quinta-feira, 10 de junho de 2021

Um texto cinematográfico de Gaspar Garção

 

(Da “Folha de Sala” do Cine-Clube do Porto)



  “O Castelo Andante”, baseado num romance da conceituada escritora britânica Diana Wynne Jones, é uma das obras mais idiossincráticas, na longa e brilhante carreira de Hayao Miyazaki, por ser o único filme seu baseado num livro da literatura anglo-saxónica, neste caso um livro juvenil de grande sucesso quando foi publicado, em 1986.

  Mas esta transposição de um romance originalmente inspirado na cultura inglesa, para um universo inspirado grandemente no género do Steampunk, e com muitas das caraterísticas da cultura japonesa e Miyazakiana, resulta em pleno, não apenas devido ao talento e génio do seu realizador, mas também ao seu conhecimento do cânone e do código literário ocidental, ou não tivessem sido Miyazaki e o seu co-fundador do estúdio Ghibli, o grande Isao Takahata, os responsáveis por adaptações, todas elas sucessos de público e que fizeram as delícias das crianças portuguesas (e do resto do mundo), nos anos 70, de três dos mais emblemáticos romances juvenis europeus, sobre a infância, a perda da inocência, e a passagem à idade adulta: “Heidi” (1974), “Marco” (1976) e “Ana dos Cabelos Ruivos” (1979).

  Mas o sucesso desta adaptação não é um caso isolado, para o estúdio Ghibli: há mais três filmes imprescindíveis para os fãs de anime, que embora mantendo o traço, o espírito e o enredo geral dos livros em que se baseiam, são também profundamente pessoais, imbuídos da cultura japonesa e oriental: “O Mundo Secreto de Arriety”, de 2010 (com argumento de Miyazaki); “Memórias de Marnie”, de 2014 e “Mary e a Flor da Feiticeira”, de 2017, produzido pelo estúdio Ponoc, o “herdeiro” do estúdio Ghibli.

  Estes três animes incidem sobre temas fundamentais, que perpassam também em muitas das obras de Miyazaki: as saudades da infância e de um passado feliz; a inocência da juventude; a importância dos laços familiares; o sentimento de pertença a casas e locais, como uma forma de construção da identidade pessoal e de auto-estima.

  A alguns destas temáticas, Miyazaki junta n’ “O Castelo Andante” os seus já habituais interesses, como a dualidade do Bem e do Mal; o conflito entre a Natureza e o avanço tecnológico; a impiedosa ditadura do militarismo e do nacionalismo, e ainda questões de identidade: o que vemos (ou pensamos ver), o que sentimos (ou pensamos sentir), questões que aproximam este filme à sua obra-prima, “A Viagem de Chihiro”, animação que antecedeu “O Castelo Andante” e com a qual tem muitas ligações, podendo dizer-se que são um díptico, uma simbiose perfeita entre dois mundos, duas culturas aparentemente tão distintas, mas tão próximas, na sua frágil humanidade.

G.G.

(Estudioso do cinema e crítico

colaborador de diversas entidades ligadas à Sétima Arte)


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