(Da “Folha de Sala” do Cine-Clube do Porto)
“O Castelo
Andante”, baseado num romance da conceituada escritora britânica Diana Wynne
Jones, é uma das obras mais idiossincráticas, na longa e brilhante carreira de
Hayao Miyazaki, por ser o único filme seu baseado num livro da literatura
anglo-saxónica, neste caso um livro juvenil de grande sucesso quando foi
publicado, em 1986.
Mas esta
transposição de um romance originalmente inspirado na cultura inglesa, para um
universo inspirado grandemente no género do Steampunk, e com muitas das
caraterísticas da cultura japonesa e Miyazakiana, resulta em pleno, não apenas
devido ao talento e génio do seu realizador, mas também ao seu conhecimento do
cânone e do código literário ocidental, ou não tivessem sido Miyazaki e o seu
co-fundador do estúdio Ghibli, o grande Isao Takahata, os responsáveis por
adaptações, todas elas sucessos de público e que fizeram as delícias das
crianças portuguesas (e do resto do mundo), nos anos 70, de três dos mais
emblemáticos romances juvenis europeus, sobre a infância, a perda da inocência,
e a passagem à idade adulta: “Heidi” (1974), “Marco” (1976) e “Ana dos Cabelos
Ruivos” (1979).
Mas o sucesso
desta adaptação não é um caso isolado, para o estúdio Ghibli: há mais três
filmes imprescindíveis para os fãs de anime, que embora mantendo o
traço, o espírito e o enredo geral dos livros em que se baseiam, são também
profundamente pessoais, imbuídos da cultura japonesa e oriental: “O Mundo
Secreto de Arriety”, de 2010 (com argumento de Miyazaki); “Memórias de Marnie”,
de 2014 e “Mary e a Flor da Feiticeira”, de 2017, produzido pelo estúdio Ponoc,
o “herdeiro” do estúdio Ghibli.
Estes três animes
incidem sobre temas fundamentais, que perpassam também em muitas das obras de
Miyazaki: as saudades da infância e de um passado feliz; a inocência da
juventude; a importância dos laços familiares; o sentimento de pertença a casas
e locais, como uma forma de construção da identidade pessoal e de auto-estima.
A alguns destas
temáticas, Miyazaki junta n’ “O Castelo Andante” os seus já habituais
interesses, como a dualidade do Bem e do Mal; o conflito entre a Natureza e o
avanço tecnológico; a impiedosa ditadura do militarismo e do nacionalismo, e
ainda questões de identidade: o que vemos (ou pensamos ver), o que sentimos (ou
pensamos sentir), questões que aproximam este filme à sua obra-prima, “A Viagem
de Chihiro”, animação que antecedeu “O Castelo Andante” e com a qual tem muitas
ligações, podendo dizer-se que são um díptico, uma simbiose perfeita entre dois
mundos, duas culturas aparentemente tão distintas, mas tão próximas, na sua
frágil humanidade.
G.G.
(Estudioso do cinema e crítico
colaborador de diversas
entidades ligadas à Sétima Arte)

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