um novo amigo.

 

P’ra de novo, no lugar

que é o seu, ser ele o dono

de mim, e em mim soar

a Primavera no Outono.

 (2008)

 

Não há-de ser nada!

 

Volto a casa à noite com o saco cheio

de tretas

após ter corrido o dia inteiro pelas vossas ruas

e valetas

deito-me na cama entre a espada e a parede

vi cães mortos de trânsito e de sede

na cidade gelada! descanso em pesadelos!

 

mas isto já passa!

isto não há-de ser nada!

 

cravadas há muito no meu corpo estão as notas

de um piano

mudo

que a surdez e a solidão rainhas de nós todos

cavaram a martelo

sobre isto tudo!

em cima da tumba vai ficar somente

a flor de plástico a aguçar o dente

para a vida vomitada! dói-me a barriga!

 

mas isto já passa!

isto não há-de ser nada!

 

dia a dia vejo o sol a ser dobado e metido dentro

de cabidela

esparguete sem carne que mata com miolos de fome

o filho do dono

da cadela

é no talho que compro os foguetes para a festa

com gente de cabo a rabo! e o vazio é o que resta

essa tosca marmelada! tenho os olhos peganhentos!

 

mas isto já passa!

isto não há-de ser nada!

 

o suor executa o arco-íris sobre o meu esqueleto

murcho

e a histeria colectiva faz queimar o último

cartucho

a bala não me atinge mas um amigo meu

leva com ela nas ventas e já morreu!

é vossa esta jogada! é uma vergonha!

 

mas isto já passa!

isto não há-de ser nada!

 

pensei por muito tempo em me calar

viver deixar-vos morrer

sem saberdes de mim

mas pode alguém viver sem outros?

mas pode alguém amar sem outros?

se isto que digo é assim

então só resta cantar

e esperar a vida no fim

 

a dor que sinto entretanto

da vida que desperdiço

a dizer o que sabeis

muito bem pela calada

põe-me o cérebro às três pancadas!

 

mas isto já passa!

isto não há-de ser nada!

(Fevereiro de 1974)

                                                . . .

 

 

   Joaquim Simões nasceu em Paço d’Arcos, em 1950. Licenciou-se em Filosofia. Frequentou o mestrado em Cultura Clássica da Universidade de Lisboa, sob orientação do Professor Victor Jabouille, tendo sido investigador da Linha de Acção 1 do Departamento de Línguas e Cultura Clássicas da mesma Universidade, abandonando, porém, ambas as actividades por motivo de doença. Foi professor do Ensino Secundário. Para além da actividade docente, exerceu ainda as funções de orientador de estágio profissionalizante e fez parte de órgãos constitutivos de diversas escolas da área de Lisboa, representando uma delas em encontros, nacionais e internacionais, sobre multiculturalidade. Em 1979, publicou um livro de poemas, "Não há-de ser nada!", em edição de autor, com prefácio de Manuel Grangeio Crespo.

   Desenvolveu e participou em diversas realizações nas áreas do teatro, do cinema e da música. Nesta última, em colaboração com a cantora tijucana Lúcia Helena Weiss e os músicos Luís Barcelos e Glauber Seixas, elaborou recentemente um projecto na confluência das ligações entre a tradição musical brasileira e o fado, cuja apresentação teve lugar no Rio de Janeiro entre Maio e Outubro de 2019. Desse trabalho, “À flor do destino”, foi editado um EP com o mesmo título em Abril do ano passado, com 5 dos 15 fados com poemas originais que constituíam o espectáculo, disponível no Spotify.


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