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Quando a tia pobre e amada lhe morreu espapaçada, como um figo podre,
debaixo dum camião de transportes, Hipólito disse com as lágrimas a escorrer
pelas bochechas: “É chato e dramático. É
triste! Mas, se pensarmos bem… é natural. Sim, é natural!”.
Olhei-o sem muito espanto. É que eu já conhecia, desde os bancos da
escola, o espírito eminentemente positivista do meu amigo, a sua visão
racional. Hipólito era um verdadeiro realista e eu peço licença para dizer que
filosofava como poucos. Como muito poucos.
A firma de que era sócio, num dia enevoado de Maio faliu com todos os
matadores. Tal acontecimento causou nos meios apropriados um pânico
considerável. Hipólito, contudo, limitou-se a franzir o cenho ao de leve: “É trágico. É mesmo perturbador! – disse –
Mas, se pensarmos bem…é natural. Sim, é natural!”.
Estávamos, nessa altura, no seu gabinete de administrador. Hipólito,
pensador de fino quilate, cérebro privilegiado, dava-me a honra de muito me
considerar, embora eu fosse um simples empregadote sem mais valia. Foi então,
recordo-me, que ouvimos um súbito alarido. Eu precipitei-me para o corredor.
Hipólito seguiu-me calmamente. Fora o comendador Branco Madeira, presidente da
Assembleia Geral da empresa. Caíra pela janela. Se calhar de propósito. Do
décimo segundo andar.
Olhei lá para o solo, com os olhos arregalados. O comendador jazia como
jazem os que se piram pelo décimo segundo piso: parecia uma mosca esfrangalhada
e nojenta. Já o rodeavam muitas pessoas.
Por detrás de mim, Hipólito resmungou
mansamente: “Que coisa! É extremamente
constrangedor. Mas…é natural. Penso que é natural!”. Limpou uma lágrima
furtiva, rápida, com a ponta do dedo mindinho. Ofereceu-me um cigarro, que
aceitei ainda com as mãos a tremer.
Passados quatro dias, o seu filho mais novo ao praticar alpinismo numa
montanha dos arredores caiu para dentro dum rio que lhe ficava na base e
engoliu cerca de oitenta litros de água. Calculei eu. Finou-se, evidentemente.
Senti muito a morte do moço.
Hipólito, de negro vestido, atrás do caixão inclinou-se levemente e
rosnou para a minha orelha. Baixinho, mas eu ouvi bem o que sensatamente me
disse. Inclinei a cabeça e continuámos a participar sem mais alardes naquele
acto tristíssimo e trágico mas, como o meu amigo referira, perfeitamente
compreensível. Hipólito era assim. Lógico, um matemático ou um astrónomo em potência.
Eu apreciava-o muito.
Em Agosto fomos passar as férias, juntos, para uma praia elegante. A
mulher de Hipólito e o filho que lhe restava foram juntar-se a nós três dias
mais tarde. Ao quarto dia, depois de ter levado a banca do Casino à glória, a
excelsa senhora defuncionou-se sem o querer, abatida a tiro por um croupier de maus bofes e nervoso.
Quando lhe levaram a notícia, Hipólito ergueu-se de repelão da cadeira
de verga onde repousava. Tremia ligeiramente. Respirava um pouco
apressadamente.
Pouco a pouco foi-se acalmando. Um véu de tristeza – eu acho que era um
véu – nublava-lhe viuvamente o olhar cinzento. “Ora que maçada! É um problema chatíssimo! No entanto, no
entanto…pensando bem, foi natural! – disse com inteligência.
Olhei-o com admiração. O espírito e a calma filosófica de Hipólito cada
vez me atraíam mais inapelavelmente.
Ao voltarmos para casa, num carro funerário, o filho de Hipólito teve um
percalço: chorava desabaladamente, contorcia-se, gemia duma forma que metia
pena. Ao estorcer-se num gesto mais largo, sem que o pudéssemos deter saiu pela
porta de vidraça descida (fazia cá um calor!). Dei um grito! Que querem, não me
contive. O carro funerário parou, toda a gente desceu.
Hipólito, por uns momentos breves, contemplou longamente o que restava
do filho como se acreditasse poucochinho. Eu mordia os dedos e as unhas.
Um largo suspiro se escapou do peito largo, profundo, de Hipólito
enquanto ele com bondade me ajudava a afastar dos despojos. “Já é azar! É um azar tremendo! Mas, vendo
bem as coisas, sopesando o caso…não deixou de ser natural!”.
Olhei-o mais uma vez com admiração fraterna.
Passou-se uma semana. Durante esse tempo não vi o meu velho companheiro
de infância. Aliás, desempregado, passei o tempo a ler. Filosofia. De vez em
quando tomava um cálice de conhaque. A bebida, segundo ouvi dizer, dos fortes e
dos sabedores.
Ao oitavo dia, biblicamente, vi Hipólito. Tinha ido visitar-me. Demos um
longo, cordialíssimo aperto de mão. Hipólito vinha anunciar-me que eu fora
colocado por sua intercessão num emprego de futuro. “Com calma, Jagodes, tudo se consegue. Tudo se compõe naturalmente!”.
Acenei que sim, emocionado. Entretanto, dirigimo-nos ao elevador.
Hipólito foi o primeiro a entrar. Azar dele. O primeiro e o último,
aliás. Eu não entrei, pude aperceber-me que o elevador não estava lá! Só o
buraco, negro e misterioso, esperava com maldade. Hipólito despenhou-se,
soltando um grito em estilo “terror
inglês”. Um grito meio grasnado.
Com o coração a bater um pouco desci as escadas, devagarinho e com
cautela. Muitas escadas. Abri a porta do elevador, na cave e contemplei o
Hipólito.
Hipólito gemia suavemente. Quando deu por mim, quando os sentidos algo
abalados lho permitiram, começou a gemer mais alto. Quase a gritar!
“Socorro, Jagodes! Vai chamar um
médico depressa…senão morro. Sinto-me já a morrer. Chama-me um médico, um sacerdote…
Jagodes!”.
Perdera a calma. Até suava. Tinha um bocado de espuma no queixo.
Dei uma gargalhadinha. Desatei mesmo a rir em
pequenos solavancos. Filosoficamente.
Que querem? Estava a achar tudo naturalíssimo.
in O ESPELHO PECULIAR
(in
jornal República; depois nos Laboratório de Poéticas (Brasil), Antologia
Fantástica Europeia (França) e TriploV)

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