quinta-feira, 26 de novembro de 2020

Nicolau Saião, Os verbos irregulares

 

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      SCIENCE FICTION

 

- Pois bem, meu senhores - disse o mais velho, que parecia ter ascendente sobre os outros - Façamos então o ponto de situação...o ponto em que estamos de momento. Pode começar você, Lestat...

- De momento, meu caro Vlad - disse repuxando a boca bem desenhada o jovem louro e atlético - temos gente nossa bem motivada em todas as cidades do globo. O discurso que lhes é comum insiste num ponto: o nosso direito a dispormos dos nossos ritmos místicos, da nossa… "ideologia" se assim me posso exprimir. É a tecla em que temos batido sem desfalecimentos. A questão de sermos uma comunidade vilipendiada, perseguida...discriminada...ofendida. Creio que me faço entender!

- Bem visto! - ronronou Vlad Tepes com um luzir nos olhos ardentes - E a nível de jornais, de gente que faz a diferença...como páram as modas? Você, Sagramor, pode elucidar-nos?

- É p'ra já, meus amigos - preambulou o negro de estatura elevada e de musculoso recorte na sua voz cantante e fascinadora - Para já, os homens de negócios que estão à frente desse sector já se juntaram em grande parte a nós. Intuiram que têm de ser compreensivos, modernos, que tem de haver tolerância com o nosso…colectivo. E na classe política e intelectual também existe um equilíbrio paralelo...Alguns dos homens de topo e mesmo outros medianos já entenderam a razão dos nossos… direitos. E são partidários do diálogo: já se começaram a desobstruir reuniões… O próprio Tónho, o próprio Marce…

- Não me venha com esses nomes! – cortou do lado a mulher de estatura coleante, sensual, de cabelos e olhos negros retintos, agitando a mão de unhas longas e pintadas de vermelho - Esses estão para onde lhes dá a brisa, Sagramor!

- Não seja exagerada, Carmilla... - disse Vlad Tepes censurando-a com algum vigor - Esse tipo de operadores sociais pode ser bem útil à nossa causa. Os fala-baratos também têm lugar na nossa demanda, não se esqueça. Tornam as massas maleáveis, compreendeu? E quanto ao seu sector? Isso é que interessa, o resto...é fantasia!

- Bom - disse Carmilla von Karnstein - O elemento feminino vai-se portando como se espera... Um pouco de moda, um pouco de tratamento televisivo, um bocado de romantismo e de doçura para adequar as meninges... Percebem?

   O jovem Lestat riu com gosto, pondo à mostra os dentes brancos e fortes como os de um lobo viril. 

 - Certo, cara Carmilla, certo. Boa jogada! As senhoras também terão um grande papel nesta opereta... A paz, a brandura de coração...O idealismo… Também o usei com esmero lá nos lindos Estados do meu sul natal. Parece que foi há três dias…e já lá vai uma eternidade!

- Porque bem vêem, meus amigos - disse Vlad Tepes com discernimento - O importante é levar isto, por enquanto, com mansidão e equilíbrio. O que se ganha com violências bruscas junto do grosso da opinião pública? Isso devemos deixar, quando fizer falta, para as unidades de combate...Elas sabem como agir. Quanto a nós é irmos pela diplomacia. De contrário ainda nos aparece aí de novo esse metediço, esse violento do Van Helsing e as suas exagerações. Não acham?

   E na sala mergulhada em amena penumbra criada por pesados reposteiros de veludo escarlate, em volta da magnífica mesa de carvalho escuro, as cabeças dos confrades acenaram afirmativamente, como se fôssem uma só.

 

  

 

CHIC  A  VALER!

 

Conde d’Abranhos - Mas não acha você, Rabecaz, que esta evangelização das massas tem que ser conduzida com jeitinho? Apelando aos sentimentos de brio do nosso bom povo e sendo discretos...habilidosos? Eu lá com os meus economistas era assim...E, se algum fulano levantava cabelo, era sem barulho que o transferia de serviço...que lhe dava uma tarefa inócua, estilo pontapé p'la escada acima... como se dizia nos tempos do compadre Salazaref.

 

Rabecaz - Ó Abranhos, valha-o deus! Isso são métodos de sacrista, homem! Eu nesta minha herdade, aprendi que com a malta só a porrete. É o que eles entendem, além disso lá dizia o conselheiro Acácio que este povo precisa de sentir a mão dum homem de brios no cachaço...senão desatam a querer descanso...e tal...e lá se nos vai a obra que tanto custou a erguer. Dá-me cá um ferro! É cascar-se-lhes, p'ra bem deste belo “sitio” (como dizia o nosso inventor) que queremos continuar a ter!

 

Dâmaso Salcede - Pois eu não concordo nem com um nem com outro! Quanto a mim isto vai ao lugar com umas palavrinhas sedutoras apropriadas. Lábia, meninos! Conversa de afagar corações, o que não significa que não se metam, se fizer falta, umas ferroadas...umas insinuaçõezinhas torpes ao gosto da maltosa! Como é que pensam que eu consigo o que quero na minha função? Ponho os ajudantes a tarimbar…suavemente. E para os trabalhos mais baixos, se tivermos precisão, mete-se o Medinas com a sua enxurrada de boa lábia a cair em cima da cabeça dos que não queiram as sopas. Chegou-me aos ouvidos que anda por aí uma rapaziada subversiva na Trotinet...

 

Rabecaz – Eu já não acredito que as palavras salvem, como diz aquele letrista premiado. Independentemente disso, estão comigo para o que der e vier, não é assim? Ai a pena que eu tenho que aqui não seja a minha região meio-beirôa! Haviam de comer poucas naquela lombeira... Dava-lhes pr'ó tabaco! Nenhum desses negregados se safaria de comer no côco umas berlaitadas, que é para aprenderem como elas mordem. Ou mandava-os para o deserto da margem sul... Comigo vai tudo raso!

 

Conde d’Abranhos – Você é sem dúvida um homem de sucesso, mas muito empolgado. Nestas coisas é preciso calma e tecnologia e falar-se-lhes ao sentimento de fidalguia…Um povo que andou nos mares, Rabecaz, não é lá qualquer coisa, seja-se da sua Beira ou do meu Entre Douro natal. Temos de aproveitar os salutares sentimentos de contestação e, mansamente, com habilidade televisiva encaminhá-los na direcção certa… O que eles não podem congeminar, podia fazer-lhes mal à enxaqueca, é que no fim quem deve ficar com o superavit é cá a bela panelinha, hein?!

 

 

Dâmaso Salcêde – Não deixa de ter razão...Mas como dizia o nosso inventor, a malta fica fula se lhe vão aos víveres... Como é que podemos ultrapassar essa, chamemos-lhe assim, pequena dificuldade?

Rabecaz – Bem visto, mas não perturbe a sua digestão. No momento próprio o Alpedrinha, aquele nosso criado lá dos orientes que agora está nos audiovisuais, arranja aí um escândalo da bola em termos, ou uma festarola estilo Expo qualquer coisa...e o panorama ficará uma delícia, vai ver.

 

(Fragmento único da única peça que até ao momento se conhece do grande Essa de Quelroz, aqui transcrita por um pesquisador de atónitas literaturas actuais).


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