quinta-feira, 15 de julho de 2021

Três poemas de Maria Amélia Neto

 


Oswaldo Vigas



O MEDO

Surgiu

Por detrás

Da nuvem escura

Que tapou a lua.

Escorregou

Sobre a planície,

Negro,

Envolto

Em longas chamas.

Era meu.

Pertencia-me.

Era o medo

 

INCORRUPTA E LIVRE

Nem o declínio prematuro
Dos lírios do vale,
Nem a queixa pressentida
Das flautas ocultas,
Nem a marca na estrada,
Onde pousou, hirto,

O pequeno coró,
Nada do que a fez germinar
Lhe prendeu os veios invisíveis.

Incorrupta e livre,
A amargura deixou
Os seus sinais translúcidos no portal,
E roçou, fluida,
Por todas as fronteiras estelares,
Tornando desumana a noite do poeta.

 

A VIAGEM

Acabo de chegar,
Irmão,
E vim de longe.

Vi rostos
Inclinados sobre a terra
E o torpor do mundo
Num olhar.

Vi as pedras
Da estrada
Ensanguentadas
E o sol
Feito poeira
Sobre as pedras.
Vi a sombra
Da noite
A diluir-se
No frio da madrugada.

Agora
A Morte caminha atrás de mim,

Irmão,
E acabo de chegar.


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