quinta-feira, 15 de abril de 2021

PÓRTICO

 

  UMA CARTA

   (Enviada ao Director da Gazeta de Poesia Inédita)

 

    Caríssimo José Pascoal

    Como faço todos os dias, fui ao Casa do Atalaião (após ver o meu correio) e,   

    adicionalmente, vistoriar os sítios recomendados ali.

    Foi com surpresa magoada que vi a sua mensagem inserta na sua e nossa Gazeta.

    Diga-me, esclareça-me: é mesmo verdade? O José vai mesmo encerrar a Página?

    Se assim é - e ponderosas razões haverá para isso - considero UMA PENA tal facto.

     Independentemente de a Gazeta não transportar sempre poesia de fina água - constituiu   

     um lugar onde as vozes se faziam ouvir, as diversas vozes dos diversos autores.

     Era pois um sítio onde um acto demopédico se fazia existir!

     Nem só os lugares de alta excelência têm o direito de se patentear. Assim sendo, digo  

      - e não me desdigo! - que o País, com o desaparecimento da Gazeta, está hoje mais

      pobre.

      Esperando que esteja bem de saúde, endosso-lhe o abraço de firme estima. O seu,

                                                                          ns

 

                                                            *

 

     (Este foi o último poema que enviei a JP e que já não pôde ser publicado):

 

CHAPÉU

 

Serve para quase tudo: para honrar, desonrar

os planetas, as putas, os homens.

 

Como uma alma disforme, já foi visto

esmagado sob o cu de uma duquesa

sentada num canapé, distante

e distraída. Como a luz, também pode

ser uma figura de retórica.

Levou tiros, rolou

no pó dos pátios, entrou

brutal nas sinagogas; e é sempre um elemento

combinado, composto

de círculos e recordações. Às vezes

tira-se o chapéu se a carteira não presta.

Nunca se concluiu

se verdadeiramente foge às responsabilidades: contudo

é animal capaz para o deserto

de baixo ou de cima

livre na velha terra dos dicionários

ou dos cactos. Raramente é tão-só uma ilusão

ou miragem.

 

Se nos cai da cabeça

por mera distracção

ou golpe de vento

há sempre alguém que o pise ou o apanhe

- o chapéu é que já não é o mesmo

porque entretanto aprendeu muito

sobre como se comportar em sociedade

ou na rua.

 

É muito raro ficar

na cabeça dos mortos

ao contrário da camisa

que é de uso obrigatório. Rola sempre

para o lado da aurora

aos arrancos ou com grande doçura

como uma estrela

pendurada

 

num cabide.

 

 ns

 in “Os objectos inquietantes”


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